Denominação inicial: Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa
Denominação atual: Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa
Endereço: Avenida 5 de Março, 170 - Centro
Cidade: Piraí do Sul
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor:
Data:
Estrutura:
Tipologia: U
Linguagem: Neocolonial
Data de inauguracao: 1946
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa - s/d
Acervo: Escola Estadual Professor Leandro Manoel da Costa
Entre Arcos e Sonhos: A História do Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa e o Alvorecer da Educação em Piraí do Sul
Avenida 5 de Março, 170 — Centro, Piraí do Sul, Paraná
Na manhã de 23 de abril de 1946, sob um céu de nuvens rasgadas pelo vento serrano, as portas de madeira de lei do novo edifício escolar abriram-se pela primeira vez na Avenida 5 de Março. Crianças descalças de pés marcados pela terra vermelha das estradas de chão cruzaram o umbral com olhos arregalados de espanto: pela primeira vez, viam paredes rebocadas com simetria, arcos que lembravam as igrejas dos avós poloneses, e um pátio amplo em forma de "U" que parecia abraçá-las como mãos protetoras. Nascia ali, oficialmente, o Grupo Escolar Professor Leandro Manoel da Costa — não apenas um prédio, mas um monumento à esperança erguido nas montanhas do Paraná recém-saído da Segunda Guerra Mundial.
O Homem por Trás do Nome: Leandro Manoel da Costa, o Educador Esquecido
Poucos registros sobreviveram sobre o homem cujo nome ecoa há quase oito décadas nos corredores da escola. Leandro Manoel da Costa não foi governador, não foi deputado, não deixou livros assinados com seu nome. Foi, antes de tudo, um professor — daqueles que marcaram gerações não com discursos grandiloquentes, mas com o giz branco nas mãos, com a paciência infinita diante da primeira letra rabiscada por uma criança filha de imigrantes que mal falava português, com o cuidado de quem entendia que alfabetizar era libertar.
Na tradição oral de Piraí do Sul, sobrevive a memória de um mestre que caminhava quilômetros pelas estradas de terra para lecionar em salas isoladas antes mesmo da existência dos Grupos Escolares. Um homem que, nos anos 1920 e 1930, enfrentou o analfabetismo endêmico da região com a única arma que possuía: a convicção de que toda criança, independentemente de ser filha de tropeiro, de colono polonês ou de posseiro brasileiro, tinha direito a ler o mundo. Quando, em 1946, a escola recebeu seu nome, não foi uma homenagem protocolar — foi um ato de justiça histórica. Leandro Manoel da Costa já havia partido, mas seu legado permanecia vivo nas centenas de ex-alunos que, graças a ele, assinavam seus nomes com orgulho nos documentos oficiais.
O Paraná que Renascia: Educação como Projeto de Nação no Pós-Guerra
O ano de 1945 marcou um divisor de águas para o Brasil e, especialmente, para o Paraná. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a deposição de Getúlio Vargas, o país mergulhou em um efervescente debate sobre modernização, cidadania e desenvolvimento. No Paraná, governadores como Moisés Lupion compreenderam que a educação seria o alicerce do progresso — não apenas para formar mão de obra qualificada para a agricultura moderna e a incipiente industrialização, mas para integrar uma população profundamente fragmentada.
Piraí do Sul, naquela época, era um microcosmo dessa diversidade: descendentes de tropeiros luso-brasileiros conviviam com comunidades polonesas e ucranianas que mantinham suas línguas, costumes e até calendários religiosos distintos. Muitas crianças chegavam à escola sem falar português; muitos pais jamais haviam pisado em uma sala de aula. Os Grupos Escolares surgiram como máquinas de nacionalização e emancipação simultâneas — lugares onde se aprendia não apenas a tabuada e a gramática, mas também o significado de ser cidadão brasileiro, com direitos e deveres.
Foi nesse contexto que, entre 1945 e 1951, o Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa foi concebido e erguido — parte de um ambicioso plano estadual de expansão da rede escolar que transformaria o Paraná em referência educacional nacional nas décadas seguintes.
A Arquitetura Neocolonial: Quando o Passado se Tornou Futuro
Enquanto o mundo celebrava o modernismo internacional com arranha-céus de vidro e aço, o Paraná escolheu um caminho paradoxal: olhar para trás para construir o futuro. A linguagem neocolonial, adotada maciçamente nas escolas públicas estaduais entre as décadas de 1930 e 1950, não foi um exercício nostálgico ou conservador. Foi, na verdade, uma estratégia profundamente inteligente de criar identidade em um estado de imigrantes.
O projeto do Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa — embora sem autoria individual documentada, típico das construções da Diretoria de Obras Públicas estadual — incorporou elementos que falavam diretamente à alma da população local:
- Arcos plenos que remetiam às igrejas barrocas que os avós poloneses e ucranianos haviam deixado na Europa;
- Telhados de quatro águas com beirais generosos, adaptados ao clima chuvoso da Serra do Mar;
- Paredes espessas de alvenaria, capazes de resistir aos invernos rigorosos da região;
- A tipologia em "U", característica marcante da arquitetura escolar paranaense, que criava um pátio central protegido — espaço sagrado para o recreio, as cerimônias cívicas e os jogos infantis.
