segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A Batalha do Atlântico: A Longa Guerra de Desgaste que Decidiu a Segunda Guerra Mundial

 

Batalha do Atlântico
Segunda Guerra Mundial

Oficiais britânicos na Ponte de Comando de um destroyer procurando submarinos alemães, outubro de 1941.
Data3 de setembro de 19398 de maio de 1945
LocalOceano Atlântico, Mar do Norte, Mar da Irlanda, Mar do Labrador, Golfo de São Lourenço, Mar do Caribe, Golfo do México, Outer Banks, Oceano Ártico, Atlântico Sul
DesfechoVitória Aliada
Beligerantes

Aliados
 Reino Unido
 Canadá
 Estados Unidos (1941–45)
 Domínio de Terra Nova
 Noruega
Polónia Polônia
 França Livre
 Bélgica
 Brasil (1942–45)
Países Baixos Países Baixos
 França (1939–40)

Eixo
Alemanha Nazista Alemanha Nazista
 Reino de Itália (1940–43)
França França de Vichy (1940–42)

Comandantes

Reino Unido Dudley Pound
Reino Unido Sir Percy Noble (1941–42)
Reino Unido Sir Max K. Horton (1943–45)
Canadá Leonard W. Murray
Estados Unidos Royal E. Ingersoll

Alemanha Nazista Erich Raeder
Alemanha Nazista Karl Dönitz
Alemanha Nazista Hans-Georg von Friedeburg
Alemanha Nazista Günther Lütjens
Alemanha Nazista Martin Harlinghausen
 Angelo Parona
 Romolo Polacchini

Baixas

36 200 marinheiros mortos[1][2]
36 000 marinheiros mercantes mortos[1][2]
3 500 navios mercantes afundados
175 navios de guerra afundados

~30 000 marinheiros mortos[3]
783 submarinos perdidos
~ 47 navios de guerra afundados[4]


A Batalha do Atlântico, a mais longa campanha militar contínua da Segunda Guerra Mundial, ocorreu de 1939 até a derrota da Alemanha Nazista em 1945, cobrindo uma parte importante da história naval do conflito. No seu cerne estava o bloqueio naval dos Aliados contra a Alemanha, anunciado no dia seguinte à declaração de guerra, e as subsequentes tentativas alemãs de romper o bloqueio e tentar enfraquecer os britânicos. A campanha atingiu seu auge de meados de 1940 até o final de 1943.[5]

A batalha naval do Atlântico colocou submarinos (U-boats) e outros navios de guerra da Kriegsmarine (Marinha) alemã e aeronaves da Luftwaffe (Força Aérea) contra a Marinha Real Britânica, a Marinha Real Canadense, a Marinha dos Estados Unidos e a navegação mercante civil aliada. Os comboios, vindo principalmente da América do Norte e predominantemente destinados ao Reino Unido e à União Soviética, foram protegidos na maior parte pelas marinhas e forças aéreas britânicas e canadenses. Essas forças foram auxiliadas por navios e aeronaves dos Estados Unidos a partir de 13 de setembro de 1941. Os alemães foram acompanhados por submarinos da Regia Marina (Marinha Real) italiana, após o aliado do Eixo, a Itália, entrar na guerra em 10 de junho de 1940.[6]

Como um país insular, o Reino Unido dependia muito de mercadorias importadas. A Grã-Bretanha precisava de mais de um milhão de toneladas de material importado por semana para sobreviver e lutar. Essencialmente, a Batalha do Atlântico envolveu uma guerra de tonelagem; a luta dos Aliados para abastecer a ilha da Grã-Bretanha e a tentativa do Eixo de impedir o fluxo de navios mercantes que permitia aos britânicos continuar lutando. O racionamento no Reino Unido também foi utilizado com o objetivo de reduzir a demanda, diminuindo o desperdício e aumentando a produção doméstica e a igualdade de distribuição. A partir de 1942, o Eixo também procurou impedir o acúmulo de suprimentos e equipamentos aliados no Reino Unido em preparação para a invasão da Europa ocupada. A derrota da ameaça dos U-boats alemães foi um pré-requisito para repelir o Eixo na Europa Ocidental. O resultado da batalha foi uma vitória estratégica para os Aliados — a guerra de tonelagem alemã falhou — mas a um grande custo: 3 500 navios mercantes e 175 navios de guerra aliados foram afundados no Atlântico pela perda de 783 U-boats e 47 navios de superfície alemães, incluindo quatro navios de guerra (Bismarck, Scharnhorst, Gneisenau e Tirpitz), nove cruzadores, sete invasores e 27 destróieres. Este fronte acabou sendo altamente significativo para o esforço de guerra alemão: a Alemanha gastou mais dinheiro na produção de embarcações navais do que em todos os tipos de veículos terrestres combinados, incluindo tanques e blindados.[7]

