sábado, 14 de fevereiro de 2026

CEMITERIO DOS CABOCLOS

 CEMITERIO DOS CABOCLOS



Paiçandu é um município do estado do Paraná, localizada na chamada região metropolitana de Maringá. Nesta cidade existe um local chamado de Cemitério dos Caboclos, atualmente é restrito a um pequeno círculo demarcado por um baixo muro de pedras. No centro existe uma capela e um monumento de pedras com uma cruz.

Situado as margens da rodovia 323, o local serve para homenagear os caboclos sepultados e também é utilizado para supostas oferendas a orixás. Pouco se sabe sobre o local, mas acredita-se que entre os anos 1930 a 50 neste pequeno espaço eram enterrados os caboclos habitantes da região.

Muitos acreditam que o local é assombrado e diversas histórias sinistras são contadas pelos moradores. Alguns dizem que vultos são avistados próximo ao cemitério e outros relatos contam que motoristas avistaram caboclos andando pela margem da rodovia e quando olharam pelo retrovisor nada mais havia por lá.

Vários acidentes de carro também já aconteceram próximo ao local, seriam frutos da negligência na direção? Ultrapassagens forçadas e alta velocidade? Ou eles também viram alguma coisa estranha ?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cartão Postal da década de 1890, datado de 12/03/1901, editado por V. Albert Verl., em Altstad-Hamburgo, apresenta na foto à esquerda o antigo Porto de Paranaguá, às margens do Rio Itiberê. O largo adjunto, onde estão as duas palmeiras maiores, chamava-se Largo do Glicério, mais conhecido como Praça do Guincho, hoje chama-se Praça Rosa Andrade. A rua que margeia a Praça, junto ao rio, era chamada popularmente Rua da Praia, Hoje Rua General Carneiro.

 Cartão Postal da década de 1890, datado de 12/03/1901, editado por V. Albert Verl., em Altstad-Hamburgo, apresenta na foto à esquerda o antigo Porto de Paranaguá, às margens do Rio Itiberê. O largo adjunto, onde estão as duas palmeiras maiores, chamava-se Largo do Glicério, mais conhecido como Praça do Guincho, hoje chama-se Praça Rosa Andrade. A rua que margeia a Praça, junto ao rio, era chamada popularmente Rua da Praia, Hoje Rua General Carneiro.



 Na foto à direita, a edificação de esquina abrigava um órgão público naquela época e, mais recentemente abrigou a saudosa Lanchonete Estoril. Na parede dos fundos desse imóvel, na época, os trilhos da Estação Ferroviária de Paranaguá tinham seus últimos metros estendidos até o marco zero da ferrovia Paranaguá-Curitiba, Inaugurada em 1885.



Ao lado direito desse imóvel vemos uma pequena "torre de observação" que havia sido instalada no jardim da bela residência do sr. Alfredo Eugênio de Souza, cuja finalidade era observar a chegada das embarcações que adentravam pelos canais chamados Mar de Dentro (hoje Canal da Galheta) e Mar de Fora, em direção ao Porto de Paranaguá.

Da torre podia se ver a Ilha da Cotinga, a Ilha do Mel, a entrada do Rio Itiberê, a Ilha dos Valadares e todas as águas que ficam no entorno da Baía de Paranaguá. A torre era usada como minarete de observação e funcionava integrada visualmente com outros pontos de observação. Era um tempo em que não havia meios de comunicação entre as embarcações e o porto.

Nesses pontos de observação, no Morro da Cotinga, na Ilha dos Valadares e na Ilha do Mel, haviam mastros onde eram instaladas bandeiras sinalizadoras, cujas estampas e cores formavam códigos próprios para cada tipo de embarcação que se avistava e direção que tomava, de modo a saber-se todo o trânsito de embarcações. Da Torre, enxergava-se a Cotinga, e as informações que vinham e iam, passadas pelos marinheiros e agentes da época, permitiam preparar de prontidão as equipes para carga ou descarga das embarcações no porto. 

 Caiobá - Início

artigo de 

Karin Romanó Santos 




A casa era a segunda a partir do Morro do Boi, a grande elevaçãoque se avista no fim da faixa de areia ao chegar em Caiobá, defrente para a Praia Brava. O proprietário era o Sr Guilherme Nickel Filho.


