10 de Julho de 1947: O Anúncio que Mudaria a História da Monarquia Britânica
O Noivado Secreto que Conquistou o Coração de uma Nação
10 de Julho de 1947: O Anúncio que Mudaria a História da Monarquia Britânica
O Noivado Secreto que Conquistou o Coração de uma Nação
Por Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem colorizada por Rainhas Trágicas
Imagem colorizada por Rainhas Trágicas
Prólogo: Um Amor Forjado nas Cinzas da Guerra
Em 10 de julho de 1947, o mundo parou para testemunhar um dos momentos mais românticos da história real britânica. Naquele dia ensolarado de verão, a Princesa Elizabeth, filha primogênita do Rei George VI e herdeira presuntiva do trono, e o Tenente Philip Mountbatten, da Marinha Real Britânica, surgiram juntos na varanda do Palácio de Buckingham para anunciar oficialmente seu noivado
.
O que poucos sabiam é que aquele momento havia sido cuidadosamente planejado e aguardado ansiosamente por ambos. O casal havia ficado noivo em segredo meses antes, em 1946, quando Philip pediu a mão de Elizabeth ao rei, mas a anunciação pública foi deliberadamente adiada até após o 21º aniversário da princesa e o retorno da família real de uma viagem à África do Sul
.
Capítulo I: O Primeiro Encontro - Quando o Destino Bateu à Porta
A história de amor que culminaria nesse histórico noivado começou muito antes do que se imagina. A primeira vez que Elizabeth e Philip se viram foi em 1934, no casamento da Princesa Marina da Grécia com o Duque de Kent, quando Elizabeth tinha apenas 8 anos e Philip, 13
. Contudo, foi em julho de 1939 que o verdadeiro romance começou a germinar.
Naquele verão, o Rei George VI e a Rainha Elizabeth visitaram o Royal Naval College em Dartmouth, acompanhados por suas filhas, Elizabeth (13 anos) e Margaret (9 anos)
. Philip, então um cadete naval de 18 anos, foi designado para acompanhar as jovens princesas durante a visita.
Do alto da tribuna real durante a coroação de seu pai, a pequena princesa de 11 anos mal deve ter notado aquele rapaz loiro e franzino que se sentava entre os outros convidados na Abadia de Westminster. Mas em Dartmouth, tudo mudou. Elizabeth ficou fascinada pela energia, inteligência e charme do jovem cadete, enquanto Philip se encantou com a maturidade e doçura da princesa
.
O que se seguiu foi o início de uma correspondência que se estenderia pelos sombrios anos da Segunda Guerra Mundial.
Capítulo II: Cartas de Amor em Tempos de Guerra
Enquanto a Europa ardia em chamas e o mundo assistia ao conflito mais devastador da história humana, dois jovens corações mantinham viva a chama do amor através de cartas. Philip servia bravamente na Marinha Real Britânica, lutando contra os nazistas, enquanto Elizabeth permanecia na retaguarda, sendo transferida de palácio em palácio para sua segurança
.
"É bastante romântico pensar que esse romance se desenvolveu através de cartas; Elizabeth tinha uma fotografia de Philip em sua cômoda", revelam historiadores reais
. Essa foto do então Príncipe Philip da Grécia e Dinamarca ocupava um lugar especial no quarto da princesa no Castelo de Windsor, um lembrete constante do homem que lhe roubava o coração
.
As cartas trocadas entre eles eram carregadas de afeto, esperança e promessas silenciosas de um futuro juntos. Em 1946, Philip escreveu palavras que selariam seu destino: declarou que havia se apaixonado por Elizabeth "sem reservas"
. Essas cartas, algumas das quais foram posteriormente leiloadas por milhares de libras, revelam a profundidade dos sentimentos que uniam o casal
.
A rainha Mary, avó de Elizabeth, datou o apego romântico entre Philip e a princesa de uma breve visita que ele fez ao Castelo de Balmoral no final da guerra, quando ficou claro que o que começara como uma amizade infantil havia florescido em algo muito mais profundo
.
