sábado, 24 de dezembro de 2022

A Câmara e a escravidão: registros históricos da injustiça

 

A Câmara e a escravidão: registros históricos da injustiça

por Fernanda Foggiato

Gravura feita por João Mulato, de 1817, retrata escravos carregando a sinhazinha e uma criança à missa, em Curitiba. A obra integra o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR). (Reprodução – Foto: Chico Camargo/CMC)

A Câmara Municipal de Curitiba recebeu, em 1746, a ordem real para fabricar um carimbo com a letra “F” que marcaria com ferro em brasas os escravos fugidos e  seria guardado na arca da Casa. O alvará em forma de lei de D. João V foi uma resposta aos “insultos” cometidos no Brasil pelos chamados calhambolas, que se refugiavam nos quilombos.

“Preciso acudir com remédios que evitem esta desordem: hei por bem que a todos os negros que forem achados em Quilombos, estando nelles voluntariamente, se lhes ponha com fogo hua marca em hua espádua (região posterior do ombro) com a letra ‘F’”, diz o documento, registrado nos livros da Câmara de Curitiba no dia 7 de novembro de 1746. Se o escravo já tivesse a marca, a determinação antes de levá-lo para a cadeia era para que lhe cortassem uma orelha “por simples mandado do juiz de fora ou ordinário da terra ou do ouvidor da Comarca, sem processo algum e só pella notoriedade do facto”.

Além da fabricação e armazenamento do carimbo, a Câmara recebeu a incumbência de nomear capitães-do-mato para a caça aos calhambolas (definidos como “aquillombados e vadios”), com a ajuda de negros, carijós ou bastardos. Se o escravo resistisse, a ordem real era clara: atirar e matar, sem o mínimo receio. Ao transcrever o registro do alvará em forma de lei à Câmara, o então diretor do Arquivo Municipal de Curitiba, Francisco Negrão, registrou, em 1924: “O negro não pertencia a especie humana: era animal”.

“A legislação a que a elle se applicava, era toda especial. Vemos se lhe applicar ferro em braza sobre as espáduas e cortar-se-lhe as orelhas, como se faz com o gado vaccum nas fazendas de criação. Até perante a religião havia distinção. Os seus nascimentos, cazamentos e obitos eram registrados nas Igrejas em livros aparte. Não se queria manchar o sangue azul dos brancos, pondo-os em promiscuidade com esses animais — que fizeram a grandeza economica da Patria”, completou Negrão.

Na sessão de 18 de março de 1780, o presidente da Câmara de Curitiba, juiz Francisco Luiz de Oliveira, alertou aos “negros e negras fugidas aquilombandoçe” nos arredores da vila, em partes vizinhas a fazendas de gado, causando prejuízos aos donos das mesmas. Segundo ele, os calhambolas roubavam os fazendeiros, trazendo graves prejuízos.

“Parecia util para o bem comum ouveçe de se nomearem capitains do mato por esta Camera q´nas paragens remotas podecem e foçem obrigados aprenderem os negros fogidos e mais delinquentes que ouverem”, disse o presidente. Oliveira defendeu a nomeação de quatro capitães-do-mato para Curitiba, dois para a Freguesia de São José, um para a Freguesia de Iapó, um para a Freguesia de Santo Antônio e outros dois para o “continente do Itambe e do Tamandua”.

Os calhambolas apreendidos, determinou o presidente da Casa, deveriam ser enviados à cadeia da vila. Como recompensa, o oficial receberia o prêmio de três mil réis. Localizam-se, nos boletins do Arquivo Municipal de Curitiba, atos de nomeação de capitães-do-mato. Na sessão de 25 de janeiro de 1800, por exemplo, a Câmara proveu ao cargo Joaquim Correa, para cuidar da vila, e Valentim Luiz, para as regiões do Barigui e Campo Magro.

Apesar das providências, a mão de obra cativa em Curitiba era reduzida, segundo Maria de Boni, que estudou a população da vila. Ela avaliou a presença escrava na cidade, na segunda metade do século 18, como “pequena e pouco significativa”, em meio ao viver basicamente agrário. Segundo a pesquisadora, 16,2% dos domicílios curitibanos, em 1776, contavam com escravos em sua estrutura; em 1785, a proporção subiu para 22,9 %.  

Nos documentos dos séculos 18 e 19, há outros registros de castigos aos cativos. Primeiro jornal paranaense, “O Dezenove de Dezembro” trouxe, na edição do dia 7 de novembro de 1855, na seção “Júri”, o resultado do julgamento do “réu africano Manoel”, escravo dos herdeiros de Francisco Ayres de Araujo. Acusado de ferir Serafim Ferreira Moreira, causando sua morte, ele foi condenado a 150 açoites e a carregar um ferro no pescoço durante um ano. Seus senhores precisariam pagar as custas processuais.

Ofícios preservados no acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR) autorizam punições a escravos. Por uma “dezordem”, um negro foi condenado a 50 açoites diários, ao longo de cinco dias, e uma quinzena, depois disso, na prisão, por meio de correspondência enviada em 27 de abril de 1780. Pouco mais de um ano depois, o “mulato que insultou o filho do alferes Bento Lopes” recebeu a pena de 500 açoites. As ordens partiram do capitão-general Martim Lopes Lobo de Saldanha, governador da Província de São Paulo entre 1775 e 1782.

Já o Museu Paranaense expõe instrumentos de tortura aos escravos. Um deles é o tronco de madeira, no qual a pessoa era presa pelos tornozelos e pulsos, em pé. No viramundo, os membros também eram presos, mas com as pernas geralmente dobradas. O acervo da instituição ainda possui a corrente com gargalheira e a algema para pés.

Mercadorias
O capitão-general Saldanha enviou, em 1º de março de 1779, correspondência ao capitão de Curitiba Miguel Ribeiro Ribas para agradecer pela encomenda de duas “mulatinhas”. “Eu me obrigo infinitamente do favor”, escreveu. No jornal “O Dezenove de Dezembro”, já na segunda metade do século 19, os escravos eram comercializados na seção de anúncios.

“Vende-se, na rua do Fogo (atual rua São Francisco) n. 17, um escravo de naçao, de 22 a 24 annos de idade, em vicio algum; serve muito bem para engenhos de erva”, dizia anúncio publicado em 1º de abril de 1854. No dia 20 de agosto de 1873, mesmo com a aproximação da abolição da escravatura (realizada em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea), o jornal estampou: “Quem pretender comprar um escravo vistoso de trinta e tantos annos e por preço commodo, dirija-se a esta typographia que se dirá quem tem”.

A seção também oferecia recompensa pela devolução de escravos. “A Francisco de Paula Guimarães, de Curiiyba, fugio uma escrava creoula, com os seguintes signaes: bem preta, de estatura ordinária, cara redonda, olhos grandes, boa dentadura e dentes aguçados, maviosa e affectada, mãos grandes como de homem que trabalha com machado, tem as munhecas grossas e os dedos curtos, um pequeno signal como de queimadura sobre as costas, chama-se Amancia. A quem a trouxer, além de pagar-se as despezas, se dará uma gratificação”, afirmava o anúncio, publicado abaixo de uma propaganda do Hotel Paranaense.