A arquitetura da casa demonstra as origens distantes.
Naquela época, nem havia rua — apenas a restinga que ligava a areia à casa. Os veículos trafegavam pelaareia.

Veranear na praia era um costume entre algumas famíliasdescendentes de europeus, que moravam em Curitiba.

Inicialmente, construíram suas casas em Matinhos e, com otempo, foram gradativamente ocupando Caiobá.

Para se ter umaideia, até o final da década de 1930, havia cerca de vinte casas no local, um hotel, uma paisagem bucólica, praias intocadas e possibilidade de aventuras em trilhas nas matas.

As famílias iam sempre durante as férias de inverno, quandonão havia o perigo de infestação de mosquitos e de contrairmalária.

As pessoas nem pensavam em se bronzear; só queriam tomar banho de mar, até duas vezes por dia — pela manhã e nofinal da tarde.

A diversão era também terapêutica, receitada pelos médicos para diversas finalidades.

O ar marinho era rico em iodo, que ajudava na cura de feridas, tuberculose, reumatismo, etc. O esforço contra as ondas fortificava os músculos e a água salgada era revigorante e calmante.

Os trajes dos banhistas obedeciam ao pudor da época. O maiô das mulheres era de lã; quando molhava, ficava pesado e o fundilho ia até o joelho. Os homens vestiam uma peça única - semelhante a uma regata costurada a um calção - também de lã.

Quem olha essa fotografia não faz ideia das dificuldades queas pessoas enfrentavam para chegar ao mar, há cerca de oitenta anos.

O meio de transporte usado por muitos era o trem até Paranaguá; dali, partiam para Matinhos em pequenos ônibus abertos nos lados, conhecidos como jardineiras.

Havia pequenos barcos de passageiros e carga que conectavam Paranaguá com Matinhos e arredores.

Curiosamente, no final da década de 1930, aviões de pequenoporte já pousavam na praia, entre Matinhos e Caiobá.

Quandoalguém avistava a aeronave se aproximando no céu, era uma festa!Imagine, então, a emoção de vê-la aterrissar na areia!

Quem mais usava tal transporte era Winie Gomm, que, com seu avião particular, cortava os céus até a orla.

Houve até uma tentativa de estabelecer uma linha aérea regular entre Curitiba e Caiobá pela então recém-criada empresa Aero Lloyd Iguaçu.

Seus representantes pousaram várias vezes nas areias da praia para estudos e demonstrações, mas o projeto, por razões que o tempo apagou, não seguiu adiante.

Nesta época, o passado e o futuro convergiam: os barcos, otrem, a jardineira e os aviões pioneiros.

O progresso chegava pelas ondas, pela terra e pelo ar.

Hoje, fica a saudade dos tempos emque o silêncio era dono dessas praias.

Anos 1940 — Dr. Plinio Romanó (irmão do meu avô, de branco),a esposa (tia Leoni Nickel Romanó) e, embaixo da asa do avião, tio Tico (também irmão do vovô), a esposa Ilse e a filha Norma RomanóStrattner; Norma, hoje com mais de 90 anos, é a menina da foto
Agradecimento a Celia Del Claro que gentilmente cedeu a foto

A linda Praça Tiradentes de meados da década de 1930.

 A linda Praça Tiradentes de meados da década de 1930.


A Suntuosa Estação Ferroviária, novinha em sua nova versão, Carroças, Charretes, Quiosque e muita lama, onde hoje é a Praça Eufrásio Correia. Primeiros anos de 1900.

 A Suntuosa Estação Ferroviária, novinha em sua nova versão, Carroças, Charretes, Quiosque e muita lama, onde hoje é a Praça Eufrásio Correia. Primeiros anos de 1900.



