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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O PESO DA COROA E A MALDIÇÃO DO SANGUE: O ENVELHECIMENTO PRECOCE DA CZARINA ALEXANDRA FEODOROVNA

 

O PESO DA COROA E A MALDIÇÃO DO SANGUE: O ENVELHECIMENTO PRECOCE DA CZARINA ALEXANDRA FEODOROVNA


O PESO DA COROA E A MALDIÇÃO DO SANGUE: O ENVELHECIMENTO PRECOCE DA CZARINA ALEXANDRA FEODOROVNA

Por Renato Drummond Tapioca Neto
Entre 1894 e 1908, catorze anos se passaram desde o casamento faustoso entre o último Czar de Todas as Rússias, Nicolau II, e a princesa alemã Alix de Hesse e Reno. O que começou como um conto de fadas romântico — um casamento por amor, raro entre as realezas europeias da época — transformou-se, sob o peso da responsabilidade imperial e de uma tragédia genética, em uma narrativa de sofrimento silencioso. Um comparativo visual entre dois retratos oficiais ilustra de forma contundente essa transformação: à esquerda, a jovem princesa Alix aos 22 anos, radiante, com olhos brilhantes e esperança no futuro; à direita, a Czarina Alexandra Feodorovna aos 36 anos, com o semblante marcado por profundas olheiras, cabelos precocemente embranquecidos e uma expressão de cansaço eterno.
Este envelhecimento acelerado não foi obra apenas do tempo, mas o resultado visível de uma década de pressão psicológica, dor física e o fardo esmagador de guardar o segredo mais perigoso do Império Russo.

A LONGA ESPERA PELO HERDEIRO

Quando Alix de Hesse chegou à Rússia em 1894, ela era uma jovem vibrante, profundamente apaixonada por Nicolau. No entanto, a corte russa e o povo aguardavam ansiosamente o nascimento de um herdeiro homem para garantir a continuidade da dinastia Romanov. Nos primeiros dez anos de casamento, Alexandra deu à luz quatro filhas: as Grã-Duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastasia. Embora as crianças fossem amadas, a ausência de um filho varão era vista como uma falha política e pessoal da Czarina.
A pressão era constante. Boatos circulavam pelos salões de São Petersburgo sobre a possível infertilidade do Czar ou da Czarina. A cada gravidez, a esperança se renovava, apenas para ser seguida por decepção quando outra menina nascia. Esse ciclo de expectativa e frustração começou a cobrar seu preço na saúde emocional de Alexandra, que se sentia cada vez mais isolada em uma corte que muitas vezes a via com desconfiança por suas origens alemãs.

O NASCIMENTO DE ALEXEI: ALEGRIA E TERROR

Em 12 de agosto de 1904, no Palácio Peterhof, a tão aguardada notícia finalmente chegou: Alexandra dera à luz um menino, o Czarevich Alexei Nikolaevich. A Rússia inteira celebrou. Salvas de canhão foram disparadas, igrejas realizaram Te Deums e o povo saiu às ruas em comemoração. Para Nicolau e Alexandra, era a consolidação de sua dinastia e a prova de que Deus finalmente abençoara seu union.
No entanto, a alegria durou pouco. Semanas após o nascimento, durante a cerimônia de batismo, os médicos notaram que o umbigo da criança sangrava excessivamente e que hematomas inexplicáveis começaram a surgir em seu corpo pequeno. O diagnóstico, mantido em segredo absoluto, foi devastador: hemofilia tipo B.
A doença, pouco compreendida na época, impedía a coagulação adequada do sangue. Um simples corte, uma batida leve ou uma hemorragia interna poderiam ser fatais. Conforme ressalta a historiadora Helen Rappaport, "no início da década de 1900, a expectativa de vida de uma criança hemofílica não passava dos 13 anos" (2016, p. 105). Para uma mãe, saber que seu filho carregava uma sentença de morte potencial foi um golpe do qual Alexandra nunca se recuperou totalmente.

A MALDIÇÃO DE VITÓRIA: O FARDO DA CULPA

A hemofilia não era um acaso; era uma herança genética que percorria as casas reais da Europa, originada na Rainha Vitória da Grã-Bretanha, avó materna de Alexandra. A Czarina carregava o gene em seu cromossomo X e o transmitiu ao filho. Essa realidade mergulhou Alexandra em um estado de culpa perpétua. Ela via a doença não apenas como uma tragédia médica, mas como um castigo divino ou uma "maldição" trazida por seu sangue alemão para a Rússia.
Em momentos de desespero, confidenciou à sua amiga Maria Geringer: "Se ao menos você soubesse com que ardor tenho orado a Deus para proteger meu filho da nossa maldição herdada". Essa culpa tornou-se o motor de suas ações nos anos seguintes. Toda a dinâmica da família imperial mudou em função de Alexei. Ele tornou-se o centro do universo dos pais, que viviam com o medo constante de que um simples brinquedo pudesse causar uma hemorragia fatal.
O segredo era vital. A Grã-Duquesa Xenia, irmã do Czar Nicolau II, descreveu a situação como "a terrível enfermidade da família inglesa". Se o povo russo soubesse que o herdeiro do trono era fisicamente frágil e poderia morrer a qualquer momento, a estabilidade do regime já abalado por revoltas sociais (como a Revolução de 1905) poderia colapsar completamente.