Atas da Câmara de Curitiba corroboram o tratamento dos escravos como mercadoria. Na sessão de 18 de março de 1743, o juiz ordinário, três vereadores e o procurador “fizeram um acordum em mandar por em prasa (vender) hum escravo por nome Pedro”. Ele havia sido penhorado pelo dono, Manoel Martins Balença, por dívidas não especificadas.

Os escravos também foram tema dos provimentos de Curitiba. Em 1721, o ouvidor Raphael Pires Pardinho tratou do tema nos “artigos” 119 e 120 (no 121, normatizou o gado perdido). O documento obrigava a entrega de negros fugidos ao juiz ordinário da Câmara Municipal em até 15 dias. Passado o prazo, a pessoa seria punida como ladra e teria que pagar indenização ao dono do cativo.

Em 1800, os provimentos do ouvidor João Baptista Dosguimarãens Peixoto ordenavam ao juiz ordinário prender “todos os negros e mulatos cativos de outros districtos que não apresentarem passaporte da pulicia, remetendo-os logo para a cadeia da cabeça da comarca”. Em 1804, ao tratar dos inventários, o ouvidor Antonio de Carvalho Fontes Henrique Pereira alertou que as divisões de escravos e gado deveriam ser igualitárias entre os herdeiros.

Costumes
No "Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba", há diversos registros da regulação dos costumes e a preocupação com os bailes chamados fandangos, em especial os frequentados por escravos. A primeira proibição ocorreu em 1792. “Aos olhos dos vereadores e autoridades coloniais, o fandango se apresentava como expressão de lascívia e como tal era moralmente condenável”, aponta a obra.

Em 1807, foi determinada a pena de 50 açoites e 30 dias de cadeia ao escravo que participasse de um fandango. “Se passou um Edital para se evitarem os fandangos e principalmente nos que costumam entrar os Escravos cativos na qual se declarou a pena aos mesmos cinquenta açoites no Pelourinho, e trinta dias de cadeia, e seis mil réis de condenação aos que dessem casas para esse fim”, registram os documentos da Câmara de Curitiba.

Nas posturas de 1829, foram utilizadas palavras pesadas contra os “batuques”. “Tendo sido sem proveito todas as providências policiais até agora dadas, para se extirparem os batuques, que sem mais razão que a corrupção dos costumes, se têm arraigado neste Povo, e que dão azo à perpetração de muitos delitos que resultam da promiscuidade de ambos os sexos da classe imoral de escravos, e libertos, que não fazem tais ajuntamentos senão para dar pasto à devassidão e à desordem da crápula, com ofensa manifesta da moral pública, e tranquilidade dos Povos”, avaliou a Câmara. As regras para os fandangos só começaram a ser afrouxadas na década de 1860.

O preconceito era evidente na sociedade curitibana. No dia 8 de abril de 1729, os oficiais da Câmara Municipal de Curitiba receberam uma petição do ex-escrivão Thomé Pacheco, que questionava por que havia sido retirado do cargo. Dentre outras justificativas, os oficiais registraram em ata um dos motivos: o homem era mulato.

Em 1829, destaca “O Livro dos 300 Anos”, a Câmara Municipal de Curitiba teve acalorados debates sobre penas diferenciadas aos cativos. Por fim, decidiram: “enquanto ao homem livre caberiam penas de prisão ou multas, aos escravos, pelas mesmas infrações, estaria reservado o chicote”. Foi o caso da norma que vedava “as lavagens de qualquer natureza que sejam nas fontes de beber de uso público”.

A punição era de multa, mas, se o infrator fosse um cativo cujo senhor não a pagasse, a punição era de 25 açoites no pelourinho da cidade. A obra completa que, no decorrer do século 19, assistiu-se ao progressivo abrandamento das penas, que da chibata passam à palmatória e da palmatória à prisão, até se igualarem.

A palmatória foi determinada em 1861, por exemplo, ao escravo que andasse pelas ruas depois do toque de silêncio sem um bilhete de seu senhor que o justificasse. Nesse período, conforme “O Livro dos 300 Anos”, houve a proliferação de normas para regular as atividades dos escravos.

Foi proibida a venda de armas e munição a eles e também seria punido o liberto que permitisse seu ajuntamento. “Ou seja, à medida que se aproximava o fim do escravismo, multiplicavam-se os dispositivos legais que procuravam regulamentar a participação da população cativa na trama social”, explica o livro.

Dívida histórica
Como forma de reconhecimento à contribuição dos negros para o desenvolvimento da cidade e para reforçar a luta contra o preconceito, no dia 27 de novembro de 2012 foi aprovada na Câmara de Curitiba a lei que cria o feriado municipal do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro (norma municipal 14.224/2013).

A matéria foi encaminhada ao Executivo para sanção, mas retornou sem o posicionamento do prefeito. Em janeiro de 2013, o presidente recém-assumido, Paulo Salamuni (PV), então promulgou a lei. “Essa mesma Câmara Municipal que aprovou o feriado do Dia da Consciência Negra há pouco tempo discriminava as pessoas pela cor: multava os brancos e açoitava os negros. Este feriado é o começo da reparação de uma dívida histórica, é importante que a instituição reconheça as injustiças que promoveu no passado e defina claramente seu papel atual de promotora dos direitos humanos”, justifica o vereador.

No entanto, uma decisão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), do dia 15 de setembro de 2013, mantém o feriado suspenso, por conta de um questionamento feito pela Associação Comercial do Paraná e pelo Sinduscon/PR (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Paraná).

Único vereador afrodescendente desta legislatura, Mestre Pop (PSC) acredita que o racismo possa diminuir por meio de ações educativas e judiciais, mas que nunca vai acabar. “O preconceito contra afrodescendentes existe e é cultural. Vem de berço. O racismo é uma pobreza de espírito”, afirma o parlamentar.

* As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

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Referências Bibliográficas:

Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo. Volumes 58, 66, 81, 82 e 83. 1942. Tipografia do Globo, São Paulo (SP). Disponíveis no acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR).

BONI, M. I. M. de. A população da vila de Curitiba segundo as listas nominativas de habitantes. 1765-1785. Curitiba, 1974. Dissertação de mestrado.

Jornal O Dezenove de Dezembro
. Edições de 1º de abril de 1854 (venda de escravo de nação), 16 de setembro de 1854 (fuga de escrava), 7 de novembro de 1855 (açoites ao escravo Manoel) e 20 de agosto de 1873 (venda de escravo vistoso). Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/

Boletins do Archivo Municipal de Curytiba. Volumes 1, 11, 14, 16, 23, 31, 36 e 37. Disponíveis em:
http://www.arquivopublico.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=98

Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba. Março de 1993. Páginas 23 e 33-36. Disponível em: http://www.cmc.pr.gov.br/down/livro_300anos.pdf


1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

 

1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

por Michelle Stival da Rocha

Diário da Tarde, edição do dia 2 de julho de 1913. Exemplar disponível para consulta em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná. (Reprodução – Foto Chico Camargo/CMC)

Em 1913, às 14 horas do dia 1º de julho, uma grande explosão nos armazéns da antiga estação da estrada de ferro Curitiba/Paranaguá atingiu o Palácio Rio Branco – onde hoje são realizadas as sessões plenárias da Câmara de Curitiba – fazendo com que o prédio passasse por uma reforma. O estrondo se fez ouvir na cidade inteira, assim como pôde ser vista uma grande nuvem de fumaça. Quatorze pessoas morreram e outras inúmeras ficaram feridas.

