sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Circulando por Curitiba: Lambrequins nas Residências Curitibanas Por Washington Takeuchi

 Do beiral pingam lambrequins rendados.

Estalactites de saudade?
Lágrimas do passado?
(MANOSSO, Radamés)

Em Curitiba, o uso de lambrequins nas residências data do final do século XIX. As edições subsequentes à de 1858 do Dicionário da Língua Portuguesa de Antonio de Morais Silva, definia lambrequim como sendo “ornato com recortes de madeira ou lâmina metálica para beirais de telhado, cortinas, etc..” Existem dúvidas quanto à origem da palavra, mas a hipótese mais aceita é que surgiu do neerlandês medieval. Lamperkijn seria o diminutivo de lamper, que significava pano, véu, (atualmente a grafia neerlandesa é lambrekijn).

De desconhecimento em desconhecimento, acreditou-se que os lambrequins eram uma prova clara da influência germânica ou italiana, pois os construtores alemães eram os mais ativos da cidade no final do século XIX. Mas como havia alemães e italianos em outras partes do Brasil, onde os lambrequins não eram tão triviais, a solução foi inventar genealogias que acabaram ligando os lambrequins aos poloneses. Ora, se a maioria dos poloneses que imigraram para o Brasil se estabeleceram na região de Curitiba, e como só em Curitiba todas as casas de madeira foram decoradas com lambrequins, o lambrequim só podia estar relacionado aos poloneses ou, pelo menos, esta seria a “origem mais provável”, sem que outras hipóteses fossem formuladas. E, assim, o modismo, que se transformou numa imposição legal, seria divulgado como uma particularidade cultural da arquitetura de Curitiba, influenciada por um grupo étnico.

Mas o erro historiográfico cometido pelos arquitetos curitibanos acabaria se revelando um acerto histórico. Aquilo que era uma infâmia, tornou-se uma honraria. Graças a esse erro, uma parcela da arquitetura de madeira de Curitiba escapou do furor destrutivo semelhante ao que ocorrera no início da década de 1950 quando, a imprensa exigia que as construções coloniais fossem extirpadas da urbe.

Fonte:

1.Site www.lambrequim.net
2.Livro: Espirais de madeira: uma história da arquitetura de Curitiba. Autor: Dudeque, Irã José Taborda Dudeque

