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terça-feira, 26 de maio de 2026

Publicado em 27 de novembro de 1971: Há 240 anos se procura uma fortuna submersa no porto de Paranaguá, no Paraná.

 Publicado em 27 de novembro de 1971:


Há 240 anos se procura uma fortuna submersa no porto de Paranaguá, no Paraná.











AQUI ESTÁ O OURO DOS PIRATAS

Na Ponta da Cruz, a poucos metros da ilha da Cotinga, e de onde se avista a cidade e o porto de Paranaguá, cinco homens vivem sobre uma draga há dois meses. Eles procuram um tesouro. Duzentos mil cruzados, o que representa uma tonelada de ouro, e objetos de valor histórico.

Revivem assim uma aventura iniciada em 1731 quando escravos búzios mergulhavam até a morte à procura do mesmo tesouro. Os escravos foram mais felizes e sem os modernos equipamentos de mergulho conseguiram tirar do fundo do mar peças de artilharia e um cofre com 14 mil cruzados.

A mesma aventura, o sonho de riquezas, teve início e fim no dia 9 de março de 1718 quando um corsário francês, conhecido nos mares do Sul pela sua atrocidade, perseguição a um galeão espanhol que vinha de Valparaíso, no Chile, carregado de prata e que fazia escala em Paranaguá para reabastecimento. O pirata francês, cujo nome os historiadores não guardaram, vinha num grande navio — de cerca de 50 a 80 metros de comprimento — dezenas de canhões (já foram retirados 30 do fundo do mar) e uma tripulação de 200 homens. O barco corsário já vinha com considerável carga: além dos 14 mil cruzados retirados de um cofre, levava perfume, cachimbos, mantimento de rum e outras mercadorias conseguidas em saques de navios da época. Mas uma revelação mais preciosa foi descoberta recentemente e inspirou, há dois meses, um homem, Roberto de Aquino Lordy, a reiniciar as buscas, iniciadas em 1963. Lordy, nascido em 1923, é filho de um catedrático de Medicina da Universidade de São Paulo, bisneto de um conselheiro de D. Pedro II e teve uma vida cheia de aventuras: garimpou em Goiás, procurou tesouros em Minas e no interior da Bahia. Estudou mineralogia mas não terminou o curso em Belo Horizonte. Depois de pesquisar o fundo do mar da baía de Paranaguá, Lordy quando estudava documentos do século XVIII, no Museu Ultramarino, do Porto, em Portugal, encontrou cartas revelando que o corsário francês carregava duzentos mil cruzados, além do pequeno cofre retirado pelos búzios há dois séculos e meio.

Quando Roberto de Aquino Lordy começou as pesquisas na Ponta da Cruz, a 29 de junho de 1963, havia apenas algumas esperanças de se encontrar o ouro, com base na data do naufrágio e nas narrativas de escritores paranaenses. Mas documentos valiosos encontrados no Museu Ultramarino deram novas esperanças. Esses documentos, na maior parte cartas escritas pelos administradores de Paranaguá ao capitão-general da Capitania de São Paulo e deste para D. João V, comprovavam a existência de um carregamento de ouro a bordo do navio pirata naufragado.

Em 1731, por ordem do então Capitão-General Antônio da Silva Caldeira Pimentel, administrador da Capitania de São Paulo, foram feitas pesquisas com escravos búzios.

A pesquisa foi chefiada por João de Araújo e Silva, que por ordem da Capitania teria que dividir os achados com a Fazenda Real.

A ordem era de 26 de maio de 1722, mas só em 1731 é que foram começadas as buscas. Depois de um mês, encontrou-se um cofre com moedas de ouro e prata de vários países, no total de quatorze mil cruzados.

