sábado, 24 de dezembro de 2022

CURITYBA (1910-1916)

 CURITYBA (1910-1916)

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copyright Paulo José da Costa 2015
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   ESTA É UMA FOTO DE SÃO PAULO

   Esta farmácia ficava na rua da Consolação, número 103. 



























    VOLTAMOS A CURITYBA







































































































sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Curitiba e o Rock: Ivo Rodrigues (1949-2010)

 

Curitiba e o Rock: Ivo Rodrigues (1949-2010)

por João Cândido Martins

A banda A Chave se destacou no cenário rock curitibano dos anos 70, por sua produção autoral. A foto foi publicada em agosto de 1976 na revista Música (Foto - Divulgação)

Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, a Assessoria de Comunicação da Câmara dá enfoque à vida e a produção musical de Ivo Rodrigues, vocalista das bandas A Chave e Blindagem, falecido em 08 de abril de 2010 e homenageado pela Casa com a nomeação de uma praça no Bairro Alto (Lei 13.613/2010)

A família de Ivo Rodrigues veio do Rio Grande do Sul e se instalou em Curitiba quando o cantor estava com três anos de idade, no início dos anos 50. O interesse pelo rock nasceu no Instituto Adventista, quando Ivo, ainda criança, teve contato com o “spiritual”, estilo de canto religioso criado pelos negros escravos do sul dos Estados Unidos. Não tardou para que Ivo tentasse se integrar à fervilhante cena rock que dominou Curitiba na primeira metade dos anos 60, deixando de lado, até mesmo, a faculdade de medicina.

Segundo a jornalista Adriane Perin, em matérias publicadas pelo jornal A Gazeta do Povo, em 2001, essa cena era alimentada principalmente pelas rádios que produziam programas de auditório como Ídolos da Juventude, apresentado por Dirceu Graeser na rádio Guairacá e Expresso das Quintas, comandado por Mário Vendramel na PRB2. Adolescentes entre 14 e 17 anos lotavam esses programas e não demorou para que surgissem os primeiros grupos locais, como The Little Devils, The Marvels (que depois se tornaria Metralhas), The Jets, os Vondas e Excelsior.

Foi num desses programas de auditório que Ivo conheceu o guitarrista Paulo Teixeira, da banda The Jetsons (de Palmeiras). Em 69, ambos se juntariam aos músicos Carlão Gaertner (baixo) e Orlando Azevedo (bateria) para montar o grupo A Chave, o nome mais representativo do rock curitibano daquele período.

A Chave
Quando A Chave começou a ter alguma visibilidade no começo dos 70, o rock brasileiro já não mais respirava o ar ingênuo dos primeiros tempos. Dois nomes predominavam absolutos junto ao grande público: Raul Seixas e Rita Lee. Além deles, uma série de grupos circulava por feiras, bares e festivais alternativos, como por exemplo, Casa das Máquinas, Som Nosso de Cada Dia, Made in Brazil, Moto Perpétuo, Som Imaginário Patrulha do Espaço e os Mutantes (cujos integrantes continuaram em atividade mesmo após as saídas de Rita Lee e Arnaldo Baptista).

Segundo o crítico Aramis Millarch, entre 69 e 74 “(A Chave) fez 247 apresentações, das quais 155 em Curitiba, 54 no Interior do Paraná, 37 em Santa Catarina e uma no Rio Grande do Sul, aplaudida por 140.555 espectadores”. Ivo e os colegas passaram toda a década de 70 em atividades frenéticas para fazer a banda despontar com sua sonoridade que remetia ao rock feito por bandas como Rolling Stones, Deep Purple, Sttepenwolf e Led Zeppelin, entre outras Eles espalhavam cartazes enigmáticos por Curitiba, faziam apresentações em locais inusitados, etc. Chegaram a gravar algumas músicas que permaneceram na gaveta por 30 anos e só vieram à tona com o advento da internet.

O ambiente no qual as bandas brasileiras dos anos 70 produziram seus trabalhos era fragmentado e os músicos praticamente não contavam com apoio de mídias especializadas para divulgação. Tudo era precário. No caso de Curitiba, basta dizer que durante muitos anos, o único estúdio em atividade foi o SIR que, dotado de apenas uma pequena mesa de 4 canais, também atendia todo o mercado publicitário.

