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sábado, 12 de setembro de 2026

Mariana Vitória de Bourbon: A Infanta-Rainha entre Madri, Versalhes e Lisboa

 


Mariana Vitória
Retrato por Domenico Maria Sani
Rainha Consorte de Portugal e Algarves
Reinado31 de julho de 1750
a 24 de fevereiro de 1777
PredecessoraMaria Ana da Áustria
SucessoraCarlota Joaquina da Espanha
Dados pessoais
Nascimento31 de março de 1718
Alcácer Real de Madrid, Madrid, Espanha
Morte15 de janeiro de 1781 (62 anos)
Real Barraca, Lisboa, Portugal
Sepultamento17 de janeiro de 1787
Panteão da Dinastia de Bragança, Igreja de São Vicente de Fora, Lisboa, Portugal
Nome completo
nome pessoal: Mariana Vitória de Borbón e Farnese
MaridoJosé I de Portugal
Descendência
Maria I de Portugal
Maria Ana de Bragança
Maria Doroteia de Bragança
Maria Benedita de Bragança
CasaBourbon (por nascimento)
Bragança (por casamento)
PaiFilipe V da Espanha
MãeIsabel Farnésio
ReligiãoCatolicismo
AssinaturaAssinatura de Mariana Vitória
Brasão

Mariana Vitória ou Maria Ana Vitória de Bourbon (Madrid, 31 de março de 1718Lisboa, 15 de janeiro de 1781) foi a esposa do rei José I de Portugal, sendo rainha consorte de 1750 até 1777, além de regente durante os últimos meses de vida do marido, entre 1776 e 1777.

Filha de Filipe V da Espanha e de sua segunda esposa, Isabel Farnésio, era conhecida como "Infanta-Rainha" por ter sido enviada para a França com apenas quatro anos de idade para se casar com o rei Luís XV, em 1722. No entanto, a incapacidade de gerar descendentes, intrínseca a pouca idade, fez com que Mariana Vitória fosse devolvida para a Espanha, onde seu pai lhe arranjou um novo casamento.

Em 1727, aos nove anos de idade, Mariana Vitória casou-se com José, Príncipe do Brasil, o futuro rei José I de Portugal. O casal teve quatro filhas que chegaram à idade adulta, incluindo a futura rainha Maria I, chamada "a Piedosa" e "a Louca". Ela atuou como conselheira de sua filha durante o seu reinado.

Mariana Vitória morreu em 1781, pouco tempo depois de regressar de uma vigem ao seu irmão Carlos III na Espanha, onde negociou o casamento entre seu neto, o infante João, e a neta de Carlos, a infanta Carlota Joaquina.

Início de vida

Nascimento

Mariana Vitória de Bourbon (Jean Ranc, c. 1725-1728)

Nascida no Real Alcázar de Madrid, em 31 de março de 1718, Mariana Vitória era a filha primogénita do rei Filipe V da Espanha e de sua segunda esposa, Isabel Farnésio.[1] Como Infanta da Espanha, ela detinha o direito ao tratamento de "Sua Alteza Real".[2]

Os primeiros anos da infanta foram passados sem grandes preocupações entre os vários palácios reais na Espanha. Em dezembro e janeiro, a corte estanciava no Real Alcázar de Madrid, a velha residência que Filipe V substituiu, depois de um incêndio durante a Noite de Natal de 1734, pelo sumptuoso Palácio do Oriente. Em fevereiro, se dirigiam para o Bom Retiro. A páscoa era passada em Aranjuez e o Corpo de Deus em Madrid. No verão, estanciavam primeiro no Escorial (por seis semanas) e depois no Pardo, ao passo que em princípios de dezembro regressavam a Madrid. A partir de 1720, as estadias no Pardo foram substituídas pelas em Valsaín, onde Filipe V supervisionava as obras do Palácio Real de La Granja de San Ildefonso.[3]

Familiarmente, era chamada afetuosamente de Marianina.[4][5][6]

