sexta-feira, 8 de setembro de 2023

CASA GUANELLA FOI SINÔNIMO DE PÂNICO PARA BATALHÃO DA FEB

 

CASA GUANELLA FOI SINÔNIMO DE PÂNICO PARA BATALHÃO DA FEB

Uma propriedade rural que data dos séculos XII e XIV. Algumas casas e campos intercalados com pequenas elevações. Mais ou menos uns mil à frente, com seus 977m, o Monte Castello. Essa é a Casa Guanella, com registros da época dos romanos e que em 1944 era uma fazenda de civis. Pertencera por muito tempo à Igreja Católica, tendo sido usada também como posto de fiscalização/tributação para mercadorias que circulavam pelas atuais rodovias SSP623/SS64, que dão acesso à Bolonha.

Foi nas proximidades daquele local que os brasileiros haviam se instalado em novembro de 1944 e foi dali que partiram/passaram companhias rumo aos três primeiros ataques fracassados à Monte Castello, nos dias 24, 25 e 29 de novembro daquele ano.

Agora o calendário marcava 2/12/1944 e as tropas do 1° Regimento de Infantaria, esgotadas tanto psicologicamente quanto fisicamente, pelo combate do dia 29/11/1944, precisavam ser retiradas de linha. No lugar deles, vieram infantes do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, com a 9ª Cia junto.

Esse 11° Batalhão tinha recebido armamentos e instruções, apenas nove dias antes de entrar em linha. Marcharam 6,5 km de Poggio até Casa Guanella. Chovia e já estava esfriando. No caminho cruzaram com soldados sujos e fatigados do 1° Regimento. Alguns homens ainda estavam bastante abalados e outros até choravam, segundo o tenente Alfredo Klas, de Palmeira/PR, que era o subcomandante da 1ª Companhia, do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria.

Do Monte Castello, os alemães observavam os brasileiros se movimentando e logo perceberam que era tropa nova chegando para substituir seus antigos rivais. “Foram advertidos, e até ameaçados, soldados que sobraçavam feixes de palha para preparar camas. (…) Por certo, a essa altura, os alemães já haviam concluído sobre essa situação de tropa nova em linha de frente[1]”, argumentou Klas.

Naquele mesmo dia, de noite, Casa Guanella entraria para a história da FEB. O próprio Klas conta como tudo aconteceu:

Tenente Alfredo Klas (Arquivo V de Vitória, cedida pela família)“Até o anoitecer, nosso Capitão [Carlos Frederico Cotrim Rodrigues Pereira] não tomara qualquer iniciativa no sentido de preparar um plano de defesa ou de realizar uma reunião dos oficiais e sargentos. Tudo se fez dentro dos propósitos pessoais daqueles que se julgavam detentores de uma parcela de responsabilidade. (…) A tropa, em geral, não demonstrava nervosismo. (…) Precisamente às 23 horas, um tiro de fuzil, partindo da direita do dispositivo da 1ª Companhia, despertou a linha de frente. Logo em seguida outros tiros que foram amiudando para se generalizar em toda a frente da companhia. Estávamos em combate. Por solicitação do comandante da companhia [Capitão Cotrim], a artilharia iniciou intensa barragem em nossa frente, com precisão invejável e elogiável, o que deu, incontestavelmente, ao infante, uma sensação de poder e segurança. Não perdíamos a contato telefônico com o Posto de Comando do Batalhão, ao qual transmitíamos os detalhes da luta. No meio do barulho, destacava-se sempre o som clássico da famigerada Lurdinha. Penetrava até a alma do nosso soldado. Este, entretanto, resistiu ao ímpeto do inimigo. Como que por encanto, às 23h45, de inopino, cessou fogo e tivemos a impressão de que aquela pausa fora previamente combinada. As armas de ambos os lados emudeceram ao mesmo tempo[2]”.

Quando cessou tiroteio, alguns oficiais perceberam que os morteiros e metralhadoras deles, não haviam disparado como era esperado. Checaram os equipamentos e descobriram que estavam sujos e cheios de barro, por conta da marcha que foi feita de Poggio à Guanella. Seus comandados não tinham sequer limpado as armas depois da marcha.

Os alemães utilizavam métodos para confundir os novatos, movimentando soldados com lanternas na frente dos brasileiros, para que parecessem ter mais homens do que realmente dispunham de efetivo.