Capítulo III: O Preço do Amor - Renúncia e Transformação
Para que o amor de Philip e Elizabeth pudesse ser consumado no altar, um grande obstáculo precisava ser superado. Philip nascera Príncipe da Grécia e da Dinamarca, membro da Casa Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, com direitos de sucessão aos tronos grego e dinamarquês
.
O Rei George VI, embora amasse a filha e reconhecesse a sinceridade dos sentimentos de Philip, impôs condições rigorosas para aprovar o casamento. O monarca britânico estava hesitante em dar sua bênção ao relacionamento
. Ele sentia que Elizabeth era muito jovem e tinha preocupações legítimas sobre o futuro genro
.
Em 28 de fevereiro de 1947, Philip tomou a decisão que mudaria sua vida para sempre: renunciou formalmente a todos os seus títulos reais estrangeiros, aos seus direitos de sucessão aos tronos da Grécia e Dinamarca, e tornou-se um súdito britânico naturalizado
.
Adotou o sobrenome Mountbatten, versão anglicizada do nome de sua família materna, e passou a ser conhecido simplesmente como Tenente Philip Mountbatten, da Marinha Real
. Por alguns meses, ele deixou de ser um príncipe estrangeiro para se tornar um oficial naval britânico comum, embora de origem nobre.
Em reconhecimento ao seu sacrifício e como um gesto de boa vontade, o Rei George VI concedeu a Philip o título de Duque de Edimburgo, Conde de Merioneth e Barão Greenwich em 19 de novembro de 1947, um dia antes do casamento
. Mais tarde, a própria Rainha Elizabeth II restauraria seu status de príncipe, agora como Príncipe do Reino Unido.
Capítulo IV: O Anel - Uma Joia Carregada de História e Emoção
Quando Philip pediu Elizabeth em casamento, ele não apresentou apenas um anel de noivado comum. A joia que adornou o dedo da futura rainha era carregada de significado emocional e histórico profundo.
O anel de noivado, desenhado no estilo Art Déco, apresentava um diamante central redondo de aproximadamente 3 quilates, ladeado por dez diamantes menores pavê - cinco de cada lado
. Mas a verdadeira história por trás dessa joia é ainda mais tocante: os diamantes foram extraídos de uma tiara que pertencia à mãe de Philip, a Princesa Alice de Battenberg
.
A Princesa Alice havia sido diagnosticada com esquizofrenia e passou grande parte da vida em instituições, vivendo em relativo isolamento. Ao usar as joias de sua mãe no anel de noivado de Elizabeth, Philip estava não apenas honrando sua família, mas também trazendo um pedaço de sua mãe para esse momento feliz, apesar das circunstâncias difíceis que ela enfrentava
.
O valor estimado do anel era de £207.000, mas seu valor sentimental era incalculável
. Era uma escolha discreta, não muito ostensiva, mas profundamente significativa - um reflexo do caráter de Philip e do amor genuíno que sentia por Elizabeth
.
Além do anel de noivado, Philip presenteou Elizabeth com uma aliança de casamento feita de ouro galês, proveniente da mina Clogau St David's, perto de Dolgellau, seguindo uma tradição real que remonta a 1923, quando a própria mãe do rei recebeu uma aliança similar
.
Capítulo V: O Anúncio Oficial - 10 de Julho de 1947
Finalmente, chegou o momento tão aguardado. Após o retorno da família real de sua viagem à África do Sul - uma jornada que culminou com o 21º aniversário da Princesa Elizabeth - o Rei George VI deu sua aprovação final para que o noivado fosse anunciado
.
Na manhã de 10 de julho de 1947, o Palácio de Buckingham emitiu um comunicado oficial às 10h da manhã, informando ao mundo que a Princesa Elizabeth e o Tenente Philip Mountbatten estavam noivos
.
Para a sessão fotográfica oficial, o renomado fotógrafo da corte Cecil Beaton foi convocado para registrar esse momento histórico
. As fotografias tiradas por Beaton naquele dia se tornaram ícones atemporais, capturando a juventude radiante de Elizabeth (21 anos) e o charme confiante de Philip (26 anos)
.
