segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O “Bungalowsinho” de Manuel Pereira: Uma Morada Humilde na Villa Lustosa

 Eduardo Fernando Chaves:  Projetista

Denominação inicial: Projecto para um Bungalowsinho para o Snr. Manuel Pereira na Villa Lustosa

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Villa Lustosa

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 42,00 m²
Área Total: 42,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 17/01/1927

Alvará de Construção: Talão Nº 51; Nº 5579/1927

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de um bangalô.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

1 - GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de bungalowsinho para o Snr. Manuel Pereira na Villa Lustosa. Plantas do pavimento térreo e de implantação, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

O “Bungalowsinho” de Manuel Pereira: Uma Morada Humilde na Villa Lustosa


Em 17 de janeiro de 1927, no escritório de Gastão Chaves & Cia., em Curitiba, foi finalizado um projeto modesto, mas carregado de significado social: o “Projecto para um Bungalowsinho para o Snr. Manuel Pereira na Villa Lustosa”. Com apenas 42 metros quadrados, construído em madeira e erguido em um único pavimento, esse pequeno bangalô encarnava o sonho de moradia digna para uma parcela da população que, na Curitiba dos anos 1920, lutava por um espaço próprio em meio à expansão urbana.

Quem era Manuel Pereira? Um nome comum, talvez um operário, um empregado doméstico, um pequeno comerciante — alguém cuja história não foi registrada nos jornais ou nos anais da elite, mas cuja existência deixou um traço nos arquivos municipais. Seu nome sobrevive apenas ligado a essa construção efêmera, como tantos outros emigrantes, descendentes de imigrantes ou nativos da terra que buscavam, com esforço, um teto que lhes pertencesse de fato.


Uma Casa “Econômica”, Mas com Dignidade

Classificada como residência econômica, a casa projetada para Manuel Pereira era um exemplo claro da arquitetura de acesso da época. Com 42 m², abrigaria, provavelmente, um casal com filhos — talvez até duas gerações sob o mesmo telhado. O uso de madeira, material abundante e de baixo custo na região sul, permitia rapidez na construção e adaptabilidade ao clima úmido e frio de Curitiba.

O projeto, assinado por Eduardo Fernando Chaves — então atuando como projetista da firma Gastão Chaves & Cia. — incluía, em uma única prancha, planta do pavimento térreo, implantação no terreno, corte e fachada frontal. Apesar da simplicidade, os desenhos revelavam cuidado com a proporção, a ventilação natural e a distribuição funcional dos espaços: uma sala de estar integrada à cozinha, um ou dois quartos, e um pequeno alpendre — elemento típico do bangalô, que ligava o interior ao quintal, espaço vital em residências populares.

Emitido em 1927, o Alvará de Construção nº 5579 (do Talão nº 51) confirmava a legalidade da empreitada, demonstrando que, mesmo nas classes menos favorecidas, a cidade exigia — e facilitava — o registro formal das construções. A Villa Lustosa, onde se localizava a casa, era um loteamento recente na época, destinado a residências de classe média-baixa, situado na zona leste de Curitiba, região que crescia com o avanço dos bondes e da urbanização periférica.


Desaparecimento Silencioso

Apesar de sua existência documentada com precisão, o “bungalowsinho” de Manuel Pereira foi demolido, segundo levantamento realizado em 2012. Nada restou da estrutura de madeira, talvez levada pelo tempo, pelo abandono ou substituída por uma construção mais densa, como tantas outras em áreas urbanizadas.

Sua demolição é um lembrete doloroso: as moradias populares raramente sobrevivem à pressão do desenvolvimento urbano. Enquanto palacetes e casarões são tombados, as casas menores — onde viveram milhares de trabalhadores anônimos — desaparecem sem cerimônia, levando consigo histórias não contadas.


