sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O Bungalow de João Alves Cordeiro na Rua Lamenha Lins: Um Sonho de Classe Média na Curitiba dos Anos 1930

 Eduardo Fernando Chaves: Arquiteto, Engenheiro e Construtor

Denominação inicial: Projéto de Bungalow para o Snr. João Alves Cordeiro

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: Rua Lamenha Lins

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 220,00 m²
Área Total: 220,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 28/08/1934

Alvará de Construção: N° 729/1934

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de um bangalô e Alvará de Construção.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1- CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de Bungalow para o Snr. João Alves Cordeiro. Planta baixa, fachada principal e lateral direita, corte, implantação e muro, representados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 – Alvará n.º 729

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

O Bungalow de João Alves Cordeiro na Rua Lamenha Lins: Um Sonho de Classe Média na Curitiba dos Anos 1930

Uma residência de alvenaria de tijolos, projetada com esmero para um morador que buscava conforto, modernidade e distinção — hoje desaparecida, mas preservada na memória dos arquivos.


João Alves Cordeiro: O Morador e Seu Tempo

Em 1934, João Alves Cordeiro encomendou a construção de sua casa na Rua Lamenha Lins, uma das vias mais tradicionais do bairro do Centro Histórico de Curitiba. O nome sugere origem luso-brasileira, provavelmente descendente de famílias estabelecidas na cidade desde o século XIX. Naquele momento, o Brasil vivia o período do Estado Novo, e Curitiba, com cerca de 120 mil habitantes, experimentava uma fase de modernização urbana, crescimento econômico e expansão da classe média.

João Alves Cordeiro — cuja profissão não é registrada, mas que certamente possuía renda estável — optou por construir não apenas uma casa, mas um bungalow: um modelo arquitetônico de origem anglo-indiana que havia se tornado símbolo de sofisticação, conforto e vida moderna nas cidades brasileiras desde a década de 1920.

Sua escolha revela mais do que gosto estético: mostra aspiração social, compromisso com a estabilidade familiar e confiança no futuro.


O Bungalow: Um Programa Residencial de Médio Porte e Alta Qualidade

O projeto arquitetônico, datado de 28 de agosto de 1934, foi elaborado pelo projetista Eduardo Fernando Chaves — o mesmo profissional que, sete anos antes, havia desenhado a casa de Fritz Scknepper. A obra foi autorizada pelo Alvará de Construção nº 729/1934, emitido pela Prefeitura Municipal de Curitiba.

A residência era classificada como de médio porte, com 220,00 m² de área total, distribuídos em dois pavimentos — embora o termo “bungalow” geralmente indique uma casa térrea, aqui foi adaptado para incluir um segundo nível, possivelmente com sótão habitável ou dormitórios.

Construída em alvenaria de tijolos, a casa representava um salto tecnológico e simbólico em relação às construções de madeira ainda comuns na cidade. O tijolo era mais durável, mais resistente ao fogo e conferia prestígio social, pois indicava investimento e permanência.

O projeto, reunido em uma única prancha, incluía:

  • Planta baixa detalhada, com salas, quartos, cozinha, área de serviço e varandas
  • Fachadas principal e lateral direita, revelando proporções equilibradas, janelas generosas e detalhes decorativos típicos do ecletismo tardio
  • Corte arquitetônico, mostrando altura dos pé-direitos, estrutura de cobertura e relação entre os níveis
  • Planta de implantação, posicionando a casa estrategicamente no terreno
  • Projeto de muro, indicando preocupação com privacidade e delimitação do espaço privado — valor central na cultura residencial urbana da época

Tudo isso demonstra um alto grau de planejamento e a intenção de criar uma residência integrada, funcional e esteticamente refinada.


A Rua Lamenha Lins: Um Endereço de Prestígio

Localizada no coração da cidade, a Rua Lamenha Lins era — e ainda é — uma das artérias mais significativas do centro de Curitiba. Batizada em homenagem ao jornalista e político Francisco José dos Santos Lamenha Lins, a via abrigava residências de famílias tradicionais, comerciantes abastados e profissionais liberais.

Construir ali, em plena década de 1930, era uma declaração de pertencimento à elite urbana emergente. João Alves Cordeiro não apenas escolheu um bom endereço — escolheu fazer parte da história da cidade.


