sábado, 31 de janeiro de 2026

Curitiba em Movimento: Dança de Luzes, Telhados e Sorrisos nas Lentes de Synval Stocchero

 “Toda fotografia só visa ao futuro na sua transformação enquanto imagem com caráter histórico. A cidade se vê então na sua dimensão de desejo e lugar da monumental presença do homem no universo, na sua mais extraordinária dimensão e destino. A construção de seu habitat na natureza”.

— Paulo Mendes da Rocha, em Cidades Reveladas4

Um fotógrafo versátil, capaz de transitar com a mesma desenvoltura entre o fotojornalismo, os álbuns de família, a publicidade, os bailes de debutantes, personalidades, eventos públicos, comunicação institucional… Ao longo das seis décadas em que atuou profissionalmente é difícil encontrar um tema que tenha escapado às lentes do paranaense Synval Stocchero. 
Dentre todos os assuntos que registrou, o mais recorrente foi a cidade de Curitiba, eternizada em centenas de imagens aéreas e fotos de rua, que retratam o seu desenvolvimento a partir da  segunda metade do século XX.
Dono de uma disposição e uma disciplina invejáveis, Stocchero capturou a cidade movido pelo espírito de um autêntico cronista independente: “Registrar Curitiba era quase um compromisso que ele tinha consigo mesmo”, declarou Maria Luiza Baracho, autora do livro “Synval Stocchero — Curitiba na mira do fotógrafo1, obra que inspira este artigo.  O passar dos anos só agregou valor e nostalgia ao olhar documental de Stocchero, um convite a viajar no tempo por meio de imagens* que celebram a urbanidade da capital paranaense.

Synval Stocchero, entre o fim dos anos 1940 e o início da década de 1950.

Descendente de colonos italianos e alemães, Synval nasceu em Itaperuçu, município da região metropolitana de Curitiba, em 1930. Logo na primeira infância, viveu um drama familiar ― a perda precoce do pai. Tal fato não só o marcaria profundamente, como mudaria o destino de toda a família, trazendo a viúva Maria José, o menino Synval e suas três irmãs para Curitiba. 
Instalaram-se numa modesta casa de madeira do Campo da Galícia (hoje Bigorrilho), onde a paz só era perturbada pelo corre-corre dos piás da vizinhança, em sua maioria de ascendência ucraniana. A região era uma área de chácaras e pinheirais não muito longe do Batel, bairro onde o fotógrafo viveria anos mais tarde.

Praça Miguel Couto (Pracinha do Batel), década de 1950.

Apesar dos rigorosos invernos, com apenas oito anos de idade o caçula da família dedicava-se a lavar garrafas de vidro para ajudar no orçamento doméstico. Único varão da prole, Synval teve uma infância de labuta mas plena de afeto, sempre cercado por mulheres fortes. Desde muito cedo, assistiu aos esforços e ao protagonismo da mãe para prover o sustento da casa como costureira. 
Em 1955, casou-se com Neusa Paiva Velásquez, companheira de toda uma vida. Com ela teve duas filhas, Rita e Rosane.
Quem o conheceu, atesta que mesmo depois de se tornar um dos fotógrafos mais requisitados de sua geração, manteve-se generoso com as pessoas, contido com as despesas, avesso a ostentações e muito diligente: “Trabalho não mata ninguém” — defendia ele, com notório conhecimento de causa. 
Suas primeiras incursões pelo universo da fotografia datam do final da década de 1940 e refletem o espírito do pós-guerra, como bem define a pesquisadora Cibele Rizek:

“No cenário do pós-guerra (…), a cidade, os processos de urbanização e as formas de sociabilidade urbana se conformaram como objeto privilegiado e como sinônimo de modernidade e de modernização, de democratização e de industrialização”. (RIZEK, 2016, p. 203)

Trem no antigo bairro do Capanema (atual Jardim Botânico). À direita e ao fundo, as instalações dos Moinhos Anaconda. Final da década de 1950.
Réplica do 14 Bis, em frente à estátua em homenagem a Santos Dumont, na Praça Santos Andrade. Ao fundo, o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Entre 1954-1956.
Trecho da Av. Luiz Xavier (hoje em grande parte ocupado pelo calçadão da Rua XV de Novembro), à época conhecido como “Cinelândia Curitibana” por concentrar várias salas de cinema. Década de 1950.
Desfile de motonetas na Av. Luiz Xavier, com a Praça Osório ao fundo. Década de 1950.
Rua Cândido Lopes, com vista para os edifícios Anita e Asa (este em construção). Década de 1950.