Lordy se encheu de entusiasmo ao encontrar a carta que narrava a D. João V que “por informações tiradas de pessoas que tinham andado no próprio barco, concluí que aquele não era o maior cofre, contudo o trabalho dificultado pela profundidade a que o navio se encontra e pelo lodo... têm-se tirado bastante armas e até peças de artilharia. Para a descoberta do cofre maior, estão esperançados nas marés do mês de agosto, por serem mais baixas”. Essa carta era datada de 5 de junho de 1731. Depois a correspondência cessou.

Os documentos da época revelam também o naufrágio do corsário francês. Antônio Vieira dos Santos, em Memórias Históricas da Cidade de Paranaguá e Seu Município, de 1850, descreve o corsário francês como um habitual pirata que sulcava os mares do Sul e foi atraído a Paranaguá à caça de um galeão espanhol.

Sabendo que o galeão espanhol levava considerável carga de prata, o corsário francês fundeou o seu navio na parte de fora da ilha da Cotinga. O galeão espanhol que se achava fundeado no porto da mesma ilha, percebendo a entrada do pirata que o vinha seguindo, a toda pressa levantou ferro e se refugiou no porto de Nossa Senhora, a pouca distância dali. Mas como o vento escasseasse, o navio pirata voltou a fundear na ponta da ilha, na parte de fora. O navio pirata causou pânico também à população de Paranaguá, que foi implorar a proteção da Padroeira, Nossa Senhora do Rocio. Os moradores esperavam que com o primeiro vento os piratas saqueariam a cidade “e como esta vila se achasse sem nenhuma defesa, nem o povo ainda estivesse exercitado em armas, recorreram à proteção de sua padroeira para que os defendesse daqueles piratas”, narra Antônio Vieira dos Santos. O tempo, que estava calmo, de repente escureceu e um furacão, sem dar tempo aos piratas, jogou o navio corsário de encontro a três pedras submersas, próximo do local onde estava fundeado. O navio foi logo a pique rompendo-se o seu casco. Os historiadores não citam o destino dos piratas. Foram encontradas ossadas, mas até agora somente de vacas, que eram transportadas no navio. A população de Paranaguá, cessada a fúria dos ventos, voltou a agradecer a sua santa, considerando o fenômeno como o milagre implorado. Agora, depois de dois meses de pesquisa, já foram encontrados objetos animadores: medidores de ouro em pó e compassos de navegação, dando a entender que os mergulhadores estão chegando perto do compartimento da preciosa carga. Como há muito lodo sobre o casco do navio, o trabalho desses últimos dias consiste em dragar o local.

A draga foi montada por um dos três sócios da empreitada: Hermínio Brunato Filho (proprietário de uma empresa de ônibus em Curitiba), seu cunhado José Luís Franceschi, e Roberto de Aquino Lordy. Os trabalhos estão sendo realizados também com o auxílio de Jaco Goossen, descendente de flamengos, que deixou sua pequena indústria de muros pré-fabricados em Curitiba para viver na draga, e de Bertino Henttemann, um jovem que se aventurou na procura do ouro depois de servir na EOEIG. Os pesquisadores, que se revezam no trabalho de homens-rãs, vivem praticamente na draga e contam com uma lancha e um pequeno iate para transportar a carga que vão retirando. O trabalho agora é romper o casco do navio, a 16 metros de profundidade, tirando grandes pranchas de carvalho, ainda em bom estado. Pela draga estão sendo retirados pequenos objetos como balas e pistola, em grande quantidade, vidros de perfume, pedaços de rarrafas de rum, medidores de ouro em pó, utensílios de cozinha, pedaços de armamentos, etc. Antes foram retirados 30 canhões e uma estátua de Nossa Senhora da Vitória, que foi doada à catedral de Notre Dame, de Paris. Levando vantagem sobre os mergulhadores do século XVIII, com os equipamentos de mergulho e a draga, os pesquisadores esperam em pouco tempo penetrar no navio naufragado e encontrar o cofre com uma tonelada de ouro.

Fonte: Manchete - Rio de Janeiro/RJ, 27 de novembro de 1971, ed. 1.023, páginas 143 à 147.

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