sábado, 29 de agosto de 2026

A Imprensa de Curitiba em 1912: Comércio, Indústria e Vida Econômica nas Páginas de Um Jornal Histórico

 

A Imprensa de Curitiba em 1912: Comércio, Indústria e Vida Econômica nas Páginas de Um Jornal Histórico




A Imprensa de Curitiba em 1912: Comércio, Indústria e Vida Econômica nas Páginas de Um Jornal Histórico

Data da publicação: 26 de outubro de 1912 | Local: Curitiba, Paraná | Fonte: Jornal A Imprensa — páginas de anúncios e matérias econômicas

Introdução

As páginas aqui reunidas constituem um verdadeiro retrato vivo da economia, do comércio e da vida urbana de Curitiba no ano de 1912. Cada anúncio, cada nome comercial, cada endereço e cada produto oferecido revelam uma cidade em plena transformação: moderna, conectada aos mercados internacionais, com um setor varejista diversificado, indústrias incipientes e serviços financeiros e de transporte em franca expansão. Este artigo percorre cada página na íntegra, detalhando cada elemento, cada empresa, cada produto e mensagem, sem deixar de fora nenhum detalhe.

Página 1 — A Crise e o Comércio de Equipamentos e Artigos Diversos

A primeira página abre com um destaque em letras grandes e negritas: A CRISE. Logo abaixo, um texto de fundo explica que “o organismo que trabalha no sistema de nossa existência econômica apresenta há muito tempo que os ocasionais de sua angústia parecem ter chegado ao extremo, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos”. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre um momento de dificuldades econômicas sentidas tanto no Velho Mundo quanto na maior potência mundial da época — reflexo da interdependência econômica já existente no início do século XX.
Ao lado do texto, duas gravuras ilustram máquinas de escrever: à esquerda, um modelo mais antigo e robusto; à direita, com o nome REMINGTON bem visível, um modelo mais moderno e elegante, acompanhado da frase “UMA MÁQUINA POR MINUTO” — sugerindo agilidade, produção e eficiência, em contraste com a crise mencionada acima. A Remington era uma marca americana mundialmente conhecida, símbolo de modernidade e confiabilidade.
A seguir, em destaque: CASA CRYSTAL — WENDLER, SCHNEIDER & Comp. — estabelecimento situado à Rua 15 de Novembro, nº 64, com endereço telegráfico “CRYSTAL” e número de telefone 100. A lista de produtos é imensa e revela a variedade de um grande armazém de importação:
  • Vidros e cristais: cristais da Boêmia, porcelanas, louças, vidros, artigos de plástico, bacias, talheres, cutelarias, espelhos, lampadas, lustres, tapetes, carpetes, móveis de vime, artigos para presente, fantasias, bijuterias, brinquedos, ferramentas, ferragens, tintas, óleos, vernizes, ferragens para telhados, artigos de ferro e latão.
  • Fogões e aquecedores: “FOGÕES ECONÔMICOS e SERPENTINAS”, com a informação de que existe “novo e variado sortimento em louças e artigos para presentes”.
  • Destaque especial: “Encontram-se em exposição permanente os mais aperfeiçoados sistemas de fogões ‘VEYTA’”, com o chamariz final: “Vejam os preços — Preços sem competência”.
A Casa Crystal era, portanto, um verdadeiro hipermercado avant la lettre: importava dos principais mercados da Europa e Estados Unidos, trazia o que havia de mais moderno em utensílios domésticos, decoração, iluminação e até ferragens e ferramentas — abastecendo residências, comércios e obras em Curitiba.