Essa linguagem arquitetônica não apenas proporcionava conforto térmico e funcionalidade pedagógica. Acima de tudo, acolhia. Para uma criança filha de imigrantes que via pela primeira vez um edifício público projetado com dignidade, aqueles arcos não eram apenas elementos estéticos — eram portais de pertencimento. Naquele espaço, o estrangeiro se tornava brasileiro sem perder suas raízes; o analfabeto se transformava em leitor sem renegar sua origem camponesa.
O Cotidiano Escolar: Entre o Hino Nacional e o Cheiro de Pão Caseiro
Imagine a cena: segunda-feira, 1947. O sino de metal ressoa às sete horas da manhã. Meninos de calça curta remendada e meninas de vestidos estampados com flores desbotadas formam fila diante da porta principal. Dentro, a professora — formada na Escola Normal de Curitiba — escreve no quadro-negro com giz branco: "O rato roeu a roupa do rei de Roma". As crianças repetem em coro, mas alguns sussurram em polonês ou ucraniano, traduzindo mentalmente para os colegas recém-chegados.
No recreio, o pátio em "U" transforma-se em microcosmo do Brasil que se formava: pula-corda ao lado de danças folclóricas eslavas adaptadas; amarelinha desenhada com carvão ao lado de jogos trazidos das aldeias do Leste Europeu. Na cantina improvisada, pão com manteiga caseira e, nos dias de sorte, um gole de leite fresco trazido da fazenda do senhor Kowalski ou do senhor Wasyl.
À noite, após o pôr do sol, as salas se transformavam em cursos noturnos para adultos — pais e mães que, após um dia inteiro na lavoura de batata ou na extração de erva-mate, vinham aprender a assinar o próprio nome, a fazer contas simples, a ler uma carta do velho país. Muitos choravam ao escrever pela primeira vez "Maria" ou "Jan" em um pedaço de papel. Para eles, aquela escola não era um prédio: era a porta de entrada para a cidadania plena.
A Herança Viva: Do Grupo Escolar ao Colégio Cívico-Militar
Ao longo das décadas, o edifício na Avenida 5 de Março testemunhou transformações profundas. Viu a ditadura militar impor o nacionalismo exacerbado nos anos 1970; viu a Constituição de 1988 consagrar a educação como direito universal; viu a modernização chegar com computadores substituindo os cadernos pautados. Algumas paredes foram rebocadas novamente, janelas trocadas, telhados reparados após temporais de verão — a edificação existente hoje carrega alterações que marcam o tempo, mas preserva a alma original.
Em 2021, a escola recebeu nova denominação: Colégio Estadual Cívico-Militar Professor Leandro Manoel da Costa — transformação que gerou debates, mas que não apagou sua essência. Hoje, seus alunos levam o nome de Piraí do Sul aos palcos do litoral paranaense com apresentações de coral que emocionam plateias inteiras; participam de olimpíadas de matemática e ciências; constroem robôs em laboratórios de informática. Mas, ao cruzarem o portão principal, ainda passam sob os mesmos arcos neocoloniais que abrigaram seus avós e bisavós — e, nesse gesto repetido diariamente, perpetuam um pacto silencioso com a história.
Epílogo: O Professor que Nunca Partiu
Leandro Manoel da Costa, o homem, talvez tenha morrido esquecido pelos livros de história oficial. Mas Leandro Manoel da Costa, o educador, nunca partiu. Ele está vivo:
— Nas mãos calejadas do agricultor que, aos 70 anos, ainda guarda o diploma de conclusão do primário assinado naquela escola;
— Na voz da professora atual que repete, sem saber, as mesmas palavras de incentivo que ele um dia disse a uma criança tímida;
— No orgulho do jovem que, formado naquelas salas, hoje cursa medicina em Curitiba e volta aos fins de semana para visitar a mãe na roça;
— Nos arcos de alvenaria que, sob o sol da serra, continuam abraçando gerações como braços paternos.
O Grupo Escolar Leandro Manoel da Costa nunca foi apenas um edifício. Foi — e continua sendo — um ato de fé. A fé de que, mesmo nas montanhas mais remotas do Paraná, mesmo para filhos de imigrantes pobres que chegavam sem nada além da roupa do corpo, o conhecimento seria um direito inalienável. Cada tijolo assentado em 1946 carregava a promessa de que aquela criança, ao aprender a ler, estaria também aprendendo a sonhar.
E nisso reside sua verdadeira grandiosidade: não na arquitetura neocolonial nem na tipologia em "U", mas na teimosia republicana de acreditar que uma nação se constrói não com canhões, mas com cadernos; não com fronteiras, mas com alfabetos; não com exércitos, mas com professores que, todos os dias, abrem as portas de uma escola e dizem ao mundo: "Entrem. Aqui todos são iguais diante da letra."
Na quietude das tardes de Piraí do Sul, quando o sol poente doura os arcos do velho grupo escolar, é possível sentir: aquelas paredes ainda ensinam. Não com palavras, mas com presença. Com a memória viva de quem soube, um dia, transformar o sonho da educação em pedra, cal e esperança — e deixar que o tempo, generoso, fizesse o resto.

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