Noiva do Rei da França

Luís XV e a Infanta Mariana Vitória (atribuído a Alexis Simon Belle, c. 1724)
Mariana Vitória (Alexis Simon Belle, 1724)

Ainda muito jovem, Mariana Vitória foi prometida em casamento ao rei Luís XV da França, numa negociação dupla donde o seu irmão, Luís, Príncipe das Astúrias, se casaria ao mesmo tempo com Luísa Isabel de Orleães, filha do Regente da França durante a menoridade de Luís XV. A Troca das Princesas deu-se em janeiro de 1722, na ilha dos Faisões, no meio do rio Bidasoa.[7]

Instalada em Paris, a "Infanta-Rainha" (Infante-reine), como passou a ser conhecida, habitou inicialmente no Palácio do Louvre, ao passo que Luís XV manteve a sua residência nas Tulherias. Em junho do mesmo ano de 1722, Mariana Vitória mudou-se para Versalhes e lá foi acomodada nos apartamentos que haviam sido ocupados por sua bisavó, Maria Teresa, consorte de Luís XIV, e depois por sua avó, Maria Ana Vitória da Baviera,[8] onde permaneceu até a sua partida da França.

Mariana Vitória trajando manto flor-de-lis da corte francesa.[9]
Por Nicolas de Largillière, 1724

Em 1725, no entanto, o compromisso foi quebrado. O motivo foi puramente de ordem política; com a morte do regente, em finais de 1723, o Duque de Bourbon, novo primeiro-ministro da França temia que se Luís XV morresse sem filhos, a Coroa poderia ser herdada pelo duque de Orleães, bem como pelo próprio Filipe V da Espanha, que nascido um príncipe francês e abdicado do trono espanhol, em 10 de janeiro de 1724, estaria livre para reenvidicar a Coroa da França. Nesta perspetiva, era, pois, urgente que Luís XV, que completara quatroze anos de idade em 15 de fevereiro de 1724, assegurasse a sucessão da Coroa. Como Mariana Vitória tinha somente seis anos, considerou-se que o tempo que importava esperar para o casamento ser consumado e, consequentemente, nascer um herdeiro, era demasiado longo. Ou seja, havia que escolher uma nova mulher para Luís XV. Tal implicava devolver a "Infanta-Rainha" a Espanha.[10]

Embora Filipe V tenha, compreensivelmente, reagido muito mal à decisão francesa, esta acabou por se concretizar. Em 5 de abril de 1725, Mariana Vitória deixou para sempre Versalhes. No dia 17 do mesmo mês, já entregue ao representante enviado por seu pai, o Marquês de Santa Cruz, atravessou a fronteira para a Espanha.[11] No dia 29, chegou em Guadalajara, onde finalmente reencontrou os pais, que na véspera haviam deixado Aranjuez. Em 30 de maio, a infanta, com grande solenidade, fez sua entrada em Madrid.[12]

Várias fontes consideram que Mariana Vitória conservou até à morte uma enorme mágoa contra a França, aludindo um autor gaulês a "má vontade à nossa nação, o que frequentemente manifestava".[13] Outros usaram expressões como "aversão prodigiosa contra a corte de França",[14] "rancor contra a nação francesa"[15] e "ódio invencível pela nação francesa".[16] O que não era totalmente verdade, já que a um diplomata que lhe comunicou, em junho de 1756, que a França chegara à paz com a Áustria, Mariana Vitória referiu-se a Luís XV como o "tronco da sua família".[17] Em janeiro de 1757, comentou, em carta a Isabel Farnésio, o "horrível atentado" contra o soberano francês, referindo: "gostaria de saber o que é que o fez cometer um tão grande crime", dizendo recear que fosse algum herético, por motivos religiosos.[18] Em 1767, fez a um outro embaixador gaulês numerosas perguntas sobre Luís XV e a restante família real francesa.[19] E, em junho de 1774, lastimou, em carta a Carlos III, a morte do rei da França, "nosso primo", classificando-a como "coisa lamentável".[20] Ao mesmo tempo, confidenciou à Jean-François de Bourgoing, que era, em 1777-1778, Secretário da legação francesa em Espanha, que "mantinha a recordação dos mínimos detalhes relativos à sua estada em França e, ao fim de 55 anos, lembrava-se das estátuas do jardim de Versalhes, das alamedas do parque, etc., como o poderia fazer no dia seguinte à sua partida".[21] A quando sua filha Maria Ana Francisca de Bragança foi considerada uma potencial noiva para Luís, Delfim da França, filho e herdeiro de Luís XV, Mariana Vitória se opôs veemente a tal união,[22] bem como uma união entre sua outra filha, Maria Doroteia de Bragança, com Luís Filipe II, Duque de Orleães, primo do rei Luís XV.[23]

