Domingos Soares Fragoso Nascido cerca 1740 - Curitiba, Paraná, Brasil Baptizado a 25 de janeiro de 1740 (segunda-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil Falecido a 7 de agosto de 1819 (sábado) - Curitiba, Paraná, Brasil, com cerca de 79 anos
Domingos Soares Fragoso: O Patriarca que Tecceu Raízes na Terra dos Pinheirais
Uma jornada de quase oito décadas entre perdas, renascimentos e o silêncio majestoso das araucárias
I. O Batismo sob as Sombras das Araucárias (1740)
Na madrugada de 25 de janeiro de 1740, enquanto o sino da modesta capela de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais ecoava entre vales ainda selvagens, Domingos Soares Fragoso recebia as águas do batismo nas mãos de um padre que mal imaginava estar abençoando um dos futuros pilares da Curitiba colonial. Nascera sob o signo de São Paulo — dia da conversão do apóstolo — numa terra onde portugueses, índios e mestiços disputavam espaço entre campos gerais e florestas de araucárias centenárias. Seu berço não foi de berços dourados, mas de chão batido e paredes de taipa, num arraial que ainda respirava o cheiro úmido da terra virgem e o suor dos que ousavam domar a fronteira sul do Império.
Seus pais, João Soares Fragoso — homem de origens nebulosas, talvez filho de reinóis ou de uma linhagem já enraizada no sertão — e Pascoa Das Neves, mulher cujo nome evocava promessas bíblicas, deram-lhe não apenas o sangue, mas a resiliência necessária para sobreviver numa época em que cada amanhecer era uma vitória. Domingos cresceu ouvindo histórias de tropeiros que desciam do planalto em busca de mulas, de índios kaingangues que ainda percorriam os campos com liberdade, e do zumbido distante das missões jesuíticas — que, em 1759, seriam extintas, alterando para sempre o mapa humano do Paraná.
II. A Orfandade que Moldou um Homem (1752)
Aos doze anos, o mundo de Domingos desmoronou em silêncio. No dia 26 de agosto de 1752, Pascoa Das Neves partiu, deixando um vazio que nenhum registro paroquial poderia capturar. Um menino de doze anos, diante da morte da mãe numa época sem analgésicos para a alma, aprendeu cedo o que significava ser homem na fronteira: não havia espaço para lágrimas prolongadas. Seu pai, João, logo buscaria consolo nos braços de Inês de Siqueira Chaves Da Silva — união breve, efêmera como a própria Inês, que morreria no mesmo ano do casamento (1745), deixando Domingos com meios-irmãos que mal chegou a conhecer: João Francisco e Miguel José, cujas vidas seguiriam rumos distintos nas veredas do sertão paranaense.
Essa orfandade precoce não o quebrou; temperou-o. Enquanto outros jovens sonhavam com as riquezas das minas de Vila Rica, Domingos fixou os olhos na terra que pisava. Aprendeu a ler os sinais das estações, a distinguir o chão fértil do pedregoso, a negociar com tropeiros que traziam sal e levavam couro. Tornou-se, antes dos vinte anos, um homem de confiança — expressão da época para quem honrava palavra dada e sabia lidar com bois e com homens com igual firmeza.
III. O Juramento diante do Altar: Maria Dias Camacho e a Grande Família (1765)
No outono de 1765, aos vinte e cinco anos — idade em que muitos já eram pais de filhos crescidos — Domingos caminhou até a igreja matriz com Maria Dias Camacho ao seu lado. Ela, nascida em 1750, trazia nos olhos a serenidade das mulheres que sabem que seu destino será feito de partos, orações e trabalho incansável. Naquele 30 de outubro, diante do padre e da comunidade curitibana — então pouco mais de duzentas almas —, dois jovens prometeram construir algo maior que si mesmos: uma linhagem.
E que linhagem nasceria dali!
Entre 1767 e 1797, Maria daria à luz onze filhos — cada nascimento uma batalha contra a mortalidade infantil que ceifava vidas com indiferença cruel. Ana Francisca veio primeiro, em 1767, batizada em Tamanduá — sinal de que Domingos já expandia seus domínios além dos limites da vila. Depois veio Manoel, cuja vida breve (1769-1778) deixaria uma cicatriz silenciosa no coração do pai: uma criança de nove anos, levada por febre ou disenteria, enterrada sob uma cruz rústica no adro da igreja. Domingos enterrou o filho com as próprias mãos, como se enterra uma parte da própria juventude.