A Batalha do Atlântico foi chamada de "a maior, mais longa e mais complexa" batalha naval da história. A campanha começou imediatamente após o início da guerra europeia, durante a chamada "Guerra de Mentira", e durou mais de cinco anos, até a rendição alemã em maio de 1945. Ela envolveu milhares de navios em um teatro cobrindo milhões de milhas quadradas de oceano. A situação mudava constantemente, com um lado ou outro ganhando vantagem, à medida que países participantes se rendiam, aderiam e até mesmo mudavam de lado na guerra, e à medida que novas armas, táticas, contramedidas e equipamentos eram desenvolvidos por ambos os lados. Os Aliados gradualmente ganharam a vantagem, superando os invasores de superfície alemães até o final de 1942 e derrotando os U-boats em meados de 1943, embora as perdas devido aos U-boats continuassem até o fim da guerra. O Primeiro-Ministro Britânico Winston Churchill escreveu mais tarde: "A única coisa que realmente me assustou durante a guerra foi o perigo dos U-boats. Eu estava ainda mais ansioso com essa batalha do que com a gloriosa batalha aérea chamada Batalha da Grã-Bretanha."[8]

Os "U-Boats" e seu líder Karl Dönitz

Desde o início das hostilidades, os alemães estavam cientes de que o domínio aliado dos mares era uma potencial ameaça aos seus planos de guerra. Para comandar a frota de U-boats alemães, Hitler nomeou Karl Dönitz – que já possuía experiência como submarinista na Primeira Guerra Mundial, portanto compreendia as necessidades dos marinheiros e o potencial do submarino como arma de guerra. Mas a avidez do Führer por iniciar o conflito pegou Doenitz de surpresa: ele contava com mais alguns anos de paz, até que pudesse dispor de uma frota com poder de fogo para ameaçar o comércio entre britânicos e norte-americanos. Em setembro de 1939, início da Segunda Guerra Mundial, o almirante comandava 57 submarinos – bem menos do que as 300 embarcações com as quais um bloqueio contra a Grã-Bretanha seria efetivo.

Por dentro de um U-Boat

O submarino alemão U-995

A vida a bordo de um submarino alemão é descrita por alguns que sobreviveram à guerra como, no mínimo, insalubre. Dentro de um casco pressurizado um tanto quanto frágil (e de tanques de lastro responsáveis pela submersão ou emersão da nave), apenas o capitão tinha uma acomodação individual; o restante da tripulação tinha de se virar entre tubos, torpedos, aparelhos medidores e equipamentos da nave, para comer, operar as máquinas e até mesmo fazer suas necessidades fisiológicas. Como os U-Boats não possuíam ventilação interna, os marinheiros eram obrigados a andar com passos leves e a não fazer muito esforço físico – pois, do contrário, corriam o risco de consumir todo o oxigênio.

Explosão do couraçado britânico HMS Barham.

Um U-Boat era movido por enormes motores a Diesel, os quais precisavam de ar da superfície e funcionando recarregavam as baterias que alimentavam os motores eletricos que movimentava o U-Boat quando submerso, durante ao menos quatro horas todos os dias. Nesse meio tempo, portanto, era grande o risco de o submarino ser atacado por aviões inimigos – lugar comum no final do conflito, quando os Aliados lograram desenvolver um sistema de radar centimétrico que reduziria drasticamente o poder dos U-Boats.

As principais armas usadas pelos submarinos eram os torpedos. Um torpedo poderia ser facilmente descrito como um micro-submarino, a partir do momento em que era lançado. Em seu bico, continha uma carga de explosivos que era acionada no contato com o casco do navio inimigo; entretanto, não era uma tarefa simples lançá-los. O comandante tinha que calcular bem a distância entre seu submarino e a nave inimiga, para então lançar o torpedo, de preferência a pouca profundidade. Uma vez na água, os propulsores dos torpedos deixavam um rastro de bolhas que poderia facilitar ao inimigo sua presença e dar-lhe tempo de desviar; com o recrudescimento do conflito, os alemães lograram desenvolver um torpedo movido a querosene, que minimizava esse rastro. Além dos torpedos, muitos submarinos possuíam canhões em seu deque – muitas vezes para afundar pequenas embarcações ou dar um coup d'grâce sem precisar usar torpedos.

Como driblar o "ASDIC"

Doenitz compreendera astutamente o poderio de seus submarinos por uma razão simples: a dificuldade dos aliados em combatê-los sem se limitar ao uso de comboios de navios. O sistema ASDIC (Allied Submarine Detection and Investigation Committee, traduzido: Comitê Aliado de Pesquisa e Detecção Submarina), composto de frequências de áudio que poderiam captar a presença de um submarino, era inútil contra submarinos que disparassem seus torpedos da superfície. Assim sendo, os comandantes dos U-Boats – alcunha dada aos submarinos alemães pelos ingleses, onde o U referia-se a Unterseeboot, ou submarino em alemão; a nomenclatura U-número era usada para identificar cada submarino (por ex. U-47, U-386, U-571, etc.) – foram instruídos a atacar à tona d'água. Desde petroleiros, com sua carga facilmente incendiável, até navios com carregamentos militares, muitos não escapavam aos U-Boats.

