Dias antes do ataque a Montese, em uma noite escura e com pouca visibilidade, o tenente do 11º Regimento de infantaria, Roberto Nappo em parceria de um partigiani (que não teve o nome registrado), atravessaram montes, bosques e conseguiram penetrar nada menos que 14 km dentro do território inimigo. Foi assim que atravessaram por fora da cidade medieval e foram dar em um depósito de munições alemão.
Roberto Nappo (na direita) com um amigo, em carro de combate. (Acervo do neto dele Rafael Nappo)
Roberto não levava armas, apenas um alicate e os explosivos iam com o partigiani, que era um exímio conhecedor do local e dos caminhos que desviavam das barreiras e postos de controle inimigos.O depósito era dividido em três casas. O tenente teve tempo de colocar a bomba e esticou os fios pelas três. Depois, se enfiou debaixo de um monte de feno e juntou as pontas dos fios. Conforme o boletim interno da FEB que registrou o fato, a explosão foi tão intensa quanto um terremoto.
Contudo, a atividade culminou em baixas colaterais, porque em uma das casas os alemães haviam organizado um baile. Desse modo, civis que estavam juntos morreram na hora.
A ação teria sido importante para reduzir a capacidade combativa dos alemães que, mesmo assim, não foi baixa no dia do ataque à Montese, em 14 de abril de 1945, e nos dias que se seguiram, até a vitória final brasileira.
Roberto Nappo (Acervo do neto dele, Rafael Nappo)
Quem registrou a história, resumindo o boletim interno nº 127, de 7 de maio de 1945, foi Geraldo Batista de Araújo, que era Terceiro Sargento e que servia no Counter Intelligence Center (CIC) ou Serviço de Contra-espoionagem da FEB. Ele contou esse feito no livro “Caçando espiões”, de 1963.Ele foi para a reserva e em 1952 chegou ao posto de capitão. Nappo faleceu em 2018, aos 104 anos de idade e morava em Belo Horizonte. Pelo ato, após a guerra ganhou a medalha Cruz de Combate, 1ª Classe, por ato de bravura individual. Ele ainda era possuidor de outras duas medalhas por atos de bravura coletiva, quando comandava soldados.
Essa história e outras estão no livro “Camarada Pracinha, amigo Partigiani: anotações brasileiras sobre a Resistência Italiana na Segunda Guerra Mundial”, de Helton Costa. O livro pode ser comprado neste link: https://clubedeautores.com.br/livro/camarada-pracinha-amigo-partigiani
Foto da capa, da cidade de Montese, é da Booking.com
Na data de hoje, há 77 anos, os brasileiros tinham a primeira derrota para tropas do Eixo na Itália. Foi uma derrota que trouxe aprendizados e modificações no comando da Infantaria da FEB.
O começo
Vista de Sommocolonia nos dias atuais. Cidade foi base de partida e reunião do ataque (Foto: WikiMedia)
Após 45 dias de uma série de vitórias, a Força Expedicionária Brasileira recebeu mais uma missão, desta vez rumo a Castelnuovo di Garfagnana. A ideia geral era ocupar e manter as linhas que ligavam Calomini – Casa Casela – San Quirico – Colle – Cota 906 – Lama di Sotto, liberando o acesso à cidade de Castelnuovo di Garfagnana. O local estava defendido pela veterana 232ª Divisão de Infantaria Alemã. Por isso, o comando brasileiro esperou a substituição dos alemães por tropas fascistas da divisão Monterosa, mais especificamente do Batalhão Aosta, recém empregado no front.Para cumprir o ordenado pelo IV Corpo de Exércitos Aliados, em 30 de outubro de 1944, os soldados haviam atacado as posições inimigas, desde às 8h. No ataque, o I Batalhão (1ª Cia, 2ª Cia e 3ª Cia) foi pelo leste, tomando Lama di Sotto. Depois disso, San Quirico e Trepionana. A 2ª Cia saiu de Sommocolonia para San Quirico, tendo que literalmente escalar alguns trechos do terreno, muito íngreme, acidentado e cheio de barro, pois choveu em 30 e 31 de outubro. Foram 3 km de subida, com gente escorregando e derrubando equipamentos. Os Pracinhas conseguiram subir e ainda aprisionar 50 inimigos, logo no começo. Mas, a frente de 4,5 km era muito extensa para somente um batalhão.