Casamento

Azulejos retratando a Troca das Princesas (1729). Na Igreja de São Francisco, em Salvador, Brasil.

Em 27 de dezembro de 1727, aos nove anos de idade, Mariana Vitória casou-se por procuração, em Madrid, com José, Príncipe do Brasil, herdeiro da Coroa de Portugal. Em 19 de janeiro de 1729, deu-se a chamada Troca das Princesas; a filha de Filipe V rumou ao seu novo reino e para Espanha seguiu Bárbara, filha do rei João V de Portugal, também já casada por procuração com o futuro rei Fernando VI. O casamento de Mariana Vitória foi consumado em 1732, no dia em que completou quatorze anos de idade.[24] Ela deu à luz quatro filhas, a futura rainha Maria I (1734), Maria Ana (1736), Maria Doroteia (1739) e Maria Benedita (1746). Mas esteve grávida pelo menos mais seis vezes, abortando sempre (1733, 1741, 1743, 1743, 1744 e 1752).[25] Em 1750, seu marido tornou-se soberano reinante de Portugal, consequentemente, Mariana Vitória assumiu a dignidade de rainha consorte.

Rainha

Em termos de organização do espaço no quotidiano, no tempo de José I, os membros da família real ausentavam-se de Lisboa, entre os primeiros dias de janeiro e 16 do mesmo mês, estanciando em Calhariz, Pancas e Pinheiro, onde a caça os ocupava. Assistiam depois ao tríduo do desagravo do desacato de Santa Engrácia, entre 16 e 18, saindo para Salvaterra, de novo para se entreterem em atividades cinegéticas. Regressavam depois da Páscoa, indo por vezes 15 dias para Almeirim, uma vez mais para a caça. Passavam o verão em Queluz – onde celebravam o São João e o São Pedro, com as magníficas festas organizadas pelo infante Pedro – e Mafra era a escolhida para o período de 1 a 15 de outubro. Ocasionalmente iam também a Vila Viçosa.[26]

Aclamação de José I e Mariana Vitória como reis de Portugal.

Em 1750, falecia João V, e o marido de Mariana Vitória subia ao trono. A rainha tinha então trinta e dois anos e José I, trinta e seis anos. O reinado do marido de Mariana Vitória é sobretudo marcado pelas políticas do seu secretário de Estado, o Marquês de Pombal, que reorganizou as leis, a economia e a sociedade portuguesa, transformando Portugal num país moderno.

Depois do terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755, o Paço da Ribeira foi destruído. Como José I se recusou, até à morte, a voltar a viver em casas de alvenaria, a família real ficou a habitar, provisoriamente, «em barracas de campanhas, uma légua distante da cidade para a parte do ocidente, onde estão os jardins reais».[27] Às mesmas se referia Mariana Vitória em carta a Isabel Farnésio, em junho de 1756, dizendo que a sua «nova casa» era «muito bonita e grande».[28] No mês seguinte, comentou: «encontro-me muito comodamente e com a mais bela vista do mundo»[29] A partir de março de 1757, passaram para as chamadas reais barracas da Ajuda, feitas de madeira.[30] A rainha de Portugal descreveu esse novo alojamento como «muito bonito e cómodo».[31] Lá tinha Mariana Vitória os seus aposentos, onde não faltava uma casa das embaixatrizes, para dar audiência às mulheres dos diplomatas estrangeiros, uma livraria e um «casa das gaiolas». Esta mostrava o seu gosto por aves, nomeadamente exóticas.[32]

Quando seu marido foi declarado inapto para governar em 1774, devido a loucura, Mariana Vitória foi proclamada Regente, uma posição que manteve até à morte de seu marido. Após isso, ela tornou-se conselheira de sua filha, a futura Maria I.