Os "anos felizes" 1939-1941

Um navio mercante britânico sendo afundado por um submarino alemão

Durante os primeiros anos da Batalha do Atlântico, por motivos acima explicados, os Aliados pouco ou nada puderam fazer para conter a ameaça submarina nazista, mesmo com seus navios navegando em comboios. Doenitz também orientou seus capitães a fazerem uso da tática de "matilhas" (em alemão, Rudeltaktik): um comandante de submarino que localizasse um comboio aliado transmitia, por rádio, sua rota a submarinos vizinhos, que reuniam-se para atacar, à noite, o malfadado comboio e infligir-lhe pesadas perdas. Por conseguinte, um número assustador de navios mercantes e de combate foi posto a pique por hábeis comandantes alemães. Tanto que, por momentos, o ritmo no qual os navios aliados eram afundados superava a capacidade dos estaleiros em substituí-los. Entre os comandantes de submarinos alemães com maior números de afundamentos de embarcações confirmadas, destacam-se:

Reviravolta: o radar centimétrico

Esquadra naval dos Aliados "Casablanca" dirigindo-se para leste, em direcção à costa africana (cerca de novembro de 1942).

Winston Churchill, em suas memórias, descreveu os "U-Boats" como a maior ameaça à vitória sobre o nazismo – não à toa ele temia os afundamentos causados pelos U-Boats mais do que qualquer outra arma de Adolf Hitler. Apesar de os alemães já estarem na defensiva na frente oriental, no Atlântico ainda levavam vantagem. O mês de março de 1943 foi o pior da guerra para os Aliados no mar: eles perderam 51 navios nesse período.

Mas a agonia aliada terminou em maio de 1943, quando John Randall, cientista britânico, anunciou a invenção de um novo sistema de radar, com ondas curtas e tamanho compacto o suficiente para ser instalado em aviões – o radar centimétrico. Seu princípio é o mesmo dos radares convencionais; um feixe de ondas eletromagnéticas é emitido. Quando um obstáculo é encontrado, o feixe retorna. Medindo o tempo entre a recepção e choque com o obstáculo, bem como o ângulo do mesmo, pode-se localizar o alvo. Com base nele, os aviadores aliados podiam, agora, localizar submarinos alemães na superfície com relativa facilidade e afundá-los com cargas de profundidade (bombas submergíveis, em forma de latas de tinta, que explodiam com a pressão da água). Os decessos de U-Boats alemães cresceram vertiginosamente – e os afundamentos de navios foram drasticamente reduzidos. O episódio ficou conhecido como Maio Negro.

Doenitz procurou Hitler para transmitir-lhe as más novas: "Mein Führer, o fato é que agora os Aliados dispõem de um novo mecanismo que lhes permite localizar nossos submarinos à tona d'água... Nossas perdas subiram drasticamente. Deveríamos poupar nossas forças, pois do contrário estaríamos entrando no jogo do inimigo".

A Grã-Bretanha estava, por fim, salva da tentativa de bloqueio naval pela Alemanha, não sem pagar um preço elevadíssimo: além do afundamento de mais de 2.000 navios mercantes e militares e da perda de mais de 13,5 milhões de toneladas de carga, cerca de 40.000 de seus mais capazes marinheiros morreram enquanto serviam à pátria. No mesmo interim, os alemães perderam, em toda a guerra, 29 000 homens e 785 de seus 1 162 submarinos.

Atlântico Sul

Um submarino alemão U-199 sendo atacado por um avião PBY Catalina da força aérea brasileira.

Apesar do Atlântico Sul, ser onde a tripulação do cruzador alemão Admiral Graf Spee foi forçada a afundar seu próprio navio, na primeira batalha naval da Segunda Guerra Mundial,[9] e operações submarinas do Eixo na região (centradas no estreito entre Brasil e África Ocidental) terem começado no outono de 1940, apenas no ano seguinte operações de afundamentos eficazes começaram a causar sérias preocupações em Washington.[10] Esta ameaça sentida pelos americanos levou-os a decidir que além de pontos britânicos ao longo do Caribe e da costa da África Ocidental, uma introdução de forças militares americanas no litoral do Brasil seria indispensável. O que veio a acontecer depois de uma série de negociações com a então ditadura brasileira, ao longo do segundo semestre de 1941.[11]

Essa presença militar dos EUA no Brasil não foi bem aceita por Berlim e Roma, especialmente após a ruptura das relações diplomáticas entre o Brasil e as Potências do Eixo, em janeiro de 1942,[12] o que levou a Alemanha e Itália a estenderam sua guerra submarina aos navios brasileiros onde quer que estivessem, incluso as próprias águas adjacentes ao litoral brasileiro a partir de abril de 1942.[13] Em Maio ocorreram os primeiros ataques de retaliação por parte do Brasil (através de sua Força Aérea) contra submarinos do Eixo,[12] mas apenas em 22 de agosto de 1942 o Brasil entrou oficialmente na guerra. O que, de qualquer maneira foi de grande importância para a batalha, dada a sua estatura e posição estratégica no Atlântico Sul.[14]

Batalha do Atlântico: Representação artística do lançamento de bombas de profundidade durante a guerra anti-submarino no litoral brasileiro.