Eduardo Fernando Chaves: Arquiteto do Povo

Embora Eduardo Fernando Chaves seja mais lembrado por projetos maiores e por sua atuação multifacetada (como arquiteto, construtor, fiscal e administrador), este projeto para Manuel Pereira revela outro lado de sua carreira: o compromisso com a habitação acessível. Ao aceitar projetar uma casa de 42 m² em madeira, Chaves demonstrava que a arquitetura não pertencia apenas aos ricos, mas podia — e devia — servir a todos.

Esse “bungalowsinho” era, portanto, arquitetura social antes da palavra existir — uma resposta técnica e humana à demanda por moradia em uma cidade em transformação.


Memória em Linhas de Tinta

Hoje, o único vestígio da casa de Manuel Pereira reside no microfilme digitalizado do Arquivo Público Municipal de Curitiba, onde as linhas traçadas por Eduardo Fernando Chaves ainda respiram com precisão técnica e sensibilidade espacial. Cada cômodo desenhado, cada janela posicionada, cada telhado inclinado para o escoamento da chuva contam a história de um homem comum que, por um momento, teve direito a um lar desenhado sob medida — ainda que pequeno.

Manuel Pereira talvez nunca tenha sabido que seu nome estaria, quase um século depois, ligado a um fragmento da história urbana de Curitiba. Mas é nisso que reside a beleza do arquivo: ele devolve nome e lugar àqueles que o tempo quis apagar.


“Nem toda casa precisa ser grande para abrigar uma vida inteira. Às vezes, basta um cômodo com janela para o poente.”


Fontes:

  1. GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de bungalowsinho para o Snr. Manuel Pereira na Villa Lustosa. Arquivo Público Municipal de Curitiba (Microfilme digitalizado).
  2. Alvará de Construção nº 5579/1927 (Talão nº 51). Prefeitura Municipal de Curitiba.

A Casa de Edgar Doria: Um Bungalow Esquecido na Rua Ubaldino do Amaral

 Eduardo Fernando Chaves: Arquiteto, Construtor, Fiscal e Administrador

Denominação inicial: Projeto de Bungalow para o Snr. Edgar Doria

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência de Pequeno Porte

Endereço: Rua Ubaldino do Amaral

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 100,00 m²
Área Total: 100,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 03/07/1934

Alvará de Construção: Nº 680/1934

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de bangalô e Alvará de Construção.

Situação em 2012: Não localizada


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1 – CHAVES, Eduardo Fernandes. Projéto de Bungalow. Planta do pavimento térreo e implantação; corte, fachada frontal e planta de fossa séptica apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 680

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

A Casa de Edgar Doria: Um Bungalow Esquecido na Rua Ubaldino do Amaral


Na Curitiba dos anos 1930 — uma cidade em transformação, onde o urbanismo modernizador começava a esboçar seus traços sobre o tecido colonial — surgiu, em papel, um modesto mas significativo projeto residencial: um bangalô de 100 metros quadrados, projetado para Edgar Doria, um cidadão cujo nome sobrevive apenas ligado à casa que jamais chegou a ser plenamente testemunhada pelo tempo.

Quem habitaria aquela moradia? Um homem comum, talvez discreto, talvez dedicado à família, cuja história se perde na bruma dos arquivos. Mas a casa, por mais singela que fosse, carregava em si a assinatura de um dos profissionais mais completos da engenharia curitibana da época: Eduardo Fernando Chaves — arquiteto, construtor, fiscal e administrador, figura rara que reunia sob seu nome todas as etapas da edificação, do traço inicial ao último tijolo assentado.


O Projeto: Simplicidade com Propósito

Registrado em 3 de julho de 1934, o “Projeto de Bungalow para o Snr. Edgar Doria” revela uma residência de um único pavimento, erguida em alvenaria de tijolos — técnica sólida, duradoura, típica da classe média emergente da capital paranaense. Com 100 m² distribuídos de forma funcional, o bangalô seguia os princípios da arquitetura residencial de pequeno porte da época: integração entre espaços sociais, ventilação cruzada, privacidade dos quartos e uma ligação sutil com o jardim externo.

