sábado, 29 de novembro de 2025

A Casa de Veronicca César: Um Retrato Efêmero da Moradia Econômica em Curitiba nos Anos 1920

 Eduardo Fernando Chaves:  Projetista

Denominação inicial: Projecto de casa para a Snra. Veronicca César

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Avenida Augusto Stellfeld

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 80,00 m²
Área Total: 80,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 9/10/1926

Alvará de Construção: Talão N° 652; Nº 3942/1926

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de uma casa de madeira.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

1 - GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de casa para Snra. Veronica César, à Avenida Augusto Stelfeld. Plantas do pavimento térreo e de implantação, fachada frontal e corte apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

A Casa de Veronicca César: Um Retrato Efêmero da Moradia Econômica em Curitiba nos Anos 1920

Na Curitiba em franca expansão urbana da década de 1920, entre bondes elétricos, novos bairros surgindo e uma crescente classe média em busca de moradia digna, ergueu-se — ainda que por pouco tempo — uma modesta residência de madeira na Avenida Augusto Stellfeld, projetada com simplicidade e funcionalidade para Veronicca César. Embora já não exista fisicamente, sua memória permanece gravada nos arquivos da cidade como um testemunho sensível da arquitetura doméstica de seu tempo.


Veronicca César: A Moradora por Trás do Projeto

Embora poucos detalhes biográficos sobre Veronicca César tenham sobrevivido ao tempo, seu nome imortalizado nos registros municipais revela mais do que uma simples encomenda arquitetônica: é o sinal de uma mulher que, em pleno Brasil da Primeira República, assumiu a iniciativa de construir sua própria casa — um ato que, à época, não era comum, especialmente para mulheres solteiras ou chefes de família.

O fato de ter seu nome estampado como proprietária no projeto — “Projecto de casa para a Snra. Veronicca César” — sugere autonomia, presença social e, talvez, uma certa independência econômica. Ela era, acima de tudo, a razão daquela casa existir: não um investimento especulativo, mas um lar pensado para acolher sua vida, seus sonhos e seu cotidiano.


O Projeto: Simplicidade com Propósito

Confiado ao escritório Gastão Chaves & Cia., um dos mais atuantes na Curitiba da época, o projeto foi assinado por Eduardo Fernando Chaves, profissional que se destacou na elaboração de residências acessíveis, escolas e pequenos edifícios públicos. Datado de 9 de outubro de 1926, o projeto apresentava uma planta clara e racional:

  • Um único pavimento, com 80 m² de área construída;
  • Estrutura inteiramente em madeira, material abundante e de rápido manejo na região sul;
  • Soluções típicas da chamada “residência econômica”: cômodos bem distribuídos, varanda frontal, cozinha integrada ao fundo e quartos voltados para o interior do lote, buscando privacidade e ventilação cruzada.

A prancha original — preservada em microfilme no Arquivo Público Municipal de Curitiba — traz, com elegância técnica, a planta baixa, a fachada principal e um corte arquitetônico. Apesar da simplicidade, nota-se cuidado com a proporção, a simetria e a integração com o terreno, características da arquitetura vernácula curitibana que dialogava com influências europeias, sobretudo alemãs e polonesas.

O alvará de construção, registrado sob o Talão nº 652, número 3942/1926, sinaliza a formalização do empreendimento junto à prefeitura, refletindo a crescente burocracia urbana da capital paranaense na era do prefeito Burgueses.


A Efemeridade de uma Casa de Madeira

Infelizmente, como tantas outras construções de madeira da primeira metade do século XX, a casa de Veronicca César não resistiu ao tempo. Até 2012, já havia sido demolida, substituída, provavelmente, por um edifício mais denso ou por outra residência alinhada às novas lógicas urbanas do século XXI.

Sua desaparição física é um lembrete doloroso de como a arquitetura modesta — especialmente quando feita de materiais perecíveis — é frequentemente invisibilizada na narrativa histórica. No entanto, sua existência documentada resiste como patrimônio imaterial: um símbolo da vida cotidiana, da aspiração por morar bem e da dignidade do lar construído com as próprias mãos ou com o suor do próprio nome.


Legado Silencioso, Mas Presente

Hoje, ao caminhar pela Avenida Augusto Stellfeld, poucos imaginam que, quase cem anos atrás, ali existiu uma casa de tábuas claras, telhado de telha cerâmica, varanda onde talvez Veronicca tomasse seu café da manhã ou recebesse vizinhos aos domingos. Mas nos arquivos, nas linhas de tinta sépia do projeto arquitetônico, ela ainda mora.

A casa de Veronicca César não era um palácio, nem um marco estilístico revolucionário. Era, antes de tudo, um abrigo. E nisso reside sua grandeza: na capacidade de representar, com honestidade e beleza funcional, a vida de quem constrói uma cidade não com monumentos, mas com lares.


“As cidades são feitas de pedra, concreto e aço — mas também de nomes esquecidos, de projetos rasgados, de casas que já não estão, mas que, por um instante, foram tudo para alguém.”
A história de Veronicca César é uma dessas histórias. E merece ser lembrada.

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