Página 2 — A Casa Araucária: Móveis, Tapeçarias e o Bom Gosto

A segunda página é dominada pelo anúncio de A CASA ARAUCÁRIA — de Miranda Rosa & Comp., situada à Rua Marechal Deodoro, nº 11, esquina com a Rua Floriano Peixoto — endereço privilegiado, no coração comercial de Curitiba.
O texto apresenta o estabelecimento com orgulho: “Esta casa é a que no Estado tem o maior e mais variado sortimento” — e enumera com detalhe o que oferecia:
  • MÓVEIS e TAPEÇARIAS em geral, com venda por atacado e a varejo; fabricação própria, preços vantajosos e condições de pagamento facilitadas.
  • Produtos específicos: Toalhas, atilhos, guardanapos, panos de mesa, etc.
  • TRENS DE COZINHA de todas as qualidades — com a garantia de que “são os melhores que se encontram à venda”.
  • Destaque para a marca THONET: “Únicos importadores dos afamados superiores” móveis Thonet — os famosos móveis de vime e madeira curvada, símbolo do design moderno europeu, criados na Áustria, extremamente elegantes e leves. Ser “únicos importadores” conferia à Casa Araucária um monopólio desse produto de luxo.
Há ainda uma indicação de EXPEDIENTE: “Das 8 horas da manhã às 8 da noite” — jornada de trabalho de 12 horas diárias, com o horário comercial praticamente sem interrupções.
Ao rodapé, inicia-se uma seção de notícias ou comentários sob o título A TOSCA, cujo texto está parcialmente danificado, mas revela que a página combinava publicidade e conteúdo editorial — prática comum na época.

Página 3 — Seguros, Indústria e Máquinas: A Economia em Números

Esta página é um painel sobre serviços financeiros, indústria e maquinário pesado.
Em destaque: A ECONOMISADORA — nome que remete a uma instituição de poupança, crédito ou seguros. Logo abaixo, uma ilustração de máquina a vapor ou motor industrial apresenta:
Fábrica Industrial “MARUMBY” — Mueller Irmãos & Cia. — situada à Rua Barão de Antonina, nº 153, Curitiba, Paraná. O nome “Marumby” remete a um bairro de Curitiba, indicando uma indústria local com identidade própria.
Segue-se um anúncio de peso: 17 MIL CONTOS — valor imenso para a época, referente ao “ATIVO ACTUAL DA EQUITATIVA, antiga e poderosa Companhia de Seguros de Vida CONTRA FOGO”. Trata-se de uma seguradora de vida e contra incêndio, com sede à Avenida Rio Branco, 125 — Rio de Janeiro, e inspetorias em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba (Rua Treze de Maio, 8). O nome Lúcio Dutra aparece como Inspetor Geral, e menciona-se a “Garantia da Amazônia” — provavelmente outra seguradora ou ramo da mesma empresa. O valor de 17 mil contos de réis demonstra a solidez e a confiança que se queria transmitir ao público.
À direita, pequenos anúncios e chamadas comerciais:
  • GUARANY — com endereço na Rua 15 de Novembro, nº 1
  • CASA JAPONEZA — nome que sugere comércio de produtos orientais, curiosidade e novidades exóticas
  • INDO-ADOR — produto ou marca de nome sugestivo, de origem ou inspiração asiática
A página mostra que em 1912 Curitiba já dispunha de grandes seguradoras nacionais, com atuação ramificada em todo o Brasil, ao lado de indústrias locais e comércio de produtos importados de longínquas regiões.

Página 4 — O Comércio Popular, Navegação e Transporte Marítimo

A quarta página abre com: MÓVEIS — CASA DO POVO — TAPEÇARIAS, situada à Rua Barão do Rio Branco, nº 18. O nome “Casa do Povo” já indica o propósito: oferecer produtos de qualidade a preços acessíveis. Oferece: “Enxovais completos de móveis de todos os preços, fazendas, lençóis, colchões e travesseiros — Atende-se qualquer encomenda com prontidão”. A simplicidade e a clareza contrastam com o tom mais sofisticado dos anúncios anteriores — voltado ao público de maior poder aquisitivo.
Ao centro, uma série de nomes comerciais e marcas: Casa Aymoré, Casa Ingraça Irmãos, Casa Celeste, Theodoro Schlitza — mostrando a diversidade de estabelecimentos do ramo moveleiro e têxtil convivendo lado a lado.
A parte mais espetacular da página é o grande anúncio marítimo: PORTO DE ANTONINA — A Companhia Nacional de Navegação Costeira, por MARÇALLO & Comp. — com uma bela gravura de navio a vapor cortando as ondas. Antonina é importante porto no litoral paranaense, e a tabela de navegação mostra rotas regulares:
  • PARA O SUL: Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre e outros
  • PARA O NORTE: Santos, Rio de Janeiro, Vitória, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Pará e Manaus
Ou seja: de Antonina, partiam navios que ligavam o Paraná a todo o litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul à Amazônia. A navegação costeira era, na época, o principal meio de transporte de mercadorias e passageiros entre as regiões.
Ao rodapé, a palavra RWOOD parcialmente visível e o nome Chalowski — Representante indicam ainda um agente comercial ou importador com atuação em Curitiba.

