sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Entre Paredes de Tijolos e Sonhos: A História Silenciosa do Grupo Escolar Cristovão Colombo que se Tornou Abraham Lincoln

 Denominação inicial: Grupo Escolar Cristovão Colombo

Denominação atual: Colégio Estadual Abraham Lincoln

Endereço: Rua Zacarias de Paula Xavier, 561 – Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Abraham Lincoln em 2014 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2018

Entre Paredes de Tijolos e Sonhos: A História Silenciosa do Grupo Escolar Cristovão Colombo que se Tornou Abraham Lincoln

Nas manhãs de inverno de 1948, enquanto o vapor do café fresco se misturava à névoa que descia da Serra do Mar sobre os campos de Colombo, operários erguiam tijolo sobre tijolo uma promessa silenciosa. Na Rua Zacarias de Paula Xavier, número 561, no coração do Centro da cidade que respirava italianidade em cada esquina, nascia um edifício destinado a abrigar não apenas crianças, mas os sonhos de uma nação que, após a Segunda Guerra, redescobria a educação como caminho para a redenção. O Grupo Escolar Cristovão Colombo — futuro Colégio Estadual Abraham Lincoln — erguia-se em forma de "U", como dois braços abertos esperando acolher gerações.

O Sonho em Formato de "U": Arquitetura como Abraço Pedagógico

Projetado pela Secretaria de Viação e Obras Públicas do Paraná em 1948, o edifício não era mero conjunto de salas e corredores. Sua tipologia em "U" — traço característico dos grupos escolares padronizados da era Vargas — tinha intenção quase maternal: criar um pátio central protegido, um coração pulsante onde as crianças brincariam sob olhar vigilante dos professores nas varandas. A linguagem neocolonial, com telhados de quatro águas, beirais salientes e detalhes em madeira escura, não era capricho estético. Era afirmação identitária: num Brasil que buscava raízes entre o moderno e o tradicional, aquela arquitetura dizia que a educação pública podia ser bela, digna, quase sagrada.
As paredes de tijolos aparentes, pintadas em tons terrosos que lembravam a terra fértil dos campos de Colombo, aqueciam-se ao sol da manhã. As janelas altas, com venezianas de madeira que rangiam suavemente ao vento, permitiam que a luz dourada do Paraná inundasse as salas onde carteiras de ferro fundido aguardavam corpos pequenos. No centro do "U", o pátio de terra batida — que anos depois se tornaria cimento — testemunharia rodas de ciranda, partidas de peteca com penas de galinha verdadeira, e o cheiro inconfundível de lancheira de lata contendo polenta fria ou pão com mortadela.

Colombo em 1948: Entre o Sotaque Italiano e o Sonho Brasileiro

Fundada por imigrantes italianos em 1878, Colombo na década de 1940 ainda respirava dialetto trentino nas ruas de terra. Os sobrenomes Dalpiaz, Michielon, Zanette ecoavam nos comércios da Rua XV de Novembro. Muitos pais que enviavam seus filhos ao recém-inaugurado Grupo Escolar Cristovão Colombo mal sabiam escrever seus próprios nomes — haviam deixado os vinhedos do Trentino para trabalhar na extração de madeira ou na agricultura de subsistência. Para eles, a escola representava algo revolucionário: a possibilidade de que seus filhos falassem português sem sotaque, assinassem documentos sem cruz, olhassem nos olhos de autoridades sem baixar a cabeça.
O nome "Cristovão Colombo" não era escolha casual. Num Brasil que celebrava a italianidade como componente da identidade nacional — especialmente após o esforço diplomático de Getúlio Vargas para integrar os descendentes de imigrantes ao projeto nacional — homenagear o navegador genovês era gesto de reconciliação. Era dizer aos filhos de italianos: "Vocês pertencem a esta terra. Seu sangue ajudou a descobri-la, agora ajudem a construí-la."

