sábado, 29 de novembro de 2025

O Bangalô de Nady de Paula Cardoso: Uma Moradia Econômica que Desapareceu, Mas Deixou Registro

 Eduardo Fernando Chaves:  Arquiteto e Construtor

Denominação inicial: Planta de Bungalow para o Snr. Nady de Paula Cardoso

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Rua dos Bandeirantes

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 96,00 m²
Área Total: 96,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 21/06/1934

Alvará de Construção: Nº 634/1934

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de bangalô e Alvará de Construção.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1 – CHAVES, Eduardo Fernando. Planta de Bungalow a Rua dos Bandeirantes para o Snr. Nady de Paula Cardoso. Planta do pavimento térreo e de implantação; corte, fachada frontal e fossa séptica apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 634

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

O Bangalô de Nady de Paula Cardoso: Uma Moradia Econômica que Desapareceu, Mas Deixou Registro

Em junho de 1934, em plena efervescência urbana da Curitiba pós-30, o arquiteto e construtor Eduardo Fernando Chaves assinava um projeto modesto, porém meticuloso: um bangalô de alvenaria destinado a Nady de Paula Cardoso, na Rua dos Bandeirantes. Com apenas 96 m² distribuídos em um único pavimento, a residência encarnava o ideal da “casa econômica” — acessível, funcional e digna — que marcava a produção habitacional da época para as camadas médias emergentes da capital paranaense.

Hoje, o imóvel não existe mais. Demolido antes ou durante a década de 2010, sua presença física desapareceu. Mas sua memória subsiste nos arquivos municipais, como um retrato sensível de uma era em que cada tijolo era colocado com intenção, e cada planta arquitetônica era um ato de esperança.


Nady de Paula Cardoso: O Nome Por Trás da Casa

Embora não haja registros biográficos detalhados sobre Nady de Paula Cardoso, o fato de ter encomendado um projeto arquitetônico assinado — e não uma construção informal — indica um certo nível de instrução, estabilidade financeira ou aspiração social. Em uma época em que muitos ainda viviam em casas de madeira ou cortiços, encomendar um bangalô de alvenaria era um passo significativo rumo à estabilidade urbana.

O uso do termo “bangalô” no título do projeto — em vez de “casa” — revela a influência de tipologias arquitetônicas internacionais, adaptadas ao clima e à realidade curitibana. Originário do sul da Ásia e popularizado no Ocidente como moradia de veraneio, o bangalô foi reinterpretado no Brasil como uma residência térrea, de telhado inclinado e planta simples, ideal para lotes urbanos estreitos.


O Projeto de Eduardo Fernando Chaves: Simplicidade com Rigor Técnico

Assinado em 21 de junho de 1934, o projeto de Chaves trazia, em uma única prancha, todos os elementos essenciais de uma residência completa:

  • Planta do pavimento térreo, com sala, dois quartos, cozinha, banheiro e área de serviço;
  • Implantação no lote, respeitando recuos e orientação solar;
  • Fachada frontal, de linhas sóbrias, sem ornamentos excessivos;
  • Corte arquitetônico, revelando a altura do pé-direito e a estrutura do telhado;
  • Projeto de fossa séptica — um detalhe surpreendente para a época, que demonstra preocupação com saneamento básico, ainda pouco difundido nas construções populares.

Construído em alvenaria de tijolos, o bangalô representava um salto em durabilidade e higiene em relação às construções de madeira, ainda predominantes. O Alvará de Construção nº 634/1934, emitido pela prefeitura, confirmava a legalidade do empreendimento e reforçava o controle urbano crescente na cidade.


A Efemeridade do Patrimônio Cotidiano

Infelizmente, como tantas outras residências econômicas do início do século XX, o bangalô de Nady de Paula Cardoso não resistiu à pressão imobiliária, à renovação urbana ou simplesmente ao abandono. Em 2012, já constava como demolido nos levantamentos do Arquivo Público Municipal de Curitiba.

Sua ausência física é um lembrete doloroso: o patrimônio mais ameaçado não é o monumental, mas o cotidiano. As casas comuns, feitas para viver e não para impressionar, são as primeiras a desaparecer — e, com elas, desaparecem também as histórias das pessoas que as habitaram.


Legado em Arquivo: A Casa que Vive nos Desenhos

Felizmente, o projeto original foi preservado em microfilme digitalizado, mantendo viva a configuração espacial, as medidas, os detalhes construtivos e até a assinatura firme de Eduardo Fernando Chaves. A prancha é mais do que um documento técnico: é um testemunho de uma visão de cidade inclusiva, onde até uma casa de 96 m² merecia projeto arquitetônico, cálculo de saneamento e respeito pela dignidade do morador.

Nady de Paula Cardoso talvez jamais imaginou que, quase um século depois, alguém se interessaria por sua casa. Mas é justamente nesses pequenos registros — em alvarás amarelados, em plantas esquecidas, em nomes gravados à tinta sépia — que reside a verdadeira alma de uma cidade.


“Curitiba não foi feita apenas por palácios e avenidas, mas por bangalôs de tijolos, fossas sépticas bem projetadas e homens e mulheres que sonharam com um lar próprio. Nady de Paula Cardoso foi um deles. E, mesmo sem paredes de pé, sua casa ainda ensina algo sobre o que é construir uma cidade com humanidade.”

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