O êxodo de 1940 em França foi uma fuga em massa de populações belgas, neerlandesas, luxemburguesas e francesas entre maio e junho de 1940, quando o exército alemão invadiu a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo e a maior parte do território francês durante a Batalha da França, após a batalha de Sedan. Este êxodo foi um dos maiores movimentos populacionais do século XX na Europa.[1][2]
Antecedentes
Um êxodo das populações belgas e das regiões do norte da França, fugindo do avanço do exército alemão, já se tinha verificado em Agosto de 1914. No entanto, esse deslocamento de várias centenas de milhares de pessoas só afetou uma minoria da população, ao contrário do deslocamento de 1940 que esvaziou a maioria das cidades do norte. Esta fuga foi muito precipitada, em condições comparáveis às do êxodo de 1940, com filas de civis indefesos nas estradas, a pé, com carroças atreladas ou empurradas à mão, à mistura com militares. A extensão do êxodo de 1940 deve-se, em grande parte, à memória dolorosa da ocupação das regiões invadidas pela Alemanha em 1914 a 1918. [3]
Outro factor foi o conhecimento da população do que acontecera durante a Guerra Civil Espanhola, com os bombardeamentos de Barcelona e Guernica, e já na II Guerra Mundial, os bombardeamentos da aviação alemã sobre a Polónia invadida.[4][5] Èric Alary comenta que "após a guerra civil de Espanha, o estatuto de "civil" já não protege contra as consequências directas dos combates".[6]
Pânico
Oito a dez milhões de civis, misturados com as colunas dos soldados em retirada, fugiram de maneira maciça, às vezes sem rumo; são quase um quarto da população francesa do país ao tempo.[7]
Sob o efeito do terror provocado pelo avanço das tropas alemãs, a fuga foi um fenómeno de massas que afetou grande parte da população do norte da França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.[8] Os habitantes das cidades refugiaram-se temporariamente em casa de familiares ou de conhecidos nas aldeias vizinhas, outros fugiram para as regiões do sul. As grandes cidades esvaziaram-se da sua população: Lille tem cerca de 20 000 habitantes dos 200 000 anteriores, Tourcoing 7 000 de 82 000.[9] Os refugiados invadiram cidades abandonadas pelos seus habitantes, privadas de serviços públicos, sem água, nem electricidade, sem médicos nem empresas. 40.000 belgas acotovelaram-se em Tourcoing.[10][11]
A fuga

Em poucas semanas, oito a dez milhões de pessoas fugiram da Bélgica, das regiões do Norte e depois da Ilha de França e das regiões centrais para o Sul de França, levando consigo magras bagagens.[7] Isso ocorreu assim que a Bélgica foi invadida pelos Alemães em Maio de 1940, mas foi precedida pela evacuação de civis do leste da França no Outono de 1939. Da Bélgica, depois do Norte ou do Pas-de-Calais, muitos civis fugiram primeiro para Paris e depois para o sudoeste do país.
Este êxodo lançou famílias belgas, holandesas e luxemburguesas (dois milhões de pessoas) e famílias francesas (também cerca de dois milhões de pessoas), grande parte delas judias, nas estradas desde Maio de 1940, num caos heterogéneo de pedestres e veículos de todos os tipos, dificultando o movimento das tropas aliadas. As colunas de refugiados eram muitas vezes alvo dos bombardeiros Stuka [12][13] [14]e, a partir de 20 de Maio, enfrentaram o movimento de tenaz do exército alemão na sua marcha em direção ao mar, o que lhes cortava o acesso ao sul do país. Em Junho, quando as tropas alemãs se aproximaram de Paris (em 14 de junho de 1940 foi o início da ocupação de Paris), as populações da Ilha de França fugiram por sua vez (2 milhões de parisienses, ou 2⁄3 da população intramural parisiense). Houve lutas para poder apanhar os comboios (primeiro comboios de passageiros e depois em face do afluxo, comboios de transporte de gado). As cidades da região de Paris e do centro também perdiam os seus habitantes.
Apesar da maioria dos refugiados serem mulheres e crianças, entre eles contavam-se os homens que por motivos especiais não tinham sido mobilizados: trabalhadores ligados a sectores considerados vitais para o esforço de guerra francês. Também eles percebiam que tinham de partir, porque existia a possibilidade muito real de serem feitos prisioneiros de guerra e/ou enviados para os campos de trabalho na Alemanha.[15][nota 1]
No total, oito a dez milhões de pessoas foram exiladas, cerca de 1⁄4 da população francesa da época. O Governo francês, de Paul Reynaud, fugiu de Paris em 11 de Junho de 1940 para Bordéus.