O II Batalhão foi posto do lado esquerdo do avanço, para proteger o flanco do I Batalhão, e o III Batalhão à direita, com o mesmo objetivo. De noite, por volta das 18h, já eram 153 prisioneiros inimigos e os batalhões haviam progredido e cumprido suas missões. O calendário marcava 30 de outubro.
Porém, em 31 de madrugada, as coisas desandaram. Registra o Relatório de Atividades do Regimento:
“Às 3 horas de 31 de outubro, o inimigo desencadeou o violento golpe de mão à frente da 3ª Cia e de um Pelotão da 7ª Cia [II Batalhão], conseguiu infiltrar-se entre os pelotões e atacou o posto de comando da 3ª Cia. Os elementos atacados recuaram. Ao amanhecer, a falta de reservas e impediu que se procurasse restabelecer a posição numa frente de 2 Km. Na tarde do mesmo dia, ação semelhante foi realizada sobre a 1ª Cia, e com forte apoio de artilharia. Esgotada munição e com pesadas baixas, a Cia recuou. A 2ª Cia, na iminência de ser cercada, recebeu ordem de retrair para base de partida, o que fez com dificuldade. Às 17 horas, com cerca de 59 baixas, restabeleceu-se a situação na base de partida. Esta foi a última operação ofensiva do Regimento no Vale do Serchio”.
O que tinha acontecido, era que os alemães se organizaram para recuperar as posições, com soldados da 42ª Divisão Jäger, da 232a Divisão de Infantaria (1044° Regimento de Granadeiros) e Batalhão Brescia (Monterosa). O contra-ataque foi desigual para os brasileiros, que estiveram em menor número e sem meios suficientes para se manterem no terreno.
Mascarenhas culpou os soldados
Na opinião do comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes[1], “certas de que os elementos inimigos em contato não possuíam valor combativo”, as Cias “descuraram de certas medidas de segurança e nem sequer estabeleceram um razoável plano de fogo, arremates obrigatórios da manutenção de um objetivo conquistado”.
Ruínas dentro de Sommocolonia (Eliot Stein/USA Today)
Tal versão foi contestada pelos oficiais que estavam junto dos soldados naquele dia. “A nós nos parece, pois, que querer explicar a derrota da FEB, no setor de Castelnuovo di Garfagnana, de maneira simplista como fez o Marechal Mascarenhas de Moraes, em seu livro (página 93), é, além do mais, forte dose de injustiça”, escreveu José Alífio Piason, subcomandante da 3ª Cia do I Batalhão do 6º Regimento e também Oficial de Informações do Batalhão[2].O tenente Alífio defendeu que os comandantes superiores poderiam muito bem ter mandado reforços para as Cias atacadas e da mesma forma, munição para suportar os contra-ataques, já que tiveram pelo menos “meia jornada” para assim proceder. Porém, reflete ele, se o Comando tinha empregado os três batalhões de uma só vez, como poderia mandar reforço, se não havia tropas de reserva?
“Estudou o comando um ataque, montou e levou a efeito, esquecendo-se dos mais comezinhos princípios de tática militar: nenhuma tropa deve empenhar-se em combate sem reserva. Além disso, outro princípio, igualmente importante também foi esquecido: não se estudaram e não se forneceram à tropa atacante, meios de reabastecimento suficientes (…). Cremos, pois, ter assim ficado provado que o primeiro revés das tropas brasileiras na Itália, foi devido ao menosprezo, mas do nosso Comando, pelo valor do inimigo, avaliação indevida de suas possibilidades, falta de previsão de reserva e de meios de reabastecimentos”, concluiu Piason.
José Gonçalves, que comandava um dos pelotões da 1ª Cia na ocasião, na mesma obra que Piason, escreveu um capítulo todo sobre aquela fatídica noite. Os dois concordam que se houve falta de planejamento, não foram das Cias e sim de seus superiores, que descuidaram das reservas e da parte logística.
Gonçalves e os homens dele resistiram até que nem granadas eles tivessem mais, ao ponto de ter que esperar os alemães chegarem a 20 ou 30 metros para poderem atirar e não desperdiçar munição. Até bazucas eles utilizaram contra os inimigos. Ferdinando Piske[3], que era sargento no pelotão de Gonçalves, confirmou os fatos narrados pelo tenente[4] e completou que quando chegaram ao local de reunião do batalhão, já em Sommocolonia, ficou assustado. “O que arrepiou, foi a contagem da munição. Os 45 homens do Pelotão, mais uns 12 do pelotão de petrechos, tinham 137 cartuchos. Pouco menos de três tiros para cada um!”, completou.
