sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Templo do Sol de Konarak: Obra-Prima da Arquitetura e História de Odixa

 


Templo do Sol
Património Mundial da UNESCO
Critérios(i) (iii) (vi)
Referência246 en fr es
PaísÍndia
CoordenadasKonarak, Índia
Histórico de inscrição
Inscrição1984
Nome usado na lista do Património Mundial

O Templo do Sol é um dos mais importantes e famosos templos indianos dedicados a Surya, o deus do Sol. Está localizado no vilarejo histórico de Konarak, na província de Odixa.[1]

História

O templo foi construído por volta de 1250 pelo Rei Langula Narasimha Dev (1238-1264 ou 1282), da Dinastia Ganga, com as obras supervisionadas pelo arquiteto-chefe Bishu Maharana. No século XVI o templo foi parcialmente destruído pelo general afegão Kalapahad, um hindu converso ao Islamismo, que invadiu o então reino de Odixa em 1508 e atacou diversos outros edifícios sagrados da região. As imagens dos deuses foram depredadas e a grande torre teve seu arco de sustentação deslocado, causado seu colapso e danificando as outras estruturas do entorno.

Contudo, diz a tradição que os sacerdotes de Konarak conseguiram esconder a estátua principal da deidade e a enterraram na areia, onde teria permanecido por anos, e mais tarde teria sido de lá retirada e levada para o templo de Indra no complexo de Jagannath. Alguns consideram que a imagem jamais foi encontrada, e outros afirmam que uma estátua de Surya mantida no Museu Nacional de Delhi é aquela perdida. De qualquer forma o culto a Surya encerrou com a remoção de sua imagem do templo, e com isso a cidade entrou em decadência, sendo abandonada e envolvida pela selva. Posteriormente o complexo foi espoliado em diversas ocasiões para utilização de seu material em outros edifícios, e no século XVIII estava desprovido da maior parte dos adornos que podiam ser removidos. Até o início do século XIX as ruínas do templo estavam cobertas de entulho e areia, o que de certa forma preservou os remanescentes da rica decoração que hoje apresenta.

Características

Estátua de Surya na fachada sul

O templo, alinhado na direção leste-oeste, é todo construído à semelhança de uma carruagem, o carro do Sol, puxada por sete cavalos e com doze pares de rodas de pedra, e tem as fachadas cobertas de relevos. Como outros templos indianos, o complexo se compõe de uma edificação principal em forma de torre (vimana), originalmente com cerca de 70 m de altura, onde estava entronizada a imagem da divindade; um átrio piramidal (jagamohana) de cerca de 40 m, a estrutura melhor preservada atualmente, com entradas nas quatro faces, uma das quais ligada ao sanctum (antarala), de onde os devotos podiam vislumbrar a imagem; uma sala de refeições (bhoga-mandapa) e uma sala de dança (nirtya-mandapa ou nat mandir), onde eram feitas homenagens dançadas ao deus.

Em termos de estilo o templo de Konarak pertence à escola Kalinga, com torreões curvilíneos coroados por cúpulas, e sua planta é similar a outros complexos religiosos da província. Apesar de ter sofrido muitos prejuízos em sua história e estar em estado de ruína parcial, o templo é famoso por suas harmoniosas proporções e por sua rica e profusa decoração escultórica em todas as fachadas, com inúmeras figuras em relevo de vários tamanhos e em múltiplas posições, com dançarinos, divindades, animais, criaturas míticas, caçadores, cenas cortesãs e também cenas sensuais, além de intrincados padrões decorativos geométricos e fitomorfos. Na base se enfileiram 1.452 elefantes esculpidos. Parte das suas esculturas está preservada em um museu criado para este fim, anexo aos edifícios. A beleza da construção fez o poeta Rabindranath Tagore escrever que "aqui a linguagem da pedra sobrepuja a linguagem humana". Originalmente os relevos, feitos em arenito, eram cobertos por uma fina camada de gesso, que era pintada em viva policromia, ainda presente em alguns pontos.