Entre a Enxada e o Caderno: A Escola que Ensinou a Terra a Falar

 Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul

Denominação atual:

Endereço: Av. David Federmann, s/n

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 18 de dezembro de 1948

Estrutura: 

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: 

Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)

Entre a Enxada e o Caderno: A Escola que Ensinou a Terra a Falar

Avenida David Federmann, s/n — Piraí do Sul, Paraná
Nas encostas da Serra do Mar, onde o nevoeiro da madrugada envolve os cafezais como um véu sagrado e o canto do sabiá compete com o ranger das carroças de boi, ergueu-se em 1948 um sonho silencioso: a Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul. Não era apenas um prédio — era uma revolução disfarçada de escola. Enquanto o Brasil celebrava o fim da Segunda Guerra Mundial e mergulhava na euforia do desenvolvimentismo, nas montanhas paranaenses, entre poloneses, ucranianos e italianos que chegavam ao Brasil com as mãos calejadas e os olhos cheios de esperança, nascia um projeto ousado: ensinar que cultivar a terra não era destino, mas ciência; que o filho do colono não estava condenado à ignorância, mas podia ler os segredos do solo como lia as estrelas.

O Sonho Rural que Sacudiu o Brasil: Anísio Teixeira e a Educação do Campo

A história desta escola não começa na Avenida David Federmann. Começa em 1920, nas planícies secas da Bahia, quando um jovem educador chamado Anísio Teixeira observava, com o coração partido, a distância abissal entre a escola urbana — branca, laica, republicana — e a realidade do sertanejo, do vaqueiro, do agricultor de subsistência. Para ele, a educação não podia ser um luxo das cidades; tinha de ser ferramenta de emancipação para quem vivia da terra.
Nos anos 1930, Anísio transformou essa convicção em ação. Inspirado nas Écoles Normales Rurales francesas e nas experiências de formação agrícola norte-americanas, concebeu as Escolas de Trabalhadores Rurais — instituições que rompiam com o modelo tradicional de ensino. Ali, não se aprendia apenas português e aritmética; aprendia-se a ler a terra: a identificar o tipo de solo, a calcular a adubação, a prever o clima pelas nuvens, a melhorar o rebanho, a processar o leite, a conservar alimentos. A escola não ficava isolada da comunidade; integrava-se a ela como um organismo vivo. Os alunos não eram meros receptores de conhecimento — eram pesquisadores em campo, aplicando na horta experimental o que liam nos livros didáticos.
Quando, em 18 de dezembro de 1948, o projeto arquitetônico da Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul foi assinado, carregava nas linhas do desenho todo esse ideário revolucionário. Não era apenas um edifício — era um manifesto pedagógico em alvenaria.

Piraí do Sul: O Berço de uma Nação de Colonos

Para compreender o impacto desta escola, é preciso mergulhar na alma de Piraí do Sul nos anos 1940. A cidade, então distrito de Jaguariaíva, era um mosaico humano extraordinário: poloneses que chegaram nas décadas de 1890 e 1900 fugindo do recrutamento militar czarista; ucranianos que vieram após a Primeira Guerra Mundial buscando liberdade religiosa; italianos do Vêneto que trouxeram consigo a cultura da videira e do azeite; e brasileiros do Sul que migravam em busca de terras férteis.
Essas famílias colonizaram as encostas íngremes da Serra do Mar com uma coragem quase sobrenatural. Derrubaram a mata atlântica com machados de cabo curto, plantaram batata-doce em terra recém-queimada, construíram casas de madeira enxaimel com as próprias mãos. Mas havia uma ferida silenciosa: o analfabetismo. Os adultos mal sabiam assinar o nome; as crianças, quando iam à escola, aprendiam lições urbanas que pouco tinham a ver com suas vidas — poemas sobre bondes elétricos em cidades que jamais veriam, contas de comércio em moedas que não manejavam.
A terra era generosa, mas implacável. Uma geada fora de época destruía a safra de batata; uma praga arrasava o cafezal; uma enchente levava a ponte de madeira que ligava a propriedade à vila. Os colonos sabiam trabalhar — mas não sabiam prever, planejar, inovar. E foi aí que a Escola de Trabalhadores Rurais entrou como ponte entre o saber ancestral e a ciência moderna.

