sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Newton F. Bittencourt e a Casa da Rua José Loureiro — Uma História de Simplicidade, Dignidade e Desaparecimento

 Denominação inicial: Projecto de Casa para o Sr. Newton F. Bittencourt

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência de Pequeno Porte

Endereço: Rua José Loureiro

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 100,00 m²
Área Total: 100,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 27/11/1934

Alvará de Construção: Nº 871/1934

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de uma casa e Alvará de Construção.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1 – CHAVES, Eduardo Fernandes. Projecto de uma Casa a se construir na Rua José Loureiro para o Sr. Newton F. Bittencourt. Planta do pavimento térreo e implantação; corte, fachada frontal e laterais apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 -Alvará n.º 871

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Newton F. Bittencourt e a Casa da Rua José Loureiro — Uma História de Simplicidade, Dignidade e Desaparecimento

Por uma voz que resiste ao esquecimento


1. O Homem e Seu Lar — Newton F. Bittencourt, em 1934

Em 27 de novembro de 1934, em pleno coração da Grande Depressão — mas também no auge do desenvolvimento urbano de Curitiba — um homem chamado Newton F. Bittencourt tomou uma decisão que ecoaria por décadas: encomendar o projeto de sua casa.

Não era uma mansão. Não era um palacete. Era uma residência de pequeno porte, de 100 metros quadrados, em um único pavimento, na Rua José Loureiro, no centro da cidade. Mas, para Newton, era tudo o que precisava: um lugar para viver com dignidade, com privacidade, com orgulho.

Pouco se sabe sobre sua vida pessoal — se tinha esposa, filhos, profissão — mas o fato de ter contratado um arquiteto em uma época em que muitos ainda construíam por conta própria revela algo importante: Newton valorizava a qualidade, a forma, a beleza — mesmo na simplicidade.

O profissional escolhido foi Eduardo Fernandes Chaves, nome respeitado na arquitetura curitibana da primeira metade do século XX, filho do renomado Gastão Chaves. A prancha assinada por ele trazia, com clareza técnica e elegância gráfica, tudo o que a casa de Newton precisava: planta do pavimento térreo, implantação no terreno, corte, fachada frontal e laterais.

E em dezembro de 1934, a cidade oficializou seu sonho: o Alvará de Construção nº 871 foi emitido, autorizando a edificação.


2. A Casa — 100 m² de Alvenaria, Equilíbrio e Vida Cotidiana

A casa projetada para Newton era modesta, mas não era pobre. Era compacta, mas bem pensada.

Feita em alvenaria de tijolos — o material de escolha da classe média urbana na época —, contava com:

  • Um único pavimento, ideal para quem buscava praticidade.
  • Cômodos distribuídos com eficiência: provavelmente sala, dois quartos, cozinha, área de serviço e banheiro.
  • Janelas estratégicas, garantindo ventilação cruzada e iluminação natural — essenciais em Curitiba, com seu clima úmido e fresco.
  • Uma fachada sóbria, mas com detalhes arquitetônicos típicos da década de 1930: molduras, peitoris, talvez um pequeno alpendre.

A implantação no terreno mostrava respeito pela vizinhança e pelas normas urbanas — recuos definidos, orientação solar considerada, acesso funcional.

Essa era a casa do homem comum que não se conformava com o medíocre. Era a casa de quem queria um lar, não apenas um abrigo.


3. A Rua José Loureiro — Entre o Centro Urbano e a Vida Familiar

A Rua José Loureiro, no centro de Curitiba, era — e ainda é — uma via histórica. Localizada a poucos quarteirões da Praça Tiradentes, era cercada por comércios, escritórios, igrejas e, também, por residências de classe média.

Viver ali significava estar próximo ao pulsar da cidade, mas ainda manter um espaço íntimo, familiar. Era o equilíbrio ideal entre o público e o privado.