No dia 24 de fevereiro de 1777, ao fim de quase um quarto século como rainha consorte – em que por duas vezes fora por José I encarregada da regência do reino[33] - Mariana Vitória enviuvou. A primogénita do casal subiu ao trono com o nome de Maria I. Iniciava-se uma nova fase na vida da filha de Filipe V e de Isabel Farnésio.

Rainha Mariana Vitória de Portugal (Miguel António do Amaral, c. 1773)

Perto do final da vida, entre outubro de 1777 e novembro de 1778, Mariana Vitória esteve em Espanha, revendo o irmão Carlos III – com quem nunca deixara de contactar por via epistolar – e ajudando a pacificar as duas monarquias ibéricas. A hipótese do encontro surgiu numa carta que a rainha viúva escreveu ao soberano espanhol a 20 de maio de 1777:

«alegro-me muitíssimo, irmão da minha vida, do que me dizes parecer-te que esta viagem, em lugar de causar dano, faria muito proveito assim o creio eu também, mas permite-me irmão de minhas entranhas, diz-me como faremos tudo isto». Ou seja, a rainha de Portugal solicitava a Carlos III que estipulasse o tempo, o lugar e o modo como tudo se deveria processar [...] «não quero que digam aqui que ando inventando jornadas e outras coisas[34]»

Mariana Vitória concluía evidenciando que, assim que em Portugal consentissem, iria de imediato, teria apenas de preparar a viagem.[34] Cinco dias depois, continuava a insistir nos mesmos tópicos e sublinhava um aspeto: a jornada a Espanha era ainda mantida em segredo, pois «a rainha minha filha comunica tudo o que se passa com a corte» e as coisas de importância eram sempre tratadas com o marido, Pedro III.[35]

A 31 de outubro, falando com a irmã a respeito da sua partida, Carlos III «derramou bastantes lágrimas e exigiu da mesma senhora a promessa de voltar a vê-lo dentro de dois ou três anos». A 4 de novembro, trocaram presentes95. Entre estes, conta-se o da princesa das Astúrias à sua tia de Portugal, que consistiu numa gaiola com um canário «que canta, move e garganteia e anda de um lado a outro, como se realmente fosse vivo ao impulso da máquina e corda que se lhe dá». Já a rainha-mãe de Portugal teve idênticas gentilezas, ofertando, por exemplo, à infanta Maria Josefa, um adereço de grisolitas e diamantes e umas manilhas de brilhantes. Não esqueceu as duas netas de Carlos III, Carlota Joaquina – futura rainha de Portugal, então criança de três anos de idade –, a quem deu um pluma de esmeraldas e diamantes, e Maria Luísa – de apenas um ano – , que recebeu uma pluma de diamantes e rubis.[36]

Na Espanha, por influência da rainha, assinou-se em 1778 o tratado que estipulou dois casamentos: o do infante Gabriel, filho de Carlos III, com a sua neta Maria Ana Vitória, e o da infanta Carlota Joaquina, neta mais velha de Carlos III, com o infante João, o futuro D. João VI.[34]

Morte

Enquanto se encontrava em Espanha, Mariana Vitória teve um ataque de reumatismo e foi confinada a uma cadeira de rodas por algum tempo. Ela regressou a Portugal em novembro de 1778.