O Diário da Tarde – periódico que circulava na cidade à época –, naquele mesmo dia, anunciou: “Às duas horas da tarde de hoje, mais ou menos, enorme estampido ensurdecedor echoou pela cidade, dando o alarme de um sinistro acontecimento. Por toda a cidade houve a princípio um instante de estupor e depois de verdadeiro pânico e desespero. Que seria?”

Três carroças, carregadas com aproximadamente 730 quilos de pólvora negra, foram pelos ares, em frente ao armazém de Paranaguá – que, segundo informações do Museu Ferroviário, ficava na avenida 7 de Setembro com a Marechal Floriano e onde hoje há um shopping. O explosivo estava sendo carregado por praças (patente militar inferior à de segundo-tenente) até a estação. O carregamento havia sido vendido pelo Ministério da Guerra ao sr. Alexandre Gutierrez, que tinha o objetivo de utilizá-lo em pedreiras na Serra do Mar.

Os danos atingiram todas as casas próximas, ao ponto de caírem as vidraças com os caixilhos. Um eixo de carroça atravessou o muro do Congresso (Palácio Rio Branco) de lado a lado. “Foi objecto da nossa atenção a fachada do edificio do Congresso que lança para a Praça Euphrasio Correia, até os prejuízos foram importantes pela ruptura de todas as vidraças e dos móveis internos”, informou o jornal Commercio do Paraná, no dia seguinte.

“No palácio do governo (na rua Barão do Rio Branco, hoje Museu da Imagem e do Som em reforma) caiu o estuque de uma das salas”, descreveu o Diário, no dia seguinte. Também nas ruas Silva Jardim, “Ratcliff” (atualmente Dr. Westphalen), Visconde de Guarapuava, Floriano Peixoto e praça Eufrásio Correia os prédios ficaram com as vidraças quebradas.

Bondes, linhas telegráficas e telefônicas pararam de funcionar. “Pontos negros se destacaram, como si corvos esvoaçando desordenadamente: eram destroços da explosão – fragmentos de carroças, de animaes, frangalhos de corpos humanos, telhas etc”, informou o Diário da Tarde. Segundo o mesmo, houve estragos desde o Batel até os fins da rua XV de Novembro.

Em poucos minutos, moradores de diversas regiões vieram conferir o ocorrido. Quase toda a população da capital paranaense correu até lá. “Pelas imediações da estação jaziam os destroços da explosão. Aqui, vísceras, cabeças separadas dos corpos; ali, cavalos mortos, outros fragmentos, enfim, uma infinidade de destroços, atestando a violência inaudita da explosão” (Diário da Tarde, 1/7/1913).

A tragédia, à época, pelo número de habitantes da cidade (cerca de 50 mil)², foi considerada uma verdadeira “hecatombe”. “Nos annaes das grandes desgraças humanas, raramente se registrará tão emocionante tragédia”, lamentou o Diário no dia seguinte.

De fato, até hoje em Curitiba não se viu explosão de tamanho alcance. Ressalte-se que, em 1976, um caminhão que transportava aproximadamente 1.500 quilos de dinamite explodiu no Cabral, divisa com Juvevê. Três pessoas morreram. No asfalto, ficou uma cratera com quase três metros e muitos estragos, como relata Anna Carolina Azevedo, autora do livro “Dinamite” – publicação que conta a história. “De fato, o impacto na estação de trem foi muito maior, pensando nas pessoas mortas, mas a dinamite em 1976 acabou com boa parte de um bairro”, relembra.

Já em 1990, uma loja de fogos de artifício na rua Visconde de Guarapuava com a Westphalen explodiu, matando três pessoas da mesma família. Mas os estragos, ainda assim, foram em menor escala.

Em 1913, a estação de trem era bastante movimentada, pois levava diariamente pessoas para Paranaguá, interior do Estado, São Paulo e Rio de Janeiro. “Muitos dos moradores dos hoteis e imediações da estação, grandemente surpresos com o terrível choque, em gritos alucinantes pediam socorro como que se estivessem sob o peso de um grande terror”, Diário da Tarde, 2 de julho de 1913.

Foi assim, em detalhes, que o jornal descreveu como a população recebeu o susto. “A exma. Sra. d. Francisca Munhoz Cavalcanti, esposa do dr. Carlos Cavalcanti (presidente da província à época e que hoje dá nome a uma rua no bairro São Francisco), ouvindo o ruído da explosão, emocionou-se grandemente, sendo victima de ligeira syncope. A exma. Senhora julgou que tivessem arremessado uma bomba de dynamite no palácio presidencial”. (Diário da Tarde, 1/7/1913)

Muitos acreditavam que estar no ano de 1913 era um sinal de azar, como se pode perceber em um trecho de texto publicado na revista humorística e literária A Bomba, do dia dez daquele mês:

“- Sou supersticioso, confesso. E o diabo do 13: estamos em 1913.

Concordei. Mas concordei de um modo diverso: estendei mais a superstição. Achamos que a fatalidade não se enclausura em um número qualquer, nem no 10 nem no 13. Tanto assim, que muitas pessoas até consideraram o 13 um número feliz! Ella, a fatalidade, deve ser cega, e por isso cai sobre qualquer número, infallivelmente. Cái e passa e deixa silêncios enigmáticos à nossa perturbadora compreensão”.

As causas da explosão
De acordo com o Diário da Tarde, a pólvora fora recentemente arrematada em concorrência pública aberta pela intendência da 11ª região militar, com sede na capital. Foi vendida por ser considerada “inaproveitável” para o serviço de  artilharia. Foi levada até a estação por militares, a pedido do próprio comprador.

Conforme o mesmo periódico, antes do acidente, por volta das 13 horas, praças saíram com a pólvora do 2º esquadrão de trem, do depósito de inflamáveis da intendência da 11ª região militar, que ficava junto a uma chácara no Água Verde. (Diário da Tarde, 2/7/1913)

O Commercio do Paraná informou que eram três carroças contendo 39 tambores do explosivo, num total aproximado de 730 quilos. Nelas estavam nove praças do Esquadrão de Trem e da Bateria de Obuzeiros (canhões). Enquanto os soldados descarregavam, um deles entrou no armazém com um cunhete de munição (caixote feito para abrigar este tipo de material), que teria como destino a Intendência da Guerra, no Rio de Janeiro.

Em depoimento à polícia, o pesador João Walter, que sobreviveu à tragédia, disse que não quis receber a carga, visto que era terça-feira e o dia dos explosivos era somente na quarta-feira. “Insistindo o pesador em não receber a carga, após pequena discussão, o soldado apanhou o cunhete e voltando para a porta exasperadamente gritou: 'Pois eu é que não volto mais com esta droga'. E acto contiuno atirou o cunhete de cartuchos contra as pedras da calçada, com toda a violência” (Commercio do Paraná, 2/7/1913).

A consequência foi imediata. Uma das carroças que estava perto foi atingida pelo fogo, explodindo todas as outras, como contam os dois periódicos.