O poeta Paulo Leminski fez amizade com Ivo e passou a frequentar a “Casa Branca das Mercês”, residência coletiva dos membros da banda A Chave. Essa proximidade trouxe aprendizados não só para Ivo (que presenciou um mestre da palavra em ação) como também para Leminski, que passou a entender melhor o processo de composição de uma música. A Chave e sua sonoridade “Classic Rock” se desfez em meados de 1979, sob o furor da onda Punk, mas Ivo já estava envolvido com aquela que seria sua futura banda: Blindagem

Blindagem

Entre o final de 2007 e o começo de 2008, a banda Blindagem teve a oportunidade de realizar alguns shows no Teatro Guaíra, acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Paraná. O momento representou a consagração de um grupo de músicos que, ao longo de 40 anos, conseguiu não só ser reconhecido pela qualidade das canções, mas também pela empatia que gerou junto ao público curitibano.

Antes de contar com Ivo e Paulo Teixeira, a banda Blindagem já possuía a experiência de se apresentar para milhares de pessoas no I Festival de Águas Claras, de 78, e no Camburock, de 79, promovido em Camboriú. A banda contava com o baixista Paulo Juk e os paraguaios Alberto Rodriguez, na guitarra e Ruben “Pato” Romero, na bateria. Com o novo grupo, Ivo optou por uma abordagem musical menos pesada, menos impactante do que a que desenvolvia com A Chave. A banda Blindagem poderia perfeitamente se enquadrar (de uma forma tardia) na vertente conhecida como rock rural, que tinha entre seus representantes Sá, Rodrix & Guarabyra, A Barca do Sol, 14 Bis, Recordando o Vale das Maçãs e outras. Dentro dessa perspectiva, os músicos da banda Blindagem retomaram as antigas parcerias com Leminski, fizeram novos arranjos e gravaram. Desses registros resultou o disco “Blindagem”, de 81, clássico instantâneo do rock brasileiro.

“Já quanto ao Ivo, tenho certeza que gravou um LP com a Blindagem, uma banda de gatos brabos do terreno baldio daqui, que o acompanha fielmente, (...) gente guitarreira, zoenta, punk, jóia de repertório, (...) Oito letras minhas com Ivo, inclusive ‘que eu sou legal eu sei’, que a censura só liberou agora”, escreveu Paulo Leminski em carta para o amigo Régis Bonvicino. Curiosamente, o disco  teve uma vendagem expressiva, apesar do seu não enquadramento nas tendências do rock brasileiro da primeira metade dos anos 80. A banda chegou mesmo a ter um fã-clube em São Paulo. Relançado em CD em 1998, hoje o disco se encontra disponível no youtube.

Depois do lançamento deste primeiro disco, a banda Blindagem prosseguiu suas atividades e se consolidou como a banda de rock curitibana por excelência. Falta espaço para lembrar de todas as etapas da história da Blindagem, mas basta lembrar a participação da banda na montagem de Horror Picture Show, em 82, que teve tradução de Zé Rodrix. Quem frequentava a boemia curitibana daquele período, poderia encontrar a figura do Ivo, sempre bem humorado, pelos bares e caracterizado como seu personagem na peça.

Os muitos anos de dedicação ao rock cobraram seu preço. A saúde de Ivo se debilitou e ele se foi, em 2010. Permanece vivo o seu legado de canções, que tão bem soube capturar o espírito daquelas décadas. Em reconhecimento a esse legado para a música curitibana, a Câmara Municipal homenageou o músico emprestando seu nome a uma das praças da cidade. Além desse reconhecimento, a Câmara também homenageou a banda Blindagem com o Prêmio João Batista Gnoato, em 2008.

Referências Bibliográficas

História do Rock Curitibano Partes I, II e III. Gazeta do Povo, Caderno G, 2001.
(Acesse a parte 1, parte 2 e parte 3

Políticas Públicas e Produção de Música Popular em Curitiba – 1971 a 1983. Ulisses Quadros de Moraes. Dissertação apresentada no Departamento de Pós-Graduação da UFPR, para a obtenção do mestrado em História. Curitiba, 2008.

Envie meu Dicionário: Cartas e alguma Crítica. Org. Régis Bonvicino. Paulo Leminski e Régis Bonvicino. São Paulo, Editora 34, 1999.

O bandido que sabia latim. Toninho Vaz. São Paulo, Editora Record, 2001.

Blog do escritor Toninho Vaz, autor de O bandido que Sabia Latim, biografia de Paulo Leminski (acesse aqui). 

