sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Quem foi Gaspar Conqueiro? A história do Capitão-Mor de São Vicente

 

Assinatura de Gaspar Conqueiro em sua carta de autorização como piloto de navios da Casa de Contratação das Índias Espanholas.[1]

Gaspar Conqueiro (ou Conquero, Conqueyro) (25-11-1555 Triana, Sevilha, Andaluzia, Espanha; após 1625, lugar desconhecido), foi um navegador, político, cavaleiro fidalgo e administrador colonial luso-espanhol. Foi Capitão-Mor da Capitania de São Vicente e da Capitania de Santo Amaro, no início do século XVII, durante o período da União Ibérica.[2]

Gaspar Conqueiro
Capitão-mor da Capitania de São Vicente
Período1607 até 1612
PredecessorAntônio Pedroso de Barros
SucessorLuís de Freitas Matoso

Em 1577, conquistou o título de Piloto (de navio), pela "Casa de la Contratación de las Indias Españoles".[1] Emigrou ao Brasil na época da União Ibérica, no final do século XVI, como piloto da nau "São Nicolau", que fazia parte da armada de D. Diogo Flores de Valdés.[3] Em 1584, como piloto da Caravela "San Antonio", recebeu ordens da Coroa Espanhola para cruzar o Estreito de Magalhães.[4] Por ordem de Salvador Correia de Sá, em acordo com o Almirante Diego de Ribera, Gaspar Conqueiro fez duas viagens de transportes de mantimentos para aldeias na região do Estreito de Magalhães.[5]

Naus espanholas no Estreito de Magalhães - Álvaro Zenteno.

Seu início na vida pública se deu como auxiliar avaliador de inventários na Vila de Santos, nos anos 1590.[6] Tinha negócios com Afonso Sardinha, como este declarou em seu testamento em 1592.[7] Em 1598, foi nomeado pelo então Capitão-Mor da Capitania de São Vicente, Roque Barreto, para o cargo de Capitão dos Índios.[8] Em 1599, era Vereador em São Vicente.[9][7]

Foi membro da Confraria dos Marinheiros de Sevilha, com admissão em 26 de dezembro de 1606.[10] Sevilha era a sede da coroa espanhola durante a União Ibérica e sua admissão nesta data indica que o mesmo retornou à Europa neste período.

São Vicente, Santos e seus arredores. Gravura de ca. 1615, feita pelo capitão holandês Joris Van Spilbergen, publicada em 1621. Nesta época, a Vila de São Vicente era cercada por uma paliçada de madeira.

Nomeação e governo como Capitão-Mor das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro[11]

De forma mais importante, exerceu o cargo de Capitão-Mor da Capitania de São Vicente e da Capitania de Santo Amaro de 6 de outubro de 1607 a 1612,[2] nomeado pelo Donatário Lopo de Sousa, irmão de Martim Afonso de Souza, do qual herdou a Capitania após sua morte em batalha. A transcrição da carta de nomeação:

"Lopo de Sousa governador da capitania de São Vicente do Brasil senhor da villa de Prado e de Alcoentre alcaide mór de Rio Maior etc faço saber aos juizes e vereadores e a todas as mais justiças da minha capitania de São Vicente e Santo Amaro a que esta minha carta for apresentada e o conhecimento della com direito pertencer que eu hei por bem de prover de capitão e ouvidor logar tenente da dita capitania a Gaspar Conqueiro por que bem e fielmente e como convem ao bem commum dessa capitania servirá o dito cargo por tempo de tres annos que começará do dia que tomar posse té fim dos ditos tres annos pelo que vos mando o mettaes de posse eo por capitão e ouvidor logar tenente da dita capitania e lhe obedeçaes tomando lhe primeiro a homenagem e dando lhe jura mento dos Santos Evangelhos em Camara com as mais solennidades devidas e acostumadas de que se fará assento nas costas desta para que bem e verdadeiramente sirva o dito cargo guardando em tudo o serviço de Deus e de sua magestade e meu e ás partes seu direito com o qual haverá de ordenado em cada um anno cincoenta mil réis que se pagará nos rendimentos da dita capitania contados os mais prós e percalços que lhe direitamente pertencerem a qual posse lhe dareis posto que o capitão que lá estiver não tenha acabado os seus tres annos de que o provi sem embargo de os não ter cumpridos por justos respeitos que para isso tive e por serviço de sua magestade que assim o haverá por bem e porque eu tambem disso sou contente lhe mandei passar a presente por mim assignada e sellada com o sello de minhas armas e mando que se cumpra e guarde inteiramente como nella se contem sem duvida nem embargo algum que lhe seja posto a qual se registará no livro da Camara dessa capitania de São Vicente e com é costume Gaspar de Aranha a fez a vinte de março de mil e seiscentos e sete. Lopo de Sousa." [11]

Mapa das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro em 1611, durante o Governo do Capitão-Mor Gaspar Conqueiro.

Durante seu governo na Capitania, Gaspar Conqueiro era o responsável pela distribuição de Sesmarias, que deram origem a povoados que depois se tornaram diversos municípios do Estado de São Paulo, como Caraguatatuba [12] e São Sebastião.[13] Em 22 de janeiro de 1609, Conqueiro concede à família do bandeirante Fernão Dias uma data de terras próximas às possessões de Afonso Sardinha (sobejos das terras que foram de Domingos Luís Grou),[14] partindo de Carapicuíba até a barra de Jerobatiba.[14] Afonso Sardinha, antigo habitante da Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, havia recebido as referidas terras por ato administrativo de Gaspar Conqueiro em 3 de novembro de 1607.[14] Durante seu governo, em 1610, concedeu uma Sesmaria de uma légua de terras a João Alves, dando origem ao povoado que mais tarde se tornou o município de Mogi das Cruzes.[6] Em 8 de março de 1610, o Capitão-Mor Gaspar Conqueiro concede ao Padre João Alvres uma légua de terras, na região do Anhembi.[14] A taxa média cobrada por Gaspar Conqueiro por cada sesmaria era de 300 réis.[9] No livro Sesmarias 1602-1642,[15] são transcritos os termos originais de concessões de dezenas de Sesmarias por pelo Capitão-Mor Gaspar Conqueiro.

Em 15 de março de 1611, Amador Bueno, morador em S. Paulo, em petição ao Capitão-Mor Gaspar Conquero, requereu terras na região de Mogi.[14] Posteriormente, o genro de Garpar Conqueiro, o bandeirante Manuel Lourenço de Andrade, foi um dos grandes artífices do movimento conhecido como Aclamação de Amador Bueno, episódio onde este colonizador teria sido aclamado como Rei do Brasil, numa revolta e tentativa incipiente de instauração de independência do país em relação à Coroa na metrópole ibérica, quase 150 anos antes da Inconfidência Mineira.[16]

Além de distribuir Sesmarias, o Capitão-Mor Gaspar Conqueiro era o responsável pela nomeação dos Capitães das Vilas que constituíam a Capitania de São Vicente. Em 1607, nomeou João Soares Capitão da aldeia de Guarapiranga.[11] Em 1609, nomeou o Cavaleiro da Casa Real Sebastião de Freitas como Capitão da Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga.[17] [11]

Em 1o de setembro de 1611, Gaspar Conqueiro presidiu a solenidade de elevação de categoria de Povoado à Vila a localidade de Mogi das Cruzes, instalando ali o aparato burocrático necessário para esta promoção.[18] Uma rua em Mogi das Cruzes leva o nome de Gaspar Conqueiro, em sua homenagem.

Promoção a Capitão por Sua Majestade o Rei Felipe III e retorno à Armada Espanhola

Após cinco anos como Capitão-Mor da Capitania de São Vicente, durante a União Ibérica, Gaspar Conqueiro foi promovido em 1612 a Capitão por Sua Majestade (Capitão por SM),[7] retomando atividades na Armada Espanhola, agora não mais como Piloto, e com novo contrato para navegação assinado em 1615.[19] Em 30-08-1615, capitaneando a embarcação "San Miguel", enfrentou grandes tormentas na costa do México, onde viu seu navio, carregado de pipas de vinho e de cargas de mercúrio para mineração de ouro, se partir em dois e afundar nas proximidades das Ilhas Tranquilo e Arena.