A Arquitetura que Abraçava a Comunidade: O Neocolonial como Linguagem de Pertencimento

O projeto de 18 de dezembro de 1948 revelou uma sensibilidade rara: compreender que uma escola rural não podia parecer um quartel ou um hospital — tinha de acolher. Por isso, adotou-se a linguagem neocolonial, já consagrada nos Grupos Escolares do Paraná, mas com adaptações profundamente significativas:
  • A tipologia em "U" não era mero capricho estético. O pátio central aberto para o céu tornava-se o coração pulsante da escola: ali se realizavam as aulas práticas de jardinagem, as demonstrações de ordenha, as feiras de produtos agrícolas feitos pelos alunos. As alas laterais abrigavam salas de aula e dormitórios para os estudantes que vinham de propriedades distantes — muitos passavam a semana na escola e voltavam para casa apenas nos fins de semana, levando na mala não apenas roupas, mas sementes melhoradas, folhetos técnicos, e o orgulho de serem os primeiros da família a frequentar uma escola de verdade.
  • Os arcos plenos e as paredes espessas lembravam as igrejas que os avós poloneses e ucranianos haviam deixado na Europa — uma ponte simbólica entre o velho mundo e o novo. Para uma criança que crescera ouvindo histórias do stary kraj (o velho país), aqueles arcos não eram estranhos; eram familiares. A escola não impunha uma identidade brasileira artificial; construía uma nova identidade híbrida, onde o polonês podia ser agricultor moderno sem deixar de ser polonês; onde o ucraniano podia usar adubo químico sem renegar as bênçãos da Páscoa ortodoxa.
  • O telhado de quatro águas com beirais generosos protegia não apenas do sol forte do verão, mas também das chuvas torrenciais da serra — e criava um espaço de sombra onde os alunos se reuniam para conversar, costurar redes, ou simplesmente observar o vôo dos gaviões sobre os cafezais.

O Cotidiano que Transformava Vidas: Entre a Sala de Aula e a Horta Experimental

Imagine a cena: segunda-feira de manhã, 1950. O ônibus escolar — na verdade, um caminhão adaptado com bancos de madeira — chega à escola trazendo crianças de rosto marcado pelo sol e mãos já calejadas pelo trabalho na roça. Algumas carregam na mochila de pano remendado não apenas cadernos, mas também batatas-doces para o lanche compartilhado.
Na primeira aula, o professor escreve no quadro: "O solo arenoso retém menos água que o solo argiloso". Mas não para aí. Às dez horas, todos caminham até a horta experimental nos fundos da escola. Ali, divididos em grupos, cavam canteiros, medem a umidade da terra com instrumentos rudimentares, plantam mudas de repolho e cenoura segundo técnicas aprendidas no livro didático Agricultura para Crianças, editado pelo Ministério da Educação.
À tarde, as meninas aprendem a fazer queijo caseiro na cozinha-escola, enquanto os meninos estudam noções básicas de marcenaria — consertando uma cadeira quebrada, construindo uma caixa para guardar sementes. Ninguém é tratado como "futuro camponês"; todos são futuros técnicos agrícolas, donos do próprio destino.
Nos fins de semana, os alunos levam para casa o que aprenderam: uma nova técnica de plantio em curvas de nível para evitar erosão; uma receita de compota de pêssego que aumenta o valor do produto; o conhecimento de que certas plantas — como a crotalária — melhoram o solo quando plantadas entre as safras. E, silenciosamente, a escola começa a transformar não apenas crianças, mas famílias inteiras.

O Legado Silencioso: Sementes que Germinaram por Gerações

A Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul nunca teve holofotes como as escolas urbanas de elite. Nunca formou presidentes ou celebridades. Mas formou homens e mulheres que transformaram a agricultura paranaense:
— O filho do colono polonês que, após estudar ali, introduziu a rotação de culturas em sua propriedade e dobrou a produção de batata; — A jovem ucraniana que aprendeu técnicas de conservação de alimentos e, décadas depois, fundou uma pequena agroindústria familiar que exporta geleias artesanais; — O neto do tropeiro que, graças aos conhecimentos de contabilidade rural adquiridos na escola, conseguiu negociar diretamente com compradores de Curitiba, eliminando atravessadores que exploravam os produtores.
Essas histórias não estão nos livros de história oficial. Estão nas propriedades bem cuidadas ao longo da Estrada do Colono; nos pomares ordenados geometricamente; nas famílias que, mesmo após três gerações, mantêm o hábito de ler o Jornal do Agricultor; na memória oral dos anciãos que, ao passarem diante do prédio na Avenida David Federmann, ainda apontam com orgulho: "Ali estudei. Foi lá que aprendi a ler a terra."