Mariana Vitória morreu na Real Barraca da Ajuda, um edifício onde hoje é o atual Palácio Nacional da Ajuda. Ela foi primeiramente sepultada na Igreja de São Francisco de Paula em Lisboa, a qual mandou restaurar. Posteriormente ela foi trasladada para o Panteão Real da Dinastia de Bragança da Igreja de São Vicente de Fora também em Lisboa.[37]

Representações na cultura

  • Troca de Rainhas (2017), interpretada por Juliane Lepoureau. O longa mostra a estadia da infanta na corte francesa.[38]

Títulos, estilos, e honrarias


Títulos e estilos

  • 31 de março de 1718 – 19 de janeiro de 1729: Sua Alteza Real, a Infanta Mariana Vitória da Espanha
  • 19 de janeiro de 1729 – 31 de julho de 1750: Sua Alteza Real, a Princesa do Brasil
  • 31 de julho de 1750 – 24 de fevereiro de 1777: Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha
  • 24 de fevereiro de 1777 – 15 de janeiro de 1781: Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha-Mãe

O estilo oficial de D. Mariana Vitória enquanto Rainha Consorte de Portugal: Pela Graça de Deus, Mariana Vitória, Rainha Consorte de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.

Mariana Vitória de Bourbon: A Infanta-Rainha entre Madri, Versalhes e Lisboa

Introdução

Nascida no Real Alcázar de Madri em 31 de março de 1718 e falecida em Lisboa a 15 de janeiro de 1781, Mariana Vitória de Bourbon (frequentemente chamada de Marianina) foi uma das figuras femininas mais influentes e complexas da diplomacia e da realeza ibérica do século XVIII. Filha primogênita de Filipe V da Espanha e de sua segunda esposa, Isabel Farnésio, ela atuou como rainha consorte de Portugal entre 1750 e 1777, ao lado do rei José I, além de exercer a regência do reino durante os últimos meses de vida do marido (1776–1777) e desempenhar o papel de conselheira estratégica de sua filha, a rainha Maria I.

Sua trajetória singular começou na infância, quando ficou conhecida na Europa como a "Infanta-Rainha" (Infante-reine), após ser enviada à corte francesa para se casar com o jovem rei Luís XV — um compromisso que acabou desfeito por cálculos políticos, marcando profundamente sua biografia.

O Noivado Frustrado na França

Ainda na primeiríssima infância, Mariana Vitória foi inserida em uma intrincada negociação dinástica que previa um casamento duplo entre as Coroas da Espanha e da França. Em janeiro de 1722, ocorreu a célebre Troca das Princesas na ilha dos Faisões, no rio Bidasoa, momento em que a infanta, com apenas quatro anos de idade, foi entregue à comitiva francesa.

Instalada inicialmente no Palácio do Louvre e, posteriormente, nos sumptuosos apartamentos de Versalhes, a pequena princesa foi criada com o status de futura rainha consorte da França. No entanto, em 1725, as prioridades políticas de Versalhes mudaram drasticamente. Com a morte do regente da França em 1723, o novo primeiro-ministro (o Duque de Bourbon) temeu que, se Luís XV morresse sem herdeiros diretos, a Coroa pudesse ser reivindicada pelo pai de Mariana Vitória, Filipe V da Espanha (que havia abdicado do trono espanhol, mas mantinha direitos dinásticos franceses).

Como Mariana Vitória tinha apenas sete anos e a consumação do matrimônio — e a consequente geração de herdeiros — demoraria muito tempo, a corte francesa decidiu romper unilateralmente o compromisso. Em abril de 1725, a infanta foi devolvida à Espanha.

A Relação Complexa com a França

Embora muitos historiadores e gazeteiros da época tenham atribuído a Mariana Vitória um "ódio invencível" ou um profundo rancor vitalício contra a nação francesa devido à humilhação sofrida na infância, a correspondência pessoal e as atitudes da soberana revelam uma realidade bem mais sutil. Ela guardava lembranças vívidas e afetuosas de sua estada em Versalhes — recordando-se detalhadamente dos jardins e alamedas mesmo décadas mais tarde —, manifestava preocupação genuína com atentados e crises na família real francesa e referia-se a Luís XV como o "tronco da sua família". Por outro lado, o trauma político da rejeição transpareceu em momentos decisivos de sua maturidade, como quando se opôs veementemente a tentativas posteriores de casar suas próprias filhas (Maria Ana Francisca e Maria Doroteia) com príncipes da linhagem real francesa.

