quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Igreja Nossa Senhora Aparecida no Barigui: Um Santuário de Fé às Margens do Rio

 Denominação inicial: Mitra do Arcebispado de Curitiba - Igreja do Barigui

Denominação atual: Igreja Nossa Senhora Aparecida

Categoria (Uso): Instituição Religiosa
Subcategoria:

Endereço: Barigui do Batel, próximo a ponte

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 350,00 m²
Área Total: 350,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 07/05/1941

Alvará de Construção: N° 5360/1941

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de uma Igreja, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Existente


Imagens

1 – Projeto Arquitetônico com fachada principal e planta baixa da igreja.
2 - Fachada lateral da igreja.
3 - Planta com Corte A-B.
4 – Planta com Corte C-D.
5 – Alvará de Construção.
6 – Fotografia da igreja em 2011.

Referências: 

1 - 2 - 3 e 4 - CHAVES, Eduardo Fernando. Igreja Nossa Senhora de Aparecida. Barigui - Curitiba. Perspectiva da fachada principal e planta do pavimento térreo; fachada lateral; cortes A-B e implantação; corte C-D, representados em quatro pranchas. Microfilme digitalizado.
5 - Alvará nº 5360
6 – Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Igreja Nossa Senhora Aparecida no Barigui: Um Santuário de Fé às Margens do Rio

Nas margens serenas do Rio Barigui, próximo à antiga ponte que ligava os bairros emergentes de Curitiba na primeira metade do século XX, ergue-se uma pequena mas significativa casa de oração: a Igreja Nossa Senhora Aparecida, originalmente concebida como a Mitra do Arcebispado de Curitiba – Igreja do Barigui. Mais do que um templo, é um testemunho da expansão da fé católica para além do centro histórico da cidade — um marco de espiritualidade em meio à natureza e ao crescimento urbano.


Origens: Uma Capela para uma Comunidade em Formação

Em 7 de maio de 1941, o engenheiro Eduardo Fernando Chaves assinou o projeto arquitetônico de uma igreja destinada a atender os moradores da região conhecida como Barigui do Batel — área ainda rural ou semi-rural na época, marcada por chácaras, riachos e o majestoso curso d’água que daria nome ao futuro parque mais icônico de Curitiba.

A iniciativa partiu diretamente do Arcebispado de Curitiba, que via naquela localização estratégica — próxima à ponte sobre o Rio Barigui, ponto de passagem entre zonas urbanas em desenvolvimento — a oportunidade de estabelecer uma presença pastoral sólida. Por isso, a denominação inicial incluía a palavra “Mitra”, termo canônico que designa a sede administrativa e simbólica de um bispo, indicando que a igreja tinha status especial dentro da estrutura diocesana, mesmo que modesta em tamanho.

O alvará de construção, de número 5360/1941, autorizou a edificação de um templo de um único pavimento, com 350 m² de área total, construído em alvenaria de tijolos — técnica tradicional, duradoura e acessível, perfeita para uma comunidade em formação.


Arquitetura: Simplicidade com Sacralidade

O projeto, registrado em quatro pranchas detalhadas, revela um templo de linhas clássicas e proporções harmoniosas, pensado para a intimidade da oração e a solenidade do culto:

  • A fachada principal apresenta um frontão central modesto, porta de entrada única (símbolo da “porta da fé”), e aberturas laterais que garantem iluminação natural ao interior.
  • A planta baixa organiza o espaço de forma clara: nave central, capela-mor levemente recuada, e áreas laterais possivelmente destinadas a confessionários ou pequenos altares.
  • Os cortes A-B e C-D mostram um pé-direito elevado, típico de igrejas, que cria sensação de verticalidade e transcendência, mesmo em uma construção de apenas um andar.
  • A implantação no terreno, próxima à ponte, sugere que a igreja foi pensada como ponto de referência visual e espiritual para quem atravessava o rio.

Apesar de sua simplicidade, não há rusticidade: há intencionalidade. Cada traço busca equilibrar funcionalidade litúrgica, economia de recursos e beleza sacra.