“Foi essa a primeira lição que o Fritz nos deu. Aproveitamo-la sem dúvida, porque, daí por diante, nunca mais seríamos vítimas de tais surpresas. Já não iríamos confiar demasiado e nossa valor combativo, e sim cumprir certas prescrições reguladoras da segurança imediata, logo após a conquista de uma posição, mesmo que o cansaço nos tornasse desesperados”, escreveu Newton C. de Andrade Mello, observador avançado da Artilharia junto ao 6º Regimento.
General Zenóbio fez pouco caso
O comandante da Infantaria da FEB, Zenóbio da Costa teria desdenhado dos inimigos, pouco tempo antes da saída das Cias. Ele duvidava da capacidade combativa dos adversários e também teria apressado a partida sem os devidos meios. “Foi quando apareceu por lá um Oficial do Estado-Maior do destacamento FEB, o qual não querendo tomar conhecimento das razões que haviam determinado aquele atraso [da partida do ataque], em termos coléricos, foi logo se dirigindo os capitães e tenentes daquelas companhias dizendo a eles: ‘vocês estão com medo de meia dúzia de vagabundos. A pau eles sairão de lá!’”, lembrou José Gonçalves.
Placas em homenagem às tropas do Brasil e dos EUA em Sommocolonia (Eliot Stein/USA Today)
E depois da batalha, não foi diferente. Quando tudo já havia dado errado, o mesmo general passou pelos soldados sujos, cansados e abatidos. “No entanto, pasmem os que lerem estas linhas, reunidos os elementos batidos de tão castigada a companhia [da 3ª Cia], que se haviam recolhido das nossas linhas internas de partida, estropiados, combalidos física e moralmente pelo cansaço, pelos acontecimentos e a perda de tantos companheiros, reunindo tais elementos que só mereciam palavras de exaltação e estímulo, passou o general comandante da operação, fortíssima reprimenda, terminando com a afirmação de não passavam todos de ‘covardes fugindo diante de meia dúzia de uma patrulha de inimigos desmoralizados’”, afirmou o tenente Gonçalves.E a bronca teve repercussão. O 1º Tenente Massaki Udihara, do 6º Regimento anotou no diário[5] que mantinha que “a 1ª [Cia], dizem, que recuou com muitas baixas. O mesmo com a 3ª que, segundo contam, foi posta em forma pelo General e chamada de covarde. Atitude característica e própria de quem vem. É seu modo de elevar o moral e não compreender a situação”.
Piason comparou a atitude de Zenóbio, com a mesma que teve o general Patton quando esbofeteou um soldado com neurose de guerra e ainda o chamou de covarde. Na opinião dele, ainda que fosse verdade que o general tinha dito, aquele não era o jeito de falar com homens que tinham lutado até o completo esgotamento físico e de meios.
Reação diferente teve o comandante do Batalhão, major João Carlos Gross, que foi encontrar com os soldados em Sommocolonia. “Batia a amigavelmente nas costas de cada um e dizia: ‘Sigam tranquilos, rapazes. Vocês cumpriram exemplarmente seu dever. Nestas circunstâncias, nenhuma tropa seguraria essa posição”, escreveu o sargento Piske.
Mais tarde, segundo o tenente Gonçalves[6], o próprio Gross teria escrito no Jornal de Taubaté: “Foi cometido um crime contra o meu Batalhão, e desse crime sinto que sou cúmplice porque executei as operações (…) Porém, não me julgo o criminoso. Ataquei sem reserva de tropa e sem reservas de munição e alimentos, e disso não me cabe culpa direta”, teria publicado.
O Chefe do Estado-Maior da FEB, Coronel Floriano de Lima Brayner, em livro[7] que escreveu em 1968, não perdeu a oportunidade de lembrar o fato e alfinetar seus colegas com quem cultivava desavenças políticas. “O tropeço daquela madrugada de 31 de outubro continuou a martelar o espírito de todos. E todos concordavam em que a menor culpa era da tropa. Falhara o Estado-Maior de Zenóbio no planejamento. Os meios não foram proporcionais a missão. Também cabe a parte da responsabilidade ao Estado-Maior da Divisão, pois encontrava-se ao lado do General Zenóbio, como seu assessor imediato, o próprio chefe da 3ª Seção do Estado-Maior divisionário, Tenente Coronel Humberto Castelo Branco”, publicou.