MANOEL, J. de Souza (ORG.) O Rock no Paraná; ou de como os paranaenses passaram de imitadores a vanguardistas do rock, dos idos de 1955 a 1970. In: A [des] Construção da Música na Cultura Paranaense. Curitiba: Ed. Aos Quatro Ventos, 2004.

Artigos escritos pelo jornalista Aramis Millarch para a coluna Tablóide, publicada no jornal O Estado do Paraná: A Chave do Projeto (27/09/1974); Blindagem, a busca do espaço rock (07/12/1984).

Algumas músicas:

Banda A Chave: De Ponta CabeçaLuva de Pelica.

Banda Blindagem: Blindagem (1981 – disco na íntegra)


Sobre heróis e tumbas: o Cemitério Municipal

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Sobre heróis e tumbas: o Cemitério Municipal

por João Cândido Martins

Cemitério Municipal teve visita guiada pela pesquisadora Clarissa Grassi, que destacou o potencial turístico do local. (Foto - Anderson Tozato)

https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Há quatro anos, a Assessoria de Comunicação da Câmara publica textos sobre temas relativos à história de Curitiba. Em 15 de julho de 2010, foi publicada matéria da jornalista Michelle Stival, funcionária do setor, sobre a relação da Câmara Municipal com a construção e inauguração do Cemitério São Francisco de Paula, também conhecido como Cemitério Municipal. No mesmo texto, a jornalista abordou outros cemitérios da cidade, bem como a evolução das leis municipais que passaram a regulamentar os serviços funerários. Recentemente, o rápido esgotamento das vagas para as visitas guiadas ao Cemitério Municipal (em curso divulgado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente) mostrou o interesse do público nos aspectos históricos e artísticos do local, bem como evidenciou suas potencialidades turísticas. A Assessoria de Comunicação da Câmara acompanhou uma dessas visitas.

“A Câmara esteve presente em praticamente todos os estágios da construção do Cemitério Municipal de Curitiba. As obras foram marcadas por demoras, interrupções, falta de mão-de-obra e dificuldades burocráticas, mas houve, sobretudo, uma resistência por parte da população que mesmo percebendo os perigos que envolviam o enterro dos mortos no chão e nas paredes das igrejas (os chamados enterros ad sanctos), preferia manter-se fiel a essa prática”, explicou Clarissa Grassi, pesquisadora que há dez anos se dedica a estudar o Cemitério Municipal (Cemitério São Francisco de Paula) sob aspectos históricos, arquitetônicos, simbólicos e sociais.

Suas pesquisas deram origem ao livro “Um olhar... A arte no Silêncio”, que foi lançado em 2006, por ocasião dos 160 anos do cemitério. A obra contém fotos e explicações sobre 54 esculturas e túmulos, com dados a respeito da simbologia das obras e, em alguns casos, sobre a história pessoal e familiar que contextualiza as imagens tumulares. “A partir do século XIX, os chamados cemitérios secularizados são estruturados como simulacros de cidades e, aos poucos vão reunir obras de arte que buscavam perpetuar a imagem dos homenageados”, esclareceu Clarissa.

https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Para ela, a intensa procura por vagas para a visita guiada ao Cemitério Municipal revela que existe um público disposto a conhecer mais profundamente esses espaços, o que justificaria pensá-los numa perspectiva turística. ”No exterior o turismo cemiterial é comum e visto com naturalidade. Cemitérios como Père-Lachaise, em Paris, de la Recoleta, em Buenos Aires e o Monumental em Milão são pontos obrigatórios nos catálogos turísticos destas cidades”, esclareceu a pesquisadora. Ainda para ela, “o Cemitério São Francisco de Paula não possui a relevância histórica e arquitetônica dos cemitérios citados, mas ele guarda arte tumular suficiente para justificar a realização das visitas orientadas”.

Secularizados
Durante aproximadamente oito séculos vigorou a prática de se enterrar os mortos no chão das igrejas ou depositá-los nas paredes. Eram os chamados enterros ad sanctos, cujos resquícios ainda podem ser vistos abaixo do piso de algumas igrejas mais antigas. As epidemias dos séculos XVIII e XIX colocam a “hygiene” na pauta e certos costumes acabaram por cair em desuso, entre eles, os enterros em igrejas. A república marca a “era de ouro” dos cemitérios secularizados, isto é, desvinculados da administração da igreja católica. Essa separação permitiu que pessoas de orientações religiosas diferentes ocupassem livremente o local. Além disso, houve maior liberdade para a escolha das ornamentações tumulares. A configuração assumida pelos cemitérios naquele momento permanece até hoje: áreas cercadas ou muradas que abrigam os mortos e seus respectivos túmulos, jazigos, lápides, esculturas e todo o conjunto de elementos que viria a ser conhecido como arte tumular.