Naquela tarde, o casal apareceu na varanda do Palácio de Buckingham para saudar a multidão que se aglomerava do lado de fora
. Elizabeth exibia com orgulho seu deslumbrante anel de noivado, enquanto Philip, ainda um pouco nervoso, sorria ao lado da mulher que em breve se tornaria sua esposa
.
A princesa estava deslumbrante em um vestido azul claro, e o tenente usava seu uniforme da Marinha Real. As imagens desse momento foram reproduzidas em jornais de todo o mundo, celebrando o romance que havia florescido mesmo nos tempos mais sombrios da guerra
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Capítulo VI: A Bênção Real e as Condições do Rei
Por trás da alegria do anúncio, havia negociações delicadas e condições impostas pelo Rei George VI. O monarca, que havia experimentado um casamento por amor (com Lady Elizabeth Bowes-Lyon em 1923), entendia a importância do amor verdadeiro, mas também conhecia o peso das responsabilidades reais
.
O rei só aprovou o noivado após Philip concordar em cumprir condições específicas, incluindo a renúncia aos títulos estrangeiros, a conversão à fé anglicana (Philip fora criado na fé ortodoxa grega) e o compromisso de dedicar sua vida ao serviço da coroa britânica
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George VI também insistiu que o anúncio fosse adiado até que Elizabeth completasse 21 anos, acreditando que ela deveria ter maturidade suficiente para tomar uma decisão tão importante
. O rei, embora amasse Philip, tinha reservas sobre o temperamento forte e a personalidade assertiva do jovem oficial naval
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Apesar das hesitações iniciais, o rei reconheceu a felicidade que Philip trazia à sua filha. Em um gesto de aceitação, concedeu a Philip o tratamento de "Sua Alteza Real" no dia anterior ao casamento, em 19 de novembro de 1947, juntamente com os títulos ducais
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Capítulo VII: Laços de Sangue - Uma União Predestinada?
Um aspecto fascinante do romance de Elizabeth e Philip é que eles estavam destinados a se encontrar por laços de sangue. Ambos eram trinetos da Rainha Vitória do Reino Unido e do Rei Christian IX da Dinamarca, o que os tornava primos distantes
.
Essa conexão familiar não era incomum entre as casas reais europeias, que frequentemente se casavam entre si para fortalecer alianças políticas. No caso de Elizabeth e Philip, no entanto, o amor prevaleceu sobre qualquer consideração política.
Philip nasceu na ilha de Corfu, na Grécia, em 10 de junho de 1921, filho do Príncipe André da Grécia e Dinamarca e da Princesa Alice de Battenberg. Sua família foi exilada da Grécia quando ele era apenas um bebê, e ele cresceu principalmente na França e na Alemanha, sendo educado em escolas britânicas
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Elizabeth, por sua vez, nasceu em 21 de abril de 1926, em Londres, e desde cedo foi preparada para um futuro papel de liderança, embora nunca se esperasse que ela se tornasse rainha até a abdicação de seu tio, o Rei Edward VIII, em 1936.
Apesar de suas origens diferentes e das experiências de vida distintas, eles compartilhavam valores fundamentais: senso de dever, lealdade, humor e, acima de tudo, um profundo compromisso um com o outro.
Capítulo VIII: A Contagem Regressiva para o Grande Dia
Com o noivado anunciado, começou a contagem regressiva para o casamento. O anúncio oficial foi feito em 10 de julho, e a data do casamento foi marcada para 20 de novembro de 1947 - exatamente quatro meses depois
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A escolha de novembro não foi aleatória. Permitiria tempo suficiente para os preparativos de um evento de tal magnitude, mas também evitaria os meses de verão, quando a agenda real já estava repleta de compromissos.
O local escolhido foi a Abadia de Westminster, o mesmo local onde Elizabeth assistira à coroação de seu pai e onde, anos antes, seus pais também haviam se casado em 26 de abril de 1923
. O casamento aconteceria às 11h30 (horário de Greenwich) em uma cerimônia que reuniria mais de 2.000 convidados
.
Enquanto os preparativos avançavam, Elizabeth continuava a cumprir seus deveres reais, visitando fábricas, hospitais e instituições de caridade. Philip, por sua vez, permanecia ativo na Marinha Real, embora já estivesse claro que sua vida militar daria lugar ao papel de consorte real.