Newton, ao escolher essa rua, demonstrou que desejava participar da vida urbana, sem renunciar à paz de um lar próprio. Talvez fosse comerciante, funcionário público, professor — alguém cujo trabalho o mantinha no centro, mas cujo coração ansiava por uma casa ao fim do dia.


4. A Demolição — O Fim de uma Presença Silenciosa

Em 2012, quase oitenta anos após sua construção, a casa de Newton F. Bittencourt foi demolida.

Não se sabe o porquê. Talvez o terreno tenha se tornado mais valioso do que a edificação. Talvez a casa estivesse em más condições. Talvez ninguém mais soubesse — ou se importasse — que ali vivera um homem chamado Newton, que um dia sonhou com 100 m² de tijolo e telha.

Mas, mesmo desaparecida, sua memória persiste — guardada no Arquivo Público Municipal de Curitiba, em forma de microfilme.

Lá estão:

  • A prancha arquitetônica, com linhas traçadas à mão, com o nome “Sr. Newton F. Bittencourt” destacado com respeito.
  • O Alvará de Construção nº 871, testemunho burocrático de um sonho tornado real.

Esses documentos não são apenas papéis. São santuários da memória.


5. Uma Carta Imaginária — De Newton F. Bittencourt Para o Futuro

*Se um dia alguém ler estas palavras, saiba que esta casa foi minha.

*Não era grande. Não era luxuosa. Mas era minha.

*Nela, talvez tenham nascido meus filhos. Talvez tenhamos jantado em silêncio, ou rido até tarde. Talvez eu tenha consertado o telhado com minhas próprias mãos, ou plantado uma roseira na frente.

*Não importa o que veio depois. O que importa é que, por quase oitenta anos, esta casa existiu. E nela, eu existi.

*Se você hoje passa por aqui e vê um estacionamento, um prédio, um espaço vazio — pare por um instante.

*Respire.

*Lembre-se de mim.

Sou Newton F. Bittencourt.
E esta foi a minha casa.


6. Conclusão — A Beleza do Cotidiano e a Dor do Esquecimento

Newton F. Bittencourt não foi um herói da história oficial. Seu nome não está em ruas, praças ou livros didáticos. Mas ele foi um dos milhares de cidadãos que, com suas escolhas simples e corajosas, construíram Curitiba — tijolo por tijolo, sonho por sonho.

Sua casa, embora pequena, era um ato de resistência contra a provisoriedade. Era a afirmação de que ter um lar é um direito fundamental — e também uma forma de dignidade.

Que a demolição de sua casa, em 2012, não seja o fim da sua história. Que este artigo seja um monumento invisível — feito não de concreto, mas de palavras — erguido em sua homenagem.


Epílogo — O Projeto Como Último Testemunho

A prancha de Eduardo Fernandes Chaves, preservada em microfilme, é hoje o único retrato físico da casa de Newton. Nela, vemos linhas limpas, proporções harmoniosas, um gesto de cuidado.

Mas acima de tudo, vemos humanidade.

Porque por trás de cada planta, há um homem.
Por trás de cada alvará, há um sonho.
E por trás de cada demolição, há uma história que merece ser contada.


Para sempre, Newton F. Bittencourt.
Proprietário da casa na Rua José Loureiro.
Projetada em 27 de novembro de 1934.
Demolida em 2012.
Lembrado em 2025.


Este artigo foi escrito com respeito à memória dos anônimos que construíram nossas cidades — não com mármores, mas com tijolos, suor e esperança.

