fotos fatos e curiosidades antigamente O passado, o legado de um homem pode até ser momentaneamente esquecido, nunca apagado
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
De Volta ao Tempo: Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas
Ao ser construída em 1737, seu nome de origem era “Nossa Senhora do Terço”, foi alterado somente após o surgimento da Ordem de São Francisco em Curitiba, no ano de 1746.
Em 1752, foi anexado à Igreja, um convento que funcionou até 1783, sendo dirigido por religiosos franciscanos. Entre 1834 e 1835 o vigamento da Igreja acabou por desabar, e mesmo com tentativas de reconstrução e toda condição precária em que se encontrava, o espaço ainda serviu de paróquia para os colonos portugueses recém chegados. Somente em 1880, com a visita do imperador D. Pedro II, foi promovida a restauração definitiva da Igreja.
A modificação de sua linguagem Colonial para uma Neogótica, refletiu não somente na sua arquitetura, mas também na mudança cultural na sociedade curitibana. Neste momento, o período era marcado com a presença de muitos imigrantes, principalmente alemães, e dessa forma, a igreja foi tombada em 1965 como Patrimônio Cultural do Estado do Paraná.
Em 1974, os arquitetos Cyro Correia de Oliveira Lyra e Jose la Pastina filho, elaboraram um projeto de restauro e de adaptação da sua sacristia para um Museu de Arte Sacra de Curitiba (MASAC). Em 1981, foram confiscados paramentos e objetos históricos das quatro igrejas mais antigas da cidade, e com todo esse desdobramento do restauro, o edifício acabou revelando que guardava em seu arcabouço grande parte da Igreja Primitiva. Não somente em seu arcabouço, mas também na capela-mor, no pórtico neogótico da sua entrada, e em vários detalhes arquitetônicos ela foi se revelando.
Diante da existência de Duas Igrejas, uma Primitiva com características coloniais do século XVIII e a Neogótica do Século XIX, o projeto de Restauro foi cuidadosamente desenvolvido para que o edifico mostrasse de forma clara os dois momentos históricos, tanto no seu exterior quanto no interior.
Características curiosas da sociedade no final do século XIX e início do século XX, são observadas até hoje. Como exemplo, podemos citar as portas laterais a uma altura de mais de 50 cm da rua, que eram assim feitas para que as pessoas descessem de suas carruagens sem sujar os pés ao redor da igreja. As portas ainda permanecem lá, hoje desativadas, no início da Rua Mateus Leme. Ao lado esquerdo da porta principal, também estão os “Rapa Pés” de ferro, usados pelos fiéis que chegavam a pé, para limpar os calçados ou até mesmo seus próprios pés, que se encontravam cheios de lama ou terra antes de entrar na igreja. A partir daí surge a famosa expressão “pé rapado”.
Durante uma das reformas, em 1993, foi encontrado entre suas paredes um pequeno caderno com anotações históricas sobre a igreja, a “Breve Notícia da Igreja da Ordem III de São Francisco das Chagas”, de Antônio Lustoza de Andrade, que havia sido o responsável pela reforma da igreja em 1880, para a visita de Dom Pedro II.
No ano de 2003 foi inaugurado, atrás da igreja, o Cenáculo Arquidiocesano, um espaço para as mais diversas atividades, contando com grande auditório, refeitório, capela, jardim e dormitórios.
No interior da igreja, várias obras de arte podem ser admiradas, como a Via Sacra, pintada em 1983 por Luís Carlos de Andrade Lima, um célebre pintor curitibano, falecido em 1998.
O órgão de tubos da Igreja da Ordem é o instrumento mais antigo de Curitiba, provavelmente trazido da Matriz em 1880, por ocasião da visita de Dom Pedro II. Toda vez que estamos diante de uma obra de restauro de um prédio histórico, o maior desafio do arquiteto responsável é saber adaptar aquele edifício a sua atual realidade sem perder a sua essência histórica. Muitas vezes a obra acaba se perdendo por falta de verbas, iniciativa, mão de obra, descaso com a história, descaso com o edifício e seus detalhes ricos, descaso com o século que está inserido e com o seu entorno descaracterizando o edifício e sua essência, como uma obra superficial.