Em 1619, seguindo notável espírito aventureiro, peticiona à Coroa Ibérica autorização para rumar às Filipinas, então colônia espanhola, para procurar uma suposta ilha abundante em ouro.[20] Entretanto, a expedição não iniciou bem, com o galeão Santa Ana la Real, pilotado por Conqueiro, sofrendo grandes avarias e encalhando nas proximidades do Estreito de Gibraltar, durante uma tempestade.[21] Conqueiro foi absolvido das acusações de negligência na condução da embarcação e prosseguiu em viagem para as Filipinas.[22]

Em 1624, Salvador, capital do Brasil colonial, foi invadida por uma esquadra holandesa da Companhia das Índias Ocidentais, liderada por Jacob Willekens, com 26 navios e 3.400 homens. Durante a União Ibérica (1580-1640), o Brasil estava sob domínio espanhol, e os holandeses, inimigos da Espanha, buscavam controlar o comércio de açúcar. A cidade caiu rapidamente, mas a resistência local, liderada pelo bispo Dom Marcos Teixeira, organizou guerrilhas contra os invasores. Em resposta, a Coroa espanhola enviou a Jornada dos Vassalos, uma frota luso-espanhola com 52 navios e cerca de 12.000 homens, sob o comando de D. Fadrique de Toledo Osório. Entre os capitães da esquadra estava o já experiente Gaspar Conqueiro, na época com 69 anos de idade.[23] Após intensos combates, os holandeses se renderam em 30 de abril de 1625, e Salvador foi retomada em 1º de maio. A vitória reforçou o controle ibérico na colônia, frustrando temporariamente as ambições holandesas. Trata-se do último relato oficial da participação de Gaspar Conqueiro como Capitão por Sua Majestade em missão oficial. Segundo o texto de Don Juan de Valência e Guzman, os Capitães que participaram do conflito se dividiram entre aqueles que rumaram para Pernambuco, os que retornaram para a Espanha e os que ficaram no Brasil, não havendo relato subsequente do paradeiro de Gaspar Conqueiro após esta última empreitada. Seu nome não consta na lista de mortos durante o conflito.[23]

Sesmaria do Capitão-Mor Gaspar Conqueiro

A carta de concessão da Sesmaria de Calixto da Motta, de 1637, descreve em detalhes em sua petição de terras, algumas léguas que se estendiam do Planalto ao sopé interno da Serra, mais especificamente na região de Caucaia do Alto, no que seria atualmente na área compreendida entre as rodovias SP-250 e a BR-116. Nela, são descritas as cabeceiras da Sesmaria de Gaspar Conqueiro: [15]

"Terra de Caaucaia (atual Caucaia do Alto) pelo caminho que vae da Villa de São Paulo para a Villa de Nossa Senhora da Conceição (de Itanhaém), correndo para a banda do leste cortando o rio Jarabatiba indo para o mar da banda esquerda légua e meia até chegar ao rio de Capi...ry e do dito rio irá cortando para o mar cortando o rio arriba irá cortando da banda do sul até chegar ao rio de Cabi com todas as cabeceiras das terras do Capitão Gaspar Conqueiro".[15]

Esta descrição sugere que a Sesmaria do Capitão-Mor Gaspar Conqueiro estaria localizada no que é atualmente a região entre os municípios de Carapicuíba, Cotia e Vargem Grande Paulista, região compreendida entre as atuais rodovias SP-250 e SP-270. O historiador Tito Lívio Ferreira, em seu artigo "Gênese Social da Gente Bandeirante", mostra que Gaspar Conqueiro recebeu esta Sesmaria no ano de 1598.[7]

Apesar de pouco preservada, trechos de uma carta de concessão de um terreno a Gaspar Conqueiro foram reportados no livro "Cartas de Datas de Terra". Em 21 de novembro de 1598, recebeu estas terras, sabidamente vizinhas à sesmaria de Domingos Luíz, que se situava em Carapicuíba.[24] A transcrição da carta:

"XLIV 21 11 1598 Outra para Gaspar Conqueiro

Os officiaes da Camara desta villa de São Paulo da capitania de São Vicente do Brasil de que é capitão e governador por Sua Magestade o senhor Loupo de Sousa a saber Antonio Raposo e Diogo Fernandes vereadores Estevão Ribeiro juiz ordinario Pedro Nunes procurador do concelho fazemos a saber que por sua petição nos enviou a dizer Gaspar Conqueiro que elle é morador ha muitos annos e tem mulher e muitos filhos e filhas e tem necessidade de um pedaço de terra para casas e quintal pelo que nos pedia lhe dessemos uns chãos que partem com as casas que foram de Affonso defunto passando o caminho Domingos Luiz adiante direito ao caminho donde se serve Do ro para a aguada e pelo caminho casas de Domingos Luiz até donde estive e pela outra pelo caminho por onde a gente de Piratininga passando o marco que está posto no dito de Gaspar Collaço eo dito caminho cortando direito ao caminho do dito receberia mercê segundo tudo isto melhor e mais compridamente na dita petição era conteudo que por nós vista puzemos a ella o despacho seguinte Damos ao supplicante vinte braças craveiras havendo as em quadra e não nas havendo lhe damos as braças que dar hoje vinte e um de novembro de mil quinhentos noventa e oito annos a qual data de chãos que lhe nós assim damos lh a havemos por dada de hoje para sempre para elle e sua mulher e fidata de chãos fôr apresentada eo conhecimento della com direito pertencer que por sua petição nos enviou a dizer Sebastião de Freitas morador nesta dita villa que elle tem umas casas em que vive fóra no logar que se chama Piratininga campo e terra do concelho que está devoluto pelo que nos pedia lhe dessemos junto da dita sua casa para quintal pois ha seis ou sete annos que alli vive e tem de tudo necessidade a qual terra partindo da encruzilhada que está no seu caminho e o de Samambaial indo pelo dito caminho até sua casa e da outra parte correndo direito a uma lagôa que está no caminho de Piratininga e dalli direito a sua casa por cima da casa de João Bel no que receberia mercê segundo que tudo isto melhor e mais compridamente na dita sua petição era conteudo e declarado que por nós vista puzemos a ella o despacho seguinte Damos ao supplicante quarenta braças craveiras em quadra no capão que está detráz de sua casa e sendo alli dado será em outra parte perto que dado não fôr hoje vinte e oito de novembro de noventa e oito annos a qual terra e chãos que lhe nós assim damos lh os havemos por dados de hoje para todo sempre para elle e sua mulher e filhos herdeiros ascendentes e descendentes que após elles vierem sem foro nem pensão alguma sómente o dizimo a Deus Nosso Senhor dos fructos e novidades que nos ditos chãos houverem e colherem com suas entradas e serven tias e logradouros e portanto mandamos aos officiaes e mi nistros da justiça lh os meçam e demarquem e delles dêm posse como se requer sem duvida nem embargo que a ello lhe seja posto de que lhe mandamos passar a presente por nós assignada somente que será registada no livro da Camara que serve de registar as cartas de dadas dada em os tres de dezembro Belchior da Costa escrivão a fez por nosso mandado anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quinhentos noventa e oito annos pagou cem réis Diogo Fernandes Antonio Raposo Gonçalo Madeira o qual traslado tirei na verdade hoje quatorze de dezembro de mil quinhentos noventa e oito annos Registo Geral VII 55". [24]

Polêmicas e Julgamento pela Inquisição

Gaspar Conqueiro foi um dos primeiros moradores do Brasil a ser julgado e condenado pela Santa Inquisição. Em 1595, quando morava na Vila de Santos, foi condenado pelo Tribunal da Santa Inquisição pela acusação de luteranismo, pelo qual por sentença do Padre Inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, de 27-02-1595, "o réu foi repreendido, admoestado, cumpriu penitências espirituais e pagou as custas processuais", conforme documentação arquivada na Torre do Tombo, em Portugal.[25]

Sentença condenatória de Gaspar Conqueiro pela Santa Inquisição, com assinatura do réu - Arquivo da Torre do Tombo, Portugal.

Segundo a confissão de Cristóvao Luís em 15 de novembro de 1594 ao referido padre Inquisidor, ele, o castelhano Gaspar Conqueiro e mais alguns tripulantes estavam em uma embarcação, navegando de Recife a Salvador, quando foram abordados por três embarcações inimigas. Reportou que os hostis eram luteranos que falavam francês, e os fizeram reféns em sua embarcação. Durante os momentos de orações, os luteranos agrediam os reféns que se recusassem a retirar o barrete em sinal de respeito (retirar o chapéu, "desbarretar"). Após dois dias, os reféns foram abandonados à própria sorte na Ilha de Santo Aleixo, no litoral de Pernambuco.[26] Por não resistir à coação física pela não retirada do chapéu durante as orações dos luteranos, Gaspar Conqueiro foi condenado com pena menor pela Santa Inquisição.[25]

Em 1609, Gaspar Conqueiro foi acusado de deixar de pagar o Imposto do Quinto sobre ouro recebido em transação particular, chegando a ser suspenso do cargo pelo Governador Geral do Brasil à época. Entretanto, foi absolvido pela Câmara de São Vicente, continuando o mandato.[9]

Família, vida pessoal e descendência

Gaspar Conqueiro era filho de Melchior Vaz (ou Vasquez) e Catalina Conquero.[27] A família Conqueiro era oriunda de Tavira, Algarve, Portugal, estando ali presente nos anos 1400.[28] Seu avô, Álvaro Conqueiro, era um navegador português que se radicou em Sevilha e que realizou diversas viagens ao Continente Americano nos anos 1560-80 a mando da Coroa Espanhola, cuja história foi detalhadamente contada no Livro "La Sevilla Lusa. La Presencia Portuguesa en el Reino de Sevilla durante El Barroco".[28] Gaspar Conquero foi casado com Mécia Duarte.