Página 5 — Calçados, Chapéus e Moda: O Estabelecimento Mais Importante da Capital

Esta página é dominada pelo anúncio imponente de CASA MODELO, situado à Rua 15 de Novembro, nº 38. O chamariz inicial é direto e ambicioso: “O estabelecimento mais importante da Capital — Calçados, Chapéus, Malas e Artigos para Viagens”.
Uma bela ilustração emoldura um calçado masculino de couro, bico fino, solado de couro, de elegância sóbria e clássica, com a inscrição “Sempre Novidades”. Ao lado, uma caixa de chapéu e o aviso: “Emprestam-se caixas a quem se servir — um bonito presente”.
O texto reforça:
  • “Artigos de todo o gosto e preço”
  • “Preços desde 8$000” — oito mil réis, preço acessível
  • “Bellíssimo sortimento de calçados para senhoras, senhores e crianças”
  • “Sempre Novidades”
  • “Única depositária do afamadíssimo ESTADO DO [Paraná — texto cortado]”
A Casa Modelo não vendia apenas calçados e chapéus: malas e artigos para viagem mostram que a cidade vivia um tempo de deslocamentos, viagens a negócios e lazer — e a moda era tratada com importância, como algo que conferia status e distinção.

Página 6 — Máquinas de Escrever, Chapéus e Mais Uma Visão da Indústria Marumby

Esta página reúne comércio de equipamentos, moda e indústria.
Em destaque: UNDERWOOD — A Melhor Máquina de Escrever do Mundo. A competição com a Remington (vista na página 1) é evidente: duas marcas americanas disputavam o mercado curitibano. Abaixo, Casimiro Warchalowski — Representante — nome que se repete, mostrando que este comerciante representava várias marcas estrangeiras.
Segue-se: CALÇADO ROCHA — Elegância, Conforto e Resistência — outro fabricante de calçados, com proposta mais focada em durabilidade e conforto, em oposição ao luxo da Casa Modelo.
À esquerda, Chapela ria Curitibana — Faria & Palma, à Rua 15 de Novembro, nº 19. Abaixo, a marca A. Tosca reaparece, ao lado de Ramekzonca e Livraria Pública — misturando comércio de moda, livros e artigos diversos.
No terço inferior, reaparece a Fábrica Industrial “Marumby” — Mueller Irmãos & Cia. com a mesma gravura de motor/máquina a vapor vista anteriormente — repetindo a marca para fixá-la na memória do leitor. A página mostra, ainda, uma seção intitulada A ECONOMISADORA, com tabelas e textos que indicam rendimentos, taxas ou preços — reforçando o conteúdo de caráter prático e informativo do jornal.