O Estilo Bungalow na Curitiba dos Anos 1930

O “bungalow” não era apenas um tipo de casa — era um modelo de vida. Inspirado nas residências de veraneio dos EUA e da Índia britânica, o estilo foi adaptado ao Brasil com:

  • Varandas amplas (para o clima subtropical)
  • Telhados inclinados com beirais destacados
  • Janelas emolduradas e portas com detalhes em madeira
  • Integração entre interior e exterior

Na casa de João Alves Cordeiro, esses elementos foram reinterpretados com alvenaria de tijolos aparentes ou rebocados, telhas cerâmicas e uma planta que respeitava a hierarquia dos espaços: áreas sociais na frente, íntimas nos fundos ou no andar superior.

O projeto refletia a transição entre o ecletismo e os primeiros sinais do modernismo, ainda tímidos em Curitiba, mas já presentes na busca por racionalidade, clareza funcional e simplicidade decorativa.


O Desaparecimento: Quando o Passado Cede Lugar ao Presente

Infelizmente, como tantas outras construções históricas do centro de Curitiba, a casa de João Alves Cordeiro foi demolida antes ou até 2012. As razões podem ter sido diversas: valorização imobiliária, especulação, deterioração ou simples falta de reconhecimento de seu valor patrimonial.

Hoje, no local onde ela existiu, pode haver um edifício comercial, um estacionamento ou até mesmo um terreno vazio. Mas sua existência não foi apagada.

Graças ao Arquivo Público Municipal de Curitiba, o projeto original — com suas linhas precisas, suas anotações à mão e seu carimbo oficial — foi preservado em microfilme digitalizado, juntamente com o Alvará de Construção nº 729.

Esses documentos são testemunhos materiais de uma época em que construir uma casa era um ato de fé no futuro.


Legado: A Casa que Representou uma Geração

João Alves Cordeiro não era aristocrata, mas também não era um homem comum. Ele pertencia à classe média ascendente que, nos anos 1930, investia em educação, saúde, moradia digna e participação cívica. Sua casa era o refúgio da família, o espaço de formação dos filhos, o símbolo de uma vida bem-sucedida.

Embora demolida, a residência permanece como parte da memória construída de Curitiba — um lembrete de que a cidade não foi feita apenas por palácios e igrejas, mas também por casas como essa, erguidas com tijolo, cal e esperança.


Hoje, a Rua Lamenha Lins segue movimentada, sob o som de carros e passos apressados.
Mas, nos arquivos da cidade, João Alves Cordeiro ainda recebe visitas — não de convidados, mas de historiadores, arquitetos e curiosos que buscam entender como se vivia, se sonhava e se construía em Curitiba.

E ali, em linhas de tinta sobre papel, seu bungalow ainda existe — discreto, sólido, eterno.

A Casa de Fritz Scknepper na Villa Guayra: Uma Residência de Madeira que Encarnou a Curitiba dos Anos 1920

 Eduardo Fernando Chaves:  Projetista

Denominação inicial: Projecto de casa para o Snr. Fritz Scknepper

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência de Pequeno Porte

Endereço: Villa Guayra

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 125,00 m²
Área Total: 125,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 05/04/1927

Alvará de Construção: Nº 5304/1927

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa de madeira com dois pavimentos.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

1 - GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de casa do Snr. Fritz Scknepper na Villa Guayra. Plantas dos pavimentos térreo e superior e de implantação, cortes e fachadas frontal e lateral apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

A Casa de Fritz Scknepper na Villa Guayra: Uma Residência de Madeira que Encarnou a Curitiba dos Anos 1920

Projeto arquitetônico de dois pavimentos, erguido por um morador teuto-brasileiro em um dos bairros mais elegantes da capital paranaense — hoje desaparecida, mas viva na memória documental.


Fritz Scknepper: O Morador que Deu Nome à História

Em 1927, Fritz Scknepper — homem de origem germânica, provavelmente descendente de imigrantes que chegaram ao Paraná nas décadas anteriores — decidiu construir sua casa em Villa Guayra, então um dos bairros mais prestigiados de Curitiba. Situado nas colinas ao norte do centro, o bairro reunia famílias de classe média alta, comerciantes, profissionais liberais e membros da comunidade teuto-brasileira, que ali buscavam ar puro, vistas amplas e distância do burburinho urbano.