Outro ângulo
Detalhe de uma das rodas

Dos grupos escultóricos se destacam as grandes imagens do deus Surya em três lados do templo principal. A do lado sul figura o deus em sua juventude, simbolizando o sol nascente. A do oeste representa o sol do meio-dia, no vigor da idade madura, em sua carruagem tirada por sete cavalos e dirigida por Aruna, o seu auriga. A terceira estátua, ao norte, mostra o deus com sinais visíveis de cansaço, simbolizando o sol ao fim do dia, e ele cavalga um dos cavalos, que representa os derradeiros raios de luz antes da noite.

Também são interessantes as 24 grandes rodas esculpidas na pedra, simbólicas das 24 horas do dia, e que aumentam a impressão do edifício ser uma grande carruagem; os sete belos cavalos, um para cada dia da semana, segundo a tradição chamados Gyatri, Usnika, Anustuv, Vrihati, Pangti, Tristup e Jagati, e a grande arquitrave que pertencia à entrada principal do jagamohana, com personificações dos nove planetas da tradição hindu: Suria (Sol), Chandra (Lua), Mangala (Marte), Buda (Mercúrio), Brihaspati (Júpiter), Shukra (Vênus), Shani (Saturno), Rahu (Nodo Ascendente) e Quetu (Nodo Descendente). Esta arquitrave sofreu uma tentativa de remoção em 1893 para ser levada a um museu, mas devido ao seu peso foi cortada em duas, e por causa do areal em torno não pôde ser carregada, sendo deixada à distância. Atualmente está em um abrigo especial. Os inúmeros elefantes que circundam o prédio foram encontrados soterrados e dispersos, e foram instalados equivocamente em plataformas voltadas para o templo, quando deveriam estar voltados para fora, saudando a multidão dos devotos que chegam.

Referências

  1. Odissi - Uma Arte Milenar acessado em 29 de Janeiro de 2008

O Templo do Sol de Konarak: Obra-Prima da Arquitetura e História de Odixa

O Templo do Sol é um dos monumentos mais emblemáticos e celebrados da Índia, consagrado a Surya, a divindade solar. Situado no vilarejo histórico de Konarak, na província de Odixa (antiga Orissa), na costa oriental indiana, este complexo arquitetónico destaca-se pela sua grandiosidade artística e pelo profundo simbolismo cosmológico, sendo classificado como Património Mundial da UNESCO.

Origem e Construção (Século XIII)

O templo foi erguido por volta de 1250 d.C. durante o reinado do soberano Langula Narasimha Dev (que reinou entre 1238 e 1264 ou 1282), pertencente à Dinastia Ganga Oriental. A imensa empreitada construtiva foi supervisionada pelo lendário arquiteto-chefe Bishu Maharana.

Concebido como uma representação colossal em pedra da carruagem cósmica do deus Surya, o templo original impressionava pelas suas proporções e riqueza escultórica. A carruagem divina era puxada por sete cavalos esculpidos e montada sobre vinte e quatro rodas gigantescas ricamente ornamentadas, que funcionavam também como relógios solares de precisão.

O Declínio: Invasão, Destruição e Abandono

A grandiosidade do monumento começou a desmoronar-se no século XVI, num período de profundas turbulências geopolíticas na região:

  • A Invasão de Kalapahad (1508): O templo foi severamente danificado pelas forças do general afegão Kalapahad (um hindu convertido ao Islão), que invadiu o reino de Odixa e promoveu campanhas de destruição contra diversos santuários sagrados da região.

  • Colapso Estrutural: Durante os ataques, as imagens sagradas foram depredadas e o arco de sustentação da grande torre principal (shikhara) foi deslocado. Esta avaria estrutural provocou o colapso progressivo da torre central, cujos escombros caíram sobre e danificaram gravemente as restantes estruturas do complexo.

O Mistério da Estátua Principal

A tradição local relata que os sacerdotes do templo conseguiram resgatar a estátua principal de Surya, enterrando-a na areia para protegê-la da profanação. Anos mais tarde, a imagem teria sido desenterrada e transladada para o templo de Indra, no complexo sagrado de Jagannath (em Puri). Contudo, a historiografia e a arqueologia dividem-se: enquanto alguns entendem que a estátua original nunca foi recuperada, outros sustentam que uma escultura de Surya atualmente guardada no Museu Nacional de Nova Deli corresponde à imagem perdida.

Com a remoção da divindade titular e a destruição do complexo, o culto a Surya cessou. A cidade perdeu a sua relevância económica e espiritual, entrando num acelerado processo de decadência até ser totalmente abandonada e engolida pela vegetação da selva circundante.

Espoliação e Redescubrimento

Nos séculos seguintes, o complexo arruinado serviu como pedreira improvisada, sendo espoliado em várias ocasiões para o reaproveitamento de materiais de construção noutros edifícios da região. Por volta do século XVIII, o monumento encontrava-se depauperado, desprovido da maior parte dos seus adornos removíveis.

Paradoxalmente, até ao início do século XIX, as ruínas encontravam-se profundamente soterradas sob montes de entulho e areia trazidos pelos ventos e pela erosão. Embora este soterramento representasse o esquecimento do local, acabou por desempenhar um papel protetor, preservando sob camadas de terra os intocados e detalhados baixos-relevos que hoje encantam os visitantes.


A Fortaleza de Santo Ângelo de Cananor: Sentinela do Malabar e Símbolo do Império Português na Índia

 


"Canonor" (Georg Braun e Frans Hogenberg. "Civitates orbis terrarum", vol. I, 1572).
Cananor ("Livro das Plantas das Fortalezas", 1635).
Fortaleza de Santo Ângelo (c. 1820).
Fortaleza de Santo Ângelo de Cananor (1913).

A Fortaleza de Santo Ângelo de Cananor, também referida como Castelo de Santo Ângelo ou Fortaleza de Cananor, localizava-se na cidade portuária de Cananor, no estado de Querala, na costa sudoeste da Índia.

A costa do Malabar constituía-se numa expressiva região produtora e exportadora de especiarias, nomeadamente a pimenta. Ao final do século XV caracterizava-se politicamente como um mosaico de pequenos reinos. Estes, embora maioritariamente hindus, abrigavam comunidades expressivas de mercadores islamizados. Entre eles incluía-se o reino de Kolathunad, cujos rajás pertenciam à família Kolathiri. Na passagem para o século XVI, o porto de Cananor era o mais destacado deste reino, atrás apenas, a nível regional, pelo principal entreposto de especiarias do Malabar, a cidade de Calicute.[1]

Tornou-se possessão portuguesa entre 1505 e 1663, quando foi conquistada por forças neerlandesas, passando depois para o domínio da Grã-Bretanha.

História

A cidade foi avistada pela armada de Vasco da Gama já em 1498, mas só foi visitada por uma armada portuguesa em janeiro de 1501, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, em resposta a um convite do soberano local. Ao final desse mesmo ano, a armada de João da Nova, assinalou a presença portuguesa em Cananor com o estabelecimento de uma feitoria, reorganizada no ano seguinte (1502) por Vasco da Gama, que ali deixou como feitor Gonçalo Gil Barbosa. Daqui eram exportados principalmente gengibre, cardamomo, e importados cavalos para os exércitos do Império de Vijayanagar.[1]

As rivalidades com os mercadores islamizados locais logo se fizeram sentir, de modo a que, em outubro de 1505, a armada do futuro Vice-rei, D. Francisco de Almeida demorou-se na cidade, em negociações com o soberano local para a construção de uma fortaleza capaz de defender a feitoria. Bem-sucedidas, a fortificação começou a ser erguida ainda no mesmo ano, em posição dominante sobre um extenso promontório que se projetava sobre o mar, dominando a baía, a alguma distância a leste da cidade de Cananor. Principiou-se por erguer uma muralha pelo lado de terra, antecedida por um fosso, atrás da qual se desenvolvia o corpo da feitoria-fortaleza, dominado pela torre de menagem, ao lado da qual se erguia a casa do capitão.[1]

