Denominação inicial: Grupo Escolar Macedo Soares
Denominação atual: Colégio Estadual Macedo Soares
Endereço: Rua XV de Novembro, 2.241 - Centro
Cidade: Campo Largo
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação
Data: 1936
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 1940
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício com uso cultural
Grupo Escolar Macedo Soares - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 4677
Entre Arcos e Sonhos: O Grupo Escolar Macedo Soares e a Aurora do Art Déco em Campo Largo
Quando a geometria elegante dos anos 1940 ergueu, em forma de U, um templo à modernidade no coração do planalto paranaense
I. O Brasil que Sonhava em Linhas Retas (1936)
Enquanto Getúlio Vargas moldava um novo Brasil nas salas do Catete, enquanto o rádio trazia aos lares distantes as vozes de Carmen Miranda e o sussurro da Segunda Guerra Mundial, um projeto silencioso nascia nos gabinetes do Departamento de Obras e Viação do Paraná. Era 1936. Nas pranchetas dos engenheiros estaduais, surgia não apenas um prédio escolar — mas uma declaração de fé no futuro.
O traço era firme, geométrico, ousado: linhas horizontais alongadas como o horizonte dos campos gerais; ângulos precisos que desafiavam a organicidade das araucárias; ornamentos estilizados que evocavam tanto as máquinas modernas quanto os ritmos tribais da terra. Era o Art Déco — linguagem nascida nos salões parisienses de 1925, mas que encontrara no Brasil uma alma própria, tropicalizada pela luz do trópico e pela ambição de um país que queria pertencer ao mundo moderno.
E ali, na Rua XV de Novembro, número 2.241, em Campo Largo — cidade que desde o século XIX respirava o cheiro do couro tropeiro e da erva-mate — erguer-se-ia um monumento à razão iluminada: o novo Grupo Escolar Macedo Soares.
II. A Forma que Ensina: A Tipologia em "U" como Abraço Pedagógico
Não foi acaso que os arquitetos escolheram a tipologia em "U". Enquanto o edifício anterior (1911) erguera-se como bloco único — símbolo da unidade imposta —, esta nova construção abria-se como um abraço. As duas alas laterais, unidas por um corpo central, formavam um pátio interno protegido — espaço sagrado onde a educação transcendia as quatro paredes da sala de aula.
Naquele "U" invertido, havia filosofia:
— A ala esquerda destinava-se às meninas, com salas voltadas para o nascente, recebendo a luz suave da manhã — como convém à delicadeza que a época ainda atribuía ao feminino.
— A ala direita acolhia os meninos, orientada para o poente, onde o sol da tarde aquecia corpos destinados ao trabalho dos campos e das oficinas.
— O corpo central, com seu hall majestoso e escadaria simétrica, era o território neutro da razão: direção, biblioteca, auditório — o coração administrativo e cultural da escola.
— A ala direita acolhia os meninos, orientada para o poente, onde o sol da tarde aquecia corpos destinados ao trabalho dos campos e das oficinas.
— O corpo central, com seu hall majestoso e escadaria simétrica, era o território neutro da razão: direção, biblioteca, auditório — o coração administrativo e cultural da escola.
Mas o verdadeiro milagre acontecia no pátio interno. Ali, sob o céu aberto do planalto, meninos e meninas compartilhavam o recreio, as brincadeiras, os primeiros flertes. A arquitetura, sutilmente, ensinava o que os manuais não ousavam: que, apesar das separações impostas pelo costume, todos bebiam da mesma fonte do conhecimento. O "U" não era apenas forma — era promessa de unidade.
III. O Estilo que Contava Histórias: Art Déco nas Terras do Caulim
Chegar ao Grupo Escolar Macedo Soares em 1940 era experimentar um choque estético suave mas profundo. Enquanto as casas ao redor ainda exibiam frontões ecléticos ou fachadas neoclássicas herdadas do Império, o novo edifício escolar anunciava: o futuro chegou.
Suas características marcantes revelavam a alma do Art Déco brasileiro:
— As linhas horizontais alongadas, quase cinematográficas, que faziam o edifício "flutuar" visualmente sobre o terreno — efeito reforçado por frisos contínuos em concreto armado, material ainda novidade no interior paranaense.