Seu filho Diogo Conqueiro era possuidor de uma sesmaria na Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, por volta do ano 1610. [9] Outro filho, Belchior Conqueiro, era possuidor de uma Sesmaria na Ilha de São Sebastião (Ilhabela), em 1610, em sociedade com seu irmão Diogo Conqueiro e Gaspar Fernandes, além de uma Sesmaria em Santa Ana das Cruzes de Mogy Mirim, antigo nome do atual município de Mogi das Cruzes.[7] Sua filha Inês Conqueiro desposou Domingos Gonçalves, e morava nos campos de Tobaratepí.[7] Sua filha Catarina Conqueiro era avó do padre Fernão Rodrigues de Córdova, vigário de Santos em 1652.[29][30] Outra filha, Maria Branca Conqueiro, nasceu em São Vicente em ca. 1600, e desposou o bandeirante Manuel Lourenço de Andrade, [16] que foi vereador na Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga em 1641. Evidências sugerem que Diogo Conqueiro, Maria Branca Conqueiro e seu esposo Manuel Lourenço de Andrade possuíam originalmente terras ao sul da Villa de São Paulo dos Campos de Piratininga, aproximadamente na altura dos atuais municípios de Piedade e Tapiraí, portanto próximas à Sesmaria de Gaspar Conqueiro.[15] Verifica-se, portanto, que a Família Conqueiro era grande possuidora de terras na região oeste da atual Grande São Paulo e no litoral norte paulista.[7]

Posteriormente, Manuel Lourenço de Andrade requereu terras mais ao sul, sendo ele e sua esposa Maria Branca Conqueiro os fundadores, e primeiro Capitão (prefeito) da Vila de São Francisco do Sul, considerado o primeiro povoado do futuro Estado de Santa Catarina. A família deixou extensa descendência em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.[27]

Nas décadas seguintes, Belchior Conqueiro e Diogo Conqueiro figuravam como donos de sesmarias em Ubatuba, sendo considerados como alguns dos primeiros colonizadores daquela região.[31][15] Diogo Conqueiro foi o primeiro juiz ordinário da localidade, tendo iniciado em 1645 o primeiro livro de notas de Ubatuba.[32]

Referências

  1.  Casa de la Contratación de las Indias (España) (28 de outubro de 1601). «Examen de piloto de Gaspar Conquero». Pares - Portal de Archivos Espanholes. Consultado em 28 de setembro de 2024
  2.  https://www3.al.sp.gov.br/historia/governadores-do-estado/governantes3.htm
  3. Franco, Carvalho (1940). Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo. São Paulo: Companhia Editora Nacional. p. 53
  4. «Instrucción dada a Gaspar Conquero». Pares - Portal de Archivos Españoles. 1584. Consultado em 28 de setembro de 2024
  5. Salvador, José Gonçalves (1978). Os cristãos-novos e o comércio no Atlântico Meridional (com enfoque nas capitanias do sul 1530-1680). [S.l.]: Livraria Pioneira
  6.  Castilho, Celia Maria Moraes. «Inventários e testamentos como documentos linguísticos». Consultado em 28 de setembro de 2024
  7.  Ferreira, Tito Lívio (1944). «Gênese Social da Gente Bandeirante». Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (XLVII): 325. Consultado em 2 de outubro de 2024
  8. Taunay, Afonso de Escragnolle (1947). San Pablo en el siglo XVI. [S.l.]: Ministério de Justicia e Instrucción Pública
  9.  Abreu, Deisy Bizzocchi de Lacerda (1981). A Terra e a Lei. Estudo de Comportamentos Socio-Economicos em São Paulo nos séculos XVI e XVII. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humanas da USP
  10. Plá, Maria del Carmen Borrego. [chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://dspace.unia.es/server/api/core/bitstreams/c31799dd-2314-429b-9ae4-d1814d032ccd/content «Los Hermanos de la Universidad de Mareantes de Sevilla en el siglo XVII»]. Jornadas de Andalucía y Américas (Actas III): 249. Consultado em 30 de janeiro de 2026
  11.  Registro Geral da Câmara de São Paulo 1583/1636. São Paulo: Typographia Piratininga. 1917. p. 144
  12. CaraguaPrev (8 de novembro de 2017). «História de Caraguatatuba». CaraguaPrev. Consultado em 28 de setembro de 2024
  13. «História da formação fundiária de São Sebastião – São Sebastião». Consultado em 28 de setembro de 2024
  14.  Luis, Washington (2004). Na Capitania de São Vicente. Brasília: Edições do Senado Federal
  15.  Documentos do Archivo de Estado de São Paulo (1921). Sesmarias 1602-1642. São Paulo: Typographia Piratininga
  16.  «Maria Branca Conquero». www.familysearch.org. Consultado em 29 de setembro de 2024
  17. Conquero, Gaspar (1609). Registro Geral da Câmara de São Paulo. São Vicente: [s.n.] p. 165-166
  18. Siqueira, Maria Isabel (2018). A Colônia em Perspectiva Pesquisas e Análises sobre o Brasil (XVI-XIX). [S.l.]: Paco e Libera
  19. «Cuentas de Maestres». Pares - Portal de Archivos Españoles. 1615. Consultado em 29 de setembro de 2024
  20. Archivo General de Indias Filipinas (1619). «Petición de Gaspar Conquero de ir a descubrir Isla Rica de Oro». Consultado em 28 de setembro de 2024
  21. Lisón, Gonzalo de Medina (1620). «Carta de Gonzalo de Medina Lisón sobre lo ocurrido a su navío». Pares - Archivos Españoles. Consultado em 29 de setembro de 2024
  22. Gaspar Conquero (1622). «Memorial de Gaspar Conquero, piloto del galeón Santa Ana la Real de la armada de Filipinas, reclamando su sueldo.». Consultado em 28 de setembro de 2024
  23.  Miraflores, Marquês de (1870). Collecion de Documentos Ineditos para la historia de España. Tomo LV. Madrid: Imprenta de La Viuda de Calero. p. 103
  24.  Prefeitura de São Paulo (1937). Cartas de datas de terra. São Paulo: Departamento de Cultura. p. 101
  25.  «Processo de Gaspar Conqueiro - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 29 de setembro de 2024
  26. Mendonça, Heitor Furtado (1984). Primeira visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil - Denunciações e Confissões de Pernambuco 1593-1595. [S.l.]: Coleções Pernambucanas
  27.  «Cap. Mor Gaspar Conquero». www.familysearch.org. Consultado em 29 de setembro de 2024
  28.  www.ourivesariaportuguesa.info. La Sevilla Lusa. La Presencia Portuguesa en el Reino de Sevilla Durante el Barroco. [S.l.: s.n.]
  29. «Novo Milênio: Histórias e Lendas de Santos: Irmandade do Rosário: fim, após 356 anos-2». www.novomilenio.inf.br. Consultado em 17 de dezembro de 2025
  30. Bogaciovas, Marcelo Meira Amaral. «Albernazes e Homens da Costa» (PDF). Abrasp. Revista da Abrasp. 11 (11): 113. Consultado em 17 de dezembro de 2025
  31. «UBATUBA E SUA HISTÓRIA». UBATUBA E SUA HISTÓRIA. Consultado em 17 de dezembro de 2025
  32. Franco, Francisco de A. Carvalho (Setembro de 1940). «Os capitães-mores de Itanhaém». Arquivo Municipal de São Paulo. Revista do Arquivo Municipal. LXX: 37

Gaspar Conqueiro: O Navegador, Capitão-Mor e Pioneiro da União Ibérica

Gaspar Conqueiro (ou Conquero, Conqueyro) (Triana, Sevilha, 25 de novembro de 1555 — após 1625, lugar desconhecido) foi uma das figuras mais multifacetadas do período colonial ibérico. Atuando sucessivamente como navegador de alto mar, piloto da Coroa Espanhola, administrador político, cavaleiro fidalgo e capitão militar, destacou-se sobretudo como Capitão-Mor das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro no início do século XVII, em plena União Ibérica.