Prisioneiros italianos em posto de coleta brasileiro. (Acervo Giovanni Sulla)
Quando a FEB foi para o setor Reno, Zenóbio não comandaria mais de forma independente como vinha fazendo. Mascarenhas de Moraes e o Estado Maior da Divisão é quem fariam o planejamento e a execução das ações. Segundo Brayner, “não se pôde esconder o profundo desgosto que assaltou o General Mascarenhas, que tanto se entusiasmara com a jornada anterior [dia 30]”.Já a frente de Sommocolonia a Barga continuaria em disputa do Eixo com os Aliados até o abril de 1945, quando as tropas nazifascistas começaram a recuar na tentativa de fugir para a Áustria/Alemanha. O problema de não conseguir desalojar os inimigos não foi somente da FEB. As unidades americanas que entraram no lugar dos brasileiros não teve melhor sorte e o máximo que conseguiram foi não ceder terreno.
Um trauma
Anos depois da guerra, o Cabo da 3ª Cia do 6° Regimento, Miled Cury disse[8] que em uma reunião na Associação de Ex-combatentes, um colega, Miguel Garófalo, da Cia de Petrechos do I Batalhão, que estava junto da Cia dele em 31/10/1945, o abordou bastante emocionado e relembrou daquela noite, quando matou um inimigo a queima roupa. “O sujeito parece que estava louco… Com os olhos esbugalhados, veio na minha direção e quase caiu em cima de mim. Acho que ele estava morto antes de cair. (…) Por que eles não mandaram mais munição para nós? Se a gente tivesse munição, eles nunca iriam ganhar de nós!”, completou Miguel com lágrimas nos olhos.
O troco
Primeiro os soldados do 6° Regimento expulsaram os alemães de Castelnuovo di Vergato, em março de 1945. Ali estavam alguns dos soldados que eles tinham enfrentado em Garfagnana.
Depois, quando aconteceu a rendição da 148ª Divisão Alemã, em 29 e 30 de abril de 1945, parte das tropas aprisionadas pelos homens do 6º Regimento eram justamente as mesmas que os haviam expulsado das proximidades de Castelnuovo de Garfagnana. Isso porque havia homens da Monterosa e da 232ª Divisão entre os quase 14,8 mil soldados aprisionados.
Foi assim que dia 31 de outubro de 1944 entrou para a história militar do Brasil.
João Tarcísio Bueno era natural de Mato Grosso. Vinha de uma família de militares, que ajudaram na consolidação da fronteira oeste do Brasil. Descendia de modo distante do bandeirante Anhanguera, Bartolomeu Bueno da Silva.
Formou-se oficial na turma de 1932, voltou para a terra natal e trabalhava na 9ª Região Militar. Foi ali que ele conheceu outro personagem famoso da Força Expedicionária Brasileira – FEB, Zenóbio da Costa, que foi o comandante da infantaria. Zenóbio era de Corumbá, na época, parte do Mato Grosso e hoje Mato Grosso do Sul.
Capitão Bueno e soldado Sérgio (Foto: AHEx com correção da Redação)
Da amizade entre os dois, resultou que quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, João Tarcísio Bueno, já capitão, foi convidado para fazer parte dos auxiliares de Zenóbio, embarcado no primeiro escalão como ajudante de ordens.
O médico Alípio Corrêa Netto, no livro “Notas de Expedicionário médico”, editado em 1983, comenta que João Tarcísio Bueno sabia que tinha um dos pulmões comprometido por suspeita de tuberculose, e que se negou fazer exame de detecção da doença antes de embarcar. O médico conta, na página 54 do livro, que foi exatamente a doença que o salvou da morte, como se verá.Na Itália
Após um batismo de fogo pouco positivo, a 1ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria precisou ser tirada de linha, em Casa Guanella, quando após o ataque de uma patrulha reforçada alemã, a maioria dos homens fugiu.
Por imprudência ou tentativa de provar algo, Zenóbio da Costa que era quem dava as ordens na a Infantaria, sugeriu a Mascarenhas de Moraes que os mesmos homens que tinham sofrido um batismo de fogo traumático em Guanella, fossem atacar o Monte Castello, durante a quarta tentativa de tomada da elevação, em 12 de dezembro de 1944.