Entre maio e agosto de 1507, a fortaleza sofreu um duro assédio, o chamado cerco de Cananor. O ataque deveu-se a uma questão de sucessão dinástica na família Kolathiri que conduziu ao trono um herdeiro favorável aos interesses do Samorim de Calicute e da comunidade de mercadores islamizados de Cananor, tradicionais inimigos dos portugueses.[1] O Vice-rei D. Francisco de Almeida foi avisado da preparação do mesmo pelo corsário hindu Timoji, que abasteceu a fortaleza durante o cerco. Este apenas foi levantado diante da chegada de uma armada de socorro (27 de agosto de 1507, sob o comando de Tristão da Cunha, que levou o soberano local a assumir uma posição conciliatória com os Portugueses. Francisco Serrão integrava esta armada.[2] O episódio é recordado em um verso de "Os Lusíadas": "Vereis a fortaleza sustentar-se / De Cananor, com pouca força e gente; (...)"[3]

Em agosto de 1509 Almeida, recusando-se a reconhecer Afonso de Albuquerque como novo governante a sucedê-lo, deteve-o nesta fortaleza após a Batalha Naval de Diu. Albuquerque foi libertado após três meses de confinamento, e assumiu o cargo com a chegada de uma frota maior, em outubro de 1509. Albuquerque fez reconstruir a fortaleza.

A fortaleza foi reforçada em 1526 por iniciativa do então governador D. Lopo Vaz de Sampaio. A Cananor portuguesa desenvolvia-se então a leste do corpo central da fortaleza: entre esta e a muralha exterior situava-se a parte habitacional onde, no século XVII residiam cerca de quarenta famílias de "casados" portugueses e trinta de "casados da terra" (cristãos nativos). A oeste, na extremidade do promontório, localizavam-se o cais e as edificações do hospital, dos armazéns (mantimentos e munições), e uma ermida. Para além das muralhas da cidade portuguesa, desenvolvia-se uma área mista, habitada por população luso-indiana ou cristianizada, além de uma pequena aldeia piscatória hindu. A cidade nativa de Cananor, designada como "bazar dos mouros" pelas fontes portuguesas, situava-se no centro da baía a alguma distância da fortaleza portuguesa.[1]

Sob o governo do Vice-rei D. Antão de Noronha, durante o cerco de 1565, D. António de Noronha foi o responsável pela sua defesa, uma vez que o seu capitão à época, D. Paio de Noronha a desejava abandonar.[4]

Em 1663 Cananor foi conquistada por forças neerlandesas, ano da queda da cidade de Cochim, pondo fim à influência comercial português na costa do Malabar. Os neerlandeses modernizaram a antiga fortificação portuguesa, sendo erguidos novos baluartes, com os nomes de "Hollandia", "Zeelandia" e "Frieslandia", que são as principais estruturas que chegaram aos nossos dias. A primitiva estrutura portuguesa foi posteriormente demolida. Os neerlandeses venderam a fortificação ao sultão Ali Raja de Arakkal em 1772.

Poucos anos mais tarde, em 1790 foi conquistada por forças britânicas, quando se converteu no quartel-general das forças militares britânicas na costa do Malabar até 1887.

A fortificação encontra-se bem preservada como monumento protegido sob a autoridade do "Archaeological Survey of India".

Uma pintura deste forte, vendo-se barco com pescadores na baía de Mappila encontra-se exposta no Rijksmuseum em Amesterdão.

A cabeça de Kunjali Marakkar foi exibida nos muros da fortaleza após o seu assassinato.

Da fortificação manuelina, com grandes alterações introduzidas no século XIX pelos britânicos, restam apenas vestígios da primitiva torre e do muro sobre as rochas da praia.

Características

A fortificação portuguesa, na extremidade de uma ponta rochosa, era dominada por uma torre de três pavimentos, em torno da qual se encontravam as casas do capitão e a feitoria, conjunto essencialmente inalterado até ao século XVII. A cidade portuguesa encontrava-se envolvida por um muro abaluartado numa extensão de 550 metros, defendido por um fosso.