Origens e Carreira Marítima

Nascido no tradicional arrabalde sevilhano de Triana, Conqueiro obteve o título oficial de Piloto de navio em 1577, concedido pela prestigiosa Casa de la Contratación de las Indias Españoles. Com a instauração da União Ibérica (1580), que uniu sob a mesma coroa os reinos de Espanha e Portugal, abriu-se caminho para a livre circulação de técnicos e navegadores entre os impérios.

Conqueiro emigrou para a América Portuguesa no final do século XVI, servindo como piloto da nau São Nicolau, integrante da armada comandada por D. Diogo Flores de Valdés. Em 1584, encabeçando a pilotagem da caravela San Antonio, recebeu ordens diretas da Coroa Espanhola para realizar a travessia do Estreito de Magalhães. A missão incluiu duas viagens cruciais de transporte de mantimentos para os povoamentos estabelecidos na região austral, sob as diretrizes de Salvador Correia de Sá e do almirante Diego de Ribera.

Sua ligação com a metrópole manteve-se ativa ao longo da vida. Em 26 de dezembro de 1606, foi admitido na respeitada Confraria dos Marinheiros de Sevilha, indicação clara de que realizara viagens de retorno à Europa durante aquele período.

Ascensão Política e Administrativa no Planalto Paulista

A fixação de Gaspar Conqueiro na Capitania de São Vicente deu início a uma vertiginosa carreira pública na região de Piratininga e litoral:

  • Início na administração local: Atuou nos anos 1590 como auxiliar avaliador de inventários na Vila de Santos, estabelecendo laços comerciais com figuras de proa como Afonso Sardinha.

  • Cargos municipais e militares: Em 1598, foi nomeado Capitão dos Índios pelo Capitão-Mor Roque Barreto. No ano seguinte, assumiu o cargo de Vereador na Câmara de São Vicente.

O Governo como Capitão-Mor (1607–1612)

Em 20 de março de 1607, Lopo de Sousa — donatário da Capitania de São Vicente e irmão de Martim Afonso de Sousa — emitiu a carta de nomeação que elevou Gaspar Conqueiro ao posto de Capitão-Mor e Ouvidor Lugar-Tenente das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro. Conqueiro exerceu o cargo de 6 de outubro de 1607 até 1612.

Durante sua gestão, concentrou-se na expansão do povoamento territorial através da distribuição de sesmarias, ato que fundamentou a criação de futuros municípios paulistas:

  • Concedeu terras que impulsionaram a fundação de núcleos como Caraguatatuba e São Sebastião.

  • Em 1609 e 1610, emitiu importantes concessões de terras que resultaram na gênese do atual município de Mogi das Cruzes, cuja elevação à categoria de Vila (com todo o aparato burocrático e institucional) foi solenemente presidida por ele em 1 de setembro de 1611.

  • Distribuiu sesmarias estratégicas na região do Anhembi e nos arredores de Carapicuíba e Caucaia do Alto, consolidando rotas de expansão para o interior.

Além da política fundiária, cabia-lhe nomear os capitães das vilas subordinadas, escolhendo nomes de confiança para a capitania, como Sebastião de Freitas para a chefia da Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga em 1609.

Retorno à Armada Espanhola e Últimas Campanhas

Terminado seu mandato como Capitão-Mor em 1612, Conqueiro foi promovido a Capitão por Sua Majestade (Felipe III), reintegrando-se formalmente aos quadros da marinha militar espanhola com um novo contrato de navegação assinado em 1615.

Sua trajetória militar nos mares continuou marcada por episódios dramáticos:

  • O naufrágio no México (1615): Capitaneando a embarcação San Miguel, carregada com pipas de vinho e mercúrio destinado à mineração de ouro, enfrentou violentas tempestades na costa mexicana, vendo seu navio partir-se e afundar perto das Ilhas Tranquilo e Arena.

  • A aventura rumo às Filipinas (1619): Movido por espírito aventureiro, peticionou à Coroa autorização para buscar uma suposta ilha aurífera nas Filipinas. Contudo, o galeão Ana la Real, pilotado por ele, sofreu graves avarias ao encalhar próximo ao Estreito de Gibraltar durante um temporal. Após rigoroso inquérito, foi absolvido de qualquer acusação de negligência e seguiu viagem.

  • A Jornada dos Vassalos (1624–1625): Quando a cidade de Salvador foi invadida por uma esquadra da Companhia das Índias Ocidentais em 1624, a Coroa espanhola organizou uma maciça força-tarefa militar — a Jornada dos Vassalos —, composta por 52 navios e cerca de 12.000 homens sob o comando de D. Fadrique de Toledo Osório. Aos 69 anos de idade, Gaspar Conqueiro integrou a frota como um de seus capitães. Com a bem-sucedida rendição dos holandeses em 30 de abril de 1625 e a retomada da capital baiana, encerram-se os registros documentais oficiais sobre a vida deste notável navegador e administrador luso-espanhol, cujo paradeiro posterior permanece desconhecido.

Quem foi Garcia Rodrigues Pais? A história do desbravador de Minas

 

Garcia Rodrigues Pais
NascimentoSerro
Morte7 de março de 1738
Paraíba do Sul
CidadaniaBrasil
Ocupaçãosertanistas

Garcia Rodrigues Pais (Serro talvez, mas não se conhece onde, na verdade; em todo caso, antes da data 1660 - Paraíba do Sul, 7 de março de 1738) foi sertanista, primogênito de Fernão Dias Pais Leme e de sua mulher Maria Garcia Betim, filha por sua vez de Garcia Rodrigues Velho e de Maria Betinck ou Betim. Seu corpo deve estar inumado no mosteiro de São Bento, em São Paulo, reconstruído às custas do pai para que a família ali tivesse sepultura.[1]

Dados iniciais

Cunhado dos bandeirantes Domingos Rodrigues da Fonseca Leme, Francisco Pais de Oliveira Horta e do Guarda-Mor Manuel Borba Gato. Garcia Rodrigues Pais Leme casou-se com a prima D. Maria Antônia Pinheiro da Fonseca. Partiu com o pai aos 13 anos. Em 1674 integrou a bandeira que percorreu os sertões por quatro anos. Morto o pai em 1681, foi ao arraial do rio Paraopeba, encontrar D. Rodrigo de Castelo Branco, a quem entregou as amostras das esmeraldas e transmitiu a posse da mina onde haviam sido encontradas. Depois ficou numerosos dias no rio das Velhas, fazendo sondagens, até encontrar o cadáver do pai, naufragado quando transportado em canoa para o Sumidouro.

As amostras de esmeraldas foram divididas entre ele e Francisco da Cunha, para as apresentarem à câmara de São Paulo. Outros pormenores se podem ler no verbete dedicado a D. Rodrigo de Castelo Branco. Datado de 18 de novembro de 1681 guardou-se um atestado do Padre Domingos Dias, reitor do Colégio dos jesuítas, a Garcia Rodrigues Pais, para obter o foro de fidalgo. Diz o padre: «Certifico eu que é verdade manifesta e notória a todos os moradores da dita vila de São Paulo que o governador Fernão Dias Pais, que Deus haja em sua glória, foi um dos homens mais notáveis e principais desta capitania, assim por seus avós como pelos cargos mais honrosos que serviu nesta república, sempre com notável satisfação e inteireza». Seus ossos, trazidos pelo filho, dormiam no mosteiro beneditino em São Paulo.

No dia 11 de dezembro de 1681, Garcia se apresentou perante oficiais da Câmara de São Paulo e expôs as esmeraldas descobertas pelo pai, «as quais eram o resto das que tinha entregue ao administrador D. Rodrigo de Castelo Branco para as remeter a Sua Alteza, e que trazia para serem vistas, contadas e pesadas porque tencionava ir pessoalmente levá-las a Sua Alteza, para consignar o desinteresse com que servia.»