Consequências
Vários civis pereceram nas estradas sob ataques em voo picado dos Junkers Ju 87 ( "Stukas"), armados com duas metralhadoras, (que podiam carregar até 500 kg de bombas) e que eram equipados com sirenes apelidadas de "trombetas de Jericó". [17][13][18]
O êxodo envolveu um grande número de famílias que se separaram. Nem todas as crianças perdidas encontrariam depois seus pais. No final do desastre, é necessário organizar a recepção de órfãos e crianças sem família. Por muitos meses os jornais estavam cheios de anúncios das famílias que procuravam parentes ou filhos; a Cruz Vermelha Francesa estimou que 90.000 crianças estavam perdidas. O número preciso de vítimas não é conhecido, mas pode ser estimado em 100.000 mortos sem contar os feridos.[19]
Armistício

Entretanto o Governo de Reynaud, abrigado em Bordéus, em meio a um incrível caos de fugitivos em pânico, que enchiam por completo as ruas, as casas e todo o espaço disponível, considerava duas únicas opções: a capitulação, simplesmente, ou um armistício. Já não era possível continuar a resistir.
Uma capitulação levaria ao fim dos combates, mas abandonaria a população ao invasor, que provavelmente ocuparia todo o país; teria a vantagem de deixar o governo livre para continuar a batalha do exterior ( era a posição que tinham sido tomada pela Noruega e Holanda após a sua derrota, por exemplo). O armistício, por outro lado, era um acordo político e não militar, que proibiria qualquer continuação da guerra e ditaria o fim do envolvimento das duas partes nas hostilidades. Em teoria, as populações derrotadas seriam, protegidas de qualquer perigo adicional até que a guerra acabasse.Foi esta última opção que vingou. O Marechal Pétain foi nomeado primeiro-ministro pelo Presidente Albert Lebrun e em 17 de Junho de 1940, anunciou ao país, ainda sem a resposta alemã, que tinha sido decidido o armistício - sem no entanto o nomear por esse nome.[20]
Em 22 de Junho de 1940 foi assinado o Armistício. A França foi dividida em nove zonas. As duas principais eram a Zona Ocupada, a norte, e que seguia quase fielmente o avanço alemão à época; a outra era a Zona dita "Livre", a sul. Pétain deslocou o seu governo para Vichy.
Julian Jackson comenta que existiam a partir desta altura "pelo menos seis Franças". A primeira era a "Zona Livre", cerca de 45 por cento do território. A segunda era a estreita "Zona Italiana". A terceira era a Alsácia-Lorena, anexada pela Alemanha. A quarta, Nord-Pas-de-Calais, administrada pelo comando militar germânico de Bruxelas .Quinta, a "Zona Interdita" (toda uma tira litoral da zona ocupada e outras) , e sexta, o resto da Zona Ocupada.[21]
Consolidada a conquista de França, o exército alemão tinha ordens pessoais de Hitler para auxiliar os refugiados de forma amistosa.[22] [23]Os nazis desejavam minimizar a resistência civil, assim como pôr rapidamente a economia francesa a contribuir para o seu próprio esforço de guerra. O Fuhrer, em 7 de Julho de 1940, advertia que os soldados que não se comportassem devidamente seriam severamente punidos.[23] Estas orientações, aliás, contrastam fortemente com as dadas, por exemplo, na anterior invasão alemã da Polónia em 1939,[24][25][26] que declaravam abertamente o objectivo de acabar com a Polónia e exterminar os polacos, judeus incluídos.[23][27][28][29]
A propaganda dos ocupantes foi usada numa tentativa de humanizar o exército alemão e tranquilizar os franceses na Zona Ocupada. A primeira página do jornal Le Matin de 22 de Junho de 1940 desmentia rumores: não, "os Alemães não estão a deportar jovens, a torturar mulheres e a maltratar crianças". Em muitas comunidades, o soldado alemão aparecia como o generoso vencedor, alimentando e ajudando os cidadãos franceses abandonados pelo seu governo e representantes [23] De facto, muitos testemunhos pessoais apontam, nos primeiros contactos, um comportamento correcto e amigável dos alemães pra com a população civil.[30][nota 2] Essa boa vontade superficial em pouco tempo desapareceu, á medida que a ocupação se cimentava, a França era saqueada dos seus recursos materiais e humanos [31] e aumentava a resistência interna.
Retorno
Os primeiros movimentos de regresso dos fugitivos a suas casas tiveram lugar no início de Junho de 1940; os que regressavam cruzavam-se com uma segunda vaga de fugitivos em sentido contrário.