Página 7 — Seguros, Móveis, Comércio e Serviços Reunidos

A sétima página é um verdadeiro mosaico da atividade econômica curitibana:
  • SUL AMÉRICA — “Companhia Nacional de Seguros de Vida e Contra Fogo”, com capital de **21.000:000$000** (21 mil contos de réis), prêmios a partir de 2$500 réis. A Sul América, empresa até hoje existente, já era então gigante do ramo.
  • A CASA ARAUCÁRIA reaparece, reforçando móveis, tapeçarias, artigos de luxo e utilidades — consolidando sua posição no mercado.
  • Trate o vosso Cabelo com JAUOL — anúncio de produto cosmético: “Em um frasco há para 6 meses de tratamento”. A preocupação com a aparência e a higiene pessoal já era explorada comercialmente.
  • A PARANAENSE — Júlio Monteiro da Silva — Indústrias Reunidas — à Rua Dr. Muricy, nº 367, com telefone 297. O nome “Indústrias Reunidas” sugere um grupo empresarial diversificado e de porte crescente.
  • A TOSCA volta a aparecer com textos em colunas, parecendo ser uma seção de opinião, crônica ou noticiário variado — misturando publicidade e conteúdo editorial.

Página 8 — Cervejaria, Pianos e Entretenimento

Esta página reúne indústria, cultura e lazer:
  • CERVEJARIA ATLÂNTICA — Telefone 395, Curitiba, Caixa Postal 163. A cervejaria já operava com estrutura comercial moderna: telefone e caixa postal.
  • ATENÇÃO! A Rua 15 de Novembro, nº 66 — Preços baratíssimos — chamada genérica que atrai o público com a promessa de economia.
  • A CASA ENXOVAL — artigos para casamento e lar, com endereço à Rua 15 de Novembro, nº 66.
  • Destaque central: PIANOS ESSENFELDER NÃO TÊM RIVAL! — “O pianista que se preza só toca os pianos Essenfelder. Superioridade indiscutível. Aprecie sem compromisso”. A marca paranaense Essenfelder, de fabricação local, se colocava em pé de igualdade com as melhores importadas. “Vendas por preços muito vantajosos — Exposição permanente no Salão”. A presença de fábrica de pianos revela um público consumidor culto, com hábitos musicais e capacidade de compra elevada.
Ao rodapé, nomes que revelam a vida cultural e comercial da cidade: MIGNON, EDEN THEATRO, POLYTHEAMA, CASA JAPONEZA, TAPECARIAS — teatros, lojas de importação e comércio especializado conviviam na mesma região central.

Página 9 — Mais Sobre Móveis, Navegação e Vinhos

A última página repete e complementa informações anteriores:
  • MÓVEIS — CASA DO POVO — TAPEÇARIAS reafirma seu compromisso com preços acessíveis e atendimento rápido.
  • PORTO DE ANTONINA — MARÇALLO & Comp. reapresenta a tabela de navegação, reforçando a importância da rota marítima para o comércio paranaense.
  • Em destaque ao fim: OS VINHOS DA CASA VILLAR — texto que explica a qualidade dos vinhos importados e a confiança na casa: “A CASA VILLAR oferece-se a quem possa provar e os eleja”. A degustação e a confiança na qualidade eram argumentos de venda tão importantes quanto hoje.

Conclusão: O Retrato de Uma Cidade em Ascensão

Ao percorrer todas estas páginas, percebemos que Curitiba, em 1912, já era uma cidade moderna, conectada e cheia de vida comercial. A Rua 15 de Novembro aparecia repetidamente como a grande artéria comercial — concentrando lojas de calçados, chapéus, móveis, importados, pianos e equipamentos. Viam-se produtos importados da Áustria, Estados Unidos, França, Ásia e de toda a Europa; indústrias locais como a Marumby e a Essenfelder concorriam com as melhores do mundo; seguradoras de porte nacional garantiam bens e vidas; e a navegação pelo porto de Antonina ligava o Paraná a todos os cantos do Brasil.
Havia uma crise econômica mencionada nas primeiras páginas — mas o comércio não parava: investia-se em publicidade, em qualidade, em garantias, em preços vantajosos e em novidades. Os nomes das empresas — muitos de imigração germânica, como Wendler, Schneider, Mueller, Warchalowski, Essenfelder — revelam a contribuição dos imigrantes para a construção econômica do Paraná. Cada anúncio é uma peça de história: cada produto, cada endereço, cada chamada de atenção conta a história de uma cidade que, há mais de um século, já se preparava para ser o que é hoje.














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