Mostrou 47 esmeraldas (na realidade se verificaria posteriormente serem turmalinas verdes, rejeitadas pelos lapidários da Corte como as colhidas por Tourinho, Adorno e Marcos de Azeredo o velho). Mas eram grandes e pequenas, transparentes, pesando 133 oitavas ou seja todas juntas um arrátel e cinco oitavas; mais outro saco de pedras miúdas imperfeitas, e nove grandes, três arráteis e um quarto (um arrátel 26 oitavas); e outro de miúdas com dois arráteis e oito oitavas. Mais uma pedra sextavada, seis oitavas; em sacos de tafetá encarnado, todas, metidos em dois sacos de chamalote também encarnado…»

Em Lisboa - e de retorno ao Brasil

Garcia e seu tio o Padre João Leite da Silva foram ao Reino representar a El-Rei sobre recompensas que eram devidas ao Governador das Esmeraldas, levando amostras da pedra; que também foram repudiadas, como ele mesmo escreve - então «se ofereceu de novo a continuar nessa diligência, profundando mais a terra por se entender que se achariam mais perfeitas, e com diferente bondade, em razão das que trouxe serem da superfície da terra e deixando em Lisboa ao dito seu tio, se embarcou antecipadamente para o Rio de Janeiro e fez duas entradas ao serro de Sabaraboçu, que hoje chamam Minas dos Cataguazes ou Serra das Esmeraldas. Sendo a primeira entrada para efeito de reformar as plantas e feitorias, que por morte do dito seu pai e do administrador geral D Rodrigo de Castelo Branco haviam ficado desbaratadas e consumidas, em que no deserto gastou dois anos com grande risco de sua pessoa por causa do gentio bárbaro e da peste de que tinha falecido o dito seu pai, e depois de recolhido a povoado, chegando-lhe as ordens reais de Vossa Majestade que lhe levou o dito padre João Leite da Silva seu tio, da Corte, em que Vossa Majestade foi servido provê-lo nos cargos de capitão-mor e administrador da entrada e descobrimento das ditas minas, fez uma segunda entrada a elas, com dispêndio considerável de sua fazenda, que fez em mantimentos, carnes, farinhas, comprando muitos cavalos para carruagem, levando homens, escravos, índios do seu serviço, com capelão para a tropa tudo pago à sua custa, em que qual entrada gastou cinco para seis anos fazendo exatas diligências, empinando a Serra, cavando até o centro.»

O testemunho dos oficiais da Câmara da Parnaíba

Desde 20 de dezembro de 1681 haviam os oficiais da Câmara da Vila de Parnaíba escrito extenso memorial: «Nós os oficiais da câmara da vila de Parnaíba que servimos neste presente ano de 1681 abaixo assinados, certificamos que o governador Fernão Dias Pais, conhecendo que o descobrimento das esmeraldas totalmente se ia reduzindo a termo inaccessível pelo infeliz exemplo de ficarem frustradas as mais poderosas diligências, como foram as do almirante João Correia de Sá e a do governador Agostinho Barbalho Bezerra e outros muitos, se resolveu a consegui-lo em tempo que seus anos pediam a continuação do sossego que lograva em sua pátria e não a resolução de descortinar a terrível aspereza daqueles desertos, atropelando as dificuldades em que visivelmente arriscava seu credito e a mesma vida, com dispêndio da maior parte da sua fazenda que, sendo grossa, lhe não era necessária menos para os aprestos sem fazer gastos à Fazenda Real, como fazem os mais que andam no serviço da Coroa e para efeito de conseguir a jornada pela impossibilidade de alguns homens que o queriam acompanhar, lhes deu todo o necessário de sua própria fazenda e lhes deus índios alugados à sua custa, sem embargo da ordem que tinha do governador-geral para levar os que fossem necessários, o qual lhe passou patente de governador daquele descobrimento, e lhe escreveu cartas muito honrosas aprovando-lhe o seu zelo e intento, assegurando-lhe felicidade e reais mercês, gratificando-lhe outrossim o serviço que tinha feito a Sua Majestade, que Deus guarde, assim na gente que mandou à conquista dos bárbaros, que por roubarem irreparavelmente aos moradores da Bahia, faziam muitas mortes no contorno daquela cidade como no empréstimo que fez do seu dinheiro a alguns cabos, que partiram desta Capitania para a mesma conquista, e por haver tradição e constar entre nós de que há minas de prata no serro do Sabarabossu, empreendeu o dito governador Fernão Dias Pais este descobrimento por lhe ficar em caminho na viagem para as esmeraldas, para o que se situou na passagem do Sumidouro, onde assistiu três ou quatro anos sem poder conseguir a averiguação da verdade, por falta de mineiros, sendo bem sobradas as suas diligências, e porque os homens de sua tropa, prevendo a dilação que pedia uma e outra empresa, se despediram da sua companhia e obediência, atentas a suas particulares necessidades e ficou o sobredito Fernão Dias Pais com a companhia de seu filho Garcia Rodrigues Pais e seu genro Manuel de Borba Gato, e os seus serviços e familiares, e pela falta de mineiros cuja tardança inutilizava suas diligências, se resolveu prosseguir no descobrimento das esmeraldas, e havendo já mandado a esse fim fabricar outra feitoria em Tucambira, e deixando no Sumidouro ao dito seu genro Borba Gato, passou muito além de Tucambira e se situou em Itamirindiba, de onde, depois de fazer repetidas diligências pela vastidão daqueles estéreis desertos, descobriu as esmeraldas na mesma mina de Marcos de Azevedo passados sete anos que estava ausente de sua pátria e casa, sem ter outro cuidado em todo este tempo mais que a execução do serviço real que tinha empreendido.

«E depois de mandar tirar das minas as pedras que bastassem para as amostras, recolhendo-se para o Sumidouro, faleceu de peste e grande parte de seus índios, e ainda depois de morto o perseguiram as calamidades ordinárias do sertão porque o seu cadáver e as amostras das esmeraldas padeceram naufrágio no rio que chamam das Velhas em que se perderam as armas e tudo quanto trazia de seu uso e se afogou a gente, porque os índios nadadores se ocuparam em salvar as próprias vidas e a acudir as amostras, como em sua vida lhes tinha recomendado o seu senhor, cujo corpo se achou depois de muitos dias à diligência de seu filho Garcia, que o tinha ido socorrer e chegou aí depois de sua morte e recolhendo-se para o Sumidouro recebeu carta do administrador D. Rodrigo de Castelo Branco, que nestes dias chegara a Parnaíba, para onde o sobredito Garcia Rodrigues Pais trouxesse as amostras, para que mandassem fazer termo de manifestação delas e as remetesse a Sua Alteza com brevidade que ele não podia fazer por os seus índios estarem ainda assustados.

«E com esta assistência de sete anos que o dito Fernão Dias Pais gastou no sertão sem ter outra aplicação que o serviço real deixou seus filhos pobres, sua Fazenda totalmente desfabricada e sua casa muito empenhada, porque sabemos que deve ao Capitão Fernão Pais de Barros mais de 1 conto de reis, e pouco menos a Gonçalo Lopes e João Monteiro, e outras dívidas menores, que todas se fizeram em razão de cessarem com sua ausência os lucros de sua lavoura, que importavam cada ano em 2 e 3 mil cruzados, além de 6 ou 7 que gastou em aprestos da viagem, sem contar os gastos dos fornecimentos, que por ordem do padre João Leite da Silva, seu irmão, lhe foram remetidos muitas vezes.

«Em todo o decurso de sua vida mostrou o defunto Fernão Dias Pais Leme tão grande zelo do serviço Real que parece não queria vida nem Fazenda mais que para a empregar nos aumentos da coroa e a sua ordinária conversação era sobre a obrigação que tinham os vassalos de servir a seu príncipe; e assim voluntariamente pagou o donativo Real nesta vila e na de São Paulo, tendo uma só Fazenda neste termo; e sendo-lhe ordenado que desse calor à jornada do governador Agostinho Barbalho Bezerra para as esmeraldas, lhe fez liberalmente parte dos aprestos de mantimentos que lhe eram necessários, e de todos estes serviços e de outros que de seus papeis constam, não recebeu mercê alguma de Sua Alteza, pelo que julgamos os herdeiros do dito defunto Fernão Dias Pais por merecedores de toda a honra e mercê que o príncipe nosso senhor for servido fazer-lhes; e porque todo o sobretudo nos consta passar na verdade bem com o que o sobredito serviu nos cargos mais honrosos na vila de São Paulo onde era morador, e era muito zeloso no serviço de Deus como se viu no convento do patriarca São Bento, que reedificou, dotando-o de bens para sustento de seus religiosos e dos das outras religiões; na conservação da paz de sua pátria se mostrou tão cuidadoso que, porque não chegassem à maior ruína as discórdias e parcialidades que entre aqueles moradores havia, foi ao Rio de Janeiro buscar o ouvidor João Velho de Azevedo, e chegados ambos apaziguaram e sossegaram aquelas grandes alterações na restituição dos padres da Companhia de Jesus aos seus colégios de São Paulo e de Santos, e na posição do vigário Domingos Gomes Albernaz à sua igreja matriz na dita vila de São Paulo; quando o inimigo holandês infestou as costas de São Vicente e Santos e os capitães-mores tocaram a rebate, ele era dos primeiros que com toda a sua gente acudia a socorrer e fortificar o porto de Santos; e por tudo isto ser verdade o juramos pelos Santos Evangelhos e por ser pedida a passamos em câmara. Antônio Cardoso Pimentel. Manoel Francisco de Brito. Jeronimo Gonçalves Meira. Francisco da Rocha Gralho.»