Estado atual

O Porto da Baía de Moppila e a Mesquita de Arakkal estão perto do forte. O forte está agora bem mantido sob a supervisão do Serviço Arqueológico da Índia. Os turistas têm permissão para entrar no forte todos os dias da semana, das 8h às 18h.

Referências

  1.  «Cananor». FCSH da UNL. Consultado em 2 de Julho de 2011
  2. "Francisco Serrão". in História de Portugal – Dicionário de Personalidades. Edição QuidNovi, 2004.)
  3. CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas, Canto II, 52
  4. «NORONHA, D. António de». in FCSH da UNL. Consultado em 2 de Julho de 2011

Bibliografia

  • CARRASCO, Carlos. "Cananor". Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses (v. I). p. 185.
  • DANVERS, Frederick Charles. The Portuguese in India: being a history of the rise and decline of their eastern empire (Vol. 2). London: Elibron Classics, 2007.
  • EDAKKAD, Sathyan. Vasco da Gama and the Unknown Facts of History.
  • EDAKKAD, Sathyan. Kannur Kaanaan Ariyaan.

A Fortaleza de Santo Ângelo de Cananor: Sentinela do Malabar e Símbolo do Império Português na Índia

A Fortaleza de Santo Ângelo de Cananor (também referida historicamente como Castelo de Santo Ângelo) ergue-se na cidade portuária de Cananor (Kannur), no estado de Querala, na costa sudoeste da Índia. Ao longo dos séculos, esta fortificação foi palco de intensas disputas geopolíticas, comerciais e religiosas, funcionando como um dos pilares da presença europeia no Oceano Índico — primeiro sob a coroa portuguesa, mais tarde dominada por neerlandeses e, por fim, integrada no sistema militar do Império Britânico.

O Contexto Geopolítico da Costa do Malabar

Na charneira entre os séculos XV e XVI, a costa do Malabar configurava-se como uma região de importância vital para o comércio internacional, destacando-se como a principal bacia produtora e exportadora de especiarias do mundo, com particular ênfase na pimenta. Politicamente, o território fragmentava-se num mosaico de pequenos reinos que, embora predominantemente hindus, integravam comunidades mercantis islamizadas altamente influentes nas rotas do Índico.

Nesse cenário, o reino de Kolathunad — governado pelos rajás da família Kolathiri — destacava-se regionalmente. Na passagem para o século XVI, o porto de Cananor era o segundo mais importante da região, ficando apenas atrás do emporium de Calicute. A chegada dos navegadores portugueses viria a desestabilizar este equilíbrio de forças, transformando Cananor num ponto nevrálgico da Carreira da Índia.

Cronologia da Presença e Evolução Arquitetónica

Da Chegada Lusa à Fundação da Fortaleza (1498–1505)

A cidade foi avistada pela primeira vez pela armada de Vasco da Gama em 1498, no regresso da sua viagem pioneira. No entanto, o primeiro contacto formal ocorreu em janeiro de 1501, com a armada de Pedro Álvares Cabral, a convite do soberano local.

No final desse mesmo ano, João da Nova estabeleceu ali uma feitoria portuguesa, a qual foi reorganizada em 1502 por Vasco da Gama, que deixou Gonçalo Gil Barbosa como feitor residente. Deste porto escoavam-se produtos como gengibre e cardamomo, além de se importarem cavalos essenciais para os exércitos do Império de Vijayanagar.

As fricções com os mercadores islamizados locais intensificaram-se rapidamente. Em outubro de 1505, o primeiro vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, negociou com o soberano de Kolathunad a construção de uma fortificação permanente para proteger os interesses lusos. A construção iniciou-se de imediato em posição dominante sobre um extenso promontório rochoso sobranceiro ao mar e à baía. O núcleo primitivo manuelino compreendia:

  • Uma muralha voltada para terra, protegida por um fosso;

  • O corpo principal da feitoria-fortaleza;

  • A torre de menagem e a casa do capitão.

O Cerco de Cananor (1507)

Entre maio e agosto de 1507, a fortaleza enfrentou o seu teste mais severo durante o célebre cerco de Cananor. O conflito irrompeu na sequência de uma crise dinástica na família Kolathiri, que levou ao trono um herdeiro hostil aos portugueses e alinhado com o Samorim de Calicute e com os mercadores muçulmanos locais.

