quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Histórias de Curitiba - Branca de Neve

 

Histórias de Curitiba - Branca de Neve

Branca de Neve
Renato Schaitza

A nova recepcionista nem era bonita.
Gordinha de comer X-burger no almoço, X-salada antes do Cursinho, fora as cervejadas na saída, se alguém convidasse. E as pernas eram marcadas com bolinhas vermelhas, picadas de mosquitos na espera do ônibus de Santa Felicidade.
Mas o escritório não guardava a regra saudável: onde se ganha o pão, não se come carne. A regra prevalente era cínica: inaugurar carne nova é privilégio do gerente.
Sabia-se, por inconfidência de outra funcionária, que o território já era mapeado. A moça nova sofria o rescaldo de um tórrido romance com um tenente do Corpo de Bombeiros.
Quem conta é o próprio gerente, inconfidências de botequim. A rapaziada do escritório já olhava para ele, cobrativa.
Mas que fazer? Ela saía para o Cursinho antes do final do expediente comum.
Premido pelo dever, inventou um jantar comemorativo lá em Colombo, lado oposto do covil da presa.
Caipirinhas, vinho sangue-de-boi, deu mais umas dançadas aconchegantes, passou a mão na moça, tirou da festa e saiu de fi-ninho. Só o office- boy enxergou e acenou, aprovador.
Conta o gerente, na retórica de boteco: "Na estrada dos Minérios tinha um dos primeiros móteis da região.
De madeira, pobre.
Parei o carro, ela nem falou -foi descendo com a naturalidade do traquejo.
Entramos, deitamos.
Nem caipirinha nem vinho que aqueciam o coração esquentaram aquele acolchoado de algodão, que de tão frio parecia uma pedra de gelo em cima da gente.
Carícias, impossível - as mãos pareciam pinças de gelo: um pegava, o outro pulava".
Conta ele que levou a invicta moça em casa, já de madrugada, naquele 17 de julho de 1975 em que Curitiba despertou branca de neve, na sua última nevada.
Na conversa do boteco, curiosidade:
- E você? Convidou a moça para outro programa num motel com calefação?
- Não.
Estava meio acanhado, sem coragem. E percebi que a rapaziada do escritório notou que alguma coisa tinha melado.
Ou não tinha melado.
Então eu mandei instalar uma lareira de ferro, aquelas da Muller £r Irmãos, bem na sala da recepcionista. A rapaziada entendeu. A moça também, porque dali a poucos dias 1a começar a semana de férias do Cursinho...

Renato Schaitza é jornalista

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