O interesse de Stocchero por fotografia surgiu a partir da convivência com João Mellico, que em 1947 casou-se com uma de suas irmãs e a quem Synval teve como referencial masculino, mentor e grande amigo. Além de ser um profissional experiente e de trabalhar na renomada loja de produtos fotográficos H. Schneiker S. A., o cunhado mantinha um laboratório de revelação particular, algo comum entre os fotógrafos de então. A casa era um imóvel grande e confortável e acolheu a todos os Stocchero, que se mudaram para lá a convite do casal. Entre câmeras, objetivas, películas, soluções e papéis fotográficos, a alquimia que se revelava diante do olhos do jovem Synval não deixava dúvidas de que abraçaria o ofício. 

À medida que desenvolvia suas habilidades como fotógrafo, teve duas experiências formativas: uma breve e marcante passagem pela Base Aérea do Bacacheri, onde serviu à aeronáutica, e outras duas temporadas no Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná. 

Se das vivências junto ao DER veio o gosto pela construção civil e pela engenharia de infraestrutura, dos sobrevoos pela cidade trouxe consigo o fascínio por fotos aéreas e vistas panorâmicas. Mesmo após deixar a aeronáutica, Stocchero sempre buscou pelo plongée: o ponto de observação mais alto e privilegiado. Fosse o topo de um edifício, uma torre, um andaime, escada ou qualquer outro lugar que pudesse escalar, o céu era o limite, num tempo em que o vislumbre da fotografia com drones não passava de mera ficção científica.

Vista aérea do centro da cidade: da esquerda para a direita, as praças Rui Barbosa, Carlos Gomes e Tiradentes. Acima (esq.) o Campo do Poty Sport Club, hoje Praça 29 de Março. Início da década de 1950.
Aérea da região do Alto da Glória: o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário, ainda em construção. Em frente ao colégio, a já demolida Mansão das Rosas. Década de 1950.
Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Década de 1960.
Praça Rui Barbosa, por volta do fim dos anos 1950. À direita, o quartel do 15º Batalhão de Caçadores, atual Rua da Cidadania Matriz.
Centro de Curitiba visto da Praça Ouvidor Pardinho. Década de 1950.

Tivesse vivido para ver as pequenas aeronaves guiadas por controle remoto e que na última década revolucionaram a fotografia aérea, Synval talvez fosse fisgado pela mobilidade que os drones trouxeram aos aficionados pelas alturas. O fato é que, assim como outros profissionais de sua geração, resistiu ao apelo das câmeras digitais, preferindo a boa e velha Canon FTb, sua parceira de trabalho mais frequente. Cristiano Mascaro, paulista de Catanduva e um dos mais influentes fotógrafos brasileiros de arquitetura e cidades, assim traduziu o apego da “velha guarda” ao equipamento convencional: 

“(…) desejo ainda, enquanto for possível, manter-me fiel a esses companheiros de longa data. Não estou disposto a trocar as aventuras e incertezas que eles me proporcionam por uma tecnologia que me oferece um resultado rápido, líquido e certo. Onde estaria a graça?” (MASCARO, 2006, P. 1792)

A profissionalização de Synval têm início em 1949, quando surgem os primeiros convites para trabalhar como repórter fotográfico, oportunidades que o levaram a ser um dos pioneiros locais nesse campo emergente. Era um momento em que o fotojornalismo estava em franca expansão e viria para ficar, inaugurando uma nova era da imprensa no Brasil e no mundo. 

Ao longo da década seguinte foi contratado por diversos veículos como os jornais Gazeta do Povo e O Estado do Paraná, e as revistas Panorama e Paraná em Páginas.