A linha de demarcação das duas principais zonas demorou algum tempo a ser definida, e entretanto os deslocados aguardavam ansiosamente saber se as zonas onde se encontravam iriam ficar ou não em "solo inimigo". Logo depois teve início mais um movimento das populações - milhares - desta vez em direção à Zona Livre. Um grande número de judeus franceses considerou prudente fugir para a zona ainda não ocupada. Porém, nos termos do armistício, no seu artigo 19, os alemães podiam extraditar pela força qualquer indivíduo tanto duma zona como doutra.[32]

Muitos franceses, e não só os judeus, desejavam fugir do país. Contudo, aqueles com meios mais modestos seriam bem cedo forçados a abandonar esses planos. Era preciso ser persistente, ter bons conhecimentos, e mais importante ainda, ter meios económicos. Era demorado e dispendioso obter a documentação necessária para abandonar o país. Casablanca e Lisboa eram destinos bastante procurados [32] Só no porto de Saint-Jean-de-Luz, embarcaram nesta época mais de dez mil civis em fuga; mais de metade eram judeus.[33]
A zona não ocupada ficou totalmente sobrecarregada com refugiados. Algumas comunidades triplicaram e mesmo quadruplicaram a sua população. Andre Morize, que passou algum tempo em Cahors, estimou que a sua população cresceu dos habituais 13 mil habitantes para 60 ou 70 mil. Algumas grandes cidades do sul tentaram controlar este afluxo com barragens de estradas e postos de controle, para manter os refugiados na sua periferia e verificar se teriam alojamento garantido.[34]
A 11 de Novembro de 1942, após os desembarques aliados no Norte de África, os alemães atravessaram a linha de demarcação e invadiram a Zona "Livre". A linha de demarcação foi abolida em 1 de Março de 1943 e toda a França ficou sob ocupação.[35]
Notas
- No início de Julho de 1940, já existiam cerca de 200 mil prisioneiros de guerra (principalmente franceses, mas tambêm britânicos) designados como trabalhadores na Alemanha. Por meados de Agosto, já eram derca de 600 mil, e em Outubro passavam largamente o milhão.[16]
- (Ver, por exemplo, o testemunho directo de Léon Werth no seu livro "33 Days")
O Êxodo de 1940 em França: A Grande Fuga de Milhões
O Êxodo de 1940 em França (conhecido em francês como l'Exode) foi uma fuga em massa de proporções colossais que mobilizou entre oito a dez milhões de pessoas — o equivalente a cerca de um quarto da população francesa da época — entre maio e junho de 1940. O movimento ocorreu durante o avanço fulminante do exército alemão na Batalha da França, após a ruptura em Sedan, e envolveu civis belgas, neerlandeses, luxemburgueses e franceses. É considerado um dos maiores deslocamentos populacionais do século XX na Europa.
🧭 Antecedentes e Fatores Psicológicos
Diferente do êxodo limitado ocorrido em 1914 (durante a Primeira Guerra Mundial), a fuga de 1940 esvaziou a maioria das grandes cidades do norte. Vários fatores alimentaram o pânico generalizado:
Memória Histórica: A lembrança dolorosa da ocupação alemã entre 1914 e 1918 nas regiões invadidas.
O Terror Moderno: A consciência dos horrores da Guerra Civil Espanhola (como os bombardeamentos de Barcelona e Guernica) e os ataques aéreos alemães na Polônia, que provaram que o estatuto de "civil" já não garantia proteção.
🏃♂️ O Pânico e o Esvaziamento das Cidades
Sob o terror do avanço inimigo, a população fugiu de maneira caótica. Grandes centros urbanos viram suas demografias despencarem drasticamente:
Lille: Passou de 200.000 para cerca de 20.000 habitantes.
Tourcoing: Caiu de 82.000 para 7.000 moradores (chegando a abrigar 40.000 refugiados belgas).
Paris: Cerca de dois milhões de parisienses (dois terços da população intramural) abandonaram a capital antes da chegada das tropas alemãs, iniciada em 14 de junho de 1940.
🛣️ O Caos nas Estradas e os Perigos da Fuga
Milhares de famílias — incluindo cerca de dois milhões de belgas, neerlandeses e luxemburgueses, e outros milhões de franceses (muitos deles judeus) — lançaram-se às estradas a partir de maio de 1940.
Cenário Heterogêneo: Pedestres, carroças, bicicletas e veículos de todos os tipos misturavam-se de forma caótica com as colunas de soldados aliados em retirada, dificultando as manobras militares.
Alvos Aéreos: As colunas de refugiados indefesos nas estradas eram frequentemente metralhadas e bombardeadas pelos temidos aviões Stuka da Luftwaffe.
O Cerco Alemão: A partir de 20 de maio, o movimento de pinça do exército alemão em direção ao mar cortou o acesso de muitos civis à rota do sul.
O Perfil dos Fugiantes: Embora a maioria fosse composta por mulheres e crianças, o êxodo também incluiu homens não mobilizados (trabalhadores de setores vitais) que buscavam escapar da captura e do envio para campos de trabalho forçado na Alemanha.
🏛️ A Queda e a Fuga do Governo
Com o avanço inexorável das tropas alemãs e o colapso estrutural do país, o governo francês liderado por Paul Reynaud viu-se forçado a abandonar Paris em 11 de junho de 1940, transferindo a sede administrativa para Bordéus.
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