Para elevar a moral dos homens, ele escolheu ninguém menos que João Tarcísio Bueno, seu homem de confiança, para liderar o ataque de um dos pelotões, bem pelo meio do dispositivo que passava por Abetaia, que é um dos pontos que até hoje dão acesso ao Monte e por isso mesmo, naqueles dias, bastante visado pelos alemães. Bueno teve só dois dias para conhecer e motivar a tropa.
Situação complicada
Logo no início do ataque os alemães perceberam a movimentação brasileira, até porque horas antes do ataque, a artilharia americana havia quebrado o fator surpresa com uma saraivada no setor vizinho à Monte Castello. Cientes do que estava por vir, os tedescos despejaram morteiros e tiros de metralhadoras que paralisaram os brasileiros.
Bueno, com muito sacrifício, chegou até Abetaia, porém os inimigos isolaram o grupo dele, com fogos de todas as partes e ainda tiraram as comunicações de ação, rompendo fios e acertando soldados que carregavam radiotransmissores.
O relógio marcava 11h37, quando chegou um mensageiro ao comandante do I Batalhão do 11º Regimento de Infantaria e informou que Bueno havia sido baleado quando tentava avançar com seus homens, ao levantar-se para atirar uma granada.
No Posto de Observação viram ele caído a 30 metros de uma casa. Mandaram um soldado buscá-lo, mas, quando o jovem estava a 50 metros do oficial, levou um tiro dos alemães.
Segundo a parte de combate do dia, do 11º Regimento de Infantaria, tentaram por outras três vezes buscar o Bueno, inclusive mandando padioleiros identificados com a cruz vermelha, mas, os alemães não permitiam a aproximação.Enquanto isso os homens comandados por Bueno permaneciam isolados e ficaram assim até às 20h, quando finalmente conseguiram retornar para a base de partida. O ataque frustrado começara às 6h!
De noite, Max Wolf, 3º sargento que comandava um grupo de combate especial, também saiu em busca de Bueno. Não o encontrou, mas, conseguiu encontrar soldados dispersos e feridos.
E depois?
Quando foi baleado, Bueno levava junto de si, o seu braço direito até ali, o ordenança Sérgio Pereira, que o ajudava no cotidiano e era seu amigo. Quando o tiro acertou o comandante dele, Sérgio memorizou o local, mas, não conseguiu resgatá-lo.
Sérgio Pereira
No retorno as posições brasileiras, na versão de Floriano de Lima Brayner, o general Zenóbio da Costa teria ficado furioso ao saber que Bueno tinha ficado para trás e que o ordenança não tinha trazido nem sequer o corpo.
Porém, Lima Brayner e Zenóbio não se davam muito bem, por isso, a versão é questionável. Tanto que Brayner usou a palavra “negro” algumas vezes, para fazer questão de mostrar que o desafeto dele, teria sido racista. Ainda que haja outros episódios que também dêem a entender que Zenóbio teria sido racista em outras ocasiões com soldados da FEB, só há a versão de Brayner para o caso de Sérgio Pereira.
Na versão de Adhemar Rivemar de Almeida é confirmado que do posto de observação os homens viram o corpo de Bueno por algum tempo, até que ele desaparecesse.
Nesse meio tempo
Enquanto os brasileiros batiam em retirada, os alemães foram checar os corpos dos inimigos mortos e feridos. Eles roubaram a pistola do capitão Bueno, não tendo dado o tiro de misericórdia, pois, acharam que ele já estava morto.
O neto de Bueno, Alexei, que escreveu o livro “João Tarcísio Bueno: herói de Abetaia”, conta que na verdade não foram metralhadoras que acertaram o avô e sim as ditas balas “dum dum”, munição expansiva que com impacto aumenta de diâmetro e produz um ferimento bastante grande. No caso de Bueno, o buraco aberto foi de 12 centímetros.Alexei narra que depois que os alemães se foram, Bueno se arrastou e se jogou dentro de um rio semi congelado, que segundo o neto, pode ter sido o que salvou a vida dele.
É aí que Sérgio volta à cena. De madrugada, Sérgio Pereira, o ordenança, atravessou sozinho as linhas brasileiras, entrou na pela terra de ninguém e foi procurando pelo capitão. Quando o encontrou, foi puxando e de arrasto o colocou em um local seguro até que ficasse bem próximo das linhas brasileiras e padroeiros pudessem resgatá-lo e dar os primeiros socorros.
Mandado para o hospital, as esperanças de que Bueno melhorasse não eram muitas. Foi mandado de volta para o Brasil em um navio de transporte, amarrado a uma cama, para poder se tratar por aqui. A tuberculose foi confirmada e foi um agravante ao drama que ele já vinha enfrentando desde o tiroteio em Abetaia.