Em paralelo à ascensão profissional de Stocchero, Curitiba experimentava um crescente adensamento demográfico, verticalização e as primeiras mudanças estruturais decorrentes do novo Código de Posturas e Obras da cidade. O Código incluía o Plano Diretor de Urbanização ou “Plano Agache” (1943), como ficou conhecido em referência ao seu autor, o arquiteto e urbanista francês Alfred Agache. 

Obras de construção do Centro Cívico em andamento, início da década de 1950: ao fundo (centro) o Palácio Iguaçu, ladeado pela Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça.
Trabalhadores da construção civil. À direita a Catedral Metropolitana de Curitiba e à esquerda o Ed. Miguel Calluf (ou Ed. Eduardo VII), em construção. Década de 1950.
Praça Tiradentes com destaque para o Ed. Miguel Calluf, que foi ocupado por três décadas pelo Lord Hotel e atualmente é conhecido como Ed. Eduardo VII. Década de 1950.
Rua Tobias de Macedo, com o Cacique Hotel à direita. Década de 1960.

Por volta de 1958, depois de passar por outros endereços, Synval montou seu estúdio definitivo num dos conjuntos comerciais do Edifício Tijucas, ponto mais efervescente do centro de Curitiba. A afinidade e a intimidade com o local fizeram da Avenida Luiz Xavier sua menina dos olhos. Fotografou-a muitas vezes e em situações diversas, além de valer-se dessa base estratégica para ter acesso aos arredores.

Movimentação em frente ao Cine Palácio, nas dependências do Ed. Moreira Garcez. Década de 1960. 
Ed. Brasilino Moura, na esquina das ruas Cândido Lopes e Ébano Pereira. Década de 1960.
Praça Zacarias, com destaque para o Ed. Santa Maria (à esquerda, de frente para a praça) e para o Ed. Augusta (ao centro). Década de 1960.

Em meados da década de 1960, por conta da experiência prévia no DER e de uma carreira já consolidada, Stocchero foi escalado pelo prefeito Ivo Arzua para contribuir com o recém-criado departamento de fotografia do município. Foi então que passou a documentar o andamento das obras públicas daquele período, tais como demolições, alargamento de avenidas e canalização de rios (famosos por inundar Curitiba desde tempos imemoriais).

Inundação no centro de Curitiba. Ao fundo, a Praça Osório. Década de 1950.
Obras de canalização do Rio Ivo na Av. Luiz Xavier. Década de 1960.
Obras na pista da Av. Luiz Xavier. Década de 1960.
Vista noturna da Av. Marechal Deodoro, com detalhe da Praça Zacarias em primeiro plano (canto inferior esq.). Década de 1960.
Chafariz da Praça Santos Andrade. Ed. Governador, iluminado pela construtora Adel Karam para atrair a atenção de potenciais compradores. Final da década de 1960.
Estudante na escadaria da sede histórica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Praça Santos Andrade. Década de 1970.

A partir de 1971, com Jaime Lerner e sua equipe em ação, novas, profundas e por vezes polêmicas transformações iriam colocar a capital paranaense no centro da pauta urbanística nacional. 

Com a devoção e a disciplina costumeiras, Synval seguiu fotografando os prédios que surgiram, as ruas que viraram trinários, a pista convertida em calçadão e o desenvolvimento dos bairros, impulsionado pelas novas dinâmicas do transporte coletivo.

1975: Rua XV de Novembro, com mobiliário urbano coberto pela neve. Logo atrás, o Bondinho e a Av. Luiz Xavier.
 Topo dos prédios cobertos pela neve de 1975. À esquerda, Ed. Itália, projeto de Elgson Ribeiro Gomes. 
1975, Neve em Curitiba. Ao fundo duas obras arquitetônicas de autoria de Elgson Ribeiro Gomes: Ed. Provedor André de Barros e as torres do Ed. Gemini, uma delas ainda em construção.
Praça do Japão, na década de 1970, quando já circulavam os ônibus Expressos pela Av. 7 de Setembro (uma das novas vias estruturais).