“O espaço funerário se tornou então um local delimitado, compondo-se de muros e portões, e cuidadosamente divididos em aléias ou quadras, de modo a facilitar a vigilância e o controle desses espaços. A circulação também é bem definida e visível, e cada sepultura conta com um número de identificação, além dos nomes e datas dos mortos, o que individualiza cada um dentro do conjunto. Os cemitérios passam a ter horários para abrir e fechar, e, portanto um rigoroso controle da relação entre vivos e mortos”, observou Renata de Souza Nogueira, em estudo sobre preservação de patrimônio.

A individualização do morto extrapola sua identificação e é celebrada por esculturas e peças arquitetônicas arrojadas, que também cumprem a função de expor o poder econômico das famílias no contexto da comunidade. A distribuição social dos vivos se reproduz na geografia do cemitério que concentra em determinadas regiões os túmulos e mausoléus monumentais dos ricos. O período que vai da proclamação da república até meados dos anos 1940 presenciou uma explosão de arte tumular no Brasil. Homens de posses como os barões da erva-mate e do café investiram pesado na construção de seus jazigos.

Políticos e militares também são fortes presenças nos túmulos do Cemitério Municipal. Muitos foram, em algum momento e suas vidas, vinculados à Câmara, como por exemplo o Barão do Serro Azul, Vicente Machado, Eufrásio Correia e o doutor João Pedrosa, que além de presidente da Câmara Municipal, foi também o primeiro paranaense a ocupar o cargo de presidente da Província. Além de incentivar o ensino público, ele foi o responsável pelo avanço final das obras do cemitério. Seu túmulo vertical contrabalança o peso do monolito com a leveza do anjo com a mão erguida (infelizmente vandalizado).

Mausoléus Monumentais
A tipologia dos túmulos é variada e sua descrição pode ser encontrada no Boletim da Casa Romário Martins dedicado ao Cemitério Municipal (Fundação Cultural de Curitiba, 1995), de autoria da professora Cassiana Lacerda. A classificação abrange túmulos verticais (monólitos e estelas), túmulos horizontais com monólito ou capela vertical, capelas votivas e capelas de família. Para a professora Cassiana Lacerda, essas capelas-mausoléus são “certamente os jazigos que chamam mais atenção no cemitério São Francisco de Paula e lhe imprimem características próprias”. São construções altas (algumas com mais de dez metros), robustas (a maior possui 80 m²) repletas de adornos, volutas, cornijas duplas, balaustradas com gárgulas e outros elementos românticos ou góticos.

Quando a tendência estética se orientou pelas escolas art déco e art nouveau, esses mausoléus monumentais ganharam características desses estilos e alguns exemplares são dignos de nota, como é o caso do jazigo da família Leão de Macedo “construído em forma de tronco de pirâmide com característica maias, foi concebido no espírito art dèco. A portada de ferro batido é trabalhada com elementos naturalistas imitando tochas ardendo. Entre os elementos da decoração destacam-se as cabeças de leão, como as existentes no palacete Leão Júnior e no frontão, duas tochas unidas por uma guirlanda, destacando-se no meio a grega. Os frisos decorativos exploram elementos geométricos”.

Existem também capelas em estilo greco-romano, monópteros (como o jazigo de João Gualberto) e até mausoléus com influências greco-egípcias como a pirâmide situada nas proximidades do muro lateral direito. Obrigatório lembrar os exclusivos túmulos ornados com elementos visuais paranistas (família Stenghel e o monumento a André de Barros – com busto do homenageado feito pelo escultor João Turin).

Num dos últimos momentos da visita guiada pela pesquisadora Clarissa Grassi, o visitante é conduzido a uma estreita viela que separa as quadras que ostentam mausoléus monumentais do muro lateral esquerdo – ela é sombreada por densa arborização que acentua o clima melancólico inerente ao local. Muitos desses mausoléus combinam monumentalidade e abandono: musgos com mais de 100 anos se espraiam por túmulos que um dia representaram o poder econômico e político no Paraná.