Mas a vida insistia em renascer. Antonio nasceu por volta de 1770; Floriano em 1780, em Balsa Nova — localidade que crescia às margens do rio Iguaçu; Teodoro em 1782; Joaquim em 1785; Francisco em 1787; Pedro em 1791, em Tamanduá, onde Domingos mantinha sesmarias para criação de gado. Entre os meninos, duas meninas frágeis: Maria, que viveu apenas um ano (1796-1797), e Joana Maria, nascida em 1797, já quando Domingos caminhava para os sessenta.
Cada filho era uma raiz lançada à terra. Domingos não apenas gerava vidas; distribuía herdeiros pelas fronteiras em expansão: Tamanduá, Balsa Nova, São José dos Pinhais — cada localidade ganhava um Fragoso para cultivar, criar gado, fundar capelas. Era assim que se construía um império familiar na América portuguesa: não com coroas, mas com sementes.
IV. O Luto e o Recomeço: Isabel Maria Cordeiro (1806-1807)
Em 4 de março de 1806, aos sessenta e seis anos, Domingos enfrentou a perda mais profunda: Maria Dias Camacho partiu, deixando um silêncio que preencheu a casa de memórias. Quase quarenta anos de casamento. Onze filhos gerados. Netos já correndo pelos campos — Bento, Ana, Bárbara, Manoel... Maria vira florescer a árvore que plantara com Domingos.
Mas a vida na fronteira não permitia lutos prolongados. Aos sessenta e sete anos — idade em que muitos já se recolhiam à espera da morte — Domingos surpreendeu a todos. No dia 1º de agosto de 1807, diante do mesmo altar onde jurara amor a Maria, uniu-se a Isabel Maria Cordeiro, mulher nascida por volta de 1740, talvez viúva como ele, talvez companheira para enfrentar a solidão dos últimos anos. Não houve filhos desse casamento — as forças da natureza já haviam se esgotado — mas houve dignidade. Havia, naquele gesto, uma recusa heroica à melancolia: enquanto houvesse fôlego, haveria vida.
V. O Patriarca no Crepúsculo: Testemunha de uma Era que Findava
Nos últimos anos, Domingos transformou-se em monumento vivo. Sentado à porta de sua casa de taipa, via desfilar diante dos olhos a história que ajudara a escrever:
— Antonio, seu filho mais velho ainda vivo, casara-se em 1795 com Floriana de Chaves de Almeida, unindo duas famílias pioneiras.
— Teodoro, em 1803, desposara Feliciana Rodrigues França — os França, outra estirpe que marcara a região.
— Pedro, o caçula dos que sobreviveram à infância, casara-se em 1811 com Ana Rodrigues França, perpetuando alianças.
— Netos multiplicavam-se como capim após a chuva: Eusébio, Constância, João, Mariana, Rosa, Joaquim... cada batismo em Curitiba era um novo ramo na árvore genealógica.
Enquanto isso, o mundo mudava ao seu redor. Em 1808, a família real portuguesa aportava no Brasil, fugindo de Napoleão. Em 1815, o Brasil tornava-se Reino Unido a Portugal. Domingos, porém, permanecia fiel ao seu universo: a terra, o gado, os filhos, os netos. Suas fronteiras eram as do coração — não as do mapa.
VI. A Partida: 7 de Agosto de 1819
Na manhã de sábado, 7 de agosto de 1819, Domingos Soares Fragoso fechou os olhos para sempre. Tinha cerca de setenta e nove anos — uma longevidade rara para a época. Morreu na mesma Curitiba onde nascera, mas numa cidade transformada: já não era mais um arraial isolado, mas um importante entreposto tropeiro, com ruas definidas, casas de pedra e calçada, e uma igreja matriz que substituíra a capela humilde de sua infância.
