Denominação inicial: Grupo Escolar Manoel Pedro
Denominação atual: Colégio Estadual General Carneiro
Endereço: Rua Marechal Floriano Peixoto, 290 - Centro
Cidade: Lapa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data:
Estrutura: padronizado
Tipologia: T
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Manoel Pedro - s/d
Acervo: Memorial Lysimaco Ferreira da Costa
O Santuário das Letras na Rua Floriano: O Grupo Escolar Manoel Pedro e a Memória Viva do Saber na Lapa Heroica
Na Rua Marechal Floriano Peixoto, 290, no coração do Centro Histórico da Lapa, ergue-se com dignidade serena um edifício em forma de T cujas linhas elegantes do Art Déco carregam nas paredes o eco de gerações que ali aprenderam a soletrar o mundo. Este é o Grupo Escolar Manoel Pedro, hoje Colégio Estadual General Carneiro — não apenas uma construção de alvenaria, mas um templo secular onde, desde a década de 1930, meninos e meninas de pés descalços cruzaram o limiar do analfabetismo para ingressar na cidadania plena. Suas janelas em arco, seus detalhes geométricos suaves e sua tipologia em T — projeto padronizado pelo Departamento de Obras e Viação do Paraná — não são meros elementos arquitetônicos: são a materialização de um sonho republicano que ousou declarar, mesmo nas fronteiras agrícolas do Paraná, que todo ser humano merece o direito sagrado de ler, escrever e pensar.
Entre Heróis e Letras: A Lapa que Resistiu com Armas e com Cartilhas
Para compreender a alma desta escola, é preciso mergulhar na história da Lapa — cidade marcada para sempre pelo Cerco de 1894, quando por 26 dias heroicos seus moradores resistiram aos assaltos federalistas sob o comando do Marechal Gomes Carneiro, que tombou defendendo a jovem República . Sangue regou aquelas ruas; coragem forjou a identidade da cidade. Mas após os canhões se calarem e os mortos serem enterrados, surgiu outro combate — silencioso, cotidiano, igualmente heroico: o combate pela instrução.
Num Paraná que em 1930 ainda contava com índices alarmantes de analfabetismo, onde a escola pública era privilégio de poucos e o interior vivia à margem dos avanços educacionais, cada Grupo Escolar erguido era um ato de fé revolucionária. Enquanto o Brasil vivia os primeiros anos da Era Vargas — com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 1930 inaugurando nova era para a instrução nacional —, o Paraná embarcava em ambiciosa reforma escolar liderada por visionários como Lysimaco Ferreira da Costa, educador que compreendeu que sem professores formados não haveria escolas dignas .
Foi neste contexto que nasceu o Grupo Escolar Manoel Pedro — edifício padronizado, simétrico, funcional, mas carregado de simbolismo profundo: a escola não mais como barracão precário anexo à igreja, mas como espaço autônomo de formação cidadã, onde a higiene do corpo caminhava junto com a higiene do espírito, onde a luz natural entrava pelas amplas janelas para combater não apenas a escuridão física, mas a ignorância ancestral.
Manoel Pedro: O Homem Esquecido que Deu Nome ao Sonho
Quem foi Manoel Pedro? Os documentos oficiais calam-se em detalhes biográficos específicos — e nesse silêncio reside uma verdade profunda: Manoel Pedro talvez nunca tenha existido como figura histórica notável. Talvez seja um nome simbólico — homenagem coletiva a todos os Manoéis e Pedros anônimos que, ao longo da história da Lapa, ergueram escolas com as próprias mãos, ensinaram crianças à luz de lampiões, doaram terrenos para que o saber tivesse teto.
Ou talvez Manoel Pedro tenha sido um professor leigo da primeira metade do século XIX — aquele homem de bigode cerrado que, nas noites após o trabalho na roça, reunia crianças sob uma árvore centenária para ensiná-las a formar letras com gravetos na terra batida. Talvez tenha sido um tropeiro que, ao retornar de viagens longas, trazia na bagagem não apenas mercadorias, mas cartilhas impressas em Curitiba ou São Paulo, distribuindo-as generosamente entre as famílias mais pobres. Talvez tenha sido um comerciante que, compreendendo que o progresso verdadeiro nasce da instrução, doou recursos para erguer as primeiras salas de aula na vila ainda incipiente.
Não importa quem foi. Importa o que representa: a crença inabalável de que mesmo nos rincões mais distantes do sertão paranaense, onde o pinheiro ainda dominava a paisagem e as estradas eram apenas trilhas de mulas, merecia existir um espaço sagrado dedicado ao saber. Manoel Pedro é, portanto, todos os educadores anônimos que, sem glória nem medalhas, transformaram gerações de analfabetos em cidadãos letrados — verdadeiros heróis silenciosos da pátria.