Chega o chefe

Alguns minutos depois do cessar fogo, o comandante do Estado-Maior do Batalhão, Major Jacy Guimarães, com o auxiliar dele, Capitão Ademar Revemar de Almeida e mais um Pelotão da 3ª Companhia, apareceu para elevar o moral dos homens e preencher brechas que haviam resultado entre a 1ª e a 9ª Companhia.

Por volta da meia noite os alemães retornaram com uma patrulha reforçada. Dessa vez o tiroteio foi até às 3h do dia 3 de dezembro.

Chega o pânico

Começou a haver pânico entre os brasileiros. Um tenente da 3ª Cia, que havia sido enviado como reforço, se recusou a ficar na posição em que estava, pois, dizia que seria cercado pelos inimigos. Posições começaram a ser perigosamente abandonadas e a batalha foi se aproximando do Posto de Comando da 1ª Cia. Nas palavras de Alfredo Klas:“Sentimos a gravidade da situação e o perigo do envolvimento. Já estávamos com a granada de mão sem o grampo, impossibilitados, porém de qualquer ação imediata em face do risco a que exporíamos os nossos elementos, dada a proximidade com que se encontravam. Aí, então, concluímos que o Pelotão da 3ª companhia já não existia em nossas linhas. Uma granada estourou na parede do quarto dos oficiais, bem na altura da cama do capitão, fazendo grande roubo na construção e imobilizando o tanque americano, que ficou com a lagarta direita inutilizada. Esse tanque permanecia a um metro de distância da casa. Se alguém estivesse na cama do capitão, por certo estaria estraçalhado. Momentos antes, o posto de comando da companhia estava nesse quarto. Inicialmente o capitão Cotrim acreditou tratar-se de um ato de sabotagem, praticado por elementos da quinta coluna, pois, a explosão se dera no sentido contrário ao do inimigo. O capitão ficou, porém, duplamente impressionado, porquanto, pouco antes, estávamos naquele local e as condições da explosão eram para ele estranháveis. Aquilo abalou o moral do nosso comandante da companhia. Estava um grupo de homens no posto de comando, quando nova e tremenda explosão se fez ouvir. Quando todos que se encontravam no compartimento foram atingidos pelo cone de deslocamento de ar e violentamente jogados no chão. Nossa linha telefônica foi destruída e a ponta que vinha do batalhão ao posto de comando da companhia não foi mais encontrada. O rádio do observador da artilharia também silenciou com violenta explosão. Estávamos sendo atingidos pela nossa própria artilharia[3]”.

  • Casa Guanella, lá bem no fundo, entre árvores à direita, vista dos pés de Monte Castello
  • Monte Castello visto do começo da estradinha para Casa Guanella
  • Mini complexo de edificações em casa Guanella
  • Mini complexo de edificações em casa Guanella
  • Mini complexo de edificações em casa Guanella
  • Na esquerda, Monte Castello visto de Guanella
  • Parte do mini complexo de Guanella, visto pelos alemães no ataque
  • Casa Guanella, lá bem no fundo, entre árvores à direita, vista dos pés de Monte Castello
  • Monte Castello visto do começo da estradinha para Casa Guanella

Hora de recuar

Os tenentes Aluizio Alves Borges, comandante de pelotão da 1ª Cia e o Tenente Fábio Márcio Pinto Coelho convenceram Cotrim, que já estava abalado psicologicamente, a recuar, a fugir de Casa Guanella.

E assim foi feito, com ordem de recuo até Silla, distante a 7 ou 8 km dali e ponto de reunião de tropas brasileiras. A 2ª Cia seguiu a 1ª Cia, que por sua vez seguiu a 3ª Cia, que tinha ido como reforço. Somente o Pelotão Ary Rauen (tenente que morreria meses depois em Montese) ficou nas posições. Eles eram da 2ª Cia.

Ao saber do ocorrido, o major Jacy entrou em contato com o comando da Artilharia e falou com o comandante daquela arma, General Cordeiro de Farias, que informou que não havia ataque alemão algum, que eles precisavam voltar para as posições, pois, era somente uma patrulha reforçada dos inimigos.

Jacy começou a encontrar oficiais e pedir a colaboração deles para voltar às posições. Alfredo Klas e outro tenente, José Rezende Leite, ajudaram o major a reagrupar o pessoal, que ia chegando de todos os lados. Muitos tinham vindo com a roupa do corpo e nem os equipamentos individuais vinham trazendo, pois, tinham abandonado no caminho para ficarem mais leves e andarem mais rápido.