Esmeraldas, ainda

Em 3 de fevereiro de 1711, o governador Antônio de Albuquerque o nomeou para chefiar uma terceira expedição.

Data de 2 de dezembro de 1683 sua patente para ir explorar as tão procuradas minas de esmeraldas, como «administrador das minas de esmeraldas», dada pelo Príncipe Regente e registrada na Câmara de São Paulo em 20 de janeiro de 1686), expedição da qual participou seu primo Domingos Rodrigues da Fonseca Leme. Malgrado pouca idade tinha acompanhado o pai na bandeira em 1674, e morto este, retornara a São Paulo em 1681, fazendo a viagem de Portugal para levá-las a D. Pedro. Em janeiro de 1686 registrou na Câmara de São Paulo sua patente de 2 de dezembro de 1683 como capitão-mor e administrador das Esmeraldas, em que o Rei ordenava que lhe fossem dados índios das aldeias reais. Em 28 de fevereiro, compareceu à Câmara para declarar que tencionava partir depois da Páscoa. Levou seus cunhados, irmãos de sua mulher, Domingos Rodrigues da Fonseca Leme e Sebastião Pinheiro da Fonseca Raposo.

Sua expedição durou quatro anos, até 1687, fazendo exatas diligências examinando a serra, cavando até o centro. Talvez, receoso das terríveis febres do Uaimi-i ou Guaicuí, tivesse tentado novo caminho e se perdesse no desconhecido? Não só não encontrou as esmeraldas, como foi por todos abandonado e teve que voltar a suas plantações. Sem capitais, limitou-se no futuro a explorar seus domínios. Depois, fixou-se na região entre o rio das Mortes e Ouro Preto, e terminou se retirando para São Paulo, «deixando aquele sertão franco de sorte que hoje estão indo homens sem risco ao ouro». No sertão, foram atacados novamente pela maleita, inclusive Garcia: mas o resultado foi nulo. Não se sabe se teriam descoberto. Em 1697 porém uma Carta Régia menciona que o filho do governador das Esmeraldas «foi o primeiro que descobriu ouro de lavagem nos ribeiros que correm para a serra de Sabaraboçu.» Mas neste ano, Garcia se encontrava em sua fazenda na Paraíba.

Em 20 de junho de 1689 o Capitão Pedro Taques de Almeida escreveu carta ao Governador do Brasil, dando notícia de que Garcia andava jornadeando pelo rio Doce e iria ter a Salvador.

O Caminho Novo

Uma Carta Régia em 1697 menciona que Garcia, «filho do governador das Esmeraldas» (…) «foi o primeiro que descobriu ouro de lavagem nos ribeiros que correm para a serra de Sabaraboçu.» Neste ano, Garcia se encontrava em sua fazenda na Paraíba. Em 1698 começou uma picada (conhecida como Caminho dos Cataguazes) destinada ao Rio. Comprometera-se com Artur de Sá e Menezes a colocar tais pontos em comunicação por meio de 15 dias de viagem e não os habituais três meses. O ponto central era a Borda do Campo (atualBarbacena). Em 1699 concluía o picadão, em que consumiu seus recursos financeiros, segundo se depreende de carta de 10 de julho de 1701.

Tinha trabalhado na picada com seu cunhado, o coronel Domingos Rodrigues da Fonseca Leme, o mesmo que o ajudou a concluir o que ficaria conhecido como o Caminho Novo da estrada real. Tinha estabelecido a Fazenda da Borda do Campo, núcleo inicial de povoação da atual cidade de Barbacena. O cunhado havia acompanhado as primeiras expedições e descobrimentos, penetrando antes que todos no âmago do do Sabaraboçu por onde achara o Ribeiro do Campo e outros de grandes rendimentos, pois no primeiro a data do rei foi arrematada por 10 libras de ouro, o que indica seu grande valor.

Partindo da Borda do Campo, o caminho atravessava a serra da Mantiqueira na garganta de João Aires, passava pelos arraiais de João Gomes, Chapéu d'Uvas, Juiz de Fora, Matias Barbosa, Simão Pereira, Serraria, Entre-Rios, Barra do Piraí, e descia a serra do Mar sobre Macacos, Inhaúma, Pavuna, Penha e chegava à cidade do Rio de Janeiro. Até então, o difícil caminho das Minas desembocava na serra do Mar e descia para Parati.

Ligada a área de Minas ao Rio de Janeiro pelos vales dos rios Paraíba e do Paraibuna, por onde hoje passa a antiga estrada entre o Rio e Belo Horizonte, fez a obra às custas de seu próprio dinheiro, para poder cobrar pedágio. Documento de 6 de outubro de 1699, do governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá Menezes, diz que Garcia Pais empregou na abertura do Caminho Novo das Minas «alguns homens brancos pagos à sua custa e mais de 40 negros, do que fez consideravelíssimo gasto».

Uma Carta Régia de 26 de outubro de 1700 menciona o «descobrimento que fez Garcia Rodrigues Pais de uma estrada da capitania do Rio de Janeiro para as Minas Gerais. Não pode levar adiante a abertura da estrada, depois conhecida como Caminho Novo, e a tarefa desempenhou-a seu cunhado Domingos Rodrigues da Fonseca Leme. Por carta de 14 de julho de 1709 o Rei agradeceu a Garcia Rodrigues os serviços prestados neste empreendimento. Garcia deve ter voltado a catar ouro, pois Antonil escreve em 1704:

«Há mais minas novas, que chamam do Caeté, entre as Minas Gerais e as do rio das Velhas, cujos descobridores foram vários; e entre elas ha a do ribeiro que descobriu o Capitão Luís do Couto, que da Bahia foi para essas paragens com três irmãos grandes mineiros; além de outras que secretamente se acham e se não publicam para se aproveitarem os descobridores delas totalmente e não as sujeitarem à repartição e as que ultimamente descobriu o capitão Garcia Rodrigues Pais quando foi abrir o caminho novo detrás da cordilheira da serra dos Órgãos no distrito do Rio de Janeiro, por onde corta o rio Paraíba do Sul

Ao fim de quatro anos de trabalhos, exausto, Garcia teria sido acudido pelo cunhado, que concorreu com seus cabedais e seus escravos, sendo por isso nomeado «cobrador das estradas e provedor dos quintos» e estabelecendo para isso o Registro da Borda do Campo na sesmaria a ele doada pelo governador D. Fernão Martins Mascarenhas, fundando aí então um estabelecimento de criação de gado que se tornaria opulentíssimo. Mais tarde, se tornou necessário ao fisco erigir-se em distância a Igreja Nova de Nossa Senhora da Piedade, futura cidade de Barbacena, para o culto público que se celebrava na antiga capela do Registro. Quando em 1711 o governador Antônio de Albuquerque desceu em socorro do Rio, que estava assolado pelos piratas franceses, Domingos o hospedou e sustentou seus seis mil homens com liberalidade e grandeza.

Provedor da administração de minas

Uma Carta Régia de 19 de novembro de 1697 nomeou Garcia Rodrigues Pais provedor de algumas administrações de minas de ouro, prata ou de esmeraldas, em atenção ao zelo manifesto. O Governo vai-lhe ordenar subir sem perda de tempo para os descobertos, pô-los em ordem. A pedido de Artur de Sá e Menezes, Garcia foi ao Rio com 50 escravos negros a suas custas para abrir a nova estrada do Rio para Minas, sem trajeto de barco até Parati, e sem o difícil cruzamento da serra do Mar entre Parati e Taubaté - em troca, desejaria receber dos habitantes do Rio e dos que obtivessem concessões na região das minas 10 000 cruzados. Dizem alguns autores que em 1698 já havia na vila do ribeirão do Carmo multidão considerável, como em Vila Rica e em Sabará. Houve uma carta de agradecimento do rei a Garcia em 14 de julho de 1709 pela abertura da picada do Caminho Novo. A abertura do Caminho intensificou a troca de mercadorias e o ouro fez com que a capital da Colônia se transferisse de Salvador (Bahia), para o Rio de Janeiro, em 1763.