A Arquitetura como Declaração de Fé Republicana: O Art Déco nas Terras do Cerco
O projeto assinado pela Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação — embora sem data específica registrada, provavelmente elaborado entre 1935 e 1937, período áureo da construção de Grupos Escolares no Paraná — não foi escolha casual. O Art Déco, linguagem arquitetônica que floresceu entre as duas guerras mundiais, trazia consigo uma mensagem poderosa para uma cidade marcada pela guerra civil: a de que o futuro chegara à Lapa não com canhões, mas com cartilhas; não com trincheiras, mas com salas de aula arejadas.
Sua tipologia em T — com corpo central perpendicular às alas laterais — não era apenas solução funcional para otimizar espaços e circulações. Era metáfora arquitetônica profunda: a escola como cruz laica da civilização, onde os braços horizontais acolhiam as crianças vindas de todas as direções da cidade, e o braço vertical apontava para o céu do conhecimento — não o céu religioso, mas o céu iluminista da razão e do progresso.
As linhas geométricas suaves, os arcos elegantes nas portas e janelas, os detalhes em estuque com motivos abstratos — tudo falava de ordem, de racionalidade, de modernidade acessível mesmo aos mais distantes rincões do Paraná. Diferente do eclético romântico das escolas do século XIX, o Art Déco das construções escolares paranaenses dos anos 1930-40 representava uma ruptura simbólica definitiva: a escola como instituição republicana plena, digna de edifício próprio, orgulhosa de sua função social transformadora.
O Cotidiano Sagrado: Quando o Saber Entrava Pela Porta da Frente
Imagine a cena: manhã de inverno rigoroso na Lapa, neblina envolvendo os campos ao redor da cidade histórica. Crianças de calças remendadas e vestidos desbotados caminham descalças pela Rua Marechal Floriano Peixoto — ainda não calçada, apenas terra batida — carregando consigo cadernos de pauta grossa e o lanche singelo de pão com banha. Ao cruzarem o portal do Grupo Escolar Manoel Pedro, deixavam à porta não apenas a lama das botas, mas também a condição de simples filhos de roceiros ou operários — tornavam-se alunos, sujeitos de direitos, cidadãos em formação.
Dentro das salas de aula de pé-direito alto, o professor — talvez formado na Escola Normal de Curitiba por Lysimaco Ferreira da Costa, talvez um leigo dedicado que aprendera a ensinar ensinando — conduzia o ritual sagrado do aprender: a cartilha de João de Deus aberta na primeira página; o exercício de caligrafia com pena de aço mergulhada no tinteiro de porcelana branca; a lição de história do Brasil onde se contava a saga heroica do Marechal Gomes Carneiro defendendo a Lapa em 1894; o canto em coro do hino nacional, ainda novo na boca das crianças após a Proclamação da República.
Mas havia algo mais profundo acontecendo naquele edifício em T: a construção silenciosa da identidade lapeana moderna. Ali, filhos de imigrantes italianos que chegavam para trabalhar nas lavouras de batata sentavam-se lado a lado com descendentes de tropeiros luso-brasileiros e famílias de origem polonesa que colonizavam os arredores. Aprendiam não apenas a ler e escrever, mas a compartilhar um mesmo destino sob o manto da pátria brasileira. A escola tornava-se o primeiro espaço verdadeiramente republicano — onde a origem não importava tanto quanto a capacidade de aprender; onde a língua portuguesa, ainda que falada com sotaques diversos, tornava-se o elo comum de uma comunidade em formação.
A Transformação Simbólica: De Manoel Pedro a General Carneiro — Quando a Memória se Encontra
A mudança de denominação — de Grupo Escolar Manoel Pedro para Colégio Estadual General Carneiro — não foi mero capricho burocrático. Foi encontro simbólico profundo entre dois tipos de heroísmo: o heroísmo silencioso dos educadores anônimos representado por Manoel Pedro, e o heroísmo épico do Marechal Gomes Carneiro, que em 1894 sacrificou a vida defendendo a República na Lapa .
Gomes Carneiro — oficial do Exército Brasileiro, nascido em 1844, formado pela Escola Militar do Rio de Janeiro — tornou-se símbolo máximo da resistência lapeana. Durante 26 dias, com apenas 450 homens mal armados, enfrentou um exército federalista de mais de três mil soldados, recusando-se a render-se mesmo diante da certeza da derrota. Sua frase histórica — "Prefiro morrer a entregar a Lapa!" — ecoou pelos séculos como testemunho do valor inegociável da honra e do dever.