O Reino Unido ainda se recuperava dos estragos da Segunda Guerra Mundial. Racionamento de alimentos e materiais ainda estava em vigor, o que tornava os preparativos para um casamento real um desafio logístico e político. Muitos questionavam se era apropriado realizar um evento tão grandioso em tempos de austeridade.
Capítulo IX: O Significado Histórico e o Legado
O noivado de Elizabeth e Philip representou muito mais do que a união de dois jovens apaixonados. Simbolizou esperança e renovação para uma nação exausta pela guerra. Em um momento em que o Reino Unido enfrentava reconstrução, escassez e incertezas sobre seu papel no pós-guerra, o romance da princesa herdeira trouxe um sopro de otimismo.
A união também marcou uma transição geracional na monarquia britânica. George VI, cuja saúde já mostrava sinais de deterioração, via em Elizabeth e Philip o futuro da instituição que ele tanto se esforçara para preservar durante os anos sombrios da guerra.
Philip, com sua juventude, energia e visão moderna, representava uma nova era para a realeza. Ele traria mudanças significativas para a forma como a monarquia se relacionava com o público, modernizando protocolos e abraçando causas ambientais e tecnológicas décadas antes de se tornarem populares.
Para Elizabeth, o noivado significava encontrar um parceiro que a apoiaria em sua missão de vida. Ela reconheceu isso em seu discurso de 21º aniversário, transmitido da África do Sul em abril de 1947, quando declarou: "Declaro diante de vocês que toda a minha vida, seja ela longa ou curta, será dedicada ao nosso serviço e ao serviço de nossa grande família imperial à qual pertencemos".
Epílogo: Um Amor que Atravessou Sete Décadas
O casamento ocorreu conforme planejado em 20 de novembro de 1947, na Abadia de Westminster, em uma cerimônia deslumbrante que foi transmitida por rádio para milhões de pessoas em todo o mundo
. Elizabeth usou um vestido de seda bordado com pérolas e cristais, desenhado por Norman Hartnell, e caminhou pelo altar acompanhada por seu pai, o rei
.
O que se seguiu foi um dos casamentos mais longos e estáveis da história da realeza: 73 anos, 5 meses e 19 dias de união, terminando apenas com a morte de Philip em 9 de abril de 2021, aos 99 anos
.
Ao longo dessas sete décadas, Elizabeth e Philip enfrentaram juntos os desafios de uma monarquia em transformação, criaram quatro filhos, testemunharam mudanças sociais profundas e mantiveram um compromisso inabalável um com o outro e com o dever.
O noivado anunciado em 10 de julho de 1947 foi apenas o primeiro capítulo de uma história de amor que se tornaria lendária. Através de cartas escritas durante a guerra, de um anel feito com as joias da mãe de Philip, de um anúncio feito na varanda do Palácio de Buckingham, dois jovens construíram algo extraordinário: um amor que resistiu ao tempo, às pressões do dever e às provações da vida pública.
Como a própria rainha disse em seu discurso de ouro de casamento, em 1997: "Philip tem sido, simplesmente, minha força e meu apoio todos esses anos". E assim continuou sendo até o fim.
Fontes e Referências Históricas:
Este artigo foi baseado em documentos históricos, fotografias da Royal Collection Trust, registros do casamento real de 1947, e pesquisas acadêmicas sobre a vida da Rainha Elizabeth II e do Príncipe Philip. As imagens coloridas por "Rainhas Trágicas" trazem nova vida aos registros fotográficos originais de Cecil Beaton, permitindo que as novas gerações vejam esse momento histórico com cores vibrantes.
Texto: Renato Drummond Tapiaga Neto
Imagem: Colorizada por Rainhas Trágicas
Data de publicação: 2026
Imagem: Colorizada por Rainhas Trágicas
Data de publicação: 2026
Nota do Autor: Este artigo celebra não apenas um evento histórico, mas o poder transformador do amor verdadeiro. Em tempos modernos, onde relacionamentos são frequentemente efêmeros, a história de Elizabeth e Philip nos lembra que o compromisso, o respeito mútuo e o amor genuíno podem construir algo eterno.