Denominação inicial: Grupo Escolar Cel. Dias Batista
Denominação atual: Colégio Estadual Carlos Alberto Ribeiro
Endereço: Travessa Jacobe Budel, 53-125
Cidade: Bocaiúva do Sul
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 18/04/1947
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Neocolonial
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Colégio Estadual Carlos Alberto Ribeiro - s/d Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2017
Entre Paredes de Taipa e Sonho: A História do Grupo Escolar Cel. Dias Batista e a Alma Neocolonial que Educou o Vale do Ribeira
Nas entranhas verdes do Vale do Ribeira, onde o rio serpenteia entre montanhas cobertas pela Mata Atlântica exuberante e o silêncio é quebrado apenas pelo canto dos sabiás e o ranger das carroças de madeira, ergueu-se em 1948 um milagre discreto: o Grupo Escolar Cel. Dias Batista. Na Travessa Jacobe Budel, número 53, em Bocaiúva do Sul — município batizado em homenagem ao republicano Quintino Bocaiúva
—, aquela construção de linhas suaves e telhado de quatro águas não era apenas uma escola. Era um ato de fé. Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial e o Brasil descobria seu caminho entre tradição e modernidade, ali, no coração do Paraná profundo, erguia-se um templo onde a primeira lição não seria sobre números ou letras, mas sobre dignidade: a certeza de que até as crianças mais distantes dos centros urbanos mereciam aprender sob um teto que falasse de beleza, de história e de pertencimento.
O Sonho Neocolonial: Quando o Passado se Tornou Caminho para o Futuro
O projeto, assinado em 18 de abril de 1947 pela Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas, chegou a Bocaiúva do Sul carregado de intenções profundas. Naquele momento histórico — entre 1945 e 1951 —, o Brasil vivia uma crise de identidade: como ser moderno sem perder a alma? Como avançar sem apagar as raízes? A resposta veio na forma de um movimento arquitetônico que, paradoxalmente, olhava para trás para construir o futuro: o Neocolonial.
Diferente do Art Déco ousado das metrópoles ou do ecletismo pomposo do século XIX, o Neocolonial resgatava com reverência a linguagem das construções luso-brasileiras do período colonial: telhados de quatro águas que despejavam a chuva generosa do Vale do Ribeira; beirais largos que criavam sombras protetoras nos dias de sol forte; alvenaria robusta que resistia ao tempo e à umidade da floresta; e, acima de tudo, a tipologia em "U" — um abraço arquitetônico que envolvia o pátio central como mãos em oração.
Naquele "U" sagrado, tudo acontecia: as crianças corriam descalças sobre a terra batida enquanto aprendiam que o Brasil não começara em 1945, mas nas capitanias hereditárias, nos engenhos de açúcar, nas missões jesuíticas — e que elas, filhas de agricultores, de tropeiros, de famílias que chegavam para trabalhar na extração da madeira nobre da região, faziam parte dessa história longa e complexa. A arquitetura neocolonial não era nostalgia vazia; era política pedagógica materializada: ensinar que ser brasileiro significava carregar consigo séculos de encontros, conflitos e misturas — e que essa complexidade era fonte de força, não de vergonha.
Quem Foi o Coronel Dias Batista? A Memória por Trás do Nome
Embora os registros oficiais sejam escassos, o título "Coronel" revela muito sobre a figura homenageada. No interior paranaense do século XIX e início do XX, "coronel" não era necessariamente posto militar, mas designação de liderança civil — homem de influência, de terras, de respeito na comunidade. Pesquisas locais indicam que se tratava de Coronel Gordiano Dias Batista
, figura provavelmente fundamental na organização política e social de Bocaiúva do Sul em seus primórdios.
Imagine-o: homem de bigode cerrado e chapéu de aba larga, talvez tenha sido ele quem doou as terras para a escola; quem pressionou autoridades estaduais para que Bocaiúva não ficasse à margem do movimento educacional que varria o Paraná; quem, em reuniões à luz de lampião, convenceu vizinhos céticos de que "ensinar a ler não tira o menino do roçado — prepara-o para ser dono do próprio roçado". Ao dar seu nome à escola, transformou-se em guardião simbólico de cada criança que ali cruzasse o portão — e em promessa silenciosa de que a educação seria, para aquelas terras, tão natural quanto o nascer do sol sobre as araucárias.
O Cotidiano Sagrado: Vozes que Preencheram o "U" da História
Era manhã de segunda-feira, 1949. O sino de metal — pendurado sob o beiral largo — ecoava pela travessa:
Primeira aula — 7h30.