Epílogo: A Escola que Nunca Fechou as Portas

Hoje, a edificação na Avenida David Federmann existe — com alterações, com marcas do tempo, com paredes que já viram décadas de chuva e sol. Talvez seu uso atual seja diferente; talvez suas salas abriguem outras atividades. Mas seu espírito permanece vivo:
— Nas cooperativas agrícolas de Piraí do Sul, onde descendentes daqueles primeiros alunos decidem coletivamente sobre preços e comercialização; — Nos jovens que, mesmo tendo acesso à internet e aos aplicativos de celular, ainda consultam os velhos manuais de agricultura guardados nos armários das casas dos avós; — Na persistência de uma comunidade que, apesar das dificuldades, nunca abandonou a terra — não por falta de opção, mas por escolha consciente, embasada no conhecimento de que cultivar é arte e ciência.
A Escola de Trabalhadores Rurais de Piraí do Sul foi muito mais que um projeto arquitetônico assinado em 18 de dezembro de 1948. Foi um ato de justiça. Justa para com os colonos que construíram o Paraná com as próprias mãos; justa para com as crianças que mereciam sonhar além da enxada; justa para com a terra, que merecia ser cultivada com sabedoria, não apenas com força.
Ela ensinou uma lição que o Brasil ainda precisa aprender: que não há hierarquia entre o saber da cidade e o saber do campo; que o menino que aprende a calcular a adubação é tão cientista quanto o que resolve equações no quadro-negro; que a dignidade do trabalho rural não está na romantização da pobreza, mas na capacitação que transforma o agricultor em protagonista do seu próprio destino.
Na quietude das tardes serranas, quando o vento sopra das encostas e faz ranger as folhas dos cafezais, quem passa diante daquele prédio neocolonial pode não ouvir o sino da escola — mas pode sentir, no ar úmido da serra, o eco silencioso de vozes infantis repetindo em coro: "A terra é nossa mãe. Cuidemos dela com ciência e com amor."
E nesse eco, persiste a verdadeira herança da Escola de Trabalhadores Rurais: não tijolos, nem arcos, nem telhados — mas a certeza inabalável de que quem sabe ler a terra nunca será escravo dela.

Entre Arcos e Sonhos: A História do Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa e o Alvorecer da Educação em Piraí do Sul

 Denominação inicial: Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa

Denominação atual: Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa

Endereço: Avenida 5 de Março, 170 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: 

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1946

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa - s/d

Acervo: Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa

Entre Arcos e Sonhos: A História do Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa e o Alvorecer da Educação em Piraí do Sul

Avenida 5 de Março, 170 — Centro, Piraí do Sul, Paraná
Na manhã de 23 de abril de 1946, sob um céu de nuvens rasgadas pelo vento serrano, as portas de madeira de lei do novo edifício escolar abriram-se pela primeira vez na Avenida 5 de Março. Crianças descalças de pés marcados pela terra vermelha das estradas de chão cruzaram o umbral com olhos arregalados de espanto: pela primeira vez, viam paredes rebocadas com simetria, arcos que lembravam as igrejas dos avós poloneses, e um pátio amplo em forma de "U" que parecia abraçá-las como mãos protetoras. Nascia ali, oficialmente, o Grupo Escolar Professor Leandro Manoel da Costa — não apenas um prédio, mas um monumento à esperança erguido nas montanhas do Paraná recém-saído da Segunda Guerra Mundial.