Ao batizar a escola com seu nome, a cidade realizou um gesto de sabedoria histórica: compreendeu que a verdadeira defesa da República não se faz apenas com armas, mas com educação. Gomes Carneiro morreu defendendo um ideal político; os professores do Grupo Escolar Manoel Pedro viviam diariamente defendendo o mesmo ideal através do saber. A mudança de nome não apagou a memória de Manoel Pedro — apenas a ampliou, integrando-a à narrativa heroica maior da cidade. Hoje, sob o mesmo teto Art Déco, convivem harmoniosamente duas memórias: a do herói da guerra e a dos heróis anônimos da paz — professores que, com giz e paciência infinita, escreveram a história educacional da Lapa.
O Memorial Lysimaco Ferreira da Costa: Guardião das Memórias Escolares
É no Memorial Lysimaco Ferreira da Costa, em Curitiba, que repousam hoje os vestígios materiais desta história — fotografias amareladas do Grupo Escolar Manoel Pedro em seus primeiros anos, documentos escolares assinados por diretores hoje esquecidos, relatórios de inspetores elogiando a disciplina das turmas, listas de matrícula com nomes que hoje são avós e bisavós na Lapa .
Lysimaco Ferreira da Costa (1881-1961) foi muito mais que educador — foi arquiteto da alma paranaense. Fundador da Escola Normal de Curitiba, formou gerações de professores que levaram o saber aos quatro cantos do estado. Compreendeu antes de muitos que a educação não é gasto, mas investimento; que cada criança alfabetizada é semente de civilização plantada na terra paranaense. Seu memorial tornou-se santuário da memória educacional — lugar onde se preservam não apenas papéis e imagens, mas a alma do ofício docente.
É provável que entre os documentos ali guardados repousem registros do Grupo Escolar Manoel Pedro — fotografias de turmas onde crianças de olhos sérios posam diante da câmera, conscientes de que aquele momento seria eternizado; relatórios descrevendo as dificuldades de manter a escola funcionando no inverno rigoroso da Lapa; cartas de pais agradecendo aos professores por terem ensinado seus filhos a ler. Cada documento é um fio na tapeçaria coletiva — prova material de que, mesmo nas margens do sertão paranaense, homens e mulheres comuns ergueram escolas com as próprias mãos, acreditando que cada criança alfabetizada era uma semente de civilização plantada na terra paranaense.
Epílogo: O Silêncio que Ensina
Hoje, quando o visitante caminha pela Rua Marechal Floriano Peixoto e contempla o edifício em forma de T com suas linhas Art Déco suavemente alteradas pelo tempo — janelas modificadas, rebocos renovados, talvez até divisões internas refeitas — vê apenas uma escola antiga. Mas quem sabe ouvir, escuta o eco de vozes infantis de décadas passadas soletrando o alfabeto; sente a presença silenciosa de Manoel Pedro — quem quer que tenha sido — corrigindo cadernos à luz do entardecer; percebe a vibração das histórias não contadas — de cada criança que ali aprendeu a assinar seu nome, de cada professor que ali dedicou a vida ao ofício sagrado de ensinar.
A grandeza do Grupo Escolar Manoel Pedro não está na arquitetura impecável nem na antiguidade das pedras. Está no ato revolucionário e cotidiano de ensinar — gesto tão antigo quanto a humanidade, mas sempre novo quando praticado com amor. Enquanto houver jovens cruzando suas portas em busca do saber, enquanto houver professores dispostos a repetir a lição pela centésima vez com paciência infinita, este edifício permanecerá vivo: não como ruína museificada, mas como pulsação contínua do saber, ecoando através dos séculos como um hino silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira defesa da pátria não se faz apenas com armas — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada ser humano, independentemente de origem ou condição, merece o mundo inteiro nas mãos, desde que saiba ler as palavras que o descrevem.
E assim, entre as ruas históricas da Lapa — onde um dia ressoaram os canhões do Cerco de 1894 —, o Grupo Escolar Manoel Pedro, hoje Colégio Estadual General Carneiro, continua sua missão silenciosa: ser, para gerações sucessivas, o lugar onde o futuro começa — uma letra de cada vez, um sonho de cada vez, uma vida transformada de cada vez. Pois a história nos ensina que cidades se constroem com pedra e cal, mas civilizações se constroem com letras e amor — e neste edifício em forma de T, ambas as construções encontram-se em perfeita harmonia.

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