Anjos
Além dessas construções, o cemitério é pontuado por um verdadeiro exército de estátuas em mármore, bronze e granito nas mais diversas representações, significados e simbologias, algumas contraditoriamente brutais em sua delicadeza. A pesquisadora Clarissa Grassi destacou no passeio guiado que “entre as estátuas encontramos anjos dóceis, anjos do apocalipse, pranteadoras, imagens religiosas, cívicas e até mesmo eróticas”.

Seu objetivo é catalogar os túmulos mais relevantes e comentá-los com maior detalhamento em um próximo livro. Por enquanto, ela está gratificada pelo interesse da população nas atividades que promove. “Acredito que o Cemitério Municipal possui um forte potencial turístico e pode garantir um fluxo contínuo de visitantes. Sem falar no túmulo de Maria Bueno, de longe o mais visitado desse espaço”, lembrou Clarissa.

Referências Bibliográficas
“A vida e a morte na história de Curitiba”, da jornalista Michelle Stival, integrante da equipe da Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba. Matéria publicada em 15/07/2010, na página da instituição na internet. (Link aqui)

“Cemitério Municipal São Francisco de Paula: Monumento e Documento”, texto de Cassiana Carollo de Lacerda publicado no Boletim Informativo da Casa Romário Martins (Volume XXI, número 104). Edição da Fundação Cultural de Curitiba em abril de 1995.


“A Arte Cemiterial como Fator de Distinção e Eternização do Status Social no Cemitério São Francisco de Paula”, artigo de Sara Jane Santos, publicado na revista “O Mosaico” (n. 7, p. 31-45), editada pela Faculdade de Artes do Paraná em 2012.

“Arte Funerária no Brasil: Contribuições para a Historiografia da Arte Brasileira”, pesquisa apresentada por Maria Elizia Borges durante o XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, em 2002, na Universidade Federal de Goiás (UFG).

“Descobrindo o art-dèco no Cemitério São João Batista”, pesquisa apresentada por Renata de Souza Nogueira no 9º Seminário Docomomo Brasil, em 2011. 

“Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros”, livro de Clarival do Prado Valladares. Publicado pelo MEC em 1972.


A história da Garagem de Bondes de Curitiba

 

A história da Garagem de Bondes de Curitiba

por João Cândido Martins

A antiga garagem de bondes ainda preserva a estrutura metálica montada há 100 anos (Foto: Anderson Tozato)

Pouco lembrada pela população de Curitiba, a antiga garagem de bondes situada no cruzamento das ruas Barão do Rio Branco e Visconde de Guarapuava já foi uma referência quando a região do entorno da Praça Eufrásio Correia era uma das principais vias da cidade, um trajeto obrigatório para quem desembarcava na estação ferroviária.

Tração animal (1887)
A garagem começou a funcionar em 8 de novembro de 1887, data da inauguração das primeiras linhas que eram administradas pela empresa Ferrocarryl Curitybana, de propriedade do senhor Boaventura Fernando Clapp. A atividade era exercida mediante contrato entre Clapp e a Câmara Municipal. O espaço da garagem se resumia a um galpão de madeira no formato chalé, que servia de depósito e estrebaria, entre outras funções.

O primeiro dia de funcionamento das linhas de bonde foi noticiado com destaque pelo jornal A Gazeta Paranaense e transcrito de forma resumida por Heitor Borges de Macedo, em seu livro Rememorando Curitiba. “Pouco depois das onze horas, partiram da estação central da empresa quatro vagões (wagons) de passageiros, um ocupado pela excelente banda do 2º Corpo de Cavalaria. Dirigiram-se os bondes para o Boulevard 2 de julho (João Gualberto), onde reside o operoso industrial Comendador Francisco Fontana, que preparou condigna recepção”, publicou o jornal.

A regularização de um serviço de bondes representava (ao lado de outras novidades como o Passeio Público, o saneamento e a iluminação pública) um avanço, uma mudança do universo eminentemente rural que predominara até então para um ambiente com aspirações cosmopolitas.
 
Em 27 de agosto de 1895, o empresário Santiago Colle passou a ser o dono da empresa, que ele próprio descreveu num relatório de 20 de fevereiro de 1906: “a estação e suas dependências ocupam uma área de seis mi metros quadrados. O material rodante é representado por 20 viaturas abertas para passageiros, quinze vagões descobertos para cargas, dois vagões fechados para transporte de mala postal e diversos carros abertos para ferragens. Para a tração desses veículos, possui a empresa, 150 mulas”, registrou Santiago Colle.
 
