domingo, 16 de agosto de 2026

Manuel Preto: O Temido Bandeirante e a Destruição das Reduções do Guairá

 

Manuel Preto, escultura de Adrien Henri Vital van Emelen, acervo do Museu Paulista.
Rio Tietê, próximo à Freguesia do Ó

Manuel Preto (ca. 15831630) foi um bandeirante paulista. Era filho de António Preto, português que veio na armada de Diogo Flores de Valdés em 1582, e irmão de Sebastião Preto, tendo casado com Águeda Rodrigues, filha do português Gonçalo Madeira e de Clara Parente.[1] Herdou dos pais uma gleba de terras a noroeste do centro da vila, que daria origem ao atual bairro da Freguesia do Ó na cidade de São Paulo.

História

Dos maiores sertanistas de São Paulo no século XVII, desde 1602 (quando, adolescente, fez parte da bandeira de Nicolau Barreto) caçava índios para escravizar. Diz a «Genealogia Paulistana» que foi «destemido explorador, que penetrou o sertão do Rio Grande (rio Paraná nos mapas castelhanos), os do rio Paraguai e a sua província, chegando até o rio Uruguai em conquista de índios bravios, e chegou a prender tantos que em sua fazenda de cultura fundada em 1580 na capela de Nossa Senhora da Expectação do Ó contava com 999 índios de arco e flechas. Foi ele o fundador dessa capela, entre 1610 e 1615 (hoje freguesia do Ó).»

Pátio do Colégio, centro de São Paulo, pintado por Benedito Calixto.

Levando 155 índios escravizados, saiu pelo rio Tamanduateí, entrando pelo rio Tietê, até o começo de suas terras. Em 1606 percorreu o Guairá e ao regressar de Vila Real do Espírito Santo, arrebanhou índios temiminós pacíficos, que trouxe para São Paulo. Nos anos seguintes continuou nas mesmas paragens.

Casa Grande e Capela do Sítio Santo Antônio, em São Roque, São Paulo. Construída por volta de 1640, é um importante exemplo de casa bandeirista.

Em 1610 requereu à autoridade religiosa da colônia a autorização para erguer uma capela em louvor de Nossa Senhora do Ó.

Igreja Matriz da Freguesia do Ó, onde Manuel Preto construiu a primeira capela.

Em 1619 a bandeira da qual era mestre de campo assaltou as reduções jesuíticas de Jesus Maria, Santo Inácio e Loreto. Em 1623, com seu irmão Sebastião Preto, o mestre de campo Manuel Preto conduziria uma bandeira ao chamado Guairá, «sertão dos abueus», participando dela o já velho bandeirante Francisco de Alvarenga (ver 1602) e Pedro Vaz de Barros. Destruiram reduções jesuíticas e trouxeram numerosa escravaria indigena. Já mestre de campo, Manuel Preto em 1626 foi processado como cabeça de entradas ao sertão e violências no mister, impedido de exercer o cargo de vereador para o qual fora eleito.

Mapa do estado atual do Paraná mostrando a região do Guayrá em marrom. Missões jesuítas estão marcadas com cruzes e assentamentos espanhóis com triângulos. Muitas atacadas e destruídas por bandeiras de Manuel Preto.

No segundo semestre de 1628 saiu de São Paulo em sua maior bandeira, como mestre de campo e capitão-mor, com Antônio Raposo Tavares como seu imediato. Aniquilaram as 13 reduções reduções jesuíticas do Guayrá. Historiadores estimam que até 100 mil índios tenham sido capturados na região.[2] (ver: Missões jesuíticas no oeste do Paraná). Segundo o historiador Afonso d'Escragnolle Taunay, e algumas dos campos do Iguaçu, «recolhendo-se com avultado comboio» avaliado pelos autores jesuíticos em muitos milhares de cativos, o que nos parece inaceitável; seria um milheiro, no máximo dois mil estes prisioneiros. Foi depois de inutilmente tentarem os jesuítas providências da Bahia que «resolveram operar a transmigração do que restava de suas grandes reduções guairenhas para muito ao Sul, na mesopotâmia parano-uruguaia.

O donatário da capitania, D. Álvaro Pires de Castro e Sousa, Conde de Monsanto, considerou tão valiosos seus serviços que lhe deu patente de governador das ilhas de Santana e Santa Catarina.

Os moradores de São Paulo de Piratininga haviam concordado em invadir o Guairá (com o argumento de que a região pertencia a Portugal e o gentio ali existente não podia ser monopolizado pelos espanhóis). A grande expedição da qual o chefe nominal foi Manuel Preto viajou dividida em quatro companhias, das quais foram capitães:

Em maio de 1629 o mestre-de-campo Manuel Preto embarcou por mar para Santa Catarina e ali tomou posse das terras e fundou arraial. Retornou ao mesmo tempo a povoado a bandeira que acabava de arrasar as reduções no Guairá e logo foram organizadas outras expedições, que retornaram à região no mesmo ano e nos seguintes, invadindo o territorio ao Sul do rio Paranapanema e arrasando as demais reduções do Guairá, tendo mesmo que ser evacuadas pelos moradores as vilas espanholas de Vila Rica e de Ciudad Real. Mas Manuel Preto, tranquilamente em Santa Catarina, em 15 de julho de 1629 nomeava Manuel Homem da Costa sargento-mor das ilhas.