Durante os seus três anos de guerra, principalmente, mas não apenas no Atlântico Sul, sozinha e em conjunto com a marinha dos EUA, a marinha brasileira escoltou 3.167 navios em 614 comboios, totalizando 16,5 milhões de toneladas, com perdas de 0,1%.[15] O Brasil viu três de seus navios de guerra afundados e 486 homens mortos em ação (332 apenas no Cruzador Bahia), embora apenas o cargueiro e transporte de tropas Vital de Oliveira, o tenha sido por ação inimiga.[16]

Já a marinha mercante brasileira registrou a perda de 972 pessoas, entre tripulantes e passageiros, que pereceram a bordo dos seus 32 navios atacados por submarinos inimigos[17] As forças aeronavais americanas e brasileiras trabalharam em estreita colaboração até o fim da batalha. Um exemplo foi o ataque bem sucedido ao U-199 em 31 de julho de 1943, por uma ação coordenada de aeronaves de ambos os países.[18][19] Apenas em águas brasileiras, outros onze submarinos do Eixo foram afundados confirmadamente (entre janeiro e setembro de 1943); um italiano da classe Arquimedes e dez alemães: U-128, U-161, U-164, U-507, U-513, U-590, U-591, U-598, U-604 e U-662[20] [21][22]

Ao final de 1943, a diminuição do número de navios aliados de transporte afundados no Atlântico Sul coincidiu com a crescente eliminação dos submarinos do Eixo que operavam na região.[23] A partir de então, a batalha no Atlântico Sul estava perdida para os alemães, mesmo com a maioria dos submarinos remanescentes na região tendo recebido ordem oficial de retirada somente em agosto do ano seguinte, e com ( Baron Jedburgh ) o último navio mercante aliado afundado por um U-Boat (U- 532), ainda em 10 de Março de 1945

A Batalha do Atlântico: A Longa Guerra de Desgaste que Decidiu a Segunda Guerra Mundial

Considerada a campanha militar contínua mais longa, vasta e complexa da história naval, a Batalha do Atlântico estendeu-se por toda a duração da Segunda Guerra Mundial, travando-se de setembro de 1939 até a capitulação da Alemanha Nazista em maio de 1945. No seu cerne, o conflito representou um choque estratégico de proporções colossais: o bloqueio naval imposto pelos Aliados à Alemanha, respondido pelas tentativas sistemáticas da Kriegsmarine e da Luftwaffe de estrangular o Reino Unido cortando as suas linhas vitais de abastecimento transatlântico.

A campanha atingiu a sua fase de maior intensidade e brutalidade entre meados de 1940 e o final de 1943, envolvendo milhões de milhas quadradas de oceano e milhares de embarcações num tabuleiro em constante mutação tática e tecnológica.

Os Oponentes e o Teatro de Operações

A confrontação colocou em campos opostos duas alianças navais e aéreas fortemente estruturadas:

  • As Forças Aliadas: Compostas primordialmente pela Marinha Real Britânica (Royal Navy) e pela Marinha Real Canadense, que suportaram o fardo principal da escolta de comboios. A partir de setembro de 1941, contaram com o auxílio crucial de navios e aeronaves dos Estados Unidos (mesmo antes da entrada oficial destes na guerra).

  • As Forças do Eixo: Lideradas pelos temidos submarinos (U-boats) e navios de superfície da Marinha alemã (Kriegsmarine), apoiados pelas patrulhas aéreas da Luftwaffe. A partir de junho de 1940, os alemães passaram a contar com o reforço dos submarinos da Regia Marina italiana.

A Guerra de Tonelagem e a Dependência Britânica

Sendo o Reino Unido uma nação insular, a sua sobrevivência e capacidade de combate dependiam diretamente de mercadorias importadas. A economia britânica exigia mais de um milhão de toneladas de suprimentos por semana para se sustentar.

A Batalha do Atlântico traduziu-se, essencialmente, numa guerra de tonelagem:

  • O Esforço Aliado: Assegurar a travessia de imensos comboios de navios mercantes vindos sobretudo da América do Norte, carregados de alimentos, combustível, matérias-primas e equipamento militar destinado tanto à Grã-Bretanha quanto à União Soviética. O racionamento interno rigoroso foi adotado no Reino Unido para minimizar o desperdício e gerir a escassez.

  • A Estratégia do Eixo: Afundar a frota mercante inimiga a um ritmo superior à sua capacidade de substituição. A partir de 1942, o Eixo focou-se também em impedir o acúmulo maciço de tropas e material aliado na Grã-Bretanha que serviria de base para a futura invasão da Europa ocupada — um contra-ataque cuja viabilidade dependia inteiramente da eliminação da ameaça submarina.

O próprio Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, reconheceu mais tarde a magnitude do perigo, escrevendo nas suas memórias: "A única coisa que realmente me assustou durante a guerra foi o perigo dos U-boats. Eu estava ainda mais ansioso com essa batalha do que com a gloriosa batalha aérea chamada Batalha da Grã-Bretanha."

O Desfecho e o Custo Humano e Material

A balança da vitória começou a pender de forma definitiva para o lado Aliado à medida que novas armas, radares, táticas de comboio e o apoio aéreo de longo alcance foram sendo aperfeiçoados: os invasores de superfície alemães foram neutralizados até ao final de 1942, e a matilha de U-boats sofreu derrotas decisivas em meados de 1943, embora os ataques submarinos tenham persistido até aos últimos dias do conflito.

O balanço final ilustra a escala devastadora da campanha:

Indicador EstratégicoPerdas e Impacto
Navios Mercantes Aliados Afundados3.500 embarcações
Navios de Guerra Aliados Afundados175 embarcações
Baixas Alemãs (U-boats e Navios)783 submarinos e 47 navios de superfície (incluindo couraçados icónicos como o Bismarck, Scharnhorst, Gneisenau e Tirpitz, além de cruzadores e destróieres)

Para o esforço de guerra do Terceiro Reich, o teatro do Atlântico consumiu recursos industriais desproporcionais: a Alemanha gastou mais capital financeiro e produtivo na construção de embarcações navais do que em todas as categorias de veículos terrestres combinados, incluindo tanques e blindados. A vitória estratégica aliada no Atlântico revelou-se, portanto, o pré-requisito indispensável e absoluto para a libertação da Europa Ocidental.


Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça: O Patriarca e Pioneiro de Mariana

 

Salvador Fernandes Furtado de Mendonça (Taubaté, ? - São Caetano, 1725) foi um coronel e bandeirante paulista. Foi uma figura importante na descoberta do ouro em Minas Gerais e na sua colonização, sobretudo nos arredores de Mariana e Ouro Preto. Diogo de Vasconcelos afirma que "observado de perto, não foi menos que o Borba, que Arzão e que os Buenos, mas todavia se fez maior".[1]

Biografia

Natural da Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, era filho de Manuel Fernandes Vieira Edra e Maria Cubas, ambos paulistas.[2] Casou-se com Maria Cardoso de Siqueira, passando a residir com a e ssposa em Taubaté. Juntos tiveram 7 filhos, alguns nascidos em Taubaté e outros em Pindamonhangaba, vilas vizinhas.[3]

Partiu em direção aos sertões em 1687, para prear indígenas e buscar pedras preciosas. Foi responsável pelo estabelecimento de povoados que tornariam-se as vilas mais importantes de Minas Gerais, como é o caso de Mariana, primeira vila, cidade, capital e bispado mineiro.[4] Sua esposa ficou em Pindamonhangaba, onde a família tinha terras, somente em 1711 passou a residir em Minas Gerais, quando Salvador Furtado recebeu da Coroa uma sesmaria em São Caetano.[5]

Além da esposa, trouxe diversos outros parentes para as Minas.[5] Fez sua sobrinha D. Mônica Fernandes casar-se com Domingos Nogueira Vargas, colega bandeirante. Também trouxe seu sobrinho Boaventura Furtado de Morais, Pedro Pais de Barros, João de Sousa Castelhanos, Afonso Gaia, entre outros.[3]

Diferentemente de outros sertanistas, era proprietário de uma considerável biblioteca. Segundo os cronistas, possuia as Ordenações do Reino, que tinha mandado encardenar, em pastas com frisos de ouro; o Repertório das Minas; uma História Social em seis volumes e mais 27 livros de muitos autores encadernados em pergaminho.

Sesmaria em São Caetano

Em 26 de março de 1711 recebeu uma sesmaria na região de São Caetano, atual distrito de Monsenhor Horta.[5] O governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho assim escreveu:

"Faço saber que, havendo resposta ao que por sua petição me enviou dizer o coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça que o suplicante tinha assistido nas minas há sete anos e em todo êste tempo e nos mais do princípio do descobrimento das ditas minas, sempre cercando matos e mandando fazer por seus filhos e escravos a buscar descobrimentos de lavras e ouro, como consta das que tem descoberto de grandes lucros; e agora queria mandar buscar sua família e parentes para morar nas minas e não tinha largueza de terras para os acomodar e porquanto estavam devolutas as cabeceiras de uma sesmaria, que fui servido dar-lhe no sitio do Morro Grande para a parte do Brumado, me pedia lhe fizesse mercê dar-lhe as ditas cabeceiras com uma légua de sertão para Guarapiranga, mandando passar carta de sesmaria delas, e visto o requerimento".[5]

Desde 1703 já residia em Minas Gerais, em uma casa simples, próximo a Capela de Santo Antônio, em Mariana. Todavia, a sua fixação definitiva em Minas Gerais, deu-se apenas em 1711, na dita sesmaria em São Caetano. A sesmaria abrangia três sitios, onde passou a residir com sua esposa, filhos e genros. Na região foi construido um grande engenho de cana-de-açucar.[5]

Também tinha terras em Bela Vista.

Falecimento

Morreu com todos os sacramentos e deixou testamento, sendo sepultado em 21 de julho de 1725 na capela-mor, debaixo do arco cruzeiro, da matriz de São Caetano, pelo vigário Francisco Xavier.