Devoção Popular: A Padroeira do Brasil no Coração do Paraná

Embora tenha sido inicialmente vinculada à administração arquidiocesana como “Igreja do Barigui”, o templo logo adotou — ou teve atribuída — a invocação de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil desde 1930. Essa escolha reflete tanto a devoção mariana profundamente enraizada no catolicismo brasileiro quanto o desejo de criar um elo afetivo com os fiéis migrantes, muitos vindos do interior do Paraná ou de outros estados, onde a devoção à “Nossa Mãe Aparecida” era (e é) fervorosa.

Assim, a igreja tornou-se não apenas um lugar de missa, mas um santuário de acolhimento: para famílias que chegavam à capital em busca de trabalho, para pescadores que rezavam pelas águas do Barigui, para casais que ali selavam matrimônios, e para crianças que recebiam o batismo sob o olhar da Virgem Morena.


Preservação e Continuidade

Em 2012, conforme registros oficiais, a igreja permanecia existente e em uso, mantendo sua função religiosa plena. Uma fotografia tirada por Elizabeth Amorim de Castro naquele ano mostra o edifício bem conservado, com sua fachada intacta, telhado em bom estado e entorno cuidado — sinal de que a comunidade local continuava a zelar por seu patrimônio espiritual.

Diferentemente de tantos templos demolidos ou abandonados, a Igreja Nossa Senhora Aparecida no Barigui resistiu ao tempo, às pressões imobiliárias e às transformações urbanas que engoliram boa parte de suas redondezas com condomínios e vias expressas.


Legado: Fé às Margens do Rio

Hoje, cercada pelo progresso, a igreja permanece como um oásis de silêncio e oração junto ao Rio Barigui — agora integrado ao Parque Barigui, um dos pulmões verdes mais amados de Curitiba. Quem caminha pelas trilhas do parque e se desvia ligeiramente encontra, entre árvores e o canto dos sabiás, esse pequeno templo de tijolos que, desde 1941, guarda as preces de gerações.

Não é uma catedral. Não tem torres altas nem vitrais coloridos. Mas tem algo talvez mais precioso: continuidade, devoção e pertencimento.


Epílogo: Onde o Rio Encontra a Oração

Enquanto o Barigui flui, a igreja permanece.
Enquanto os fiéis rezam, a memória vive.
E enquanto houver alguém que cruze a ponte e levante os olhos para aquele teto simples, saberá: ali, no coração verde da cidade, Deus também habita.


"Nem todo santuário precisa de cúpulas; alguns bastam ter um sino, uma imagem e um coração aberto."


Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman: Um Sonho Educacional Judáico em Curitiba, Efêmero mas Inesquecível

 Denominação inicial: Projéto para Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman

Denominação atual:

Categoria (Uso): Ensino
Subcategoria: Instituição Religiosa

Endereço: Rua Lourenço Pinto s/n

Número de pavimentos:
Área do pavimento: 640,00 m²
Área Total: 640,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 07/03/1935

Alvará de Construção: Nº 1063/1935

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção da Escola, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1- Projeto Arquitetônico.
2 – Alvará de Construção.
3 – Fotografia da escola. s/d.
4 – Detalhe da fachada da escola. s/d.

Referências: 

1 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para Escola Israelita Salomão Guelmman. Plantas dos pisos térreo e superior, fachada principal, corte, implantação e muro apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 1063
3 e 4 – Fotografias cedidas pelo Instituto Schulman.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba; Instituto Schulman.

Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman: Um Sonho Educacional Judáico em Curitiba, Efêmero mas Inesquecível

No cruzamento entre memória e ausência, ergue-se — ou melhor, erguia-se — na Rua Lourenço Pinto, sem número, um marco silencioso da diversidade cultural de Curitiba: a Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. Embora seu corpo físico tenha sido demolido, sua existência permanece gravada nos arquivos, nas fotografias envelhecidas e no legado de uma comunidade que, mesmo minoritária, soube plantar raízes profundas na terra paranaense.


Um Projeto de Fé, Identidade e Futuro

Em 7 de março de 1935, o engenheiro Eduardo Fernando Chaves assinou os traços de um sonho coletivo: o projeto arquitetônico para a construção da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. O nome homenageava, com certeza, um dos pilares da comunidade judaica local — possivelmente um benfeitor, líder ou educador cujo legado merecia ser perpetuado nas salas de aula.

O alvará de construção, de número 1063/1935, autorizou a edificação de um prédio modesto, porém simbolicamente poderoso: 640 m² de área total, distribuídos em dois pavimentos (térreo e superior), construído em alvenaria de tijolos, técnica comum à época, mas carregada de solidez e permanência.