O capitão Silvio Scheleder, da 2ª Cia foi acusado formalmente de tentar impedir que o pessoal dele voltasse e foi afastado do comando dos homens, tendo sido julgado inocente após o final da guerra. O comandante dele, Capitão Emílio Augusto Guimarães Tinoco, também foi processado e inocentado no final do conflito. O mesmo se deu com Jacy Guimarães. Já Cotrim, ficou tão fragilizado emocionalmente, que precisou ser evacuado da guerra. Depois do acontecido, tinha alucinações e uma tremenda vergonha de si mesmo.

Podia ser pior

Os alemães, segundo o chefe do Estado-Maior da FEB, Coronel Floriano de Lima Brayner[4], não avançaram e tomaram aquelas linhas de Guanella, pois, podiam ter achado se tratar de uma armadilha ou simplesmente porque não tinham intenção de tomar uma posição que não conseguiriam manter depois. Seriam entre 40 e 60 alemães naquele dia. Já o Batalhão tinha pelo menos 190 brasileiros. Brayner também assumiu parte da responsabilidade por ter posto novatos em linha naquelas condições.

Alfredo Klas culpou a falta de treinamento adequado (de postura e armamento) dos homens da 1ª Cia, enviados para um “batismo” de fogo sem o devido preparo. Na opinião dele, o comando de Cotrim também foi falho e quando a 3ª Cia debandou, as outras a seguiram. Na visão do tenente, o efeito psicológico do primeiro bombardeio inimigo e também do fogo amigo (foi pedido que encurtassem a alça de tiros para pegar os alemães que chegavam cada hora mais perto), atingiram negativamente o moral dos Pracinhas[5].Quando amanheceu o dia, homens do III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria já substituíam os do I Batalhão do 11º Regimento, mandados para Silla para se recompor.

Um samba da época dizia em um dos versos que “Laurindo desceu o morro” e os combatentes do I Batalhão/11° Regimento receberam o apelido pejorativo de “Laurindos”. Mais tarde recuperariam a honra, ao serem os primeiros soldados a penetrar em Montese destruída, sendo diretamente responsáveis por sua libertação. Já Casa Guanella, seria o “lar” brasileiro até 21/02/1945, quando finalmente Monte Castello caiu.

Visite Casa Guanella por aqui. Dica: pegue a estrada para a esquerda, passando entre as árvores.


[1] KLAS, Alfredo Bertoldo. A verdade sobre Guanella: um drama da FEB. Curitiba: Juruá, 2002. p.92-96

[2] Ibidem

[3] KLAS, Alfredo Bertoldo. Op. Cit. p.101

[4] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB (memórias de um chefe de Estado-Maior na Itália). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p.263-68

[5] KLAS, Alfredo Bertoldo. Op.Cit. p.105https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/

 

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FEB: FILHO CONTA A HISTÓRIA DO PAI, FERIDO TRÊS VEZES NA GUERRA

 

FEB: FILHO CONTA A HISTÓRIA DO PAI, FERIDO TRÊS VEZES NA GUERRA


João, com 15 anos

João Duran Alonso era nascido em Piracaia/SP, em 06 de novembro de 1920. Ele era neto de espanhóis e media 1,64 metros. O pai dele se mudou com a família para trabalhar com comércio em Bragança Paulista e desde criança, João o ajudava em uma quitanda, pequena mercearia familiar, vendendo bananas na rua. Era o filho mais velho de quatro irmãos.

Adolescente, foi trabalhar em uma fábrica de tecidos chamada Santa Basilícia. Tinha só 14 anos de idade. Ali conheceu Iracema, com que anos depois se casaria. Ficou no emprego até ter idade para se alistar na “linha de tiro” ou “Tiro de Guerra”, que era o formato de prestação de serviço militar da época, sendo administrado em uma parceria entre o Exército e as prefeituras.

Depois disso foi para a reserva e quando estourou a Segunda Guerra Mundial, foi convocado, em 1942. De Bragança, foi destacado para Lins, depois Caçapava e dali para a Itália. Serviu como cabo e, mais tarde, foi promovido a 3º sargento, comandante de grupo de combate em uma das Companhias do III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria.

Onze soldados estiveram diretamente sob a responsabilidade de João, durante toda a guerra. Um deles, de nome Lindolfo, foi ferido em combate e carregado pelo 3º sargento, por nada menos do que 6 km até as linhas brasileiras.