O Homem por Trás do Nome: Leandro Manoel da Costa, o Educador Esquecido

Poucos registros sobreviveram sobre o homem cujo nome ecoa há quase oito décadas nos corredores da escola. Leandro Manoel da Costa não foi governador, não foi deputado, não deixou livros assinados com seu nome. Foi, antes de tudo, um professor — daqueles que marcaram gerações não com discursos grandiloquentes, mas com o giz branco nas mãos, com a paciência infinita diante da primeira letra rabiscada por uma criança filha de imigrantes que mal falava português, com o cuidado de quem entendia que alfabetizar era libertar.
Na tradição oral de Piraí do Sul, sobrevive a memória de um mestre que caminhava quilômetros pelas estradas de terra para lecionar em salas isoladas antes mesmo da existência dos Grupos Escolares. Um homem que, nos anos 1920 e 1930, enfrentou o analfabetismo endêmico da região com a única arma que possuía: a convicção de que toda criança, independentemente de ser filha de tropeiro, de colono polonês ou de posseiro brasileiro, tinha direito a ler o mundo. Quando, em 1946, a escola recebeu seu nome, não foi uma homenagem protocolar — foi um ato de justiça histórica. Leandro Manoel da Costa já havia partido, mas seu legado permanecia vivo nas centenas de ex-alunos que, graças a ele, assinavam seus nomes com orgulho nos documentos oficiais.

O Paraná que Renascia: Educação como Projeto de Nação no Pós-Guerra

O ano de 1945 marcou um divisor de águas para o Brasil e, especialmente, para o Paraná. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a deposição de Getúlio Vargas, o país mergulhou em um efervescente debate sobre modernização, cidadania e desenvolvimento. No Paraná, governadores como Moisés Lupion compreenderam que a educação seria o alicerce do progresso — não apenas para formar mão de obra qualificada para a agricultura moderna e a incipiente industrialização, mas para integrar uma população profundamente fragmentada.
Piraí do Sul, naquela época, era um microcosmo dessa diversidade: descendentes de tropeiros luso-brasileiros conviviam com comunidades polonesas e ucranianas que mantinham suas línguas, costumes e até calendários religiosos distintos. Muitas crianças chegavam à escola sem falar português; muitos pais jamais haviam pisado em uma sala de aula. Os Grupos Escolares surgiram como máquinas de nacionalização e emancipação simultâneas — lugares onde se aprendia não apenas a tabuada e a gramática, mas também o significado de ser cidadão brasileiro, com direitos e deveres.
Foi nesse contexto que, entre 1945 e 1951, o Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa foi concebido e erguido — parte de um ambicioso plano estadual de expansão da rede escolar que transformaria o Paraná em referência educacional nacional nas décadas seguintes.

A Arquitetura Neocolonial: Quando o Passado se Tornou Futuro

Enquanto o mundo celebrava o modernismo internacional com arranha-céus de vidro e aço, o Paraná escolheu um caminho paradoxal: olhar para trás para construir o futuro. A linguagem neocolonial, adotada maciçamente nas escolas públicas estaduais entre as décadas de 1930 e 1950, não foi um exercício nostálgico ou conservador. Foi, na verdade, uma estratégia profundamente inteligente de criar identidade em um estado de imigrantes.
O projeto do Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa — embora sem autoria individual documentada, típico das construções da Diretoria de Obras Públicas estadual — incorporou elementos que falavam diretamente à alma da população local:
  • Arcos plenos que remetiam às igrejas barrocas que os avós poloneses e ucranianos haviam deixado na Europa;
  • Telhados de quatro águas com beirais generosos, adaptados ao clima chuvoso da Serra do Mar;
  • Paredes espessas de alvenaria, capazes de resistir aos invernos rigorosos da região;
  • A tipologia em "U", característica marcante da arquitetura escolar paranaense, que criava um pátio central protegido — espaço sagrado para o recreio, as cerimônias cívicas e os jogos infantis.
Essa linguagem arquitetônica não apenas proporcionava conforto térmico e funcionalidade pedagógica. Acima de tudo, acolhia. Para uma criança filha de imigrantes que via pela primeira vez um edifício público projetado com dignidade, aqueles arcos não eram apenas elementos estéticos — eram portais de pertencimento. Naquele espaço, o estrangeiro se tornava brasileiro sem perder suas raízes; o analfabeto se transformava em leitor sem renegar sua origem camponesa.

