quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman: Um Sonho Educacional Judáico em Curitiba, Efêmero mas Inesquecível

 Denominação inicial: Projéto para Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman

Denominação atual:

Categoria (Uso): Ensino
Subcategoria: Instituição Religiosa

Endereço: Rua Lourenço Pinto s/n

Número de pavimentos:
Área do pavimento: 640,00 m²
Área Total: 640,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 07/03/1935

Alvará de Construção: Nº 1063/1935

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção da Escola, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1- Projeto Arquitetônico.
2 – Alvará de Construção.
3 – Fotografia da escola. s/d.
4 – Detalhe da fachada da escola. s/d.

Referências: 

1 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para Escola Israelita Salomão Guelmman. Plantas dos pisos térreo e superior, fachada principal, corte, implantação e muro apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 1063
3 e 4 – Fotografias cedidas pelo Instituto Schulman.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba; Instituto Schulman.

Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman: Um Sonho Educacional Judáico em Curitiba, Efêmero mas Inesquecível

No cruzamento entre memória e ausência, ergue-se — ou melhor, erguia-se — na Rua Lourenço Pinto, sem número, um marco silencioso da diversidade cultural de Curitiba: a Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. Embora seu corpo físico tenha sido demolido, sua existência permanece gravada nos arquivos, nas fotografias envelhecidas e no legado de uma comunidade que, mesmo minoritária, soube plantar raízes profundas na terra paranaense.


Um Projeto de Fé, Identidade e Futuro

Em 7 de março de 1935, o engenheiro Eduardo Fernando Chaves assinou os traços de um sonho coletivo: o projeto arquitetônico para a construção da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. O nome homenageava, com certeza, um dos pilares da comunidade judaica local — possivelmente um benfeitor, líder ou educador cujo legado merecia ser perpetuado nas salas de aula.

O alvará de construção, de número 1063/1935, autorizou a edificação de um prédio modesto, porém simbolicamente poderoso: 640 m² de área total, distribuídos em dois pavimentos (térreo e superior), construído em alvenaria de tijolos, técnica comum à época, mas carregada de solidez e permanência.

A localização — Rua Lourenço Pinto, via central do bairro São Francisco, próximo ao coração administrativo e comercial de Curitiba — não foi escolhida por acaso. Refletia o desejo da comunidade judaica de estar presente, visível e integrada na vida urbana, ao mesmo tempo em que mantinha sua identidade religiosa e cultural.


Arquitetura da Integração

O projeto original, registrado em uma única prancha detalhada, incluía:

  • planta do pavimento térreo (com prováveis salas de aula, escritórios e entrada principal),
  • planta do pavimento superior (talvez destinado a atividades complementares, biblioteca ou dormitórios para professores),
  • fachada principal, de linhas sóbrias e equilibradas, sem ostentação religiosa explícita — coerente com a discrição típica das instituições judaicas no Brasil da primeira metade do século XX,
  • corte arquitetônico, revelando pé-direito generoso e ventilação natural,
  • implantação no terreno e projeto de muro de fechamento, garantindo privacidade sem isolamento.

Não havia estrelas de Davi ostensivas nem símbolos externos marcantes — a identidade judaica manifestava-se no interior: nas orações matinais, nas aulas de hebraico, na celebração do Shabat e na ética transmitida aos alunos. A escola era, antes de tudo, um espaço de formação integral, onde se ensinava tanto matemática quanto tzedaká (justiça social).


Fotografias que Sobreviveram à Demolição

As imagens cedidas pelo Instituto Schulman, guardião da memória judaica no Paraná, mostram um edifício de aparência simples, mas bem cuidado. A fachada, retratada em detalhe, exibia janelas simétricas, portas robustas e um pequeno frontão central — elementos que conferiam dignidade sem grandiloquência.

Embora não se saiba ao certo por quantas décadas a escola funcionou, é provável que tenha atendido à crescente comunidade judaica curitibana durante os anos 1930, 1940 e talvez até meados do século. Com o tempo, mudanças demográficas, migrações internas (como o deslocamento da população judaica para bairros como o Batel) e a consolidação de outras instituições — como o Colégio Isaac Newton, fundado posteriormente — podem ter levado ao seu fechamento.

Em 2012, o prédio já não existia mais. Foi demolido, provavelmente substituído por um empreendimento comercial ou residencial, comum na região central de Curitiba nas últimas décadas.


Salomão Guelmman: Quem Foi?

Embora os registros históricos sobre Salomão Guelmman sejam escassos, seu nome ligado a uma escola israelita sugere que foi uma figura de destaque na comunidade judaica paranaense. Pode ter sido um imigrante judeu — talvez da Europa Oriental, como muitos que chegaram ao Brasil fugindo do antissemitismo — que investiu na educação como forma de assegurar futuro às novas gerações.

Homenageá-lo com uma escola era mais do que um tributo: era um ato de resistência cultural. Num Brasil ainda marcado por certa homogeneidade católica, criar uma instituição de ensino judaica era afirmar: "Estamos aqui. Pertencemos. E vamos ensinar nossos filhos a serem brasileiros e judeus ao mesmo tempo."


Legado na Ausência

Hoje, nada resta fisicamente da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmman. Mas sua memória persiste:

  • nos microfilmes do projeto arquitetônico,
  • no alvará nº 1063/1935,
  • nas fotografias preservadas pelo Instituto Schulman,
  • e, sobretudo, na história da diversidade religiosa de Curitiba.

Sua demolição não apaga seu significado. Pelo contrário: torna ainda mais urgente o resgate de histórias como essa — histórias de minorias que, com coragem e visão, contribuíram para tecer o mosaico multicultural da capital paranaense.


Epílogo: Onde Estudaram os Filhos de Abrahão?

Ninguém mais atravessa os portões da Rua Lourenço Pinto para entrar na Escola Salomão Guelmman. Mas, em algum lugar de Curitiba, um neto de um antigo aluno talvez leia um livro em hebraico, participe de uma celebração de Purim ou ensine aos seus filhos o valor do Talmud Torá — o estudo contínuo da sabedoria.

E, nesse gesto, o espírito daquela pequena escola de tijolos continua vivo.


"Alguns edifícios são feitos de concreto; outros, de memória. E os segundos jamais caem."

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