terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Peter Müller e a Casa de Madeira na Villa Guayra: Um Sonho Simples na Curitiba dos Anos 1920

 Eduardo Fernando Chaves:  Projetista

Denominação inicial: Projecto de uma casa para o Snr. Peter Müller

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Villa Guayra. Rua Nº 14 esquina com Rua Nº 16

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 48,00 m²
Área Total: 48,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 08/09/1927

Alvará de Construção: Nº 4689/1927

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de uma casa de madeira.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

1 - GASTÃO CHAVES & CIA. Projecto de casa para o Snr. Peter Müller. Plantas do pavimento térreo e de implantação, cortes e fachadas frontal e lateral apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

Peter Müller e a Casa de Madeira na Villa Guayra: Um Sonho Simples na Curitiba dos Anos 1920

Projeto de 1927 – Demolido em ou antes de 2012


Em 8 de setembro de 1927, nos arquivos da Prefeitura Municipal de Curitiba, foi protocolado um projeto singelo, mas profundamente revelador do cotidiano urbano da época: “Projecto de uma casa para o Snr. Peter Müller”. Assinado pelo escritório Gastão Chaves & Cia., um dos mais atuantes na arquitetura residencial popular da capital paranaense nas primeiras décadas do século XX, o documento trazia os planos para uma modesta residência de 48 metros quadrados, erguida inteiramente em madeira, na então emergente Villa Guayra.

Embora efêmera — demolida décadas depois, com seu lugar já esquecido pelo tecido urbano contemporâneo —, essa casa representa muito mais do que quatro paredes e um telhado. É o retrato de uma era em que morar com dignidade era um ato de coragem, planejamento e esperança.


O Morador: Peter Müller

Peter Müller provavelmente era um imigrante ou descendente de imigrantes — alemães, poloneses ou ucranianos — cujas famílias chegaram ao Paraná nas levas migratórias do fim do século XIX e início do XX. Seu nome sugere origem germânica, comum na região de Villa Guayra, bairro que se desenvolveu a partir de loteamentos voltados à classe trabalhadora e aos pequenos comerciantes.

Ao solicitar, em 1927, a construção de sua própria casa, Peter dava um passo decisivo rumo à cidadania plena: não apenas residir, mas possuir; não apenas ocupar, mas edificar. Em tempos de pouca assistência estatal e crédito habitacional inexistente, construir uma casa era um feito de autossuficiência e determinação.


A Casa: Economia, Madeira e Funcionalidade

Com apenas 48,00 m² distribuídos em um único pavimento, a residência projetada por Gastão Chaves & Cia. era um modelo de eficiência espacial:

  • Uma sala de estar que servia como núcleo social da casa;
  • Dois quartos modestos, suficientes para uma família pequena;
  • Cozinha integrada à área de serviço;
  • Banheiro interno — ainda um diferencial na habitação popular da época;
  • Fachada simples, com varanda frontal que dialogava com a calçada, típica das construções em madeira do período.

O uso da madeira como material principal não era apenas econômico — era também cultural. Muitos imigrantes trouxeram consigo técnicas construtivas tradicionais da Europa Central, adaptadas ao clima e à disponibilidade de pinho do Paraná. A madeira permitia montagem rápida, isolamento térmico razoável e reparos acessíveis — qualidades essenciais para famílias de recursos limitados.

Localizada na esquina das Ruas nº 14 e nº 16, em Villa Guayra, a casa ocupava um lote estratégico, favorecendo ventilação cruzada e visibilidade — fatores valorizados mesmo nas residências mais simples.

O Alvará de Construção nº 4689/1927 confirmava a regularidade do empreendimento, demonstrando que, mesmo nas camadas populares, a cidade exigia — e incentivava — a formalização do espaço construído.


Desaparecida, mas não Esquecida

Em 2012, quando pesquisadores consultaram os registros históricos, a casa de Peter Müller já não existia mais. Demolida, provavelmente nas décadas de 1970 ou 1980, foi substituída por outra construção ou absorvida por um novo loteamento. Nada restou de sua estrutura física.

Felizmente, sua memória arquitetônica foi preservada graças à prancha de projeto original, hoje digitalizada e guardada no Arquivo Público Municipal de Curitiba. Nela, vemos não apenas linhas e cotas, mas as aspirações de um homem comum que, em plena década de 1920, apostou no futuro ao cravar os primeiros pregos de seu lar.


Um Legado de Simplicidade e Resistência

A casa de Peter Müller não tinha torres, estuques ou jardins elaborados. Mas era sua. E nisso reside sua grandeza histórica.

Em um momento em que Curitiba se expandia além do centro histórico, bairros como Villa Guayra tornaram-se verdadeiros laboratórios de habitação popular, onde arquitetos como Gastão Chaves traduziam necessidades sociais em plantas funcionais e acessíveis. Projetos como o de Peter Müller ajudaram a moldar a identidade urbana da cidade: humana, horizontal, integrada à natureza e ao trabalho.

Hoje, ao revisitar esse projeto, lembramos que a história de uma cidade não está apenas em seus edifícios monumentais, mas também nas casas que abrigaram vidas anônimas — como a de Peter Müller, um homem cujo nome sobrevive graças a 48 metros quadrados de madeira, sonho e coragem.


Ficha Técnica:

  • Proprietário: Peter Müller
  • Endereço: Villa Guayra – Rua nº 14 esquina com Rua nº 16, Curitiba – PR
  • Data do projeto: 08/09/1927
  • Alvará de construção: nº 4689/1927
  • Área total: 48,00 m²
  • Pavimentos: 1
  • Material construtivo: Madeira
  • Categoria: Residência Econômica
  • Situação em 2012: Demolida
  • Documentação preservada: Projeto arquitetônico (microfilme digitalizado, Arquivo Público Municipal de Curitiba)

“Nenhuma casa é pequena demais para abrigar um grande sonho.”
— Em memória de Peter Müller e de todas as moradias modestas que, um dia, foram lar.