Para o pesquisador Marcelo Sutil, a garagem possuía importância estratégica:  “Quando foi inaugurada, a Praça Eufrásio Correia ainda era um descampado e um matagal cobria parte da futura Rua da Liberdade. No entanto, os bondes ali localizados, juntamente com a ferrovia, tinham naquele espaço um ponto crucial para a dispersão de linhas. De lá partiam ramais que direcionavam o crescimento (da cidade)”, esclarece Sutil.
 
Santiago Colle se afastou da empresa em 1910, cedendo espaço à firma inglesa South Brazilian Railways Ltd., que assumiu o controle sobre os equipamentos, veículos, animais de tração e instalações. Dois anos depois, essa empresa montou a estrutura metálica que até hoje sustenta a cobertura da antiga garagem de bondes. Seria precipitado supor o peso das vigas de ferro fundido que se conectam a dez metros de altura, mas o fato é que essa descomunal armação metálica completou 100 anos e, aparentemente, reúne condições para permanecer intacta por muito mais tempo.
 
Bondes elétricos
Em 1913, Curitiba adotou os bondes elétricos, o que não significou o imediato abandono dos bondes movidos à tração animal. Os dois modelos conviveram durante um breve período, mas não tardou para que todas as linhas se eletrificassem.

Com a extinção da South Brazilian Raiways em 1928, os bondes e toda a administração desse meio de transporte coletivo foram transferidos para a Companhia Força e Luz do Paraná que deu continuidade aos serviços. Em 1952,os bondes já não eram mais compatíveis com o fluxo do trânsito, o que fez com que o prefeito Ney Braga os excluísse em benefício dos ônibus que se mostravam mais práticos e econômicos.
 
A antiga garagem se tornou propriedade da família Slaviero, que manteve no local uma concessionária de veículos por alguns anos. Atualmente o espaço é utilizado por vários setores técnico-administrativos da Câmara Municipal. Embora sua aparência tenha sido alterada e sua função seja outra, o lugar continua evocando um tempo remoto em que a cidade ainda era uma promessa.

Por João Cândido Martins

Referências Bibliográficas

Rememorando Curitiba (Heitor Borges de Macedo, 1983)
Beirais e Platibandas (Marcelo Sutil, 1993)
O verde na metrópole: a evolução das praças e jardins em Curitiba (Aparecida Vaz da Silva Bahls, 1998)
Rua da Liberdade (Barão do Rio branco) – Boletim da Casa Romário Martins (1981)



A origem do Passeio Público

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A origem do Passeio Público

por João Cândido Martins 

De 1876 a 1973, o Passeio Público foi o único parque público da cidade. (Foto – Anderson Tozato)

https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ O italiano Francisco Fasce Fontana fez fortuna no Uruguai com a industrialização e o comércio de erva-mate. No começo da década de 1880, o empresário esteve em Curitiba para cobrar uma dívida e acabou se instalando, após casar com a filha do desembargador Ermelino de Leão, nome de peso entre os ervateiros paranaenses.   
   
Em 1885, o presidente da Província do Paraná, Alfredo Taunay, ficou bem impressionado com o serviço de saneamento que Fontana promoveu no terreno de sua mansão (o chamado “Palacete das Rosas”), e o convidou para a condução dos melhoramentos daquele que viria a ser o primeiro parque público de Curitiba. A ideia era sanear e embelezar uma área alagadiça nas proximidades do Atalho da Graciosa para evitar a proliferação de agentes vetores de doenças. Fontana aceitou sabendo que o empreendimento traria benefícios para toda aquela região (que à época já era conhecida como Glória, em função do Engenho da Glória, de propriedade de Fontana).

Ele marcou época com suas técnicas inovadoras para a industrialização do mate. Delegou ao engenheiro italiano Lazzarini (que também trabalhou na estrada de ferro e na construção da Catedral) a tarefa de promover os melhoramentos no banhado.  Tais intervenções foram feitas às pressas, porque precisavam ser concluídas antes do fim da gestão de Taunay. Fontana, envolvido com o projeto, injetou dinheiro do próprio bolso para que o parque se materializasse.