— Os vitrais geométricos nas escadas, onde triângulos e losangos coloridos projetavam no chão padrões que mudavam com a hora do dia — primeira lição de geometria para crianças que mal sabiam ler.
— Os relevos estilizados nas portas principais: não mais anjos barrocos ou santos católicos, mas formas abstratas que sugeriam espigas de trigo (homenagem à agricultura local) e ondulações que evocavam os rios Iguaçu e Rola-Moça.
— A simetria rigorosa do conjunto, quase ritualística — reflexo do ideal varguista de ordem e progresso, mas também eco da tradição ceramista campo-larguense, onde cada peça de louça exigia equilíbrio perfeito.
— Os vitrais geométricos nas escadas, onde triângulos e losangos coloridos projetavam no chão padrões que mudavam com a hora do dia — primeira lição de geometria para crianças que mal sabiam ler.
— Os relevos estilizados nas portas principais: não mais anjos barrocos ou santos católicos, mas formas abstratas que sugeriam espigas de trigo (homenagem à agricultura local) e ondulações que evocavam os rios Iguaçu e Rola-Moça.
— A simetria rigorosa do conjunto, quase ritualística — reflexo do ideal varguista de ordem e progresso, mas também eco da tradição ceramista campo-larguense, onde cada peça de louça exigia equilíbrio perfeito.
Curiosamente, o Art Déco encontrara em Campo Largo terreno fértil. A cidade, berço da indústria cerâmica paranaense graças às jazidas de caulim, já vivia a estética da forma pura — o vaso bem torneado, a telha perfeitamente moldada. O novo grupo escolar não era estrangeiro; era a materialização em concreto da mesma busca pela harmonia que os oleiros locais praticavam diariamente com barro e fogo.
IV. O Tempo da Construção: Operários, Sonhos e a Sombra da Guerra (1936-1940)
Levaram quatro anos para erguer o sonho. Entre 1936 e 1940, operários campo-larguenses — muitos filhos de imigrantes italianos e poloneses que chegaram na grande leva pós-abolição — trabalharam com uma precisão quase religiosa. Misturavam cimento trazido de São Paulo com areia do rio, assentavam tijolos com argamassa de cal e areia, poliam degraus de mármore branco até brilharem como gelo.
Era um tempo ambivalente. Enquanto martelavam pregos e nivelavam pisos, notícias da Europa chegavam aos poucos: Hitler marchava sobre a Polônia; a França caía; o mundo mergulhava na escuridão. Mas ali, no planalto paranaense, erguia-se algo oposto à destruição — um templo dedicado à construção do espírito humano.
Contam os mais velhos que, na véspera da inauguração, o mestre-de-obras italiano Luigi Bellini — responsável pela execução dos detalhes ornamentais — passou a noite inteira ajustando o último friso do frontão. Quando perguntado por que tanto cuidado com algo que poucos notariam, respondeu em seu português truncado: "Per i bambini. Tutto deve essere perfetto per i bambini." (Para as crianças. Tudo deve ser perfeito para as crianças.)
V. A Inauguração: 1940 — Quando o Sino Tocou pela Primeira Vez
No outono de 1940, sob um céu de nuvens altas típicas do planalto, autoridades estaduais, professores de vestidos engomados e crianças de sapatos novos reuniram-se diante da fachada imponente. O governador do Paraná — ou seu representante — cortou a fita. O padre abençoou o edifício. E então, pela primeira vez, o sino de bronze ecoou entre as alas em "U", chamando os primeiros alunos para a primeira aula.
Entrar naquele espaço era atravessar um limiar. O hall de entrada, com seu piso de mosaico hidráulico em padrões geométricos, conduzia a um corredor central onde retratos de vultos nacionais — Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Anita Garibaldi — observavam os passos dos pequenos cidadãos em formação. As salas de aula, amplas e arejadas graças às janelas em fita características do Art Déco, recebiam luz natural em abundância — revolução para uma época em que muitas escolas ainda dependiam de lampiões à querosene.