Entre os equipamentos obrigatórios de Synval, um chamava atenção dos passantes: não era uma câmera de última geração ou uma lente robusta, mas a altíssima escada de madeira que causava assombro a quem quer que o visse lá no alto. Gabriel Stocchero Floriani5, um de seus quatro netos, conta que “ele punha a escada no rack da Belina e a levava pra todo lugar”. 
As peripécias de Synval já eram conhecidas de todos quando, ao fim da década de 1990, um susto entrou para o seu anedotário pessoal: atleticano roxo, caiu de uma altura de cinco metros ao pisar em falso e perder o equilíbrio, enquanto registrava as obras de construção da Nova Arena da Baixada. O fotógrafo foi socorrido e levado às pressas ao hospital, do qual se safou com ferimentos leves. Nunca teve qualquer outro acidente de maiores consequências.

De perfil reservado, às vezes surpreendia a todos ao se mostrar falante com desconhecidos. Carinhoso, houve um Natal em que presenteou a cada um dos netos com câmeras fotográficas. Ricardo Stocchero Floriani6 relata ter acompanhado o avô em várias sessões de fotos e atestou, in loco, o seu destemor pelas alturas: entre outras atribuições de assistente, cabia ao neto mais velho a incumbência de zelar pela estabilidade da escada que aquele senhor, já de cabelos brancos, subia e descia com a agilidade de um felino. 

Por motivos de saúde, Synval Stocchero partiu em fevereiro de 2008, meses antes de completar 78 anos. Em março de 2007 recebeu pessoalmente o “Prêmio Cultura e Divulgação”, concedido pela Câmara Municipal de Curitiba em reconhecimento aos serviços prestados à cidade. Em dezembro de 2010, as 120 fotos que ilustram sua biografia1 foram expostas no Memorial de Curitiba, onde encantaram os visitantes por uma longa e bem-sucedida temporada. Também em sua homenagem, uma rua foi batizada com o seu nome, tributo de grande valor simbólico, dado que o fotógrafo sempre manteve um forte laço com o espaço público.

“O melhor ponto de vista é sempre o aéreo” — ensinava Stocchero aos seus discípulos.

Mais que simples conselhos, suas lições são afiançadas pelo vasto acervo de imagens que legou a Curitiba, parte vívida e inestimável da história, do patrimônio e da memória afetiva da cidade.

Synval Stocchero e sua escada na Praça Garibaldi, fotografando a Igreja do Rosário. Início dos anos 2000.

*Cessão de imagens
Todas as fotos que ilustram este artigo integram a Coleção Synval Stocchero do acervo da Casa da Memória e foram gentilmente cedidas pela Diretoria do Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba.

Tratamento de imagens: 
Alessandra Moretti

Referências Bibliográficas
1BARACHO, Maria Luiza Gonçalves. Synval Stocchero — Curitiba na mira do fotógrafo. ed. especial Boletim Casa Romário Martins. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v.34, n.144, 2010.

2MASCARO, Cristiano. Cristiano por ele mesmo. In: Cidades reveladas. São Paulo: BEĨ Comunicação, 2006, p. 179.

3RIZEK, Cibele Saliba. A produção da cidade e de suas representações: das ideias clássicas às inflexões recentes. ROLNIK, R. (Org.); FERNANDES, A. (Org). In: Cidades. Rio de Janeiro: Funarte, 2016. p. 20 (Ensaios brasileiros contemporâneos).

4ROCHA, Paulo Mendes da. A cidade fotografada. In: MASCARO, Cristiano. Cidades reveladas. São Paulo: BEĨ Comunicação, 2006, p. 181.

Depoimentos
5FLORIANI, Gabriel Stocchero. Depoimento à autora em 25/06/2021.
6FLORIANI, Ricardo Stocchero. Depoimento à autora em 05/07/2021.

Links (Acessos em 15/07/2021)
BATISTA, Fábio Domingos. Artigo: Cicatrizes Urbanas. Disponível em: https://prediosdecuritiba.com.br/cicatrizes-urbanas/

Casa da Memória. Matéria: Casa da Memória, 40 anos guardando os tesouros da história curitibana. Disponível em: http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/noticias/casa-da-memoria-40-anos-guardando-os-tesouros-da-historia-curitibana/

Fundação Cultural de Curitiba. Site oficial. Disponível em: http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br

Gazeta do Povo/ Caderno G. Matéria: Retratos da cidade pelo flâneur. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/retratos-da-cidade-pelo-flaneur-1d3urhscf0uow3sfinrdpoj0u/