Nos dias subsequentes surgiram outras versões nos noticiários. Uma delas apontava para um eventual contato com um fio elétrico da rede de bondes da cidade, que passava em frente à estação. Outra dizia que um dos praças deixou cair um fósforo aceso sobre um tambor de pólvora, detonando os demais.

“Cremos, portanto, prevalecer a 1ª (versão), aliás, confirmada pelo testemunho do pesador João Walter que vio o soldado jogar o perigoso cylindro ao solo”, opinou o Commercio do Paraná no dia três.

Palavra de especialista
Em uma análise atual do contexto, o especialista em explosivos da Delegacia de Explosivos, Armas e Munições da Polícia Civil (DEAM), Lourival Prehs, mais conhecido como “Bombinha”, diz que a primeira versão é perfeitamente possível.  “Antigamente essas munições tinham fulminato de mercúrio, um composto químico bem sensível à fricção e ao impacto. Não eram como as de hoje”, explicou.

Ele, que é químico e trabalha há 40 anos com estes artefatos, disse que, atualmente, além de maior segurança no fabrico destes materiais, há mais cautela no transporte e armazenamento dentro da cidade. “Para movimentar qualquer tipo de explosivo ou fogos de artifício dentro de Curitiba é necessário conseguir uma licença da DEAM. Primeiro analisamos o que será transportado e as condições de armazenamento, antes de liberar”, explicou Prehs.

No seu entendimento, lembrar do passado faz com que os erros não se repitam no futuro e, vale a máxima, de que todo o cuidado é pouco. “Com explosivo você só erra uma vez, não tem chance de errar a segunda”, alertou.

“Vem de molde que se registre a irregularidade de sinão, pelo menos a imprudência, de se entregar a condução de carga tão perigosa a soldados arrebatados e inconscientes da missão de que lhes investiram. Sirva de exemplo para que no futuro se destaque um oficial que, com a responsabilidade de seu cargo e preparo technico, saiba conduzir soldados portadores de valores da nação cujo sacrifício acarretará a vida de operosos cidadãos”, Commercio do Paraná, 2 de julho de 1913.

* As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

Referências bibliográficas:

1) Jornal Commercio do Paraná, 8 de julho de 1913, noticiando a última vítima que morreu em decorrência das queimaduras.

2) Impressões do Brazil no Seculo Vinte

Museu Ferroviário

Jornal Diário da Tarde: edições de 1, 2 e 3 de julho de 1913. Disponíveis em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná.

Jornal Commercio do Paraná: edições de 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 de julho de 1913. Disponíveis em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná.

Revista “A Bomba”, de 10 de julho de 1913. Exemplar disponível para consulta na Biblioteca Pública do Paraná.


Curitiba e os processos contra feitiçaria no século 18

 

Curitiba e os processos contra feitiçaria no século 18

por Fernanda Foggiato

No dia 23 de janeiro de 1775, o ouvidor da Comarca de Paranaguá, Antonio Barbosa de Matos Coutinho, lançou um edital na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba para avisar que haveria uma devassa geral para inquirir testemunhas sobre alquimistas, benzedeiras, feiticeiras e pessoas com pacto com o diabo, dentre outros crimes. Na época, as investigações e julgamentos cabiam às Câmaras Municipais, que responderam pelo Poder Judiciário até a Independência do Brasil, em 1822.

Segundo documentos históricos do Arquivo Público do Paraná, a devassa geral resultou na denúncia de duas mulheres, mãe e filha. O levantamento foi realizado pela advogada Danielle Regina Wobeto de Araujo, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela analisou, para a tese inédita de doutorado (ainda não defendida), os processos contra feitiçaria em Curitiba entre 1763 e 1777.

“A cidade teve, nesse período, 560 processos, sendo 60 contra mulheres. Dois deles foram por feitiçaria, em pleno auge do Iluminismo. O crime era atribuição das justiças eclesiástica, a Igreja, e comum, a Câmara Municipal”, diz Danielle. Ela destaca que o escrivão da Casa, Antonio Francisco Guimarães, foi um dos quatro denunciantes das rés, acusando-as de terem feito feitiços e pacto com o diabo. A mãe, Francisca Rodrigues da Cunha, tinha cerca de 60 anos, enquanto a filha, Luiza Rodrigues da Cunha, declarou ter 23 anos.

Os registros apontam que as mulheres eram indígenas, da “nação carijó”, e estavam descalças no dia do julgamento. O marido e pai das acusadas de feitiçaria, de acordo com o processo, era “escravo do hospício”. “Outra denunciante, Romana Álvares Teixeira, falou que elas tinham matado seu marido com um feitiço e seduzido juízes para escapar do processo. Também teriam sacrificado bichos e aleijado uma pessoa”, relata Danielle.

“Uma curiosidade do processo é que foi chamado um feiticeiro do povoado de Ponta Grossa, que confirmou que o homem realmente morreu vítima de feitiço. No entanto, ele fugiu antes de se pronunciar no julgamento”, conta a pesquisadora. Já a defesa argumentou que a testemunha queria se casar com Luiza, que o rejeitou. Ele então teria feito a acusação para se vingar. Outra justificativa apresentada para pedir a absolvição foi que as rés haviam recebido educação católica. Presas desde 6 de fevereiro de 1775, mãe e filha foram absolvidas pelo ouvidor Coutinho no dia 22 do mesmo mês, por falta de provas.

Exorcismo
O outro processo da Câmara Municipal de Curitiba contra feitiçaria, no período pesquisado, foi instaurado no dia 7 de março de 1763. A “negra forra” Sipriana Rodrigues Seixas, casada e grávida, na faixa dos 40 anos, foi acusada por Manuel da Cunha de provocar doenças em sua esposa, quatro filhas e uma irmã. “O denunciante afirmou que ela ‘tinha um cartório’ com mulheres de nome ‘Fuã’ (não é possível identificar quantas eram). Ou seja, que elas estavam organizadas”, relata Danielle.

“Ele disse que, devido aos feitiços de Sipriana e das Fuãs, suas familiares vomitavam baratas vivas, pedaços de ossos, cabelo e pernas de sapo, entre outras coisas”, completa. O processo menciona que foi chamado o reverendo vigário, e que apenas com exorcismos as supostas vítimas melhoravam. Outra acusação é que as mulheres faziam bolos envenenados, com os quais mataram algumas pessoas.

Segundo a pesquisadora, uma das testemunhas afirmou que os arredores da Vila de São José dos Pinhais tinha muitas feiticeiras, subentendendo-se que as rés moravam na região. “O interessante é que a Romana, que 12 anos depois acusaria Francisca e Luiza, foi uma das pessoas que defendeu Sipriana, alegando sua inocência”, afirma.

A sentença saiu no dia 14 de junho de 1763, pelas mãos do juiz ordinário de Curitiba Manoel Gonçalves de Sam Payo. Elas foram condenadas à prisão pela prática de feitiçaria, sem um tempo estipulado. Sipriana, então, fez uma apelação à Ouvidoria de Paranaguá ( Curitiba só se tornou sede da Comarca em 1812), mas não há informações sobre a continuidade do processo.

Há uma possível referência ao caso no “termo de vereanssa” da sessão de 10 de setembro de 1763. O juiz ordinário Sam Payo discorreu sobre mulheres que estavam presas na cadeia da vila “por crime que lhe arguirão partes que dellas denunciarão” e deveriam ser enviadas a Paranaguá, sede da Comarca.