Haroldo Bittencourt e a Casa da Rua Pasteur: Uma Moradia Econômica que Marca a História Urbana de Curitiba

 Eduardo Fernando Chaves:  Construtor e Fiscal

Denominação inicial: Projecto de uma casa para o Snr. Haroldo Bittencourt

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Rua Pasteur

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 69,00 m²
Área Total: 69,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 21/09/1934

Alvará de Construção: Nº 766/1934

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa e Alvará de Construção.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1 – CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de uma Casa a construir na Rua Buenos Aires para o Snr. Haroldo Bittencourt. Planta do pavimento térreo e de implantação; corte, fachada frontal e fachadas laterais apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 – Alvará n.º 766

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Haroldo Bittencourt e a Casa da Rua Pasteur: Uma Moradia Econômica que Marca a História Urbana de Curitiba

Projeto de 1934 – Demolido em ou antes de 2012


Em setembro de 1934, em meio ao desenvolvimento urbano acelerado de Curitiba, foi depositado nos arquivos da Prefeitura Municipal um modesto, porém significativo, projeto arquitetônico: “Projecto de uma casa para o Snr. Haroldo Bittencourt”. Assinado pelo arquiteto Eduardo Fernando Chaves, o documento revela não apenas os planos para uma residência de 69 metros quadrados na Rua Pasteur, mas também os ideais de habitação acessível, funcionalidade e urbanização racional que marcaram a cidade nas primeiras décadas do século XX.


O Morador: Haroldo Bittencourt

Embora os registros biográficos sobre Haroldo Bittencourt sejam escassos nos arquivos públicos, seu nome permanece ligado à história da arquitetura residencial curitibana por ter sido o primeiro proprietário e solicitante da construção. Provavelmente um cidadão da classe média emergente dos anos 1930 — talvez funcionário público, comerciante ou profissional liberal —, Haroldo representava uma nova geração de curitibanos que buscavam estabilidade, moradia própria e integração aos bairros em expansão da capital paranaense.

Sua escolha por uma residência econômica, de apenas um pavimento e planta compacta, reflete tanto as limitações financeiras quanto os valores da época: simplicidade, utilidade e integração harmoniosa com o entorno urbano.


A Casa: Um Modelo de Habitação Acessível

Projetada em 21 de setembro de 1934 e autorizada pelo Alvará de Construção nº 766/1934, a casa de Haroldo Bittencourt era uma construção de alvenaria de tijolos, erguida sobre 69,00 m² distribuídos em um único pavimento. Apesar da pequena área, o projeto arquitetônico demonstrava cuidado com a distribuição funcional dos espaços:

  • Sala de estar integrada à circulação principal;
  • Dois quartos, garantindo privacidade familiar;
  • Cozinha e área de serviço separadas;
  • Banheiro interno — um luxo em muitas residências da época;
  • Varanda frontal, elemento típico da arquitetura residencial sulina, que mediava a relação entre o interior doméstico e a via pública.

As fachadas, apresentadas nas pranchas originais, exibiam linhas sóbrias, sem ornamentos excessivos, em sintonia com o estilo ecletismo funcional que predominava nas construções populares do período. A implantação na Rua Pasteur — uma via secundária, mas bem localizada no tecido urbano em expansão — reforçava a vocação residencial do entorno.


Um Testemunho Arquitetônico Perdido

Infelizmente, a casa não resistiu ao tempo. Até 2012, já havia sido demolida, cedendo lugar, provavelmente, a um novo empreendimento imobiliário ou a uma reformulação do lote. Sua ausência física não apaga, porém, sua importância histórica.

Os dois documentos preservados — a prancha de projeto arquitetônico e o alvará de construção —, hoje digitalizados e guardados no Arquivo Público Municipal de Curitiba, servem como testemunhos materiais de uma época em que a cidade crescia de forma ordenada, valorizando a habitação digna mesmo em suas formas mais modestas.


Legado e Significado Histórico

A residência de Haroldo Bittencourt não era palaciana, nem icônica. Mas era representativa. Representava o sonho de milhares de famílias curitibanas que, nas décadas de 1930 e 1940, buscavam um teto próprio em um momento de urbanização intensa. Projetos como esse — econômicos, bem resolvidos e humanos — foram os verdadeiros alicerces sociais e urbanos da Curitiba moderna.

Hoje, ao revisitar o projeto de Eduardo Fernando Chaves, percebemos que a arquitetura não precisa ser monumental para ser significativa. Às vezes, basta abrigar uma família com dignidade, e deixar, mesmo que apenas em microfilme, a memória de que alguém um dia construiu um lar com 69 metros de esperança.


Ficha Técnica:

  • Nome do proprietário: Haroldo Bittencourt
  • Endereço: Rua Pasteur, Curitiba – PR
  • Data do projeto: 21/09/1934
  • Alvará de construção: nº 766/1934
  • Área total: 69,00 m²
  • Pavimentos: 1
  • Material construtivo: Alvenaria de tijolos
  • Categoria: Residência Econômica
  • Situação em 2012: Demolida
  • Documentação preservada: Projeto arquitetônico e Alvará (Arquivo Público Municipal de Curitiba)

Em memória de todas as casas modestas que, mesmo desaparecidas, ajudaram a construir a alma de uma cidade.