Mesmo inacabado, o parque teve boa receptividade entre a população. Foi batizado de “Passeio Público”, a exemplo de muitos outros espaços feitos com o mesmo objetivo, como os Passeios Públicos de Vila Bela, no Mato Grosso, criado em 1773; Vila Boa de Goiás, fundado em 1778; Rio de Janeiro, construído entre os anos de 1779 e 1883; e o de Salvador, datado de 1803. Todos foram inspirados no Passeio Público doado para a cidade de Lisboa pelo Marquês de Pombal, em 1764.

https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Ao lado do Passeio Público, o antigo Atalho da Graciosa também recebeu melhoramentos e passou a se chamar Boulevard 2 de Julho (posteriormente se tornaria a Avenida João Gualberto). Em seu entorno foram instalados os mais exuberantes palacetes da era dos barões da erva-mate. De certa forma, o Passeio acabou valorizando a região que, ao lado do Batel, passou a reunir as residências dos cidadãos mais abastados. Não por acaso, a linha de bondes iniciava no engenho do Barão do Serro Azul, no Batel, passava pelo centro da cidade e acabava em frente ao Engenho da Glória, alguns metros depois da entrada do Passeio. Segundo o historiador Magunus Pereira, a diversidade e exuberância da vegetação do Passeio foi uma forma dos ervateiros criarem um ambiente que se diferenciasse do “caótico mato que envolvia a cidade”.

Fontana foi escolhido como o primeiro administrador do parque, mas ao contrário do que ele provavelmente desejava, sua gestão durou pouco. Entendia ele que os lazeres e serviços oferecidos deveriam ser cobrados e, dessa forma ele conduziu os negócios, até a instalação do carrossel, também conhecido como a “elegante máquina de cavalinhos”.

Revolta Popular
No entendimento da pesquisadora Cassiana Lícia Lacerda, “essa máquina, certamente, proporcionava um sentimento de conquista povoando o imaginário dos adultos e das crianças, causando até certo tumulto”. O alvoroço provocado pelo carrossel na população pelo mecanismo foi tão intenso, que Fontana criou regras e aumentou os preços para o uso da máquina. Houve desconforto popular. As mudanças políticas diminuíram as verbas destinadas ao Passeio. Fontana ficou contrariado, pois teve de bancar a custas da manutenção do local (como já havia feito por ocasião das obras iniciais de saneamento).

A situação que realmente o deixou furioso aconteceu quando fiscais da administração pública foram lhe cobrar recibos e notas fiscais das obras que ele mesmo estava pagando. Isso o tirou do sério a tal ponto que ele fechou os portões do Passeio em represália. Diante dos portões fechados do Passeio Público, os populares quase promoveram uma revolta armada. O povo em massa invadiu o parque numa clara demonstração de que aquele espaço era de todos, era “res” pública. A cena não parece combinar com o pacato cenário sugerido pelos relatos da Curitiba antiga, mas em 1889 todo o Brasil atravessava uma turbulência política gerada pela iminência da República. Fontana, que possuía inegáveis vínculos com a monarquia, resolveu se afastar da direção do Passeio Público que, no decorrer dos anos seguintes, passou por inúmeras transformações.

Quando Fontana faleceu, o jornal “A República” publicou um obituário dizendo que ele fora responsável pela iniciativa do projeto do parque e pela doação do terreno. Em verdade, a iniciativa de se criar um parque veio de Taunay e o terreno pertencia em sua maior parte à administração municipal. Curiosamente, o mesmo texto publicado erroneamente por “A República” foi usado em duas placas de bronze instaladas no Passeio. E o busto de Fontana que se encontra na entrada do parque é de mármore, um material mais comum em cemitérios.

*O Passeio Público foi inaugurado às três horas da tarde do dia 2 de maio de 1886, um domingo. Surgido de necessidades sanitaristas, o parque permanece até hoje como um pedaço de área verde em meio à cidade.

Referências Bibliográficas:

Passeio Público, primeiro parque público de Curitiba. Boletim Informativo da Casa Romário Martins, vol. 26, número 124. Agosto de 2001. Texto de Cassiana Lícia de Lacerda.

Semeando iras rumo ao progresso – Ordenamento jurídico e econômico da Sociedade Paranaense, 1829-1889 (Magnus Roberto de Mello Pereira. Editora da UFPR, 1996).
 
"O Verde na Metrópole: a evolução das praças e jardins em Curitiba 1885-1916", de Aparecida Vaz da Silva Bahls. Dissertação apresentada para o Mestrado em História da UFPR, em 1998.