A localização — Rua Lourenço Pinto, via central do bairro São Francisco, próximo ao coração administrativo e comercial de Curitiba — não foi escolhida por acaso. Refletia o desejo da comunidade judaica de estar presente, visível e integrada na vida urbana, ao mesmo tempo em que mantinha sua identidade religiosa e cultural.


Arquitetura da Integração

O projeto original, registrado em uma única prancha detalhada, incluía:

  • planta do pavimento térreo (com prováveis salas de aula, escritórios e entrada principal),
  • planta do pavimento superior (talvez destinado a atividades complementares, biblioteca ou dormitórios para professores),
  • fachada principal, de linhas sóbrias e equilibradas, sem ostentação religiosa explícita — coerente com a discrição típica das instituições judaicas no Brasil da primeira metade do século XX,
  • corte arquitetônico, revelando pé-direito generoso e ventilação natural,
  • implantação no terreno e projeto de muro de fechamento, garantindo privacidade sem isolamento.

Não havia estrelas de Davi ostensivas nem símbolos externos marcantes — a identidade judaica manifestava-se no interior: nas orações matinais, nas aulas de hebraico, na celebração do Shabat e na ética transmitida aos alunos. A escola era, antes de tudo, um espaço de formação integral, onde se ensinava tanto matemática quanto tzedaká (justiça social).


Fotografias que Sobreviveram à Demolição

As imagens cedidas pelo Instituto Schulman, guardião da memória judaica no Paraná, mostram um edifício de aparência simples, mas bem cuidado. A fachada, retratada em detalhe, exibia janelas simétricas, portas robustas e um pequeno frontão central — elementos que conferiam dignidade sem grandiloquência.

Embora não se saiba ao certo por quantas décadas a escola funcionou, é provável que tenha atendido à crescente comunidade judaica curitibana durante os anos 1930, 1940 e talvez até meados do século. Com o tempo, mudanças demográficas, migrações internas (como o deslocamento da população judaica para bairros como o Batel) e a consolidação de outras instituições — como o Colégio Isaac Newton, fundado posteriormente — podem ter levado ao seu fechamento.

Em 2012, o prédio já não existia mais. Foi demolido, provavelmente substituído por um empreendimento comercial ou residencial, comum na região central de Curitiba nas últimas décadas.


Salomão Guelmman: Quem Foi?

Embora os registros históricos sobre Salomão Guelmman sejam escassos, seu nome ligado a uma escola israelita sugere que foi uma figura de destaque na comunidade judaica paranaense. Pode ter sido um imigrante judeu — talvez da Europa Oriental, como muitos que chegaram ao Brasil fugindo do antissemitismo — que investiu na educação como forma de assegurar futuro às novas gerações.

Homenageá-lo com uma escola era mais do que um tributo: era um ato de resistência cultural. Num Brasil ainda marcado por certa homogeneidade católica, criar uma instituição de ensino judaica era afirmar: "Estamos aqui. Pertencemos. E vamos ensinar nossos filhos a serem brasileiros e judeus ao mesmo tempo."


Legado na Ausência

Hoje, nada resta fisicamente da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. Mas sua memória persiste:

  • nos microfilmes do projeto arquitetônico,
  • no alvará nº 1063/1935,
  • nas fotografias preservadas pelo Instituto Schulman,
  • e, sobretudo, na história da diversidade religiosa de Curitiba.

Sua demolição não apaga seu significado. Pelo contrário: torna ainda mais urgente o resgate de histórias como essa — histórias de minorias que, com coragem e visão, contribuíram para tecer o mosaico multicultural da capital paranaense.


Epílogo: Onde Estudaram os Filhos de Abrahão?

Ninguém mais atravessa os portões da Rua Lourenço Pinto para entrar na Escola Salomão Guelmman. Mas, em algum lugar de Curitiba, um neto de um antigo aluno talvez leia um livro em hebraico, participe de uma celebração de Purim ou ensine aos seus filhos o valor do Talmud Torá — o estudo contínuo da sabedoria.

E, nesse gesto, o espírito daquela pequena escola de tijolos continua vivo.


"Alguns edifícios são feitos de concreto; outros, de memória. E os segundos jamais caem."