Ele pediu dinheiro ao Conselho para a remessa das detentas, mas o tesoureiro da Câmara Municipal de Curitiba argumentou que não seria possível, devido às “muitas despezas que se havião feito”. Não foi localizada, nas demais atas do ano e nas de 1764, outra menção às mulheres presas que deveriam ser enviadas a Paranaguá.

Outra pesquisadora, Liliam Ferraresi Brighente, já havia realizado um levantamento no Arquivo Público do Paraná sobre processos contra a feitiçaria entre 1700 e 1750. Ela identificou um caso de 1735, em Paranaguá. Denunciada por Manoel Gonçalvez Carreir, a índia Maria do Gentio da Terra foi considerada culpada e “degredada” (expulsa) da vila.

Análise
“São processos típicos da época, sem lógica cartesiana e materialmente desgastados pelo tempo”, analisa Danielle. “Eles indicam a imposição da Igreja Católica por meio do direito e que a sociedade ainda tinha uma visão mágica do mundo. Apontam que as autoridades da Câmara Municipal preocupavam-se em manter a religiosidade”.

O zelo pela religiosidade é corroborado por diversos documentos da época. Primeira correição da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e base para posturas dos futuros ouvidores e da Câmara Municipal, os provimentos do ouvidor Raphael Pires Pardinho, de 1721, não trataram apenas de questões para a organização da cidade.

Dividido em 129 “artigos”, o documento trata, por exemplo, do pagamento do dízimo e da obrigação de todos assistirem e prepararem suas casas para as procissões de Corpus Christi e de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, dentre outras, sob a pena de multa de uma “pataca”.

Já os provimentos de 1800, do ouvidor-geral e corregedor João Baptista dos Guimarães Peixoto, afirmam que os juízes ordinários deveriam prezar pela conservação da decência e respeito. Caberia a esses oficiais da Câmara Municipal “dar parte” ao corregedor de “pessoas que mostrarem publicamente pouca religião e que forem escandalosas”.

“O Brasil não reproduziu a caça às bruxas vista na Europa. A Inquisição, de uma maneira geral, esteve mais preocupada em investigar novos cristãos (judeus convertidos) e sodomitas (homossexuais)”, complementa Danielle. “O perfil dos acusados de feitiçaria, tanto pela Igreja quanto pela justiça comum, era de mulheres pobres. Negras, pardas ou índias”.

De acordo com o “Dicionário do Brasil Colonial”, o país teve, entre os séculos 16 e 18, 200 acusações de fetiçaria. “Poucos foram os processos completos do Santo Ofício português nessa matéria. (…) Menos preocupada com a feitiçaria que com o Judaísmo, a Inquisição portuguesa perseguiu pouco a feitiçaria, rastreando mais o shabat judaico que o sabá diabólico”, explica a obra.

Lendas urbanas
No final do século 19 e início do século 20, quando já circulavam jornais em Curitiba, há diversos registros na imprensa sobre supostos casos de feitiçaria. O Diário da Tarde, por exemplo, possuía a seção “Vitrina do Diabo”, com viés sensacionalista. Uma das personagens das notícias é Anna Formiga. Segundo pesquisa publicada em 1991, do historiador Johni Langer, ela residia na rua Doutor Pedrosa, em trecho hoje denominado Benjamin Lins, e “era famosa por suas supostas ligações com o demônio”.

O Diário da Tarde publicou, no dia 8 de maio de 1889, uma nota intitulada “Feiticeira – Artes de Satanaz”. “Anna Formiga é o nome da mulher que diz ter relações com Satanaz, cuja vontade domina. É moradora à Rua Dr. Pedroza. Em noite passada, teve uma questão com um cabo do 13º regimento de cavallaria e jurou vingar-se”, dizia. A publicação afirmou que ela então lançou um feitiço contra o homem, cuja esposa adoeceu. “A polícia tomou conhecimento do facto”.

Dois dias depois, o Diário da Tarde veiculou a nota “O caso da feiticeira – Novas notícias”. O jornal denunciava “novas bruxarias”, sem vinculá-las a Anna Formiga: “Não seria máu que a polícia diligenciasse na descoberta dessas bruxas, feiticeiras ou encantadas, como quer que se lhes chame”.

Autora do livro “Lendas Curitibanas”, a escritora Luciana do Rocio Mallon publicou uma história na internet sobre Anna Formiga, apelidada de "bruxa de Curitiba". O texto afirma que ela se chamava Ane O'Neil e fugiu da Escócia para escapar da acusação de matar crianças em “rituais macabros”. Em Curitiba, oferecia serviços de curandeira e lia a sorte das pessoas.

"Como a mulher tinha o traseiro avantajado, igual o de uma tanajura, e comia muitos doces, recebeu o apelido. Esta feiticeira tinha hipoglicemia e toda vez que sua taxa de glicose baixava, passava mal. Por isso, muitas vezes aceitava doces como forma de pagamento pelos seus serviços", relata. A lenda urbana justifica que o cabo a prendeu por furtar guloseimas de uma confeitaria, e então Anna lançou-lhe o feitiço, responsável por matar sua esposa. Já a fiança teria sido paga pelos clientes da "bruxa".

Mas nem só das histórias da Anna Formiga vivia o Diário da Tarde. No dia 25 de setembro de 1901, por exemplo, o jornal trouxe a nota “Cartomantes e desordeiros”. “Alguns moradores da rua S. José, nas proximidades da rua Silva Jardim, queixão se contra a permanência n'aquelle ponto de uma família de cartomantes, que reunindo a noute em sua casa uma porção de desordeiros passam-n'a toda em um sabbat infernal, cantando obscenamente e fazendo enorme barulho com grande escandalo da visinhança”, dizia.

Nesta época, porém, a Câmara de Curitiba não respondia mais pelo Poder Judiciário. “Com a Independência do Brasil, as funções institucionais das Câmaras sofreriam algumas alterações. A mais digna de nota foi a perda de atribuições judiciárias", destaca o "Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba".

Tais histórias, então, passaram a fazer parte do imaginário popular. "A Anna Formiga realmente existiu, mas não há provas dos rituais atribuídos a ela. As lendas urbanas são exatamente isto: causos que o povo conta, sem comprovação científica", conclui Luciana.

* As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.


Referências Bibliográficas:

1 | Departamento Estadual de Arquivo Público do Paraná (DEAP). BR PRAPPR PB 045 PC 1947.61, Cx.61, 1775.

2 | Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba. Março de 1993. Página 24.

3 | Departamento Estadual de Arquivo Público do Paraná (DEAP). BR PRAPPR PB 045 PC 1837.57, Cx.57, 1763.

4 | Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba. Março de 1993. Página 24.

5 | Boletins do Archivo Municipal de Curytiba. Volume 27. Página 45. Disponível em: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/Boletins%20AMC/Volume_27.pdf

6 | Departamento Estadual de Arquivo Público do Paraná (DEAP). BR PRAPPR PB 045 PC 163.5, Cx. 5. 1735.