Ali se ensinava mais que o abc. Ali se forjava o brasileiro moderno: patriótico mas crítico, trabalhador mas sonhador, enraizado na terra mas aberto ao mundo. As crianças aprendiam a cantar o Hino Nacional diante da bandeira, mas também a resolver problemas de matemática com o mesmo rigor com que seus pais calculavam o peso das cargas de erva-mate. A escola não rompia com as raízes campo-larguenses — elevava-as à dignidade do conhecimento sistemático.
VI. Macedo Soares: O Nome que Une Duas Eras
Manter o nome "Macedo Soares" para este novo edifício não foi mero conservadorismo — foi ato de memória consciente. Enquanto o prédio de 1911 (na esquina próxima) representava a primeira onda da instrução pública republicana, este novo templo Art Déco assumia a herança e a transcendia. Joaquim de Macedo Soares — juiz, historiador, cronista sensível do Paraná oitocentista — via seu legado renovado na linguagem da modernidade.
Havia poesia nessa continuidade: o homem que registrara a alma tropeira do século XIX agora dava nome a um edifício que prepararia meninos e meninas para operar máquinas, ler jornais impressos em linotipos e, quem sabe, sonhar com aviões. A história não fora apagada — fora integrada ao progresso. Assim como o Art Déco europeu absorvera influências egípcias e mesoamericanas para criar algo novo, Campo Largo absorvia sua própria história para projetar-se no futuro.
VII. O Legado Vivo: Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual
Décadas se passaram. O Brasil viveu ditaduras e redemocratizações. Campo Largo transformou-se de entreposto agrícola em polo industrial cerâmico e mineral. O Grupo Escolar Macedo Soares, por sua vez, evoluiu para Colégio Estadual — ampliando seu escopo do primário ao médio, adaptando-se às reformas educacionais, mas mantendo a alma intacta.
O edifício sofreu alterações — novas alas anexas, modernizações técnicas, pinturas atualizadas — mas sua estrutura original em "U", seus frisos geométricos, sua escadaria central permanecem como testemunhas silenciosas. Hoje, adolescentes com celulares nos bolsos cruzam os mesmos corredores onde, em 1940, crianças de pés descalços aprenderam a escrever seus nomes. O contraste não é ruptura — é continuidade viva.
E quando o sol da tarde incide sobre a fachada oeste, projetando sombras alongadas dos frisos Art Déco no pátio interno, ainda é possível ouvir, se prestarmos atenção ao silêncio entre as aulas, o eco distante daquele primeiro sino de 1940. É o som da promessa cumprida: geração após geração, o "U" aberto continua acolhendo sonhos, transformando vidas, tecendo a história de Campo Largo uma criança de cada vez.
Epílogo: A Lição que a Pedra Ensina
O Grupo Escolar Macedo Soares de 1940 não é apenas um prédio tombado na pasta 4677 da Coordenadoria do Patrimônio do Estado. É um documento vivo da utopia educacional brasileira — momento raro em que o Estado, com recursos limitados mas visão clara, investiu na beleza como direito de todos.
Num país que frequentemente opõe funcionalidade a estética, Campo Largo ousou afirmar: crianças pobres merecem escolas belas. Meninos de famílias de ceramistas e tropeiros mereciam aprender entre paredes que dialogavam com Paris e Nova York. A dignidade humana não se mede pelo orçamento — revela-se na qualidade do espaço onde se forma o espírito.
E assim, entre a Rua XV de Novembro e o silêncio eloquente de suas linhas Art Déco, o Colégio Estadual Macedo Soares permanece como farol. Não um monumento ao passado, mas um convite permanente: entre. Sente-se à carteira. Olhe pela janela em fita para o horizonte do planalto. E lembre-se — você também é herdeiro daqueles que acreditaram que ensinar a ler é o ato mais revolucionário que uma sociedade pode praticar.
Pois toda criança que aprende a soletrar seu nome diante de um friso geométrico Art Déco não apenas decifra letras — decifra o próprio futuro. E nesse instante sagrado, o edifício em forma de "U" cumpre sua missão mais profunda: não apenas abrigar corpos, mas abrir caminho para almas.

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