Foi enterrado em solo sagrado, talvez ao lado de Maria Dias Camacho — como convinha a um casal que construíra uma nação em miniatura. Seu testamento não era de papel, mas de sangue e memória: dez filhos que chegaram à idade adulta; dezenas de netos espalhados pelas terras do Paraná; uma linhagem que sobreviveria a impérios, repúblicas e revoluções.
VII. Legado: O Sangue que Corre nas Veias do Paraná
Domingos Soares Fragoso não foi herói de batalhas nem fundador de cidades. Foi algo mais raro e essencial: um continuador. Num tempo em que cada vida era frágil como folha ao vento, ele teceu teimosamente os fios da existência — casou, gerou, educou, perdeu, recomeçou. Suas perdas (a mãe aos doze anos; o filho Manoel; a esposa Maria) não o endureceram; ensinaram-lhe que a única resposta à morte é a vida — mais vida, mais filhos, mais raízes.
Hoje, seus descendentes — diretos ou por alianças — formam um rio subterrâneo que irriga o Paraná moderno. Nos rostos de milhares de curitibanos, nas ruas que levam nomes de seus netos, nas fazendas que ainda guardam sesmarias originais, Domingos permanece. Não como estátua de bronze, mas como sussurro nas araucárias, como o cheiro da terra molhada após a chuva, como a certeza silenciosa de que, mesmo na fronteira mais remota, mesmo diante da morte mais cruel, é possível deixar raízes tão profundas que o tempo não as arranca.
E assim, entre o batismo de janeiro de 1740 e o enterro de agosto de 1819, completou-se a jornada de um homem que, sem saber, tornou-se pedra fundamental de uma pátria chamada Paraná.
- Nascido cerca 1740 - Curitiba, Paraná, Brasil
- Baptizado a 25 de janeiro de 1740 (segunda-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil
- Falecido a 7 de agosto de 1819 (sábado) - Curitiba, Paraná, Brasil, com cerca de 79 anos
Pais
Casamento(s) e filho(s)
- Casado a 30 de outubro de 1765 (quarta-feira), Curitiba, Paraná, Brasil, com Maria Dias Camacho 1750-1806 tiveram
- Casado a 1 de agosto de 1807 (sábado), Curitiba, Paraná, Brasil, com Isabel Maria Cordeiro ca 1740-
Meios irmãos e meias irmãs
Notas
Notas individuais
Fontes
- Pessoa: A Família Soares Fragoso - Henrique Fendrich - Y
- Casamento 2: FamilySearch Family Tree (https://www.familysearch.org) - "FamilySearch Family Tree," database, FamilySearch - The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints - accessed 2 Jul 2024), entry for Domingos Soares Fragoso, person ID 9NPF-CXQ.
Árvore genealógica (até aos avós)
Casamento de um meio-irmão
Casamento de um meio-irmão
Nascimento de um filho
Baptismo a 11 de junho de 1778 (São José dos Pinhais, Paraná, Brasil)
Nascimento de um filho
Balsa Nova, Paraná, Brasil
Baptismo a 15 de dezembro de 1780 (Balsa Nova, Paraná, Brasil)
Nascimento de um filho
Baptismo a 26 de dezembro de 1782 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um filho
Baptismo a 25 de outubro de 1785 (Curimatá, Piauí, Brasil)
Nascimento de um filho
Baptismo a 16 de maio de 1791 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 14 de junho de 1796 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma filha
Baptismo a 21 de maio de 1797 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 8 de setembro de 1797 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 1 de janeiro de 1801 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 15 de junho de 1803 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 16 de janeiro de 1805 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 23 de setembro de 1805 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 21 de fevereiro de 1806 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 28 de setembro de 1807 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 26 de julho de 1808 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 4 de dezembro de 1808 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 9 de agosto de 1809 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 8 de julho de 1810 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 14 de abril de 1811 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 25 de maio de 1811 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 9 de abril de 1813 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 7 de novembro de 1813 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 12 de fevereiro de 1814 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 23 de junho de 1814 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 24 de janeiro de 1815 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 20 de novembro de 1816 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 22 de novembro de 1817 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de um neto
Baptismo a 7 de junho de 1818 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Nascimento de uma neta
Baptismo a 11 de junho de 1818 (Curitiba, Paraná, Brasil)
Antepassados de Domingos Soares Fragoso
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