7 | Boletins do Archivo Municipal de Curytiba. Volume 1. Páginas 10 à 47. Disponível em: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/Boletins%20AMC/volume1.pdf

8 | Boletins do Archivo Municipal de Curytiba. Volume 14. Páginas 5 à 10. Disponível em: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/Boletins%20AMC/Volume_14___Provimentos_de_Correicoes_Resolucoes_Ordens_e_Provisoes_1722_1828.pdf

9 | Vainhas, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Editora Objetiva. Rio de Janeiro, RJ. 2000. Páginas 221 e 222.

10 | Rubini, Tiago. O Jornalismo Paranaense e o Contraste Pagão: um estudo de caso do Diário da Tarde. Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ. Trabalho apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Recife, PE. 2011.

11 | Langer, Johni. Feitiçaria em Curitiba: discurso e cotidiano, 1889-1945. Monografia de bacharelado em História pela UFPR. Curitiba, PR. 1992.

12 | Diário da Tarde. Curitiba, PR. 08/05/1899. Página 1.

13 | Diário da Tarde. Curitiba, PR. 10/05/1899. Página 1.

14 | Mallon, Luciana do Rocio. Lenda da Bruxa Ana Formiga de Curitiba. 2008. Disponível em: http://www.autores.com.br/200808027337/mitologia-/-lendas-/-misticismo/lendas-urbanas/lenda-da-bruxa-ana-formiga-de-curitiba.html

15 | Diário da Tarde. Curitiba, PR. 25/09/1901 Página 2.

16 | Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba. Março de 1993. Página 24.
http://www.cmc.pr.gov.br/down/livro_300anos.pdf

A Câmara e a Emancipação Política do Paraná em 1853

 

A Câmara e a Emancipação Política do Paraná em 1853

por João Cândido Martins 

Instalação da Província do Paraná, 1853 (detalhe), de Theodoro de Bona. A obra, pintura a óleo, com oito metros de largura por 3,34m de altura, está exposta no Salão Nobre do Palácio Iguaçu. (Foto – Arnaldo Alves/ANPr)

Os 160 anos que separam a fundação de Curitiba (1693) da Emancipação Política do Paraná (1853) não presenciaram mudanças significativas na aparência da cidade. Durante todo esse tempo, as residências e comércios se limitaram ao entorno do Largo da Matriz (Praça Tiradentes), e qualquer pessoa poderia percorrer as poucas ruas em menos de uma hora. Na descrição de Romário Martins, Curitiba naquele momento era “uma insignificância, que de cidade só tinha o predicamento oficial”.
 
Segundo o historiador (que também foi vereador e prefeito de Curitiba), no momento da Emancipação, a soma de todos os moradores (incluindo os residentes em fazendas e chácaras afastadas), resultava um valor que não chegava a superar seis mil indivíduos. Duzentas casas se distribuíam pelo Centro e apenas 10 delas possuíam dois andares.

Alguns caminhos já configuravam as ruas que hoje constituem o chamado Centro Histórico de Curitiba, mas tudo era precário para os curitibanos da década de 1850. Os vereadores daquele período eram obrigados a enviar funcionários para São Paulo com a finalidade de comprar óleo para abastecer os poucos lampiões que iluminavam pontos estratégicos da cidade, como o prédio da Cadeia Pública (que também sediava eventualmente a Câmara). Como o orçamento era limitado, a iluminação só acontecia em festividades religiosas.

Mesmo investido da autoridade que lhe conferia o cargo de presidente da nova Província do Paraná, Zacarias de Góis e Vasconcelos sabia que o sucesso de qualquer tentativa de conquistar algum avanço para a região estaria na dependência direta do seu bom relacionamento com as autoridades locais, no caso, os vereadores. Ele não podia se indispor, por exemplo, com o coronel Manuel Antônio Ferreira, presidente da Câmara e dono de uma fazenda com área de vinte mil metros quadrados. O local posteriormente viria a ser conhecido como Boqueirão. Zacarias também deveria cultivar uma boa relação com Benedicto Enéas de Paula, coronel da Guarda Nacional em Curitiba e vereador.
 
Os avanços conseguidos na morosa construção do cemitério municipal foram pelo coronel Enéas (cujo nome batiza oficialmente o Largo da Ordem). Nada mais justo, considerando que as Atas da Câmara revelam que ele, por diversas vezes efetuou reformas no local, assim como no bebedouro para animais localizado no cento do Largo. Chefe do Partido Liberal em Curitiba, Coronel Enéas foi também sogro de Generoso Marques, figura seminal da política paranaense da virada do século XIX para o XX.

Outro que era vereador por Curitiba quando da posse de Zacarias como Presidente da Província em 1853, foi Joaquim José Pinto Bandeira. Ele esteve preso em São Paulo devido à sua participação na Conjura Separatista de 1821, que pretendia, já àquela época, a Emancipação. Antes de se tornar vereador por Curitiba, Bandeira foi um dos primeiros sertanistas do Paraná.
 
Explorando particularmente a região de Palmas, ele mapeou as tribos indígenas remanescentes do período colonial. O camarista (vereador) José Borges de Macedo também ocupou uma cadeira na Câmara de Curitiba por ocasião da chegada do presidente Zacarias. Era uma figura antiga da política local e chegou a ser nomeado prefeito de Curitiba entre 1835 e 1838, numa situação excepcional, considerando que o cargo não existia na legislação da época.

Gênese da identidade paranaense
Durante anos, esses homens alimentaram o ideal de emancipar politicamente a Comarca de Curitiba, uma luta que chegou a gerar vítimas nos conflitos ocorridos em São José dos Pinhais nas eleições de 1852. Quando o rompimento com São Paulo finalmente aconteceu, e o Paraná se constituiu autônomo, esses vereadores tiveram de aceitar Zacarias, um presidente imposto. Apesar dessas circunstâncias, Zacarias foi muito bem recebido, conforme se verifica no relato do historiador Francisco Negrão que censurou a falta de entusiasmo do advogado nomeado pela Câmara para fazer as vezes de escrivão da Casa no evento da posse. Segundo Negrão, Laurindo Abellardo de Britto fez uma descrição asséptica e distante, abstendo-se de descrever as guirlandas dispostas por toda a cidade, a música e o povo em festa.

Poucos meses após a posse como presidente da Província, Zacarias de Góis e Vasconcelos constatou dispor de um orçamento de somente 27 contos de réis, mas em poucos meses ele conseguiu elevar essa quantia para 79 contos. Foi muito hábil também em conseguir apoio para o início de algumas políticas públicas como a que estimulou a imigração para o Paraná, a criação da imprensa oficial (jornal 19 de Dezembro) a revitalização da Estrada da Graciosa, o apoio ao ensino e o estímulo ao surgimento de novas vilas pelo território da Província. Para autores como o estudioso Wilson Martins, a administração de Zacarias se confunde com a gênese da identidade paranaense. O político também previu que a mudança nas linhas divisórias da nova Província do Paraná poderia acarretar problemas com o estado vizinho de Santa Catarina, o que se confirmaria anos mais tarde.