Carl Chyla e o Bangalô da Rua 15 — Uma História de Sonho, Arquitetura e Perda na Villa Guayra

 Denominação inicial: Projecto de Bungalow para o Snr. Carl Chyla

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: Rua Nº 15 - Villa Guayra

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 240,00 m²
Área Total: 240,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 06/07/1928

Alvará de Construção: Talão Nº 298; N° 687/1928

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de um bangalô.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

1 - GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de Bungalow para o Snr. Carl Chyla na Villa Guayra. Planta dos pavimentos térreo e superior e de implantação, corte e fachadas frontal e lateral apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

Carl Chyla e o Bangalô da Rua 15 — Uma História de Sonho, Arquitetura e Perda na Villa Guayra

Por uma voz que resgata o que o tempo tentou apagar


1. O Homem Por Trás do Projeto — Carl Chyla: Imigrante, Empreendedor, Sonhador

Em 6 de julho de 1928, em Curitiba — ainda uma cidade em formação, entre as colinas e os pinheiros — um projeto arquitetônico foi assinado. Não era apenas um desenho técnico. Era a materialização de um sonho.

O nome do cliente? Carl Chyla.

Pouco se sabe sobre ele nos registros públicos — mas sua presença ecoa nas linhas limpas de um bangalô projetado para a Villa Guayra, em um dos bairros mais charmosos e exclusivos da Curitiba da década de 1920. Carl não era apenas um morador qualquer. Ele era um homem que escolheu investir em sua casa — em sua identidade, em seu lugar no mundo.

Imigrante? Talvez. Empresário? Quase certamente. Afinal, encomendar um projeto arquitetônico completo — com planta, cortes, fachadas, implantação — em 1928 não era algo ao alcance de todos. Era um ato de status, de visão, de amor pelo lar.

Carl Chyla queria mais do que uma casa. Ele queria um refúgio. Um espaço que refletisse sua personalidade, sua cultura, sua posição social. E, para isso, contratou Gastão Chaves & Cia. — um dos escritórios mais respeitados da época, responsável por moldar a paisagem urbana curitibana com elegância e funcionalidade.


2. O Projeto — Um Bangalô de Dois Pavimentos, Alvenaria de Tijolos, 240m² de Puro Charme

O projeto, datado de 06/07/1928, previa a construção de um bangalô de dois pavimentos, com área total de 240,00 m² — um tamanho considerável para a época, especialmente em um bairro residencial como a Villa Guayra.

A técnica construtiva escolhida? Alvenaria de tijolos — material nobre, durável, térmico, que conferia solidez e beleza à estrutura. Em tempos em que muitas casas ainda eram de madeira ou taipa, o uso de tijolos era um sinal de modernidade e permanência.

As plantas incluíam:

  • Pavimento térreo: provavelmente sala, jantar, cozinha, quarto de serviço e banheiro.
  • Pavimento superior: quartos, possivelmente um banheiro privativo e varanda.
  • Fachada frontal e lateral: com linhas retas, janelas generosas, telhado inclinado — típico do estilo “bangalô”, que combinava simplicidade com conforto.
  • Corte arquitetônico: mostrando a distribuição vertical do espaço, com escada interna e altura adequada aos cômodos.
  • Implantação: indicando a posição da casa no terreno, com relação às ruas e vizinhos — cuidado essencial em um bairro planejado como a Villa Guayra.

O alvará de construção foi emitido em 1928, sob o talão nº 298, número 687 — prova de que o projeto foi aprovado pela prefeitura e que a obra estava destinada a ser realidade.


3. A Villa Guayra — O Bairro dos Sonhos da Curitiba Moderna

A Villa Guayra — hoje parte do bairro do Batel — era, na década de 1920, um dos bairros mais desejados da cidade. Planejado com ruas largas, lotes amplos e infraestrutura moderna, era o refúgio dos curitibanos abastados, dos profissionais liberais, dos imigrantes de sucesso.

Morar na Villa Guayra era sinônimo de prestígio. E a Rua 15 — onde seria erguido o bangalô de Carl Chyla — era uma das vias mais tranquilas e arborizadas do bairro. Ali, cercado por árvores, jardins e casas elegantes, Carl escolheu construir seu lar.