A dosagem deve ser perfeita e feita com muita maestria, como foi o caso da Igreja da ordem, principalmente por sua arquitetura revelar dois momentos históricos muito importantes para nossa cidade. A impressão que passa é de um lugar congelado no tempo, como se pudéssemos voltar aos séculos XVIII e XIX por alguns instantes, desde o seu interior ao exterior. O museu também estimula esse sentimento de “Volta ao tempo”.
É referência de uma obra rica em história, tanto arquitetônica para os profissionais da área, quanto para a cidade de Curitiba, deixando suas raízes muito bem expressas e reveladas para as novas gerações Curitibanas.
Fotografias: Washington Takeuchi / (Não identificado)
De Volta ao Tempo: Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas
Há lugares que não apenas guardam memórias — eles respiram história. E, no coração do Largo da Ordem, em Curitiba, ergue-se um desses tesouros vivos: a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas. Caminhar até ela é como abrir uma porta secreta no tempo, onde os séculos XVIII e XIX se encontram em harmonia, convidando-nos a um passeio suave pelas ruas de terra batida, ao som de carruagens e o farfalhar de hábitos franciscanos.
Tudo começou em 1737, quando, sob o céu ainda jovem da vila de Curitiba, ergueu-se uma singela capela dedicada a Nossa Senhora do Terço. Nascida da devoção simples dos primeiros colonizadores, ela carregava a marca da arquitetura colonial brasileira: traços sóbrios, materiais rústicos e uma espiritualidade que brotava da terra. Mas o destino reservava-lhe um novo nome e uma nova vocação. Em 1746, com a chegada da Ordem Franciscana à região, a igreja passou a abraçar a figura de São Francisco das Chagas, tornando-se um ponto de encontro para aqueles que buscavam consolo na fé e na fraternidade.
A história, porém, não é feita apenas de construções — é tecida por vidas. Em 1752, um convento foi anexado à igreja, e por mais de trinta anos religiosos franciscanos ali viveram, rezaram e acolheram os moradores da vila. Até 1783, o local foi um verdadeiro coração pulsante da comunidade, onde a espiritualidade se entrelaçava com o cotidiano: partilhas de pão, ensinamentos, e o silêncio orante que antecedia o amanhecer.
Mas os tempos são volúveis. Entre 1834 e 1835, o vigamento da igreja desabou, deixando-a em estado precário. Mesmo assim, com uma resistência que só os lugares sagrados possuem, ela continuou de pé — não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Serviu de paróquia para os colonos portugueses que chegavam à região, carregando malas, esperanças e saudades do além-mar. Foi nesse cenário de luta e fé que surgiu um marco luminoso: em 1880, a visita do imperador Dom Pedro II à Curitiba impulsionou uma restauração definitiva. E com ela, veio uma transformação surpreendente: a igreja colonial ganhou vestes neogóticas — arcos ogivais, vitrais delicados e um pórtico que parecia sussurrar sonhos europeus aos ouvidos da cidade em crescimento.
Essa metamorfose não foi apenas estética; refletiu uma Curitiba em efervescência cultural. O final do século XIX trouxe levas de imigrantes, especialmente alemães, que trouxeram consigo novas tradições, sabores e formas de ver o mundo. A igreja, agora neogótica, tornou-se um espelho desse encontro entre raízes lusas e influências germânicas — um diálogo silencioso entre continentes, gravado em pedra e madeira.
Em 1965, reconhecendo sua importância inestimável, o Estado do Paraná tombou a igreja como Patrimônio Cultural. Mas o verdadeiro milagre aconteceria nas décadas seguintes. Em 1974, os arquitetos Cyro Correia de Oliveira Lyra e José La Pastina Filho assumiram um desafio delicado: restaurar a igreja sem apagar suas cicatrizes históricas. E que surpresa os aguardava! Durante as obras, revelou-se que, escondida sob a fachada neogótica do século XIX, permanecia quase intacta a igreja primitiva do século XVIII — em seu arcabouço estrutural, na capela-mor, nos detalhes das paredes. Era como descobrir que a própria edificação guardava um segredo: duas igrejas em uma só, duas eras conversando através dos séculos.
O projeto de restauro, então, tornou-se uma obra-prima de sensibilidade. Em vez de apagar um período para exaltar o outro, optou-se por celebrar ambos. Hoje, ao entrar na igreja, somos transportados: à esquerda, o traço colonial; à direita, o requinte neogótico. É possível, com os olhos e o coração, viajar da simplicidade do barroco mineiro à elegância das catedrais europeias — tudo sob o mesmo teto sagrado.