Uma leitura superficial das Atas da Câmara Municipal de Curitiba pode sugerir que a atuação dos vereadores não se alterou de maneira significativa com a Emancipação Política, mas Francisco Negrão ressalta que “as ordens transmitidas a todas as localidades do interior que eram as de Serra Acima, eram feitas por intermédio da Câmara Municipal de Curitiba”. A partir de 1853, além do presidente da Província, passou a existir a Assembleia Legislativa para cumprir essa função de mediação entre litoral e interior. Isso fez com que a Câmara se voltasse de forma integral para as demandas locais, o que deu início a um processo de organização do espaço urbano que se pautou pelo rigor estético e pelo higienismo, tendências proto-urbanísticas em voga no século XIX. Era o início da busca pelo controle das epidemias, como varíola, que começavam a se tornar mais frequentes na cidade e atingiriam seu auge em 1917.

Curiosidade: Da fundação de Curitiba, em 1693, até a emancipação do Paraná, transcorreram 160 anos. Desta data até hoje, também se passaram 160 anos.
 
 
Referências Bibliográficas

Alves, Alessandro Cavassin. Anais do Evento 2010, Volume 6 Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho 06 - Relações entre o Executivo e o Legislativo, processo decisório e análise de políticas governamentais. Análise comparativa de uma política governamental no Brasil Império e república. A questão da formação de municípios no Paraná.

Bósio, Artenor Luiz. Contribuições para a história legislativa da criação da Província do Paraná. Revista de informação Legislativa. Brasília a. 42 n. 166 abr./jun. 2005


Boletins do Archivo Municipal de Curityba editados  por Francisco Negrão. Volume 58


Opinião Curitiba. Conhecendo seu Bairro 28/09/2009. Boqueirão: a fazenda que se transformou num dos maiores e no mais populoso bairro de Curitiba

Macedo, Heitor Borges de. Rememorando Curitiba. Editora Lítero-Técnica. Curitiba, 1983 (impresso).

Erva “matte”: o ciclo econômico que mudou Curitiba

 

Erva “matte”: o ciclo econômico que mudou Curitiba

por Michelle Stival da Rocha

Tela “sapeco da erva mate”, pintura de Alfredo Andersen. Localizada no Museu Oscar Niemeyer. (Foto - Divulgação)

Em 23 de julho de 1849, há 164 anos, a Câmara Municipal de Curitiba recebia a incumbência, do presidente da província de São Paulo, de cobrar o imposto sobre a erva “matte”. Seriam coletados “dez réis por arroba de 'matte' na razão de seis arrobas por cargueiro” que descesse “dos municípios de serra 'assima' para os da marinha”. A Casa encaminhou aos produtores cópias da lei provincial que criou o imposto e da portaria do presidente. Conforme a ata arquivada na Biblioteca do Legislativo municipal, a Câmara também deveria comunicar outras câmaras, “a fim de que façam saber a esta se aprovam a dita resolução ou encarregarão a outrem a arrecadação das partes que lhes pertencem no dito imposto”.

No contexto desta medida, fortalecia-se um ciclo que revolucionaria Curitiba e todo o estado. O da erva-mate. Sua produção chegou a representar 85% da economia paranaense e trouxe o progresso necessário para a emancipação do estado (em 1853), que era província de São Paulo.

A extração já ocorria no Paraná desde o início do século XVIII, quando o governo português demonstrou interesse por essa atividade econômica. Mas foi quando passou a ser beneficiada no estado, nos chamados engenhos, e principalmente em Curitiba, que aconteceu a verdadeira mudança.

Diversas áreas prosperaram. Os barões do mate construíram ricos casarões em Curitiba, que até hoje adornam bairros como Batel e o Alto da Glória. As famílias mais abastadas queriam entretenimento e ansiavam pelo desenvolvimento cultural, o que tornou possível a expansão das artes. No Boletim Informativo da Casa Romário Martins “A arte Paranaense antes de Andersen”, Newton Carneiro descreve o cenário da cidade neste período. “Num jornal da década de 1860, portanto 20 anos antes da chegada do imperador a Curitiba, nós vamos assistir uma série de fatos que vão alterando o quadro, que vão promovendo a cidade de Curitiba. O primeiro deles talvez tenha sido a fixação da indústria do mate aqui no Planalto e, sobretudo, já na cidade de Curitiba”.

O cultivo ervateiro foi o responsável, inclusive, pela fundação, em 1912, da Universidade do Paraná, hoje Universidade Federal do Paraná (UFPR), que o historiador Ruy Wachowicz chamou de “A Universidade do Mate”. “Foi o dinheiro da exportação da erva-mate que fez a beleza da Curitiba tradicional. Os grandes túmulos do Cemitério Municipal, nossa universidade, conhecida como Universidade do Mate, a bela Catedral Basílica, o antigo Clube Curitibano, a Associação Comercial do Paraná – fundada pelo Barão do Serro Azul - a Capela de Nossa Senhora da Glória, mansões do Batel e do Alto da Glória”, cita Rafael Greca em uma palestra que analisou o ciclo.

Da mula ao trem
Houve ainda a necessidade de melhorar o transporte. Na época do tropeirismo, o carregamento da produção, do planalto para o litoral, era feito no lombo de mulas. Posteriormente, imigrantes poloneses, ucranianos e alemães trouxeram as carroças. Em 1882 foi inaugurada a navegação a vapor no Rio Iguaçu, por iniciativa de Amazonas de Araújo Marcondes. Os maiores vapores transportavam oitocentos sacos de erva-mate, em média.

Em 1885 foi inaugurada a ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá. O trem tornou-se então o principal veículo para o escoamento da erva-mate destinada à exportação.

O período de ouro da erva-mate estendeu-se até 1929, quando houve a queda da bolsa de Nova Iorque. A recessão atingiu o mundo todo. Mas a partir daí, Curitiba já havia alcançado expressivo desenvolvimento e outras atividades econômicas prosperavam.

*Há cinco anos a Assessoria de Comunicação da Câmara publica textos sobre pessoas, lugares e eventos que marcaram a história de Curitiba.
 

Museu Paranaense – Parque histórico do mate.

Discurso de Rafael Greca.

A Erva-mate na economia do Paraná.

Carneiro, Newton. A Arte Paranaense antes de Andersen, Boletim Informativo da Casa Romário Martins – Ano VII – nº 43 – Setembro de 1980.

WACHOWICZ, Ruy Christovam. A Universidade do Mate: História da UFPR, Editora da UFPR, Curitiba, 1983
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A nevasca e outros fatos que marcaram Curityba no ano de 1928

 

A nevasca e outros fatos que marcaram Curityba no ano de 1928

por João Cândido Martins 

A imagem da Praça Osório registrada em 1928 mostra o aumento da dinâmica da cidade (Imagem: Casa da Memória)

Substituir o engenheiro João Moreira Garcez à frente da prefeitura de Curitiba. Essa era a missão do advogado e ex-deputado estadual Eurides Cunha, em 1928. Um verdadeiro desafio, considerando que Garcez ocupou o cargo por oito anos, tendo promovido algumas mudanças significativas na estrutura e na estética da cidade. Para o pesquisador Valter Fernandes da Cunha Filho, os prefeitos Cândido de Abreu (gestão 1912-1916) e João Moreira Garcez (1920-1928) foram determinantes para que a população associasse administração eficaz a critérios científicos.