O Tilintar do Sino e o Ritual Sagrado da Aprendizagem

Imaginemos uma manhã de abril de 1950. O sino de ferro, pendurado sob a cumeeira do bloco central, tilintava às sete horas em ponto. Crianças descalças ou com sapatos remendados cruzavam o portão de ferro forjado — algumas trazendo lancheiras de pano, outras apenas com a promessa de um copo de leite distribuído pelo governo estadual. Nas salas, o cheiro de giz novo e cera de assoalho misturava-se ao perfume das flores do jasmim que trepavam pelas colunas do pátio.
A professora, de vestido engomado e cabelo preso em coque severo, escrevia no quadro-negro com letra cursiva impecável: "A, de Abelha. B, de Borboleta." As crianças repetiam em coro, vozes ainda marcadas pelo sotaque dos avós que cultivavam uvas nos fundos de casa. Na aula de História, aprendiam que Colombo descobrira a América — sem saber que, décadas depois, seu próprio edifício mudaria de nome para homenagear outro símbolo de liberdade: Abraham Lincoln.

A Mudança de Nome: Quando Lincoln Substituiu Colombo

Entre o final dos anos 1950 e início da década de 1960 — período não documentado com precisão nos registros oficiais — o Grupo Escolar Cristovão Colombo transformou-se em Colégio Estadual Abraham Lincoln. A mudança refletia não apenas a evolução pedagógica (de "grupo escolar" para "colégio", indicando expansão para séries mais avançadas), mas também o contexto geopolítico da Guerra Fria. Num Brasil que buscava aproximação com os Estados Unidos através da Aliança para o Progresso, homenagear o presidente que abolira a escravidão tornava-se gesto simbólico de modernidade e alinhamento com valores democráticos.
Para os antigos alunos, a transição foi suave, quase imperceptível. A mesma professora Dona Iolanda que ensinara a tabuada em 1955 continuava corrigindo redações em 1965. As mesmas paredes que ouviram "Parabéns a Você" cantado em italiano ouviram, anos depois, versões em português. O pátio que vira meninos brincarem de "guerra" com espadas de bambu durante a Segunda Guerra agora testemunhava debates sobre direitos civis inspirados no movimento de Martin Luther King Jr.

O Legado nas Rachaduras das Paredes

Hoje, em 2026, o Colégio Estadual Abraham Lincoln permanece de pé na Rua Zacarias de Paula Xavier. Suas paredes exibem marcas do tempo: pinturas sobrepostas, janelas substituídas por alumínio anodizado, o pátio central agora pavimentado. O telhado de quatro águas ainda desenha sua silhueta neocolonial contra o céu de Colombo, mas sob as telhas de cerâmica modernas escondem-se as originais, que sobreviveram a décadas de chuvas de granizo típicas da região.
Dentro dele, adolescentes com celulares nas mãos transitam pelos mesmos corredores onde, setenta anos antes, crianças descalças corriam para a aula de canto. O cheiro de giz deu lugar ao aroma de xerox e café da cantina. Mas algo permanece intacto: a função sagrada daquele espaço. A mesma promessa contida em cada tijolo assentado em 1948 — de que a educação é o único legado que a pobreza não pode roubar — continua viva nos olhos de jovens que, talvez filhos de imigrantes bolivianos ou haitianos, encontram naquelas salas a mesma esperança que os netos de italianos encontraram décadas atrás.

Epílogo: A Escola que Nunca Dorme

Nas noites de lua cheia, dizem os moradores mais antigos de Colombo que é possível ouvir, vindo do prédio escolar, o eco distante de vozes infantis recitando a tabuada. Não são fantasmas — são memórias impregnadas na alvenaria, sonhos cristalizados no reboco das paredes. O Grupo Escolar Cristovão Colombo/Colégio Estadual Abraham Lincoln nunca foi apenas um edifício. Foi mãe substituta para filhos de pais que trabalhavam na roça desde o amanhecer; foi refúgio para crianças que fugiam de casas onde a fome falava mais alto que o carinho; foi portal por onde gerações inteiras de colombenses cruzaram da ignorância para a cidadania.
Seus tijolos viram meninos que aprenderam a ler ali se tornarem engenheiros que projetaram estradas pelo Paraná; viram meninas que soletravam "pátria" com dificuldade se transformarem professoras que ensinaram a soletrar para outras crianças. Cada rachadura na parede conta uma história; cada degrau gasto do corredor central carrega a marca de milhares de passos rumo ao futuro.
E assim, entre a memória de Colombo e o legado de Lincoln, entre o sotaque italiano das origens e o português fluente das novas gerações, o edifício em forma de "U" permanece de braços abertos — não mais apenas para abraçar crianças, mas para abraçar o tempo inteiro, guardando em seu silêncio a certeza de que, enquanto houver uma sala de aula com luz acesa, haverá esperança. E enquanto houver esperança, haverá Brasil.

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