Prédios de Curitiba: https://prediosdecuritiba.com.br/predios/ 

Curitiba em Movimento: Dança de Luzes, Telhados e Sorrisos nas Lentes de Synval Stocchero
Sob o céu curitibano, onde pinheirais se misturavam aos primeiros arranha-céus e o inverno soprava frio nos becos do Batel, Synval Stocchero transformava cada instante em festa visual. Com sua Canon FTb pendurada ao peito e a escada de madeira balançando no rack da Belina, ele percorria a cidade como um flâneur apaixonado, capturando não apenas edifícios, mas vidas: o brilho nos olhos de debutantes na Pracinha do Batel, o rodopio das saias brancas do Ballet do Paraná sob holofotes, o vapor quente saindo das bocas dos operários na Avenida Luiz Xavier durante as obras de canalização do Rio Ivo. Nas décadas de 1950 e 1960, enquanto o Plano Agache redesenhava ruas e o Código de Posturas impulsionava a verticalização, Stocchero registrava tudo com a delicadeza de quem enxerga poesia até nas demolições — o Edifício Miguel Calluf erguendo-se ao lado da Catedral Metropolitana, o Cacique Hotel na Rua Tobias de Macedo recebendo hóspedes elegantes, o Bondinho deslizando suavemente pela Rua XV de Novembro antes de virar calçadão.
Nascido em 1930 em Itaperuçu, filho de colonos italianos e alemães, Synval chegou a Curitiba ainda menino, após a morte prematura do pai. Na modesta casa de madeira do Campo da Galícia — hoje Bigorrilho —, cercado por três irmãs e pela mãe costureira Maria José, aprendeu cedo o valor do trabalho e do afeto. Aos oito anos, lavava garrafas de vidro para complementar a renda familiar, mas guardava no coração o sonho de transformar luz em memória. Esse sonho floresceu na casa do cunhado João Mellico, casado com uma de suas irmãs: entre reveladores químicos, papéis fotográficos e o cheiro característico do laboratório caseiro, o jovem Synval descobriu a alquimia das imagens. Mellico, fotógrafo experiente e funcionário da renomada loja H. Schneiker S. A., tornou-se seu mentor e referência masculina, abrindo as portas de um universo onde cada clique era uma promessa de eternidade.
A cidade pulsava em transformação, e Stocchero a acompanhava passo a passo. Na Base Aérea do Bacacheri, serviu à aeronáutica e descobriu o fascínio pelas vistas aéreas — o privilégio de ver Curitiba como um mosaico vivo, com suas praças Rui Barbosa, Carlos Gomes e Tiradentes entrelaçadas por ruas sinuosas, o Poty Sport Club ainda verdejante onde hoje é a Praça 29 de Março, o Colégio Estadual do Paraná erguendo-se majestoso no Alto da Glória ao lado da já demolida Mansão das Rosas. No Departamento de Estradas de Rodagem, apaixonou-se pela engenharia: o cheiro de cimento fresco, o ranger das máquinas nivelando terrenos, o suor dos trabalhadores erguendo pontes. Essas experiências moldaram seu olhar — técnico, mas nunca frio; documental, mas sempre humano.
Em 1949, iniciou sua carreira como repórter fotográfico, tornando-se pioneiro do fotojornalismo em Curitiba. Nos jornais Gazeta do Povo e O Estado do Paraná, nas revistas Panorama e Paraná em Páginas, suas lentes contavam histórias: o desfile de motonetas na Avenida Luiz Xavier com a Praça Osório ao fundo, o brilho noturno do Edifício Santa Maria na Praça Zacarias, o charme do Cine Palácio no Edifício Moreira Garcez lotado de espectadores ansiosos. Em 1955, casou-se com Neusa Paiva Velásquez, amor de toda a vida, com quem teve as filhas Rita e Rosane. Mesmo tornando-se um dos fotógrafos mais requisitados da cidade, manteve-se simples, generoso, avesso a luxos — "Trabalho não mata ninguém", repetia com um sorriso tranquilo, enquanto subia mais um degrau na escada rumo ao melhor ângulo.