O entendimento genérico era de que o novo urbanismo necessário ao desenvolvimento da cidade só poderia ser realizado por um engenheiro (o modelo de profissional técnico-científico alimentado no imaginário da população). Eurides não preenchia esse requisito, mas mesmo assim, foi convidado pelo presidente do estado, Affonso Camargo, para ocupar a cadeira de prefeito.

Houve problemas na realização de serviços essenciais e os jornais publicavam constantes reclamações, mas ainda segundo Cunha Filho, “a gestão Eurides Cunha esteve muito longe de se caracterizar pela inércia”. Entre suas contribuições, destacaram-se melhorias pontuais no sistema de esgoto e a construção de um matadouro nas imediações da estrada da Graciosa, em substituição ao antigo (e precário) Matadouro do Guabirotuba, fundado em 1889. Foi também sob sua gestão que passaram a funcionar os primeiros ônibus coletivos, administrados pela mesma empresa que fornecia energia elétrica para a população.

Independente das dificuldades administrativas, Eurides foi obrigado a entregar o cargo por ocasião da Revolução de 30. Foi substituído por Lothário Meissner, engenheiro. Anos depois, a Câmara nomeou uma praça com o nome de Eurides da Cunha.

O castelo

A Câmara Municipal votou naquele ano um novo Código de Posturas (regulamentação geral sobre questões urbanas como manutenção de edificações, etc). Um concurso promovido pela prefeitura elegeu a chamada Villa Emilinha como a casa mais exuberante da cidade, mas a grande construção residencial curitibana surgida em 1928 foi o Castelo do Batel, também conhecido como Palacete Luiz Guimarães. Milionário do café, Guimarães solicitou ao engenheiro Eduardo Fernando Chaves que fosse ao Vale do Loire, na França e buscasse inspiração para o projeto de um castelo. Ao retornar, o engenheiro justificou o dinheiro gasto em sua ida. Proporcionou ao proprietário Luiz Guimarães aquela que foi considerada por muito tempo, a residência mais luxuosa de todo o Brasil. Seus detalhes externos e internos são objeto de estudo  até hoje, representando a ostentação arquitetônica habitual entre os privilegiados daquele período.

Outra construção que mudou a paisagem de Curitiba foi o Palácio Avenida, construído na esquina entre a rua XV e a Travessa Oliveira Bello. O prédio mesclava residência e comércio, mas o que de fato chamava atenção era o Cine Avenida, instalado no térreo. Ele se tornou o cinema mais importante e concorrido da nascente Cinelândia que se instalava naquela região.

A poucos metros do Cine Avenida, surgiu a sede da Secretaria da Saúde Pública, que posteriormente se tornou a sede da Secretaria do Trabalho e da Assistência Social. Atualmente o prédio comporta o Museu de Arte Contemporânea (MAC). O Colégio Dom Pedro II também surgiu em 28 e sua excelência de ensino contribuiu para o status de região nobre, alimentado pelos moradores do Batel desde o final do século XIX.

Variedades
Romário Martins se estabeleceu como o grande líder do Movimento Paranista que, desde o ano anterior possuía sede, publicações e passava a repercutir junto ao imaginário da população. Contribuiu para isso o surgimento da revista Illustração Paranaense, publicação que exaltava o Paraná e o sentimento de “Paranismo”. A qualidade (textual e gráfica) da revista que era administrada pelo fotógrafo João Groff, conseguiu se manter até o advento da revolução de 30, mas sua influência ainda se faz sentir, por exemplo, nos pinhões desenhados nos calçamentos de petit-pavé do centro da Curitiba. Ainda no contexto paranista, o grande nome que despontou em Curitiba foi o da Miss Paraná, Didi Caillet. Simpática, culta, reconhecidamente bela, Didi conquistou o segundo lugar no concurso de Miss Brasil, embora liderasse a preferência do público. Tornou-se uma referência da cena cultural do Paraná.

Quem chegasse a Curitiba naquele ano de 1928 poderia frequentar o recém-inaugurado Bar Palácio, na Rua Barão do Rio Branco. Poderia comprar para seu filho as balas Zequinha, que interessavam mais pelas figuras da personagem Zequinha em múltiplas situações. Poderia torcer a favor ou contra o Britânia Sport Club, que  conquistou o heptacampeonato paranaense em 1928. Também poderia ler os primeiros versos da jovem Helena Kolody (16 anos completos em 1928) publicados na revista Garoto. Título: “A Lágrima”.    

Dois nomes importantes da cena local se foram naquele ano: Generoso Marques e Nilo Cairo. O primeiro, político emblemático da cena paranaense da virada do século XIX para o XX, e o segundo, médico, fundador da Universidade do Paraná e entusiasta da homeopatia. Também em 28, acontecia o julgamento de Febrônio Índio do Brasil, psicopata preso no Rio de Janeiro sob a acusação de ser o responsável pela morte de vários jovens. Ele se fazia passar por dentista e houve quem dissesse que teria vivido em Curitiba por pelo menos alguns meses. Nunca ficou determinado se Febrônio fez alguma vítima por aqui, mas a mera suposição de que caminhou entre os curitibanos dominou as rodas de conversas.

Estes foram alguns dos fatos que marcaram Curitiba em 1928, mas o evento que realmente ficou gravado na mente e na memória afetiva dos curitibanos foi a nevasca que se precipitou durante os dias 3 e 4 de julho, embranquecendo toda a cidade. Para muitos, o aspecto proporcionado pela neve acabou disseminando a ideia de que Curitiba seria a mais “europeia” das capitais, impressão que, em muitos sentidos, ainda repercute. Além de algumas fotografias da neve de 28, há também um filme realizado pela empresa Botelho Filmes que exibe imagens do fenômeno.

Referências Bibliográficas

Lei ordinária 1.125/1955 (denomina logradouro como Eurides Cunha)

As Virtudes do Bem Morar (sobre o engenheiro Eduardo Fernando Chaves)

Cidade e Sociedade: A gênese do urbanismo moderno em Curitiba (1889-1940)
Dissertação apresentada Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1998. Valter Fernandes da Cunha Filho

Irã Dudeque Espirais de Madeira Espirais de madeira: uma história da arquitetura de Curitiba. Irã Taborda Dudeque, Studio Nobel. Curitiba, 2001.

OS JORNAIZINHOS DO CARNAVAL DE ANTIGAMENTE

 OS JORNAIZINHOS DO CARNAVAL DE ANTIGAMENTE

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Nos bons tempos em que a gente se divertia nos blocos de rua e nos cordões nos clubes recreativos, era comum a circulação de jornais carnavalescos. Em Curitiba os tivemos até em língua alemã e polonesa.  Irei postando aos poucos os exemplares que possuo e aqueles que for conseguindo, de sorte que esta publicação será sempre acrescida de alguma novidade.  O intuito não é formular teses históricas, deixo isto para os mestrandos e doutorandos em história. aqui só queremos trazer à luz as imagens, manter viva a memória. E divertir, ora, principalmente divertir !





                                                  MI-CARÊME




                                     Esse primeiro jornal é curioso porque não é do carnaval e sim do segundo carnaval, haha, quem diria, isso aconteceu em Curitiba em 31 de março de 1934.  A Mi-carême é uma festa de origem francesa, pós-carnavalesca, que se festeja nas Antilhas, em muitas cidades da França, no Canadá e... em 1934, pelo menos, se festejou em Curitiba.