Imagine-o caminhando pela rua, observando a obra avançar — os tijolos sendo assentados, as vigas sendo colocadas, as janelas sendo instaladas. Talvez tenha sonhado com festas no jardim, com crianças brincando na varanda, com tardes de leitura no sofá da sala.

Seu bangalô não era apenas uma construção. Era uma declaração de vida.


4. A Demolição — Quando o Passado é Apagado

Mas tudo tem fim.

Em 2012, o bangalô de Carl Chyla — que havia resistido por mais de 80 anos — foi demolido.

Não há registros claros sobre o motivo. Talvez o terreno tenha sido vendido para um empreendimento imobiliário. Talvez a casa estivesse deteriorada, sem condições de restauração. Talvez ninguém mais se lembrasse de quem foi Carl Chyla — e, portanto, sua casa não tinha valor histórico.

O que restou? Apenas o projeto arquitetônico, preservado no Arquivo Público Municipal de Curitiba, em microfilme digitalizado. Uma prancha de papel, com linhas desenhadas à mão, com anotações em caligrafia antiga, com o nome “Snr. Carl Chyla” escrito com orgulho.

É triste pensar que, enquanto edifícios modernos surgem no local, a história foi enterrada junto com os tijolos. Mas também é belo saber que, mesmo assim, a memória de Carl Chyla ainda vive — nas páginas do arquivo, nas linhas do projeto, nas palavras deste artigo.


5. Uma Carta Imaginária — De Carl Chyla Para Seus Futuros Vizinhos

Queridos vizinhos do futuro,

Se vocês estão lendo estas palavras, é porque minha casa já não está mais aqui. Mas eu espero que, ao olharem para o terreno onde ela foi construída, sintam algo — um eco, uma presença, uma história.

Eu fui Carl Chyla. Imigrante? Sim. Sonhador? Sem dúvida. Eu quis deixar minha marca nesta cidade — não com riqueza, mas com cuidado. Com amor. Com um bangalô feito de tijolos, com janelas que olham para o céu, com paredes que guardam memórias.

Hoje, talvez haja um prédio no lugar da minha casa. Ou uma loja. Ou um estacionamento. Mas eu peço: não esqueçam que, antes de tudo isso, houve um homem que sonhou, que construiu, que viveu.

E se algum dia alguém perguntar quem foi Carl Chyla, digam: “Foi um homem que amou sua casa. Que escolheu viver com dignidade. Que deixou um projeto — e, através dele, uma história.”

Com gratidão, Carl


6. Conclusão — Honrando Carl Chyla: Mais Que um Nome, É um Legado

Carl Chyla não foi um político, um artista, um industrial. Ele foi um morador comum — mas sua história é extraordinária.

Ele confiou em arquitetos. Ele investiu em sua casa. Ele escolheu viver com estilo, com conforto, com propósito. E, mesmo tendo desaparecido da face da Terra, ele ainda existe — no projeto que sobreviveu ao tempo, no endereço que ainda pode ser visitado, na memória que este artigo busca reacender.

Que sua história sirva de inspiração — para que não apaguemos mais o passado. Para que respeitemos as casas, os bairros, as histórias que nos precedem. Para que, ao caminhar pela Rua 15, na Villa Guayra, pensemos: “Aqui, um dia, viveu Carl Chyla. E ele fez questão de deixar sua marca.”


Epílogo — O Projeto Como Testemunha

A prancha arquitetônica de Gastão Chaves & Cia. não é apenas um documento técnico. É um testemunho. É uma ponte entre 1928 e 2025. É a prova de que, mesmo quando as casas caem, as histórias podem ser salvas — se alguém se importar em contá-las.


Para sempre, Carl Chyla.
Cliente do projeto de bangalô na Rua 15, Villa Guayra.
Construído em 1928. Demolido em 2012.
Lembrado em 2025.


Este artigo foi escrito com respeito, pesquisa e admiração por um homem cujo nome quase foi esquecido — mas cuja história merece ser contada.