Garcia subiu as Minas no outono de 1699 como Guarda-Mor, com o coronel Salvador Fernandes Furtado como escrivão interino. Com as colheitas de 1698, estava afastada a fome e os arraiais estavam repovoados. Entrou pela Itaverava, repartindo aí as primeiras datas; estando Salvador como escrivão, o Regimento de 1603 lhe proibia parte direta ou indireta no interesse das minas, de modo que o descoberto do Carmo foi partido e repartido no nome de seu ajudante Manuel Garcia de Almeida e Cunha. Toda a questão na época consistia no título de descobridores, de modo que, como Garcia Rodrigues Pais tinha também tal pretensão, combinou com seu primo João Lopes de Lima que fosse descobrir em seu nome foco suficiente para a colocação dos parentes e para que ambos contraíssem para si os desejados privilégios. O que Lopes realizou no ribeirão do Carmo abaixo, extensa vargem de Santa Teresa, encontrada em 15 de outubro de 1699. As datas foram sendo distribuídas, os lugares recebendo os nomes dos distribuidores: minas de Miguel Garcia, minas de Manuel de Almeida, ou de João Lopes de Lima; e as minas da Itaverava, que eram as do Gualacho do Sul - estranhamente, o ouro na Itaverava so foi descoberto e explorado no tempo de D. Lourenço de Almeida, de quem portaria de 6 de março de 1726 regularizará tais descobertos e os do rio Casca.

Há provisão do Governador Artur de Sá e Menezes em 2 de outubro de 1699 relativa ao Caminho Novo, pois quando o esboço da nova estrada entre o Rio de Janeiro e as minas estava traçado, os habitantes do Rio se recusaram a pagar a soma pedida por Garcia: Este recebeu do governador então as seguintes concessões: durante dois anos, a partir de 1 de junho de 1700 seria o único a poder fazer circular mercadoria pela estrada e ninguém poderia usar o caminho sem sua autorização expressa. Assegurava que o caminho era «muito capaz para condução de gado e cavalgaduras carregadas» e que graças a ele, bastariam 14 dias entre o Rio e as Minas.

Data de 27 de março de 1702 o privilégio recebido da passagem nos rios Paraíba e Paraibuna e, na mesma data, por alvará, o título de fidalgo da Casa Real inserido no Registro Geral de Mercês do rei D. Pedro II, liv. 14, fl. 371 (documento que pode ser consultado na Torre do Tombo, em Lisboa, PT-TT-RGM/B/49848) .

Em 1703 seria novamente nomeado Administrador das Esmeraldas, e teve o privilégio de 1 vila que criasse.

Guarda-mor geral das minas

A Carta Régia de 19 de abril de 1702 o nomeou Guarda-Mor Geral das Minas por três anos com ordenado de 800$ - em virtude de seu serviço e os do pai, cargo que não o obrigava a se afastar da empresa do Caminho dos Cataguazes, porque a nomeação lhe outorgava poder de designar guardas-mores distritais. Em viagem de inspeção, talvez desde 1700, já nomeara guarda-mor ad hoc Salvador Fernandes Furtado, a quem coubera legalizar as posses de Antônio Dias, do Padre Faria, de Felix de Gusmão no Passa-Dez e deisco Franc° Silva Bueno no córrego abaixo do Campo Grande, em Ouro Preto. No inicio, reza a Carta Régia: «Eu, el-Rei, (…) por haver resoluto que haja um Guarda-Mor das Minas de São Paulo e na pessoa de Garcia Rodrigues Pais concorreram os requisitos de ser das principais Pessoas daquela Capitania; e mui zeloso em o Meu Serviço, pondo todo o cuidado em se abrir o caminho para as ditas Minas, tendo perdido por este respeito grandes conveniências por não faltar ao que se lhe encomendou; e se achar com grande notícia para fazer sua obrigação como convém, hei por bem de fazer mercê ao dito Garcia Rodrigues Pais do cargo de Guarda-Mor das Minas de São Paulo para que o sirva por tempo de três anos e o mais, enquanto lhe não mandar o sucessor, e que como ele haja 2 000 cruzados de ordenado cada ano, pagos na forma do regimento.»

Em 4 de maio de 1702 foi nomeado Baltasar de Godói Moreira «procurador da Fazenda Real» do Rio das Velhas, por provisão do Governador Artur de Sá e Menezes - em 1705 seria nomeado guarda-menor substituto do guarda-mor Garcia Rodrigues Pais, «ocupado com a feitura do caminho novo».

Garcia escreveu ao rei em 30 de agosto de 1705 mostrando-lhe que «os lugares são tão distantes dos povoados que se dificulta a arrecadação dos quintos de Vossa Majestade, tanto que me parece se deve buscar meio com que se evite o descaminho sem detrimento do povo, o qual represento a Vossa Majestade para que se execute quando achar conveniente.» E adiante: «A larga experiência que tenho das minas, desde o tempo que meu Pai as descobriu, me insinua o muito que hão de estender-se pelo dilatado sertão, como já se vai fazendo, ficando umas de outras muitos dias de jornada. E por atalhar o descaminho dos quintos foi Vossa Majestade servido vedar a comunicação da Bahia, o que nunca se pôde observar em razão se que as minas se não podem continuar sem o sustento dos gados daquelas partes, metendo juntamente quem os traz outros gêneros que deixam ocultos nos matos vizinhos, donde os tiram quando lhes parece, e registrando somente os gados, descaminham o ouro dos gêneros, que é de ponderação; cujo prejuízo entendo se pode evitar levantando Vossa Majestade a tal proibição; e mandando que nas minas, em parte conveniente, haja registro dos gados como dos gêneros, avaliando-se-lhes pelos preços ordenados, com obrigação de pagarem os quintos de tal valor porque, como o ouro que tiram em retorno é em pó, e por quintar, só desta maneira se pode naquela grande porção que levam evitar este descaminho.»

E conta sua disputa com José Vaz Pinto, elogiando muito, por outro lado «o Governador Artur de Sá muito amado daqueles povos», conta de repartições feitas, e que «na obra do caminho assisti até de presente desde o 1º de junho de 1704, que saí das Minas, e o tenho já de todo aberto, mas não se pode ainda cursar por falta de mantimentos; vou agora plantar as roças e da Páscoa por diante se poderá andar por ele, embora me tenham fugido 17 de seus carijós para a aldeia dos padres da Companhia».

Em 15 de setembro de 1705, Filipe de Barros Pereira, o escrivão do Guarda-Mor Garcia Rodrigues Pais, avaliou em 50 000 pessoas a população ativa das Minas! Ocupadas «umas em catar, outras em mandar catar os ribeiros de ouro, outras em negociar, vendendo e comprando o que se há mister não só para a vida mas para o regalo». Cada ano vinham nas frotas quantidade de Portugueses e de estrangeiros para passarem às Minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, escreve Antonil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os Paulistas se servem. Mistura de toda condição de pessoa: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, religiosos de diversos institutos, muitos dos que não tem no Brasil convento nem casa.» Quanto aos índios, eram cativos dos Paulistas ou por eles arrendados, recrutados mediante salário nas aldeias que pertenciam ao Rei. A estada dos religiosos seria motivo de escândalos, pois a febre do ouro os dominou como aos leigos, chegando a estarem misturados em casos de falsas punções de lingotes de ouro.

Em 14 de julho de 1709, recebeu mercê da Guardamoria vitalícia e por cinco vidas, privilégio que se extinguiria somente em 1858 pela renúncia de seu neto, Pedro Betim Pais Leme, filho do Marquês de São João Marcos.

Como tudo lhe sorria, tentou também a habilitação à Ordem de Cristo. A 29 de outubro de 1710, depois de se ter dirigido a Portugal com este propósito, receberia uma reposta negativa: tinha mais de 50 anos e era «afamado de cristão-novo por parte de sua avó materna» (Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses, p. 365).

Quando Garcia se ausentou das Minas para fazer o Caminho Novo, tinha assumido o majorado da família o mais generoso potentado da zona do Carmo, seu sobrinho, o Coronel Maximiano de Oliveira Leite, filho de sua irmã Mariana Pais e de seu marido, o coronel Francisco Pais de Oliveira Horta, da Parnaíba, fundadores da família Oliveira Leite em Minas, da qual descenderá o Marquês de Queluz.