O Cotidiano Escolar: Entre o Hino Nacional e o Cheiro de Pão Caseiro

Imagine a cena: segunda-feira, 1947. O sino de metal ressoa às sete horas da manhã. Meninos de calça curta remendada e meninas de vestidos estampados com flores desbotadas formam fila diante da porta principal. Dentro, a professora — formada na Escola Normal de Curitiba — escreve no quadro-negro com giz branco: "O rato roeu a roupa do rei de Roma". As crianças repetem em coro, mas alguns sussurram em polonês ou ucraniano, traduzindo mentalmente para os colegas recém-chegados.
No recreio, o pátio em "U" transforma-se em microcosmo do Brasil que se formava: pula-corda ao lado de danças folclóricas eslavas adaptadas; amarelinha desenhada com carvão ao lado de jogos trazidos das aldeias do Leste Europeu. Na cantina improvisada, pão com manteiga caseira e, nos dias de sorte, um gole de leite fresco trazido da fazenda do senhor Kowalski ou do senhor Wasyl.
À noite, após o pôr do sol, as salas se transformavam em cursos noturnos para adultos — pais e mães que, após um dia inteiro na lavoura de batata ou na extração de erva-mate, vinham aprender a assinar o próprio nome, a fazer contas simples, a ler uma carta do velho país. Muitos choravam ao escrever pela primeira vez "Maria" ou "Jan" em um pedaço de papel. Para eles, aquela escola não era um prédio: era a porta de entrada para a cidadania plena.

A Herança Viva: Do Grupo Escolar ao Colégio Cívico-Militar

Ao longo das décadas, o edifício na Avenida 5 de Março testemunhou transformações profundas. Viu a ditadura militar impor o nacionalismo exacerbado nos anos 1970; viu a Constituição de 1988 consagrar a educação como direito universal; viu a modernização chegar com computadores substituindo os cadernos pautados. Algumas paredes foram rebocadas novamente, janelas trocadas, telhados reparados após temporais de verão — a edificação existente hoje carrega alterações que marcam o tempo, mas preserva a alma original.
Em 2021, a escola recebeu nova denominação: Colégio Estadual Cívico-Militar Professor Leandro Manoel da Costa — transformação que gerou debates, mas que não apagou sua essência. Hoje, seus alunos levam o nome de Piraí do Sul aos palcos do litoral paranaense com apresentações de coral que emocionam plateias inteiras; participam de olimpíadas de matemática e ciências; constroem robôs em laboratórios de informática. Mas, ao cruzarem o portão principal, ainda passam sob os mesmos arcos neocoloniais que abrigaram seus avós e bisavós — e, nesse gesto repetido diariamente, perpetuam um pacto silencioso com a história.

Epílogo: O Professor que Nunca Partiu

Leandro Manoel da Costa, o homem, talvez tenha morrido esquecido pelos livros de história oficial. Mas Leandro Manoel da Costa, o educador, nunca partiu. Ele está vivo:
— Nas mãos calejadas do agricultor que, aos 70 anos, ainda guarda o diploma de conclusão do primário assinado naquela escola; — Na voz da professora atual que repete, sem saber, as mesmas palavras de incentivo que ele um dia disse a uma criança tímida; — No orgulho do jovem que, formado naquelas salas, hoje cursa medicina em Curitiba e volta aos fins de semana para visitar a mãe na roça; — Nos arcos de alvenaria que, sob o sol da serra, continuam abraçando gerações como braços paternos.
O Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa nunca foi apenas um edifício. Foi — e continua sendo — um ato de fé. A fé de que, mesmo nas montanhas mais remotas do Paraná, mesmo para filhos de imigrantes pobres que chegavam sem nada além da roupa do corpo, o conhecimento seria um direito inalienável. Cada tijolo assentado em 1946 carregava a promessa de que aquela criança, ao aprender a ler, estaria também aprendendo a sonhar.
E nisso reside sua verdadeira grandiosidade: não na arquitetura neocolonial nem na tipologia em "U", mas na teimosia republicana de acreditar que uma nação se constrói não com canhões, mas com cadernos; não com fronteiras, mas com alfabetos; não com exércitos, mas com professores que, todos os dias, abrem as portas de uma escola e dizem ao mundo: "Entrem. Aqui todos são iguais diante da letra."
Na quietude das tardes de Piraí do Sul, quando o sol poente doura os arcos do velho grupo escolar, é possível sentir: aquelas paredes ainda ensinam. Não com palavras, mas com presença. Com a memória viva de quem soube, um dia, transformar o sonho da educação em pedra, cal e esperança — e deixar que o tempo, generoso, fizesse o resto.