sábado, 19 de setembro de 2026

Forte da Praia Vermelha: História, Defesa e Legado na Urca — Rio de Janeiro

 


Forte da praia Vermelha
Praia Vermelha, Rio de Janeiro: nas extremidades ainda podem ser observados os antigos baluartes com as respectivas guaritas.
ConstruçãoPedro II de Portugal (1701)
EstiloAbaluartado
ConservaçãoDesaparecida
Aberto ao públicoNão

O Forte da praia Vermelha localizava-se na praia Vermelha, onde hoje se situa a Praça General Tibúrcio, no bairro da Urca, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil.

História

Escola Militar no Rio de Janeiro (Fotografia de Eduardo Bezerra, 1888.)
Forte da Praia Vermelha, Rio de Janeiro: antigo baluarte com guarita no vértice.

Foi erguido para a defesa da praia Vermelha anteriormente a 1701,[1] e dele existe risco de autoria do Engenheiro Gregório Gomes.[2] A sua posição era estratégica, uma vez que por esse trecho se podia acessar a cidade, contornando as defesas da barra. Em agosto de 1710 repeliu uma coluna de assalto do corsário francês Jean-François Duclerc (1671-1711) provinda da antiga Estrada do Desterro (atual bairro de Santa Teresa).[3] Estava artilhado, à época da invasão de René Duguay-Trouin em 1711, com doze peças.[4] Uma fonte francesa coeva, entretanto, indica quinze peças.[5]

Está representado em planta de 1730.[6]

Foi reconstruído no governo do Vice-rei D. Antônio Álvares da Cunha (1763-1767), constituindo-se num baluarte em alvenaria de pedra e cal, voltado para o mar, com dois meio bastiões levantado entre o morro do Urubu/Babilônia e o morro do Telégrafo (atual Morro da Urca). Foi ampliado no do Vice-rei D. Luís de Almeida Portugal (1769-1779), recebendo um muro simples com uma falsa braga no portão de entrada, que fechava o seu contorno pelo interior,[4] onde foi também erguido edifício para Quartel da Tropa[3] Encontra-se relacionado no "Mapa das Fortificações da cidade do Rio de Janeiro e suas vizinhanças", que integra as "Memórias Públicas e Econômicas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para uso do Vice-Rei Luiz de Vasconcellos, por observações curiosas dos anos de 1779 até o de 1789".[7]

À época do Período Regencial, o Decreto de 24 de Dezembro de 1831 determinou a redução do seu armamento. Em 1838 a sua guarnição estava sob o comando do Coronel José Leite Pacheco.[8] SOUZA (1885) relata que por muitos anos aquartelou o Depósito de Recrutas.

Em 1857, passou a abrigar a Escola Militar, quando foi significativamente melhorado o seu quartel. À época (1885) estava artilhado com vinte e quatro peças.[9] Nessa Escola lecionou Benjamim Constant, difundindo os ideais republicanos entre a jovem oficialidade, o que conduziu à proclamação da República brasileira a 15 de Novembro de 1889.[10]

No século XX, após a revolta da Escola Militar (no contexto da Revolta da Vacina, em 1904), a instituição foi transferida para o bairro do Realengo, sendo o prédio da Praia Vermelha utilizado como "Pavilhão das Indústrias" na Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil.

Entre 1910 e 1920, o mesmo edifício abrigou a Escola de Estado-Maior e posteriormente, entre 1921 e 1935, o 3º Regimento de Infantaria. Esse Regimento foi personagem da Intentona Comunista (Levante de 27 de Novembro de 1935), quando o capitão Agildo Barata e trinta membros da Aliança Nacional Libertadora sublevaram a guarnição (1.600 praças, 100 oficiais), prendendo os legalistas no Cassino dos Oficiais. Bombardeado por terra, mar e ar, o Quartel da Praia Vermelha foi severamente atingido, forçando a rendição dos amotinados. Após esse episódio, o quartel foi demolido.

Nos dias atuais, sua área e entorno estão ocupados pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, pelo Instituto Militar de Engenharia e pelo Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados.[11]

Na década de 1980, o Exército Brasileiro abriu ao público a pista Cláudio Coutinho, para caminhadas ecológicas. Da antiga fortificação, atualmente restam apenas os baluartes nas extremidades da praia, com guaritas sobre os respectivos piões, nos vértices, recobertas por cúpulas, vigiando o mar.

Ver também

Referências

  1. Monsenhor Pizarro. "Memórias Históricas", Vol. V, p. 5. apud SOUZA, 1885:109.
  2. "Delineação da planta para a fortificação da praia Vermelha", c. 1698. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa. apud IRIA, 1966:72.
  3. SOUZA, 1885:110.
  4. BARRETTO, 1958:237.
  5. "7. Le fort de la Pré Vermeille: 15 canons." OZANNE, Nicolas Marie. "Plan de la baye et de la ville de Rio de Janeiro", c. 1745. Gravação: Dronet. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.
  6. "Planta da Fortaleza ou Bateria da praia Vermelha na costa do sul da barra do Rio de Janeiro"", 1730. AHU, Lisboa. apud IRIA, 1966:74.
  7. RIHGB, Tomo XLVII, partes I e II, 1884. p. 34.
  8. GARRIDO, 1940:121
  9. Op. cit., p. 110.
  10. GARRIDO, 1940:121.
  11. BARRETTO, 1958:238.