Maquete da Villa Rica del Spírictu Santo, no Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo, em Fênix, no Paraná.

A morte de Preto no sertão foi noticiada em São Paulo em 22 de julho de 1630, vítima de uma flecha em uma emboscada. Tinha-se internado nas brenhas no início do ano.

Preto era tido como um homem de ação «nimiamente violenta contra os índios e seus superiores, desconsiderando principalmente os jesuítas Simão Masseta, José Cataldino e Antonio Ruiz de Montoya. Destruiu ainda as reduções no Ivaí, no Tibagi e no Uruguai.

Referências

  1. «Genealogia Paulistana Título Pretos Parte 1». www.arvore.net.br. Consultado em 1 de julho de 2010
  2. Jesuítas salvaram mais de 12 mil índios caiuás, acesso em 7 de agosto de 2017.

Bibliografia


Manuel Preto: O Temido Bandeirante e a Destruição das Reduções do Guairá

Nascido por volta de 1583 e falecido em julho de 1630, Manuel Preto foi um dos mais célebres e temidos sertanistas e bandeirantes paulistas do século XVII. Filho do português António Preto (vindo na armada de Diogo Flores de Valdés em 1582) e herdeiro de vastas terras a noroeste do centro de São Paulo, sua trajetória fundou raízes profundas na história da colonização paulista, estando diretamente associada à escravização indígena em larga escala e à destruição das missões jesuíticas espanholas no sul do continente.

🏛️ Ficha Técnica e Panorama Biográfico

  • Nome Completo: Manuel Preto

  • Nascimento e Morte: ca. 1583 — Sertão (notícia de morte em São Paulo em 22 de julho de 1630)

  • Cônjuge: Águeda Rodrigues (filha de Gonçalo Madeira e Clara Parente)

  • Principais Postos: Mestre de campo, capitão-mor e governador das ilhas de Santana e Santa Catarina.

  • Legado Territorial: Fundador da primeira capela de Nossa Senhora da Expectação do Ó (origem do atual bairro da Freguesia do Ó, em São Paulo).

📜 Trajetória nos Sertões e a Fundação da Freguesia do Ó

A carreira de Manuel Preto nos sertões começou cedo. Na adolescência, em 1602, integrou a bandeira de Nicolau Barreto, iniciando suas incursões voltadas à caça e aprisionamento de indígenas.

Segundo a monumental Genealogia Paulistana, Preto foi um explorador destemido que penetrou os sertões dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. Com o vasto contingente de nativos capturados ao longo de suas campanhas, fundou uma grande fazenda de cultura em terras herdadas de seus pais. Entre 1610 e 1615, requereu e obteve autorização religiosa para erguer a capela de Nossa Senhora da Expectação do Ó, marco inicial da atual Freguesia do Ó.

⚔️ As Bandeiras ao Guairá e a Queda das Missões Jesuíticas

A atuação de Manuel Preto ganhou proporções continentais ao liderar expedições militares de grande porte contra os territórios espanhóis e as reduções jesuíticas na região do Guairá (atual estado do Paraná).

  • 1619–1623: À frente de tropas como mestre de campo, assaltou e destruiu reduções jesuíticas fundamentais, como as de Jesus Maria, Santo Inácio e Loreto, acompanhado por figuras de proa como seu irmão Sebastião Preto, Francisco de Alvarenga e Pedro Vaz de Barros.

  • Conflitos Políticos e Judiciais: O ímpeto de suas entradas gerou fortes atritos com as autoridades e jesuítas (enfrentando padres como Simão Masseta, José Cataldino e Antonio Ruiz de Montoya). Em 1626, chegou a ser processado criminalmente como cabeça de entradas violentas, o que o impediu de assumir o cargo de vereador para o qual fora eleito.

  • A Grande Bandeira de 1628–1629: No segundo semestre de 1628, partiu de São Paulo em sua empreitada mais monumental, atuando como chefe nominal, capitão-mor e mestre de campo, tendo Antônio Raposo Tavares como seu imediato. Dividida em quatro companhias (lideradas por Raposo Tavares, Pedro Vaz de Barros, Brás Leme e André Fernandes), a expedição dizimou as 13 reduções jesuíticas do Guairá, forçando a evacuação das vilas espanholas de Vila Rica e Ciudad Real e obrigando os jesuítas a realizarem uma enorme transmigração dos sobreviventes para o sul.

🏅 Reconhecimento Oficial e Morte no Sertão

Apesar da violência extrema de suas ações — criticadas severamente pelos jesuítas e por cronistas da época —, a Coroa Portuguesa viu os resultados econômicos e territoriais com bons olhos. O donatário da capitania, D. Álvaro Pires de Castro e Sousa (Conde de Monsanto), concedeu-lhe a patente de governador das ilhas de Santana e Santa Catarina, terra para onde embarcou em meados de 1629 para tomar posse administrativa.

No entanto, o destino de Manuel Preto selou-se no interior da mata. No início de 1630, internou-se novamente nos sertões e acabou morto em uma emboscada, vítima de uma flechada indígena. A notícia de seu falecimento chegou a São Paulo em 22 de julho de 1630, encerrando a trajetória de um dos personagens mais marcantes e polarizadores da expansão territorial do Brasil colonial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário