João de Faria Fialho, natural da Ilha de São Sebastião (São Paulo), hoje Ilhabela, foi vigário de Taubaté e bandeirante. Era filho do capitão Thomé de Faria Sodré e sua esposa Maria Luiz Fialho, irmão de Antônio de Faria Sodré. Dirigiu uma expedição em 1698 responsável pela descoberta de ouro na região de Ouro Preto, em Minas Gerais.[1][2]
Sobre a bandeira deste padre, comentaria mais tarde José Rebelo Perdigão, secretário do governador Artur de Sá e Menezes:
"Com a mesma emulação [refere-se a Bartolomeu Bueno de Siqueira] fez sua tropa o padre João de Faria Fialho e em breve tempo descobriu o ribeirão do seu nome". Sendo, no caso, nos córregos que descem do Itacolomi). "Porém como os que tinham mais armas e mais séquito eram sempre nestes descobrimentos os mais bem aquinhoados, determinaram-se os mal contentes a formarem novas Bandeiras. Uma destas descobriu ou socavou o ribeirão que chamou Bento Rodrigues, nome do cabo, de tanta grandeza que tiraram nele bateladas de 200 e 300 oitavas, e a mais, em proporção. E foi tanta a gente que concorreu que em 1697 valeu o alqueire de milho 64 oitavas e o mais na proporção".
Em um relatório de 9 de novembro de 1703, de Antônio Luiz Peleja, ouvidor geral de São Paulo, ao rei D. Pedro II o Padre é citado: vigário de Taubaté, decidira unir-se em 1694 a uma das bandeiras que partia buscar ouro na região dos Campos gerais dos Cataguás. Teria descoberto, na região do Rio Grande e do Rio das Mortes, "três rios de pinta muito boa e geral de ouro de lavagem" e, anos depois, na região de Ouro Preto, o ribeiro aurífero que leva seu nome. Toda sua atividade de bandeirante, segundo Peleja, visava apenas fornecer rendas à paróquia nascente de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba, a três léguas de Taubaté, e seu vigário.
Tal carta de Peleja é o documento 2785-90 da Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo de Marinha e descreve ela ainda que ainda em Pindamonhangaba um reinol, viajando para as Minas, recusara-se a vender fiado uma negra a um nacional da terra. Este, sem mais causa, atira-lhe com a espingarda e o mata, de dia, publicamente, em presença de muitos, dizendo: "Assim se ensinam os forasteiros". Começava a luta que terminaria na Guerra dos Emboabas: em todos os homens das bandeiras uma só alma vibra, o ódio aos estrangeiros os reduzia a uma só vontade, crescendo o amor do solo. Principio de desejo de autonomia ou para apenas garantir um patrimônio inestimável, nunca se saberá. Pela posse das Minas vão-se bater com a consciência de suas forças - é a primeira repulsa ao português, ao reinol.
O Sacerdote Bandeirante e a Febre do Ouro
João de Faria Fialho ocupa um lugar singular na história colonial brasileira por cruzar as fronteiras entre a vida eclesiástica e a audácia das bandeiras. Natural da Ilha de São Sebastião — atual Ilhabela, no litoral paulista —, filho do capitão Thomé de Faria Sodré e de Maria Luiz Fialho, e irmão de Antônio de Faria Sodré, Fialho atuou como vigário de Taubaté antes de mergulhar nos sertões em busca de metais preciosos.
Sua trajetória cruza-se de maneira definitiva com a descoberta de ouro na região de Ouro Preto, em Minas Gerais, no final do século XVII, transformando-se em testemunha e agente dos conflitos iniciais que moldariam as tensões nativistas da colônia.
As Expedições e a Descoberta do Ouro
A atuação de Fialho como bandeirante é atestada por importantes documentos da administração colonial, que detalham tanto o seu pioneirismo na prospecção aurífera quanto as motivações peculiares de suas incursões.
A Conquista dos Sertões e o Ribeirão do Padre
Em um relatório datado de 9 de novembro de 1703, endereçado ao rei D. Pedro II pelo ouvidor geral de São Paulo, Antônio Luiz Peleja (documento guardado na Biblioteca Nacional de Lisboa), reconstrói-se a trajetória do sacerdote:
Em 1694, o vigário de Taubaté decidiu unir-se a uma bandeira rumo aos Campos Gerais dos Cataguás, tendo descoberto na região do Rio Grande e do Rio das Mortes "três rios de pinta muito boa e geral de ouro de lavagem".
Anos mais tarde, em 1698, comandou uma nova expedição que resultou na descoberta do famoso ribeirão do Padre (localizado nos córregos que descem do Pico do Itacolomi, na região de Ouro Preto).
O Testemunho de José Rebelo Perdigão
A importância da bandeira liderada pelo padre foi registrada por José Rebelo Perdigão, secretário do governador Artur de Sá e Menezes:
"Com a mesma emulação [refere-se a Bartolomeu Bueno de Siqueira] fez sua tropa o padre João de Faria Fialho e em breve tempo descobriu o ribeirão do seu
nome [...] Porém como os que tinham mais armas e mais séquito eram sempre nestes descobrimentos os mais bem aquinhoados, determinaram-se os mal contentes a formarem novas Bandeiras. Uma destas descobriu ou socavou o ribeirão que chamou Bent o Rodrigues [...] de tanta grandeza que tiraram nele bateladas de 200 e 300 oitavas, e a mais, em proporção."
O relato ilustra a dinâmica explosiva da corrida do ouro, onde a descoberta inicial de Fialho atraiu levas de garimpeiros descontentes, provocando um surto inflacionário descomunal — em 1697, a escassez de alimentos fez o alqueire de milho atingir o valor de 64 oitavas de ouro.
O Propósito Paroquial
Curiosamente, segundo o ouvidor Antônio Luiz Peleja, toda a atividade bandeirante do padre João de Faria Fialho não visava o enriquecimento pessoal ou secular, mas sim fornecer rendas à paróquia nascente de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba (situada a três léguas de Taubaté) e assegurar a subsistência de seu vigário.
Semente de Conflito: O Prelúdio da Guerra dos Emboabas
A carta de Antônio Luiz Peleja à Coroa Portuguesa vai além da crônica geográfica, registrando um episódio de violência em Pindamonhangaba que prenunciava a Guerra dos Emboabas:
Um reinol (português nascido em Portugal) viajando para as Minas recusou-se a vender fiado uma escrava negra a um nacional da terra (paulista).
Sem hesitar, o comprador local atirou com sua espingarda e matou o comerciante em praça pública, à luz do dia e diante de testemunhas, bradando: "Assim se ensinam os forasteiros".
Para os cronistas e historiadores, este episódio sintetiza o nascedouro de um profundo sentimento nativista. Nas bandeiras e nos arraiais em formação, a oposição entre os paulistas (os "nacionais") e os forasteiros metropolitanos alimentou um ódio comum que unificou vontades. Quer fosse pelo desejo embrionário de autonomia política ou pela simples defesa de um patrimônio conquistado a ferro e fogo, estava plantada a semente do confronto armado que, em breve, disputaria com armas a soberania sobre as riquezas das Minas Gerais.