E os detalhes? Ah, os detalhes contam histórias que os livros muitas vezes esquecem! Olhe para as portas laterais, suspensas a mais de 50 centímetros do chão. Não foi capricho arquitetônico: era praticidade elegante. Na Curitiba do século XIX, as ruas eram de terra, e quando chovia, transformavam-se em lama. As portas elevadas permitiam que os fiéis descessem diretamente das carruagens para o interior da igreja — sem sujar os sapatos nem a alma. Hoje desativadas, elas permanecem na Rua Mateus Leme como testemunhas mudas de uma era de charretes e chapéus de abas largas.
E se você observar com carinho o lado esquerdo da porta principal, encontrará os singelos "rapa-pés" — peças de ferro fundido onde os fiéis que chegavam a pé raspavam a lama dos calçados antes de adentrar o recinto sagrado. Dizem os historiadores que foi daí que nasceu a expressão carinhosa — e tantas vezes mal compreendida — "pé rapado". Longe de ser um insulto, era um gesto de respeito: limpar os pés antes de pisar onde se reza é ato de humildade. Quantas histórias escondem-se nos pequenos gestos do cotidiano!
A jornada no tempo ganhou novo capítulo em 1993, quando, durante uma reforma, operários encontraram entre as paredes um caderno amarelado. Era a "Breve Notícia da Igreja da Ordem III de São Francisco das Chagas", escrita por Antônio Lustoza de Andrade, o próprio responsável pela reforma de 1880 para a visita imperial. Palavras de quase 150 anos antes emergiram como uma carta no tempo — uma voz do passado contando, com orgulho e cuidado, cada tijolo colocado para receber o imperador.
O cuidado com a memória continuou. Em 1981, paramentos e objetos litúrgicos das quatro igrejas mais antigas de Curitiba foram reunidos para formar o acervo do Museu de Arte Sacra de Curitiba (MASAC), instalado na sacristia adaptada. E em 2003, atrás da igreja, nasceu o Cenáculo Arquidiocesano — um espaço vivo de encontros, com auditório, capela, jardim e dormitórios, provando que patrimônio histórico não é museu empoeirado: é lugar de vida, diálogo e renovação.
Dentro do templo, a arte respira em cada canto. A Via Sacra, pintada em 1983 pelo talentoso Luís Carlos de Andrade Lima — um dos grandes nomes da pintura curitibana — conduz os olhos e o espírito numa jornada de fé e beleza. E, majestoso sobre o coro, repousa o órgão de tubos mais antigo de Curitiba, provavelmente trazido da antiga Matriz em 1880. Imaginem: suas notas já ecoaram para Dom Pedro II, para gerações de franciscanos, para noivos nervosos e velórios silenciosos. Cada tecla é uma memória sonora.
Restaurar um patrimônio assim é como cuidar de um idoso sábio: não se pode apagar suas rugas nem tingir seus cabelos brancos para parecer jovem. O desafio — e aqui reside a genialidade do restauro da Ordem — é honrar cada fase da vida do edifício. Muitos monumentos sucumbem ao descaso, à pressa ou à vaidade de quem quer "modernizar" a história. Mas esta igreja ensina: a verdadeira modernidade está na capacidade de dialogar com o passado sem vergonha, sem máscaras.
Ao sair dali, com o sol da tarde aquecendo o rosto, é impossível não sentir que demos um passeio suave pelos séculos. A Igreja da Ordem não é apenas um monumento tombado — é um abraço do tempo. Um convite para respirarmos mais devagar, para notarmos os rapa-pés, as portas suspensas, o silêncio entre as paredes duplas. É referência viva para arquitetos, historiadores, devotos e sonhadores. E, acima de tudo, é um presente das gerações passadas às futuras: a prova de que, mesmo em meio às transformações, é possível preservar a alma.
Curitiba cresceu, asfaltou ruas, ergueu arranha-céus. Mas no Largo da Ordem, a cada sino que toca, o tempo dá uma pausa — e nos convida, gentilmente, a voltar para casa. Para o tempo em que a fé era simples, os pés eram rapados com carinho, e cada pedra contava uma história de amor à cidade.
Fotografias: Washington Takeuchi / Acervo histórico não identificado Fontes consultadas: Instituto do Patrimônio Cultural do Paraná; Curitiba Antiga; Centro Histórico de Curitiba; Turistoria
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