Teve uma morte tranquila em sua cama.

Testamento

Dentre as clausulas de seu testamento alforriou a escravizada Bárbara:

"Declaro que entre os escravos que possuo e bem assim uma mulata por nome Bárbara, a qual, pelos bons serviços que dela tenho recebido, e porque, casando-a, prometi que a deixaria por minha morte forra, agora, com o consentimento e beneplácito de meus filhos [...], e também de minha mulher, a forro e dou liberdade assim a ela como a suas filhas [...]".[3]

Depois passou a disciplinar seus bens, e dividi-los entre seus herdeiros:

"[...] declaro que tenho debaixo da minha administração do gentio da terra ou descendente dele as pessoas seguintes: João, filho de Sebastiana, que por entender ser filho do meu filho Bento Fernandes, lhe deixo a sua administração ao dito meu filho;, Lauriana, Pedro, Salvador, e a dita Sebastiana acima nomeada, e a seu filho Carlos e Francisco e a João Mulato, deixo a meu filho o Padre Salvador Fernandes Furtado, com a condição de acompanhar e assistir com sua mãe; para que com o serviço desses escravos ajude o monte do casal e será obrigado a doutriná-los e a vesti-los, com a caridade do bom administrador; e sendo caso que o dito meu filho trate a estes escravos maltratando-os com rigor e menos caridade, ou deixe de acompanhar sua mãe, ou queira vender, doar ou alienar alguns destes escravos, ja desde agora substituo a dita administração no meu filho Antônio Fernandes [...] caso que o segundo administrador também trate mal ou aliene os escravos ou alguns deles, ou deixe a companhia de sua mãe, passará a administração deles a meu filho Boaventura Furtado, e se cair em o mesmo excesso passará a administração com a mesma condição a sua mãe, mas se tirando esta administração de meus filhos varões, passará com a mesma substituição para o meu neto José de Souza Taveira, com o mesmo encargo; e não satisfazendo, passará a seu irmão, e assim irá correndo a linha de meus descendentes mais próximos com o mesmo encargo".[6][3]

Também deixou bens para sua filha bastarda, Maria Cubas Furtado:

"Declaro que casei minha filha ilegitima Maria Cubas Furtado com Antônio Cabral da Gamboa e lhe dei cinco escravos dos quais devo 200 oitavas".

A filha nascera provavelmente no Carmo nos anos de sua fundação e casou na igreja do Carmo em 1716 com este homem paulista. Desaparecem menções a eles no Carmo em 1721. Cláudio Manoel diz que morreu em Pitangui. Maria poderia ser filha da concubina carijó do Coronel, batizada Antônia. Possuía ainda outras duas filhas bastardas, Isabel Cubas e Ana Maria, a quem deixou:

"Declaro que se dará a minha filha ilegítima Isabel Cubas um conto de réis para dote e 200 mil réis para vestuario". "Declaro que se dará a minha filha ilegítima Ana Maria um conto de réis para dote e 200 mil réis para vestuario".[3]

Sobre as filhas legítimas:

"Declaro que casei minha filha Mariana de Freitas com João Pereira de Lisboa e lhe prometi dois mil cruzados, os quais ordeno que se paguem das 800 oitavas que me devem os que compraram a Cachoeira [Lavras Velhas]".[3]

Descendencia

  • Antonio Fernandes Furtado nascido em Taubaté, em 1680.[3]
  • Feliciano Cardoso de Mendonça (1683-1721) que ao morrer deixou viúva sua prima Maria Rodrigues de Siqueira, de quem tivera duas filhas: Branca (casada com Leonardo de Azevedo Castro, residentes em Brumado) e Maria (casada com Gonçalo de Souza Costa, residentes em Escalvado).[3]
  • Maria de Freitas Cardoso nascida em 1688, viúva desde 30 de abril de 1725 do sargento-mor João de Souza Taveira. Tinham vindo para Minas na época dos cascalhos virgens do Ribeirão do Carmo e tiveram sete filhos, entre eles José de Souza Taveira; Josefa, Salvador, Rosa, Maria, Joana e uma filha póstuma.[3]
  • Coronel Bento Fernandes Furtado (1690 - Serro, 19 de outubro de 1765). Casou em São Caetano entre 1729 e 1730 com sua prima Bárbara Moreira de Castilho (neta de Carlos Pedroso da Silveira).[3]
  • Comba Furtado de Santa Rosa, nascida em 1692, casada com o Capitão Antônio Pereira Rego.[3]
  • Boaventura Furtado de Mendonça nascido em 1694;[3]
  • Padre Salvador Fernandes Furtado, nascido em 1698, pois por ocasião da grande fome em Vila Rica em 1697 e 1698 o coronel desceu para Taubaté.[3]

Bandeiras

Começou a realizar a entrada aos sertões brasileiros em 1687, conjuntamente ao seu cunhado Francisco Pedroso. Havia chegado inicialmente em Caeté. Em 1694 fez entrada para a casa da Casca, para as bandas do rio Doce, para prear indígenas. Sua bandeira teria encontrado fortuitamente na Itaverava com a bandeira de Bartolomeu Bueno de Siqueira, composta por Manuel de Camargo, João Lopes de Camargo, Miguel de Almeida e Cunha, Antônio de Almeida e outros. A dita bandeira havia acabado de descobrir indícios de ouro no local.[6]