Embora pouco se saiba sobre a vida pessoal ou profissão de Fritz, seu nome permanece ligado a um projeto arquitetônico singular: uma residência de madeira de dois pavimentos, desenhada para ser ao mesmo tempo funcional, acolhedora e digna de seu lugar em um bairro de elite.


A Casa: Simplicidade, Elegância e Tradição em 125 m²

A casa projetada para Fritz Scknepper tinha 125,00 m² de área total, distribuídos em dois pavimentos. Apesar do tamanho modesto, o projeto revelava cuidado com a organização espacial, ventilação cruzada, privacidade dos dormitórios e integração com o terreno.

Construída em madeira — material preferido pelas famílias germânicas por sua facilidade de trabalho, isolamento térmico e familiaridade cultural —, a residência apresentava:

  • Pavimento térreo com salas de estar e jantar, cozinha e área de serviço
  • Pavimento superior destinado aos dormitórios, garantindo privacidade e silêncio
  • Fachadas bem proporcionadas, com janelas simétricas e beirais generosos — típicos das construções europeias adaptadas ao clima subtropical
  • Implantação cuidadosa no lote, respeitando os recuos exigidos e aproveitando a topografia do terreno

O projeto completo — incluindo plantas, cortes, fachadas frontal e lateral, e planta de implantação — foi reunido em uma única prancha técnica, clara, precisa e apresentada com rigor profissional.


Villa Guayra: O Cenário de uma Vida Nobre

A escolha de Villa Guayra como endereço não foi casual. No início do século XX, o bairro era símbolo de ascensão social e distinção cultural. Era ali que famílias de origem alemã, italiana e portuguesa erguiam suas casas em meio a pinheirais, longe da poluição e da agitação do centro, mas próximas o suficiente para manter seus negócios e relações sociais.

Morar em Villa Guayra era, portanto, uma declaração de identidade: de alguém que valorizava a natureza, a ordem, a família e a tradição — valores centrais na cultura teuto-brasileira da época.

A casa de Fritz Scknepper, embora modesta em dimensões, fazia parte desse tecido urbano de distinção e pertencimento.


Legalidade e Modernidade: O Alvará de 1927

Em 5 de abril de 1927, foi emitido o Alvará de Construção nº 5304/1927, autorizando oficialmente a edificação da residência. Isso indica que:

  • A obra foi devidamente registrada e aprovada pela prefeitura
  • O projeto cumpria as normas de higiene, segurança e urbanismo da época
  • Fritz Scknepper era um cidadão engajado, que respeitava as instituições e investia com responsabilidade em seu patrimônio

O alvará também revela um momento importante na história de Curitiba: a cidade, então com cerca de 80 mil habitantes, já contava com um sistema de controle urbanístico estruturado, que exigia projetos assinados por técnicos habilitados — o que confirma a seriedade do empreendimento.


O Desaparecimento: Uma Perda Irreparável

Infelizmente, a casa de Fritz Scknepper não sobreviveu ao tempo. Em 2012, já havia sido demolida, como tantas outras construções de madeira da primeira metade do século XX. Substituída, provavelmente, por um edifício de concreto ou um terreno vazio, sua presença física desapareceu do mapa urbano.

Contudo, sua memória arquitetônica permanece. Graças ao Arquivo Público Municipal de Curitiba, o projeto original foi preservado em microfilme digitalizado, mantendo viva a imagem daquela residência que, por décadas, abrigou uma família, testemunhou a vida cotidiana e representou um modo de habitar profundamente enraizado na cultura paranaense.


Legado: Mais do que Uma Casa — Um Testemunho de Época

A casa de Fritz Scknepper era mais do que um abrigo. Era:

  • Um reflexo da identidade teuto-brasileira em Curitiba
  • Um exemplo da arquitetura vernácula modernizada, que unia tradição e inovação
  • Um marco da urbanização da Villa Guayra
  • Um símbolo da aspiração de uma classe média que acreditava no futuro da cidade

Embora demolida, ela nos ensina que a história urbana não está apenas nos palacetes e monumentos, mas também nas casas simples, nas ruas tranquilas e nos nomes de moradores como Fritz Scknepper — homens comuns que, com seu trabalho e seu sonho de lar, ajudaram a construir Curitiba.


Hoje, onde antes havia vigas de pinho, talvez haja concreto.
Mas nos arquivos, nas linhas de uma prancha, Fritz Scknepper ainda mora — com sua casa, sua dignidade e seu lugar na história da cidade.