Fora de combate
Ao chegar ao Brasil, a família foi avisada e a esposa foi para o hospital militar, onde o encontrou jogado no chão, amarrado a uma maca, ao lado de esgoto aberto. Imediatamente ela telefonou para o Ministro da Guerra, na época, Eurico Gaspar Dutra. Dali ele foi transferido para um hospital particular para tratar-se e também para se recuperar de uma pneumonia que também adquiriu por conta do trágico estado em que se encontrava.
O improvável acontece
Mesmo com problemas de saúde, um ferimento severo, tendo sido deixado para morrer e resgatado pela ordenança, Bueno se recuperou. Porém, precisou manter o tratamento da tuberculose, sendo transferido para Belo Horizonte onde havia um bom tratamento na época e em 1946 foi promovido a major reformado, por não ter condições de trabalhar. Em 1950, foi elevado ao posto de coronel e reformado de vez como general de Brigada.
Pode não parecer, mas, são a mesma pessoa: o capitão Bueno antes de ir para a guerra e ele em 1946, apenas um ano após o ocorrido em Abetaia. Nota-se bem mais envelhecido. (Foto: AHEx e acervo de Alexei Bueno, do livro dele)Fora isso, o antigo capitão da FEB precisou fazer tratamento nos Estados Unidos para retirar pequenos estilhaços que ainda estavam no corpo dele e viveu apenas com um pulmão. É isso que Alípio Correia, o médico, quer dizer quando defende que foi a doença que o salvou, pois, o tiro pegou do lado do pulmão que era comprometido com tuberculose.
O salvador
Sérgio Pereira era de família humilde de Minas Gerais. Em entrevista que deu a Sírio Sebastião Fröhlich, no livro “Vozes da Guerra”, página 128 e 129, ele disse que não fez mais do que obrigação dele. “O capitão estava em combate peito a peito, muito próximo do inimigo. Ele estava à frente da companhia, ao meu lado quando caiu. Pegaram feio mesmo! Arrebentaram as costelas com uma metralhadora… Os outros voltaram. Eu enfrentei o desafio: não voltei; fiquei lado dele. Depois eu coloquei nas costas e fui trazendo, até onde ele pudesse ser socorrido. (…) Foi uma ação normal! Era a missão a ser cumprida. Eu era ordenança dele, e era o meu dever”, explicou décadas depois.
O general Lucian Truscott, comandante do V Exército dos EUA, condecorando Sérgio com a Bronze Star pelo feito (Foto: AHEx)Porém, o antigo comandante não se esqueceu do salvador e Sérgio Pereira conseguiu um emprego na Polícia Civil do Rio de Janeiro, tendo chegado, inclusive, a ser delegado. Bueno intermediou para que ele tivesse boas referências para entrar no serviço público. As famílias ficaram muito amigas e Sérgio foi padrinho de casamento de uma das filhas de Bueno.
Destinos Entrelaçados
Em 1963, jantando com a família, sofrendo de um edema pulmonar, João Tarcísio Bueno passou mal e precisou ser internado, no dia 4 de abril daquele ano. Sérgio Pereira o via com freqüência e ao visitá-lo no dia 6 de madrugada, quando revezava com uma das filhas os cuidados do amigo, notou uma espuma rosada saindo dos lábios do antigo comandante e, segundo o neto de Bueno, Alexei, como que em uma história cinematográfica, quem estava no momento do último suspiro do oficial da FEB, foi Sérgio Pereira, o mesmo homem que o resgatara da morte em 1944.
Alexei conta ainda que no atestado de óbito constava que a morte havia se dado em decorrência do ferimento recebido na guerra. João Tarcísio Bueno foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Não encontramos a data de falecimento de Sérgio Pereira.
Bibliografias
ALMEIDA, Ademar Rivermar de. Montese: marco glorioso de uma trajetória. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.
BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB (memórias de um chefe de Estado-Maior na Itália). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
BUENO, Alexei. João Tarcisio Bueno: o herói de Abetaia. Rio de Janeiro: Editora G. Ermakoff, 2010.
CORRÊA NETTO, Alípio. Notas De Um Expedicionário Médico. São Paulo-Brasil: ALMED, 1983.
FRÖHLICH, Sírio Sebastião. Vozes da Guerra. 1. ed. Rio de Janeiro: Biblex, 2015