Mas seu sonho de fortuna e riquezas - as esmeraldas! - não acabara: por carta patente de 3 de fevereiro de 1711, o governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho o nomeou governador da terceira diligência para achar esmeraldas, declarando: « Faço saber (etc) e porquanto Sua Majestade, a quem Deus guarde, me ordena continuar com os descobrimentos do ouro, prata e esmeraldas, e o destas tenha verdadeira notícia o Capitão Garcia Rodrigues Velho, por haver andado por todos estes sertões há muitos anos, e ter deles experiência; e se faça conveniente repetir a mesma diligência por pessoa de toda a suficiência, verdade e talento, requisitos que se acham no dito Garcia Rodrigues, e o ser ele natural da vila de São Paulo, das principais famílias dela, de respeito, prudente e amado de todos; e atendendo eu às referidas circunstâncias, e à boa vontade com que se oferece o dito Capitão Garcia Rodrigues Velho para ir fazer tão grande serviço a Sua Majestade não reparando nos seus muitos anos, trabalhos e despesas que sucedem em idênticas jornadas por sertões ásperos, sem caminho nem povoado, em que se ache o sustento necessário; e à utilidade que se poderá seguir do dito descobrimento e que convém levar o dito Garcia Rodrigues Velho toda a jurisdição e autoridade conveniente para ser respeitado e obedecido em tudo, e poder dispor a seu arbítrio o que entender, her por bem (etc).

Logo a seguir, patente de 6 de fevereiro de 1711 o investia de poderes absolutos com jurisdição de regente do distrito do Serro, para, por uma passagem ali, sossegar os tumultos e desordens sanguinolentas em que se empenhavam o coronel Manuel Correia Arzão e Gerardo Domingues pela posse do rio do Peixe. É de crer, dizem os cronistas, que do Serro desistisse de prosseguir pelo sertão das Esmeraldas, pois em 1715 o vemos de volta no Carmo, pois contratou lá casamento de sua irmã D. Francisca Pais de Oliveira Horta com o coronel Caetano Alves Rodrigues, ou Rodrigues Álvares, português. O casamento se realizou por procuração do noivo apresentada por um tio da noiva, Gaspar de Araújo, na vila de Parnaíba, o solar dos Lemes. Este novo casal veio para Minas em 1716, instalando-se na colina oposta à de Santa Teresa, no vale do córrego que ainda corre com o nome de José Caetano, seu filho primogênito. Este chegou a tenente-coronel: José Caetano Rodrigues Horta nasceu em 1718 e será o representante na vila do Carmo do Estado da primeira nobreza quando da entrada solene do primeiro Bispo em 1748; José Caetano casará na família, escolhendo sua prima Inácia de Arruda Pais, filha do Guarda-Mor das Minas do Carmo Maximiano de Oliveira Leite.

Garcia recebeu por carta régia de 14 de novembro de 1718 quatro sesmarias, e mais uma foi dada a cada filho, escolhidas ao longo da estrada. Foram suas as sesmarias de:

  1. Borda do Campo ou Registro Velho, berço da cidade de Barbacena;
  2. Matias Barbosa, berço da cidade de Juiz de Fora;
  3. Paraíba do Sul, onde se ergue a cidade;
  4. Macacos, ao pé da serra por onde desceu o Caminho Novo, hoje Presidente Pereira.

As sesmarias dos filhos se situavam em numerosos locais, sendo o principal São João Marcos. Além disso obteve Garcia o padrão de cinco mil cruzados anuais. Em Minas, residia em São Sebastião do Rio Abaixo, por onde estabeleceu parentes; não cessava de vir a Vila Rica, onde era amigo do governador Dom Brás Baltasar da Silveira, tendo sua voz sempre ouvida.

Casamento e posteridade

Garcia Rodrigues Pais Leme, segundo explica Silva Leme no volume II página 455 da «Genealogia paulistana», casou com sua prima, D. Maria Antônia Pinheiro da Fonseca.

Bibliografia

  • VASCONCELOS, Diogo. História Antiga das Minas Gerais. Ed. Editora Itatiaia; Rio de Janeiro; 1999.
  • Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses. Mercadores e Gente de Trato, Ed. Campo da Comunicação, 2009.

Referências

  1. (Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses. Mercadores e Gente de Trato, edição 2009, página 365).

Garcia Rodrigues Pais: O Destemido Sertanista e a Busca Incansável pelas Lendas de Minas

Garcia Rodrigues Pais (Serro, antes de 1660 — Paraíba do Sul, 7 de março de 1738) foi um proeminente sertanista e pioneiro paulista, lembrado historicamente como o primogênito do célebre "Governador das Esmeraldas", Fernão Dias Pais Leme, e de Maria Garcia Betim. Cunhado de figuras de proa do bandeirismo como Domingos Rodrigues da Fonseca Leme, Francisco Pais de Oliveira Horta e o Guarda-Mor Manuel Borba Gato, Garcia esteve no epicentro da saga que desbravou os sertões do Brasil colonial em busca de riquezas minerais. Seu corpo foi originalmente sepultado com honras no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, instituição religiosa reconstruída com o patrocínio de seu pai justamente para abrigar o jazigo familiar.

Os Primeiros Anos e a Grande Expedição de 1674

A vida de Garcia Rodrigues Pais fundiu-se desde a adolescência com a epopeia das bandeiras. Partiu para o sertão ao lado do pai com apenas 13 anos de idade, integrando a monumental bandeira que penetrou o interior desconhecido por quatro longos anos, a partir de 1674.

Com o falecimento de Fernão Dias Pais em 1681, coube a Garcia a dolorosa missão de retornar ao arraial do rio Paraopeba. Lá, encontrou-se com D. Rodrigo de Castelo Branco — a quem entregou formalmente as amostras das pedras preciosas encontradas e transferiu a posse da mina. Em seguida, liderou buscas exaustivas pelas margens do rio das Velhas até localizar o corpo de seu pai, cujo caixão naufragara durante o transporte fluvial rumo ao Sumidouro.

O Enigma das Esmeraldas e a Viagem a Portugal

Em 11 de dezembro de 1681, Garcia compareceu perante os oficiais da Câmara de São Paulo para exibir publicamente as famosas esmeraldas descobertas pelo pai. O lote era impressionante em volume, compreendendo:

  • 47 pedras principais (que mais tarde se revelariam ser turmalinas verdes, rejeitadas pelos lapidários da Corte, tal como ocorrera com as descobertas anteriores de Tourinho, Adorno e Marcos de Azeredo).

  • Sacos de pedras miúdas imperfeitas e nove peças de maior porte, totalizando vários arráteis de peso.

  • Uma pedra sextavada de grande apuro visual, acondicionada em múltiplos sacos de tafetá e chamalote encarnado.

Para reivindicar as mercês e recompensas devidas ao pai falecido, Garcia viajou ao Reino de Portugal acompanhado por seu tio, o Padre João Leite da Silva. Diante da recusa oficial das pedras como esmeraldas verdadeiras, Garcia demonstrou incomum tenacidade: ofereceu-se imediatamente para retornar ao sertão e aprofundar as escavações, argumentando que as amostras iniciais procediam apenas da superfície.

Deixando o tio em Lisboa, antecipou o regresso ao Brasil e organizou novas incursões à serra de Sabaraboçu (atual região das Minas dos Cataguazes).

As Entradas e a Conquista do Ouro

A segunda grande entrada de Garcia ao sertão consumiu cerca de cinco a seis anos de intensa atividade, custeada inteiramente com recursos próprios. O bandeirante mobilizou mantimentos, cavalos de carga, homens armados, escravizados, índios de serviço e até um capelão para a tropa.

Apesar do esforço hercúleo, a expedição enfrentou severas intempéries, surtos de febres e o abandono de parte dos homens devido às agruras do deserto. Embora o objetivo primordial — as esmeraldas — tenha permanecido frustrado, o esforço de Garcia abriu os caminhos definitivos para a exploração econômica da região. Uma Carta Régia de 1697 atesta que ele foi o primeiro a descobrir ouro de lavagem nos ribeiros que vertiam para a serra de Sabaraboçu, pavimentando o terreno para a corrida do ouro que transformaria a colônia.

A Memória da Câmara de Parnaíba e o Fim da Jornada

O reconhecimento institucional da abnegação da família foi formalizado em memorial escrito pelos oficiais da Câmara da Vila de Parnaíba em dezembro de 1681. O documento detalhou o sacrifício financeiro de Fernão Dias Pais, que endividou suas lavouras e consumiu seu patrimônio pessoal no serviço à Coroa sem jamais receber compensação financeira em vida.

Nomeado em 1711 pelo governador Antônio de Albuquerque para chefiar uma terceira expedição — da qual participou seu primo Domingos Rodrigues da Fonseca Leme —, Garcia acabou por limitar-se, nos anos seguintes, à administração de seus domínios particulares diante do esgotamento físico e financeiro imposto pelas empreitadas sertanejas. Faleceu em 7 de março de 1738, na região de Paraíba do Sul, deixando gravado na história o nome de uma estirpe que moldou os limites territoriais e econômicos do Brasil colonial.