Fotografias: Washington Takeuchi

Circulando por Curitiba: Lambrequins nas Residências Curitibanas
Por Washington Takeuchi
Do beiral pingam lambrequins rendados.
Estalactites de saudade?
Lágrimas do passado?
Assim escreveu, com a delicadeza de quem enxerga poesia onde outros veem apenas madeira, o poeta Radamés Manosso. E é exatamente assim que devemos caminhar por Curitiba: com os olhos erguidos, atentos aos recortes que dançam sob os telhados, aos arabescos que desenham sombras no chão das calçadas, aos pequenos milagres de carpintaria que transformam uma simples casa em verso suspenso no ar.
Imagine uma tarde de sol dourado na Rua XV de Novembro, nos arredores do Água Verde ou no bairro Alto da Glória. Você caminha devagar — afinal, quem corre não vê lambrequins — e, de repente, lá está ele: um recorte de madeira branca, verde-musgo ou azul-celeste, recortado como renda de bilro, balançando suavemente com a brisa da Serra do Mar. São flores estilizadas, volutas barrocas, folhas de hera ou simples ondulações que parecem ter sido desenhadas por fadas carpinteiras. Cada um conta uma história. Cada um é um suspiro do século XIX preso no beiral.
A aventura dos lambrequins em Curitiba começou timidamente no final do século XIX, quando a cidade, ainda menina de pés descalços e ruas de terra, começou a se vestir com elegância europeia. As edições do Dicionário da Língua Portuguesa de Antônio de Morais Silva, a partir de 1858, já os definiam com precisão poética: "ornato com recortes de madeira ou lâmina metálica para beirais de telhado, cortinas, etc." Mas de onde veio essa palavra tão musical, tão cheia de curvas na própria pronúncia?
A etimologia nos leva a uma viagem encantadora. A hipótese mais aceita aponta para o neerlandês medieval: lamperkijn, diminutivo de lamper, que significava "pano" ou "véu" (na grafia atual do holandês, lambrekijn). Imagine só: um véu de madeira pendendo do telhado, como se a casa usasse um lenço rendado para proteger-se da chuva com graça. Não há metáfora mais curitibana que essa — a cidade que aprendeu a dançar com o frio, a vestir-se de neblina e a transformar a necessidade em beleza.
Por muito tempo, porém, contou-se outra história. Acreditou-se, com entusiasmo quase religioso, que os lambrequins eram presente dos poloneses, herança dos carpinteiros que chegaram à região a partir de 1870. Afinal, os alemães construíam com vigor, os italianos com cor, mas só em Curitiba — dizia-se — todas as casas de madeira exibiam esses enfeites com tal profusão. Era lógico: poloneses + madeira + renda = lambrequins! Pronto: nascia uma lenda urbana, repetida em guias turísticos, palestras e até em placas de museu.
Só que havia um problema: alemães e italianos estavam em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo — e lá os lambrequins não proliferaram assim. Poloneses havia em outras regiões — e também não levaram consigo essa "tradição". A verdade é mais simples e, ao mesmo tempo, mais fascinante: os lambrequins foram um modismo arquitetônico, um trend do final do século XIX que varreu cidades do sul do Brasil, impulsionado por catálogos de serralherias alemãs e pela facilidade de recortar madeira com as novas serras mecânicas. Era charme, era status, era a cidadezinha querendo parecer Paris ou Varsóvia — mesmo que por fora apenas.
Mas aqui reside a mais bela ironia da história curitibana: esse equívoco historiográfico salvou vidas. Sim, vidas de madeira, de tinta descascada, de memórias familiares. Na década de 1950, quando o progresso rugia pelas ruas com bulldozers e promessas de "modernidade", a imprensa local clamava pelo extermínio das "construções coloniais" — consideradas atrasadas, feias, empecilhos ao desenvolvimento. Derrubava-se sem piedade. Mas as casas com lambrequins? Ah, essas foram poupadas. Por quê? Porque, graças à lenda dos poloneses, passaram a ser vistas não como meras construções antigas, mas como patrimônio étnico-cultural, símbolo de uma identidade única. O erro tornou-se escudo. A invenção, proteção. O que era infâmia — a falsa atribuição étnica — transformou-se em honraria: o direito de existir.
Hoje, caminhar pelos bairros históricos de Curitiba é fazer uma caça aos tesouros silenciosos. Na Vila Torres, nos sobrados da Rua Mateus Leme, nas casinhas coloridas do São Francisco, os lambrequins resistem. Alguns intactos, outros desbotados pelo tempo, alguns recém-restaurados com tinta fresca e carinho de neto que ouviu as histórias do avô. Há os que imitam a renda portuguesa, os que lembram vitrais góticos, os minimalistas de três curvas apenas — cada carpinteiro deixava sua assinatura invisível.
E quando chove — ah, quando chove em Curitiba! — os lambrequins ganham função poética: as gotas escorrem por seus recortes como lágrimas ordenadas, formando cortinas líquidas que emolduram o mundo lá fora. É nesse instante que Manosso se revela profeta: sim, são estalactites de saudade. Saudade de quando as casas tinham tempo para enfeites, quando o construtor assobiava enquanto serrava, quando uma família inteira se reunia na varanda para ver a chuva cair — protegida por um véu de madeira que alguém, um dia, recortou com amor.
Os lambrequins não são apenas ornamento. São resistência. São a prova de que Curitiba, apesar de seus arranha-céus e corredores verdes, nunca esqueceu de olhar para cima — e de valorizar o detalhe que não serve para nada, a não ser para alegrar o coração de quem passa.
Que continuem pingando do beiral. Que continuem sendo estalactites de saudade — não de um passado perdido, mas de um futuro onde ainda haja espaço para a delicadeza. Porque uma cidade que preserva seus lambrequins é uma cidade que sabe: a alma mora nos detalhes.
Fotografias: Washington Takeuchi
Fontes consultadas: lambrequim.net; Dudeque, Irã José Taborda. "Espírcas de madeira: uma história da arquitetura de Curitiba"

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