O DECLÍNIO FÍSICO DA CZARINA

Enquanto lutava para proteger Alexei, a própria saúde de Alexandra deteriorava-se rapidamente. Além do esgotamento nervoso, ela sofria de dores crônicas no nervo ciático, uma condição debilitante que a deixava incapacitada por longos períodos. Havia dias em que ela não conseguia sair da cama, e em outros, era obrigada a se locomover em uma cadeira de rodas.
Para os mais íntimos, que conheciam a condição do herdeiro, estava claro que Alexandra se responsabilizava pela transmissão da patologia, e essa autopunição psicológica manifestava-se fisicamente. O estresse constante acelerou seu envelhecimento. Os cabelos escuros deram lugar aos fios grisalhos muito antes dos 40 anos. As linhas de expressão ao redor dos olhos e da boca denunciavam noites sem dormir, vigiando o filho durante as crises hemorrágicas.
A Czarina, que antes era uma figura ativa nos primeiros anos de casamento, começou a desaparecer da vida pública. Ela cancelava aparições, recusava bailes e deixava de acompanhar o marido em eventos oficiais. Sua prioridade era única: estar ao lado de Alexei quando ele precisasse dela.

O VÁCUO DE PODER E OS RUMORES

O quase desaparecimento de Alexandra dos eventos ao lado do marido e das filhas abriu brechas perigosas na percepção pública. Na ausência de informações verdadeiras, a mídia e o povo começaram a conjecturar explicações, uma mais descabida que a outra.
Por que a Czarina estava sempre doente? Por que ela se isolava? Rumores de que ela era hipocondríaca, fraca de espírito ou até mesmo incapaz de cumprir seus deveres espalharam-se pela capital. Pior ainda, sua busca desesperada por cura para Alexei a levou a confiar em figuras controversas, como o starets Grigori Rasputin, que alegava poder aliviar a dor do menino através da oração.
A influência de Rasputin, combinada com o isolamento de Alexandra, alimentou teorias de conspiração. Diziam que a Czarina estava sob hipnose, que era uma espiã alemã trabalhando contra a Rússia, ou que estava negligenciando o país em favor do filho doente. A imagem da mãe dedicada foi distorcida para a de uma mulher histérica e perigosa. A proteção que ela tentava oferecer ao filho acabou, ironicamente, contribuindo para a impopularidade da monarquia.

O FIM TRÁGICO DE UMA LINHAGEM

A vida de Alexandra Feodorovna foi consumida pelo amor maternal e pelo dever imperial, dois pesos que se tornaram incompatíveis. A Revolução Russa de 1917 derrubou a monarquia, e a família imperial foi presa. Mesmo no cativeiro, em Tobolsk e Ekaterinburg, Alexandra continuou sendo a guardiã de Alexei, carregando-o nos braços quando ele não podia andar devido a uma hemorragia no quadril.
Na madrugada de 17 de julho de 1918, aos 46 anos, Alexandra foi executada junto com o marido, as cinco crianças e alguns servos leais, no porão da Casa Ipatiev. O segredo da hemofilia morreu com eles, revelado ao mundo apenas posteriormente através dos diários e registros médicos recuperados.

LEGADO: UMA MÃE ANTES DE UMA CZARINA

Hoje, olhando para os retratos de Alix aos 22 anos e Alexandra aos 36, vemos mais do que a passagem do tempo. Vemos o registro visual de uma tragédia humana. Alexandra Feodorovna foi muitas vezes julgada pela história como uma governante falha, mas sua história pessoal revela uma mulher que sacrificou sua saúde, sua reputação e sua vida em uma tentativa desesperada de salvar seu filho.
O envelhecimento precoce da última Czarina da Rússia é um lembrete sombrio de como o segredo, a pressão dinástica e a doença podem destruir até mesmo os que habitam os palácios mais dourados. Ela não morreu apenas pela revolução; ela morreu desgastada por anos de luta contra uma maldição genética que nenhum poder imperial poderia curar.

Fontes e Referências Históricas:
Este artigo foi baseado em diários pessoais da família Romanov, registros médicos do Czarevich Alexei e pesquisas acadêmicas sobre o reinado de Nicolau II, incluindo obras de Helen Rappaport e outros historiadores especializados no período.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Colorizado por Rainhas Trágicas.
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