Casamento e Papel Político em Portugal

De volta à Península Ibérica, a jovem infanta encontrou novo destino em 1727, quando, aos nove anos de idade, foi dada em casamento a José, Príncipe do Brasil, o futuro rei José I de Portugal. A união consolidou os laços entre as Coroas ibéricas e gerou quatro filhas sobreviventes que alcançaram a idade adulta, sendo a mais velha a futura rainha Maria I ("a Piedosa" e "a Louca").

Com a ascensão de José I ao trono em 1750, Mariana Vitória tornou-se rainha consorte. Diferente de outras consortes de sua época, ela exerceu forte influência nos bastidores do poder, atuando ativamente como conselheira de Estado do marido e, posteriormente, de sua filha Maria I. Nos estertores do reinado de José I, diante da saúde debilitada do monarca, assumiu formalmente a regência do reino entre 1776 e 1777.

Últimos Anos e Legado

Um dos últimos grandes feitos diplomáticos e familiares de Mariana Vitória ocorreu em idade avançada, quando empreendeu uma viagem de regresso à sua terra natal para negociar diretamente com seu irmão, o rei Carlos III da Espanha. O objetivo central da missão era selar uma aliança matrimonial estratégica entre a Casa de Bragança e a Casa de Bourbon espanhola: o casamento de seu neto, o infante João (futuro rei João VI de Portugal), com a infanta espanhola Carlota Joaquina.

Mariana Vitória faleceu em Lisboa logo após retornar dessa viagem, a 15 de janeiro de 1781, deixando um legado indelével como uma soberana resiliente, cuja vida pontuou as grandes turbulências dinásticas, acordos geopolíticos e transformações culturais da Europa setecentista.


Descendência

NomeRetratoLongevidadeNotas
Havidos de José I de Portugal

(31 de março de 1718 – 15 de janeiro de 1781; casados a 19 de janeiro de 1729)

Maria I de PortugalRetrato de uma senhora de meia-idade, muito pálida, de vestido prateado com mangas de renda, um manto cor-de-rosa de pele de arminho, e uma faixa verde e vermelha com uma Cruz de Cristo pendente. Com uma peruca branca empoada e um véu fino com jóias e penas. Aponta para a Coroa Real, em cima de uma almofada de veludo numa mesa ao seu lado.17 de dezembro de 1734

20 de março de 1816

Rainha de Portugal, a título próprio, de 1777 a 1816. Casou-se com o Infante D. Pedro, seu tio. Com descendência.
Maria Ana Francisca de BragançaRetrato a três quartos de uma senhora de cabelos castanhos, apanhados em duas tranças, de pé ao lado de um cravo, e envergando um vestido verde e azul e uma capa encarnada.7 de outubro de 1736

16 de maio de 1813

Seguiu com a restante família real para o Brasil, onde veio a falecer.
Maria Doroteia de BragançaRetrato a três quartos de uma senhora de cabelos castanhos, apanhados numa trança comprida, envergando um vestido de seda púrpura e uma capa verde, e empunhando um leque.21 de setembro de 1739

14 de janeiro de 1771

Foi-lhe proposto casar com Luís Filipe II, Duque de Orleães, mas ela recusou-se.
Maria Benedita de BragançaRetrato de busto de uma senhora de meia-idade, com uma peruca empoada com um pequeno véu preso por um ramalhete de flores, com um vestido simples de cor branca.25 de julho de 1746

18 de agosto de 1829

Casou-se com o sobrinho, D. José, Príncipe do Brasil, em 1777. Não houve descendência.