Obteve algumas oitavas que levou a Taubaté, de onde Carlos Pedroso da Silveira, sócio de Bartolomeu Bueno de Siqueira, as levou para o Rio de Janeiro e deu em manifesto ao Governador em 15 de junho de 1695. Continuou, ao que parece, as pesquisas de ouro no local até 1697, quando voltou a Taubaté; em 1700 teria retornado às Minas Gerais tendo descoberto as minas do Bom Sucesso, na região de Ouro Preto, em continuação a descobertos na região do Ribeiro do Carmo, futura Mariana.

Descoberta do Ribeirão do Carmo

Salvador Fernandes Furtado, depois de aportar em Itaverava, decidiu seguir para o norte. Consta que, com Miguel Garcia de Almeida e Cunha, teria rumado para o norte, buscando o córrego onde Manuel Garcia de Almeida Cunha achara ouro, a seis léguas da Itaverava, e deram origem ao arraial do Fundão.[4] Em 16 de julho de 1696 chegou as margens do Ribeirão do Carmo, achando enorme quantidade de ouro. A primeira cabana que ergueu teria dado origem ainda em vida do fundador, a primeira vila das Minas Gerais.[7] Diz-se que construiu as primeiras cabanas na praia que ficou conhecida como Arraial de Matacavalos, entre rochedos e matas, meia légua acima, "rompendo a clareira luminosa da Passagem, esbatida no pano de fundo da serra eriçada de penhascos, em cujo cimo se apresentava o Itacolumi - mas desfigurado, como se avista de Mariana»"[4]

Ergueu também uma capela modesta, a mais antiga de Minas Gerais, a Capela de Santo Antonio. A partir dessa capela desenvolveu-se o primeiro núcleo urbano de Mariana.[8]

Depois das descobertas em Mariana, foi para a região de Cataquases. Passando por uma experiência de grande fome o coronel Salvador retornou ao Ribeirão do Carmo, encontrou-o praticamente ocupado e subiu contrário ao córrego que desagua no Ribeirão do Carmo, que nasce na serra de Ouro Preto, e, encontrando ali faisqueiras riquíssimas, deu-lhe o nome Bom Sucesso, distribuindo-o por sua comitiva.[4]

Erigindo capelas

As capelas se faziam essenciais à conquista do territorio mineiro, por efetiva piedade religiosa ou por interesses máximos da colonização, pois mandava o Regimento das Minas que se repartissem os interesses pelos proprietários de datas, mas impunha determinadas condições, cuja principal era a catequese: donde a capela se impunha. O coronel, conjuntamente a seus amigos e parentes, foram responsáveis pela construção de diversas capelas, em Pinheiros Altos, Santo Antônio do Pirapetinga, São Caetano, Mariana, Diogo de Vasconcelos, entre outros.[8][9]

Historiografia

Os antigos livros sobre Minas Gerais dizem que "montava cavalo alazão arreado com sela de pele de onça, coxim de marroquim, xaréu e bolsão de veludo verde bordado a retrós amarelo; freio de prata nas ocasiões solenes para vir à missa do arraial ou andar na vila, onde muitas vezes foi nomeado juiz ordinário. Nos coldres, carregava seu par de pistolas de canos de bronze e aparelhadas de prata. Nas festas trajava-se com esmero, calças de limites e meias de seda, véstia de veludo, chapéu de três quinas finíssimo, todo de preto, a lhe luzirem nas meias e sapatos fivelas de ouro e pedras; apoiava-se no bastão encastoado de prata. Tinha mais dois outros fatos e um capote de camelão vermelho, além de outras peças interiores. No trem bélico, 14 armas de fogo, algumas aparelhadas de prata, catanas e lanças, o que não era demais, pois índios e negros enchiam de sobressalto as Fazendas e povoados, como na 1712 e noutra em 1719".

Referências

  1. Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Francisco de Assis Carvalho Franco
  2. Leme, Luiz Gonzaga da Silva (1905). Genealogia paulistana. [S.l.]: Duprat & comp.
  3.  «Capitão Salvador Fernandes Furtado de Mendonça». www.projetocompartilhar.org. Consultado em 1 de janeiro de 2024
  4.  Boxer, Charles Ralph (1969). A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. [S.l.]: Companhia Editôra Nacional
  5.  «Carta de Sesmaria» (PDF). Arquivo Publico MIneiro
  6.  Andrade, Francisco Eduardo de (2013). «Sertanistas das Minas do Ouro : senhores de tapanhunos e carijós.». ISSN 2236-8094. Consultado em 1 de janeiro de 2024
  7. «Dia de Minas Gerais reverencia memória do estado - IEPHA». www.iepha.mg.gov.br. Consultado em 1 de janeiro de 2024
  8.  Filho, Elio Moroni (28 de dezembro de 2018). «NOTAS PARA O ESTUDO DE CAPELAS DO CICLO DO OURO EM MINAS GERAIS». Revista FÓRUM PATRIMÔNIO: Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável (2). ISSN 1982-9531. Consultado em 1 de janeiro de 2024
  9. «Nossa História». Prefeitura Municipal de Diogo de Vasconcelos. Consultado em 1 de janeiro de 2024

Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça: O Patriarca e Pioneiro de Mariana

Natural da Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, o Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça (Taubaté, ? — São Caetano, 1725) foi uma das figuras mais influentes e destacadas do bandeirantismo paulista no processo de descoberta e colonização das minas de ouro em Minas Gerais, com atuação central nos arredores de Mariana e Ouro Preto. A relevância do seu legado levou o historiador Diogo de Vasconcelos a afirmar que, analisado de perto, o seu papel não ficou atrás de nomes célebres como Borba Gato, Garcia Rodrigues Paes ou os Buenos, tendo inclusive sobressaído na história regional.

Origens e Primeiras Incursões nos Sertões

Filho dos paulistas Manuel Fernandes Vieira Edra e Maria Cubas, Salvador casou-se em Taubaté com Maria Cardoso de Siqueira, com quem teve sete filhos nascidos entre Taubaté e Pindamonhangaba. Em 1687, partiu rumo aos sertões inexplorados com o duplo objetivo de aprisionar indígenas (prear) e descobrir jazidas de pedras preciosas.

A sua atuação foi determinante para o surgimento de núcleos populacionais que viriam a formar as vilas mais importantes da capitania mineira, com destaque para a região de Mariana — a primeira vila, cidade, capital e bispado de Minas Gerais. Diferente da média dos sertanistas da sua época, Salvador destacava-se também pelo seu apetite intelectual, possuindo uma biblioteca considerável que incluía as Ordenações do Reino (encadernadas com frisos de ouro), o Repertório das Minas, uma História Social em seis volumes e dezenas de outros compêndios encadernados em pergaminho.

A Fixação em São Caetano e a Expansão Familiar

Embora já vivesse em Minas Gerais desde 1703 numa habitação modesta junto à Capela de Santo Antônio em Mariana, a sua fixação definitiva deu-se em 26 de março de 1711, data em que recebeu da Coroa (através do governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho) uma vasta sesmaria no sítio do Morro Grande, na região de São Caetano (atual distrito de Monsenhor Horta).

Na mesma época, mandou vir a esposa, os filhos e diversos parentes para as minas, incluindo:

  • A sobrinha D. Mônica Fernandes, casada com o colega bandeirante Domingos Nogueira Vargas.

  • O sobrinho Boaventura Furtado de Morais.

  • Outros aliados e parceiros de exploração, como Pedro Pais de Barros, João de Sousa Castelhanos e Afonso Gaia.

A sesmaria estendia-se por três sítios e tornou-se o centro das operações familiares, onde foi erguido um grande engenho de cana-de-açúcar. O bandeirante detinha ainda propriedades na região de Bela Vista.

Morte, Testamento e Legado Familiar

Diferente de muitos pioneiros que enfrentaram fins trágicos ou violentos nas Minas, Salvador Fernandes Furtado faleceu de forma pacífica em sua cama, recebendo todos os sacramentos. Foi sepultado em 21 de julho de 1725 na capela-mor, debaixo do arco-cruzeiro da matriz de São Caetano, pelo vigário Francisco Xavier.

O seu testamento detalha a estrutura patrimonial da família e revela preocupações sociais marcantes para o período colonial, incluindo atos de alforria e a minuciosa administração de escravizados entre os herdeiros:

  • Alforria: Concedeu liberdade à escravizada Bárbara e às suas filhas, em reconhecimento aos bons serviços prestados e em cumprimento a promessas anteriores feitas com o aval da esposa e dos filhos.

  • Descendência Legítima: Entre os seus filhos destacam-se Antônio Fernandes Furtado (nascido em 1680); Feliciano Cardoso de Mendonça (1683–1721); Maria de Freitas Cardoso (1688–1725), casada com o sargento-mor João de Sousa Taveira; o Coronel Bento Fernandes Furtado (1690–1765); Comba Furtado de Santa Rosa (nascida em 1692); Boaventura Furtado de Mendonça (nascido em 1694); e o Padre Salvador Fernandes Furtado (nascido em 1698, período em que a família descera temporariamente a Taubaté devido à grande fome em Vila Rica).

  • Filhos Ilegitimos: O testamento também contemplou os seus filhos fora do casamento, estipulando dotes avultados e provisões para vestuário para as filhas Isabel Cubas e Ana Maria, além de referências a Maria Cubas Furtado, casada em 1716 na igreja do Carmo com Antônio Cabral da Gamboa.

O Coronel Salvador Fernandes Furtado consolidou-se, assim, não apenas como um desbravador de fronteiras e descobridor de riquezas minerais, mas como o verdadeiro patriarca de uma das redes familiares mais influentes na consolidação da sociedade mineira do século XVIII.