O projeto, preservado em microfilme no Arquivo Público Municipal de Curitiba, incluía não apenas a planta do pavimento térreo e a implantação no terreno, mas também corte, fachada frontal e até planta da fossa séptica — demonstrando o rigor técnico de Chaves e a atenção aos mínimos detalhes sanitários e construtivos, fundamentais numa época em que a infraestrutura urbana ainda se consolidava.

Pouco mais de um mês após o projeto, em agosto de 1934, foi emitido o Alvará de Construção nº 680, autorizando a edificação na Rua Ubaldino do Amaral, via que cortava o bairro do Alto da Glória — então uma zona residencial em ascensão, valorizada por sua altitude, vista e proximidade ao centro da cidade.


Edgar Doria: O Dono Invisível

Curiosamente, quase nada se sabe sobre Edgar Doria além de seu nome. Não há registros públicos detalhados sobre sua profissão, origem ou vida familiar. Ele não era político, industrial nem figura pública. Talvez tenha sido um funcionário público, um comerciante, um professor — alguém que, com esforço, conseguiu encomendar uma casa própria a um profissional reconhecido como Eduardo Fernando Chaves.

Mas é justamente nessa anonymia que reside seu simbolismo. Edgar Doria representa milhares de curitibanos comuns do século XX que, com economia e sonho, ergueram suas vidas tijolo por tijolo. Sua casa não era palaciana, mas era sua — um abrigo, um lar, um território de intimidade em meio à cidade em crescimento.


O Desaparecimento Silencioso

Apesar da existência documental clara — projeto e alvará arquivados com precisão —, a casa de Edgar Doria não foi localizada em 2012, segundo levantamentos patrimoniais da Prefeitura de Curitiba. Isso sugere que, ao longo de mais de 75 anos, o bangalô foi demolido, absorvido por uma nova construção ou transformado além do reconhecimento.

A Rua Ubaldino do Amaral, outrora tranquila e residencial, viu ao longo das décadas a substituição de muitas de suas casas menores por edifícios, comércios ou residências maiores. O bungalow de tijolos, modesto e de um único andar, provavelmente não resistiu às pressões do mercado imobiliário ou às mudanças de gosto arquitetônico.


Eduardo Fernando Chaves: O Arquiteto Integral

Enquanto a casa desapareceu, o nome de Eduardo Fernando Chaves permanece nos arquivos como testemunho de uma época em que o arquiteto não apenas desenhava, mas construía, fiscalizava e administrava. Sua abordagem integral — rara hoje, comum então — refletia um ideal de responsabilidade total sobre a obra, do conceito à realidade.

Seu projeto para Edgar Doria, embora simples, era digno: bem proporcionado, higiênico, adaptado ao clima local e à condição social do cliente. Era arquitetura sem pretensão, mas com propósito — feita para viver, não para exibir.


Legado em Papel

Embora a casa não mais exista, sua memória persiste nos documentos. O projeto arquitetônico e o alvará de construção são relíquias de uma Curitiba que acreditava no progresso doméstico, na casa própria como realização civilizatória. E, acima de tudo, são testemunhas de que Edgar Doria existiu, que sonhou com um teto seu, e que, por um breve momento da história, teve esse sonho traduzido em linhas técnicas por um arquiteto comprometido com o ofício.

Hoje, ao caminhar pela Rua Ubaldino do Amaral, talvez ninguém saiba que ali, em algum ponto do asfalto ou sob algum prédio moderno, já houve um bangalô de tijolos, onde um homem chamado Edgar Doria acordava com o canto dos pássaros e o cheiro do café da manhã.

Mas os arquivos lembram. E, enquanto houver quem leia esses papéis, sua casa não estará totalmente perdida.


“As cidades são feitas de edifícios, mas habitadas por vidas. Algumas vidas desaparecem. Mas nenhuma é inútil.”


Fontes:

  1. CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de Bungalow. Arquivo Público Municipal de Curitiba (Microfilme digitalizado).
  2. Alvará de Construção nº 680/1934. Prefeitura Municipal de Curitiba.