Advertido antecipadamente pelo corsário hindu Timoji — que também abasteceu a guarnição sitiada —, D. Francisco de Almeida manteve a resistência até à chegada de uma armada de socorro a 27 de agosto de 1507, comandada por Tristão da Cunha (na qual integrava o navegador Francisco Serrão). O socorro militar obrigou o soberano local a capitular e a restabelecer a paz. O episódio ficou imortalizado na literatura épica de Luís de Camões em Os Lusíadas:

"Vereis a fortaleza sustentar-se / De Cananor, com pouca força e gente; (...)"

O Confinamento de Afonso de Albuquerque (1509)

Em agosto de 1509, num momento de grave crise de autoridade interna no Estado da Índia, D. Francisco de Almeida — recusando-se a reconhecer a nomeação do seu sucessor — deteve Afonso de Albuquerque nesta fortaleza após a Batalha Naval de Diu. Albuquerque permaneceu confinado durante três meses, sendo libertado apenas em outubro de 1509 com a chegada de uma frota de reforço. Assumindo finalmente o governo, Albuquerque ordenaria posteriormente a reconstrução e melhoria das defesas do complexo.

A Expansão Urbana da Cananor Portuguesa

As defesas foram novamente reforçadas em 1526 por ordem do governador D. Lopo Vaz de Sampaio. A povoação portuguesa expandiu-se para leste do núcleo militar central:

  • Área Residencial: Situada entre a fortaleza e a muralha exterior, abrigava no século XVII cerca de quarenta famílias de "casados" portugueses e trinta de "casados da terra" (cristãos nativos).

  • Zona de Serviços (Oeste): Na extremidade do promontório concentravam-se o cais, o hospital, os armazéns de mantimentos e munições, e uma ermida.

  • Periferia: Rodeando a cidade europeia, desenvolvia-se uma área mista habitada por populações luso-indianas e cristianizadas, além de uma aldeia piscatória hindu. A cidade nativa ("bazar dos mouros") localizava-se mais ao centro da baía.

Em 1565, sob o governo do Vice-rei D. Antão de Noronha, a fortaleza resistiu a novo cerco, destacando-se a ação de D. António de Noronha, que assumiu a defesa da praça contra a vontade do capitão então em funções, D. Paio de Noronha, que pretendia abandoná-la.

O Domínio Neerlandês e Britânico

O ciclo português em Cananor encerrou-se em 1663, ano em que a praça foi conquistada pelas forças da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, coincidindo com a queda de Cochim. Os neerlandeses empreenderam uma profunda modernização da fortificação, adaptando-a à artilharia moderna através da construção de novos baluartes batizados com os nomes de Hollandia, Zeelandia e Frieslandia — estruturas que constituem o núcleo principal visível nos nossos dias, tendo a primitiva traça manuelina sido progressivamente demolida.

Em 1772, os neerlandeses venderam o forte ao sultão Ali Raja de Arakkal. Pouco mais de uma década depois, em 1790, a fortificação foi tomada pelas forças britânicas, convertendo-se no quartel-general militar do Reino Unido na costa do Malabar até 1887, o que acarretou novas alterações arquitetónicas significativas no século XIX.

Estado de Conservação e Legado Histórico

Atualmente, a Fortaleza de Santo Ângelo encontra-se bem preservada e classificada como monumento protegido sob a tutela do Archaeological Survey of India.

Do período da fundação manuelina restam apenas escassos vestígios da antiga torre e troços de muralha assentes sobre as rochas da praia junto à baía de Mappila. A memória histórica do forte perdura também na iconografia internacional, destacando-se uma pintura histórica da fortaleza e da baía de Mappila que se encontra exposta no Rijksmuseum de Amesterdão.

Nota histórica curiosa: Entre os episódios mais sombrios associados às lutas pelo controle do mar, regista-se que a cabeça do corsário e almirante malabar Kunjali Marakkar foi exibida nos muros da fortaleza após a sua execução.