Em 1958, instalou seu estúdio definitivo no Edifício Tijucas, coração pulsante do centro. Dali, transformou a Avenida Luiz Xavier em sua musa: fotografou-a sob sol forte, sob chuva fina, à noite com letreiros de néon piscando, durante as obras que a transformariam para sempre. Nos anos 1960, ao ser convidado pelo prefeito Ivo Arzua para integrar o recém-criado departamento de fotografia municipal, documentou com precisão e sensibilidade as grandes transformações urbanas: a canalização dos rios que antes inundavam o centro — como na icônica imagem da Praça Osório submersa —, o alargamento de avenidas, a demolição de casarões antigos para dar lugar a novos marcos. Quando Jaime Lerner assumiu a prefeitura em 1971, Synval continuou seu trabalho incansável, registrando os trinários, os ônibus Expressos coloridos circulando pela Avenida 7 de Setembro, a Praça do Japão ganhando forma, e até o milagre da neve de 1975: telhados brancos, bondinhos cobertos de flocos, crianças correndo entre o Edifício Itália e as torres gêmeas do Edifício Gemini ainda em construção, tudo sob um céu de algodão.
Sua marca registrada? A escada de madeira, alta o suficiente para causar assombro. Gabriel Stocchero Floriani, neto do fotógrafo, lembra: "Ele punha a escada no rack da Belina e a levava pra todo lugar". Ricardo, outro neto, acompanhava o avô em sessões de fotos e tinha a missão de segurar a base enquanto Synval, já de cabelos brancos, subia com a agilidade de um jovem, buscando sempre o plongée — o ponto de vista elevado que revela a cidade como um organismo vivo. Atleticano roxo, em 1999 quase se machucou gravemente ao cair de cinco metros enquanto fotografava as obras da Nova Arena da Baixada, mas saiu com ferimentos leves e, dias depois, já estava de volta às ruas com sua câmera e sua escada inseparável.
Natal após Natal, presenteava cada neto com uma câmera fotográfica, semeando o amor pela imagem. Nas festas familiares, contava histórias das ruas que conhecera antes de virarem asfalto, dos pinheirais que deram lugar a prédios, dos rostos que cruzaram sua lente — políticos, artistas, operários, crianças brincando na lama das obras. Em 2007, meses antes de partir em fevereiro de 2008 aos 77 anos, recebeu o Prêmio Cultura e Divulgação da Câmara Municipal de Curitiba. Em 2010, 120 de suas fotos foram expostas no Memorial de Curitiba, emocionando gerações. Hoje, uma rua no bairro Alto da Glória leva seu nome — tributo justo para quem amou cada pedaço de chão, cada telhado, cada sorriso desta cidade.
Nas imagens que deixou — tratadas com carinho por Alessandra Moretti e guardadas na Casa da Memória —, Curitiba respira. Vemos o Chafariz da Praça Santos Andrade jorrando água sob o sol da tarde, o Edifício Brasilino Moura na esquina das ruas Cândido Lopes e Ébano Pereira refletindo nuvens passageiras, estudantes subindo a escadaria da UFPR com livros debaixo do braço, o Trem do Capanema cruzando campos verdes rumo aos Moinhos Anaconda. Vemos também a cidade em construção: andaimes envolvendo prédios, operários em equilíbrio precário, máquinas gigantes moldando o futuro. Mas, acima de tudo, vemos alegria — a alegria de quem acreditou que cada foto é um presente para o amanhã, que cada rua tem uma história para contar, que cada pessoa, por mais anônima, merece ser lembrada.
Como escreveu Paulo Mendes da Rocha: "Toda fotografia só visa ao futuro na sua transformação enquanto imagem com caráter histórico". E Synval Stocchero soube disso como poucos: transformou Curitiba não em ruínas do passado, mas em semente viva do futuro. Nas suas lentes, a cidade nunca envelhece — dança, respira, sorri, constrói. E, ao folhearmos seu acervo, sentimos o mesmo vento gelado da Praça Garibaldi, ouvimos o mesmo burburinho da Cinelândia, sentimos o mesmo orgulho de pertencer a esta terra de pinheirais e sonhos. Porque Synval não fotografou apenas prédios — fotografou esperança. E esperança, como bem sabia este fotógrafo de alma leve e pés firmes no chão, nunca sai de moda.


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