Bibliografia

  • BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
  • GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
  • SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

Forte da Praia Vermelha: História, Defesa e Legado na Urca — Rio de Janeiro

O Forte da Praia Vermelha, antiga e estratégica fortificação situada na Praia Vermelha, no bairro da Urca, na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, ergueu-se em posição dominante sobre a entrada da baía de Guanabara. Ocupava o terreno onde hoje se encontra a Praça General Tibúrcio, sendo por mais de três séculos peça-chave na defesa da cidade, berço da formação de oficiais e palco de acontecimentos que marcaram a história nacional.

Origens e construção: fortificação anterior a 1701

O Forte da Praia Vermelha foi erguido para a defesa daquele trecho da costa antes de 1701, sendo atribuída sua autoria, com fortes indícios, ao engenheiro militar Gregório Gomes. Sua localização era de importância inigualável: por aquela praia era possível acessar o interior da cidade contornando as defesas da barra, tornando o forte um baluarte indispensável à segurança do Rio de Janeiro.
A estrutura original defendia a passagem entre o Morro da Babilônia/Morro do Urubu e o Morro da Urca (antigo Morro do Telégrafo), fechando o caminho que subia em direção ao centro da cidade.

Século XVIII: guerras, reconstruções e reforços

Ataque de Duclerc — 1710

Em agosto de 1710, o forte repeliu com sucesso uma coluna de assalto do corsário francês Jean-François Duclerc, que avançava pela antiga Estrada do Desterro, atual bairro de Santa Teresa. A posição resistiu e impediu que as forças inimigas penetrassem pela retaguarda das defesas da cidade.

Invasão de Duguay-Trouin — 1711

No ano seguinte, durante a invasão do também francês René Duguay-Trouin, o forte estava armado com doze peças de artilharia — fontes francesas coevas registram quinze — e manteve-se em prontidão, integrando o sistema de defesa que dificultou a ocupação inimiga.

Reconstrução sob o Vice-Reinado

O forte foi reconstruído entre 1763 e 1767, no governo do vice-rei D. Antônio Álvares da Cunha, assumindo feição sólida em alvenaria de pedra e cal, com planta de baluarte voltada para o mar e dois meios-bastiões entre os morros da Urca e da Babilônia.
Ampliado posteriormente pelo vice-rei D. Luís de Almeida Portugal (1769–1779), recebeu muro de fechamento pelo lado terrestre, portão com falsa braga e quartel de tropa. Aparece cartografado no famoso levantamento de 1779–1789 das fortificações e bairros do Rio de Janeiro, sendo considerado peça essencial no anel defensivo da cidade.

Século XIX: decaimento militar e nascimento da Escola Militar

Período Regencial e redução de armamento

Pelo decreto de 24 de dezembro de 1831, no Período Regencial, houve redução do armamento e da guarnição do forte. Em 1838, sua defesa estava sob o comando do coronel José Leite Pacheco. Por décadas, serviu também como depósito de recrutas, cumprindo função de quartel em vez de fortaleza operacional.

Escola Militar da Praia Vermelha — 1857

O ano de 1857 marcou transformação profunda: o forte foi adaptado e passou a sediar a Escola Militar da Praia Vermelha, instituição que formou a oficialidade do Exército Brasileiro por quase meio século. O quartel foi ampliado e modernizado; em 1885, a bateria contava com 24 peças de artilharia.
Nesse ambiente lecionou o filósofo e pensador Benjamim Constant, cuja difusão dos ideais republicanos e positivistas entre os cadetes preparou o terreno para a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. A Escola Militar da Praia Vermelha tornou-se, assim, berço da República no Brasil.

Século XX: Revolta da Vacina, transferência e fim do forte

Revolta da Vacina — 1904

Em 1904, no contexto da Revolta da Vacina, os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha rebelaram-se contra o governo. A instituição foi então transferida para o bairro do Realengo, dando origem à Escola Militar do Realengo e, posteriormente, à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende. O prédio da Urca foi temporariamente adaptado como Pavilhão das Indústrias durante a Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil.

Entre guerras: Escola de Comando e Estado-Maior e 3º Regimento de Infantaria

Entre 1910 e 1920, o antigo forte abrigou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). De 1921 a 1935, sediou o 3º Regimento de Infantaria, unidade que se tornou protagonista de um dos episódios mais tensos da história republicana.

Intentona Comunista — 27 de novembro de 1935

Na Intentona Comunista de 1935, o capitão Agildo Barata e membros da Aliança Nacional Libertadora sublevaram a guarnição do 3º Regimento de Infantaria — cerca de 1.600 praças e 100 oficiais — tomando o quartel e detendo oficiais legalistas no Cassino dos Oficiais. A rebelião foi esmagada com bombardeio por terra, mar e ar, que danificou severamente as instalações. Após a rendição dos amotinados, o prédio foi considerado comprometido e demolido.

Legado e vestígios na atualidade

A área onde se erguia o Forte da Praia Vermelha foi reconfigurada e hoje abriga:
  • Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME)
  • Instituto Militar de Engenharia (IME)
  • Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados
  • Praça General Tibúrcio, marco de acesso à Urca
Na década de 1980, o Exército Brasileiro abriu ao público a Pista Cláudio Coutinho, trilha ecológica que percorre a orla adjacente, permitindo caminhadas com vista para a Praia Vermelha e a Baía de Guanabara.
Do antigo forte restam apenas dois baluartes nas extremidades da praia, com guaritas recobertas por cúpulas, que vigiam o mar como testemunhas silenciosas de mais de três séculos de defesa, formação militar e transformação do Rio de Janeiro.

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