Teve batismo de fogo no Vale do Serchio, esteve em Torre di Nerone, Monte Castello, Rocca Pitigliana e Montese, onde quando avançava com seus homens, entre Cota 824, Monte Buffoni e Cota 927, foram alvo de grande concentração de tiros de morteiro e artilharia alemã. Foi assim que João foi ferido, vítima de um estilhaço.

Ele podia ter retornado para a base de partida, para ser atendido, mas, recusou deixar os comandados, pediu apenas um curativo e continuou com seus homens, mesmo sob constante bombardeio. Mantiveram a posição que ocupavam e só saíram dali quando veio ordem superior. Por isso, recebeu a Medalha Cruz de Combate de 1ª Classe (ato de bravura individual) e mais a Medalha Sangue do Brasil (por ter sido ferido). Até o final da guerra ainda seria ferido outras duas vezes, sem precisar sair do front, com receio de ser afastado do grupo de combate dele, que ele tanto cuidava como se fossem irmãos.

A chegada

A guerra acabou e ele voltou para casa. Foram três dias de festa quando os soldados retornaram para a cidade deles em São Paulo, em 1945. O primeiro que recebeu João, foi o cachorro dele, chamado Kiki, conhecido na cidade e que gostava de passear pela estação ferroviária. No dia em que o trem com os expedicionários chegou a Bragança, Kiki correu procurando o amigo e foi o primeiro a encontrá-lo em uma das composições. Já em casa, passou a noite toda chorando na janela de João, emocionado e querendo o colo do tutor.

João (primeiro da direita agachado) e colegas de Bragança, no retorno para casa

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De volta à vida civil, com a terceira parte do pagamento que ele depositava na Caixa Econômica e mais o que o pai dele havia guardado de uma segunda parte que ia para a família do expedicionário, João montou um pequeno comércio. Porém, as coisas não iam muito bem e após alguns anos ele saiu do empreendimento para o serviço público, para trabalhar como avaliador da Prefeitura de Bragança Paulista.

Em companhia de um motorista, ele andava toda a região e era pessoa de confiança da administração.

O trágico fim

Antes da guerra, João sabia que tinha um problema digestivo que o acompanhava desde a infância, que um dia precisaria fazer uma cirurgia para resolver. Por ser uma cirurgia de risco e não afetar o desempenho dele como soldado, ignorou a doença e seguiu a vida.

Poucas semanas antes do falecimento. O menino é o João Filho, primogênito do pracinha, com as medalhas do paiEm um dia, à serviço da prefeitura, João parou para apanhar uma goiaba na beira do caminho, comeu e passou mal por conta do problema digestivo que sempre o acompanhara. As coisas se complicaram e ele precisou de uma cirurgia urgente. Não resistiu ao pós-operatório e faleceu aos 42 anos de idade, em 1962.

A viúva, Iracema Lopes Duran ficou com os dois filhos: um de 11 anos e outro que ia fazer quatro anos. A família ainda teve mais uma perda: o pai de Duran, que tinha câncer, faleceu uma semana depois do filho. Foram meses difíceis, com dificuldades financeiras e muita luta pela sobrevivência.

Coube ao irmão de João, chamado Sebastião, que tinha prometido tomar conta dos meninos, uma iniciativa brusca para solicitar ajuda do Governo. Ele escreveu uma carta para o Ministério da Guerra, em que dizia: paguem uma pensão para ajudar a família ou eles terão que vender as medalhas do falecido para honrar dívidas.

Medalhas de João, hoje em poder dos filhosA resposta veio em seguida: que anexassem documentos comprobatórios e entregassem na Associação de Ex-combatentes de São Paulo. Depois disso, Sebastião ainda precisou ir ao Rio de Janeiro, no Ministério da Guerra, para poderem ter direito ao auxílio. Assim foi feito e a família pôde ter alguma ajuda do Estado.

Os filhos cresceram e puderam estudar. Um se formou em enfermagem (Joel) e outro em psicologia (João Duran Alonso Filho); e os netos também tiveram uma vida melhor, sendo que há um deles fazendo doutorado (além dos dois filhos, são três netos: Juan, Jovan e Diogo).

Diploma que confirma o ferimento em combate

Joel, o filho mais novo, foi quem decidiu compartilhar a história do pai, como forma de tornar a história de luta dele conhecida. As fotos são do acervo de Joel e da família. Em Bragança Paulista há uma rua com o nome de João e em São Paulo (capital), uma praça.

Iracema, a viúva, descerra uma placa com o nome do marido.

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