Meninos de calça curta remendada e meninas de vestidos de chita entravam com cadernos de capa dura embrulhados em papel pardo. O cheiro de café coado na cozinha da escola misturava-se ao aroma da terra molhada pela chuva da madrugada. A professora, recém-chegada de Curitiba com diploma na mala e idealismo nos olhos, escrevia no quadro-negro com giz que rangia suavemente: "Bocaiúva do Sul é minha terra".
Meninos de calça curta remendada e meninas de vestidos de chita entravam com cadernos de capa dura embrulhados em papel pardo. O cheiro de café coado na cozinha da escola misturava-se ao aroma da terra molhada pela chuva da madrugada. A professora, recém-chegada de Curitiba com diploma na mala e idealismo nos olhos, escrevia no quadro-negro com giz que rangia suavemente: "Bocaiúva do Sul é minha terra".
Recreio — 10h.
O pátio em forma de "U" transformava-se em universo: pular amarelinha desenhada com carvão, jogar bola de meia, dividir bananas colhidas nos quintais. Filhos de imigrantes poloneses que trabalhavam na agricultura, descendentes de caboclos da região e netos de tropeiros corriam lado a lado — a escola pública como primeiro espaço verdadeiramente democrático num mundo ainda marcado por hierarquias rurais.
O pátio em forma de "U" transformava-se em universo: pular amarelinha desenhada com carvão, jogar bola de meia, dividir bananas colhidas nos quintais. Filhos de imigrantes poloneses que trabalhavam na agricultura, descendentes de caboclos da região e netos de tropeiros corriam lado a lado — a escola pública como primeiro espaço verdadeiramente democrático num mundo ainda marcado por hierarquias rurais.
Última aula — 15h.
O sol poente entrava pelas janelas com molduras de madeira esculpida em estilo neocolonial, projetando sombras alongadas sobre carteiras duplas de peroba-rosa. A lição de casa era copiar dez vezes: "Eu amo minha pátria". Ao sair, cada criança levava mais que deveres: levava a certeza de que pertencia a algo maior — uma nação em construção, da qual ela própria era pedra fundamental.
O sol poente entrava pelas janelas com molduras de madeira esculpida em estilo neocolonial, projetando sombras alongadas sobre carteiras duplas de peroba-rosa. A lição de casa era copiar dez vezes: "Eu amo minha pátria". Ao sair, cada criança levava mais que deveres: levava a certeza de que pertencia a algo maior — uma nação em construção, da qual ela própria era pedra fundamental.
A Mudança de Nome: Quando Carlos Alberto Ribeiro Entrou para a História
Com o passar das décadas, o Grupo Escolar Cel. Dias Batista recebeu nova denominação: Colégio Estadual Carlos Alberto Ribeiro. Essa mudança não apagou a memória — apenas a expandiu. Carlos Alberto Ribeiro, cuja biografia exata permanece envolta em certo mistério (como tantos educadores anônimos que moldaram gerações), provavelmente foi professor, diretor ou gestor público que dedicou anos àquela escola e à educação de Bocaiúva do Sul.
Essa dupla homenagem — primeiro ao coronel fundador, depois ao educador dedicado — revela a alma profunda daquela instituição: compreender que construir uma escola exige dois tipos de coragem. A coragem do pioneiro, que abre caminhos e doa terras; e a coragem do mestre, que dia após dia enfrenta a escassez de recursos, a distância das famílias, a dificuldade de levar livros a quem nunca viu uma biblioteca — e ainda assim insiste em ensinar que o mundo cabe inteiro dentro de um caderno de pautas.
Sobrevivente Silencioso: A Escola que Resistiu à Floresta e ao Esquecimento
Hoje, a edificação ainda existe — embora com alterações que o tempo e as necessidades impuseram
. As paredes que um dia foram rebocadas à mão por operários locais agora carregam camadas de tinta moderna; as janelas originais talvez tenham sido substituídas por vidros mais práticos; o piso de taco de madeira pode ter cedido lugar ao cimento polido. Mas a alma permanece.
Quem visita a Travessa Jacobe Budel, 53-125, encontra um edifício escolar funcional
, mas quem sabe olhar com os olhos da memória enxerga além: vê as mãos calejadas dos construtores que ergueram aquelas paredes em 1947-1948; ouve o sino que chamava para a aula em manhãs de neblina típicas do Vale do Ribeira; sente o cheiro de tinta nanquim e cera de assoalho; percebe, nas paredes já desgastadas, os ecos de milhões de palavras ditadas, lidas, sonhadas.
A escola resistiu não apenas à ação do tempo, mas ao isolamento geográfico de Bocaiúva do Sul — município de difícil acesso até hoje, situado numa região de beleza selvagem mas também de desafios socioeconômicos persistentes. Enquanto tantas escolas rurais fecharam portas diante da migração para as cidades, o Grupo Escolar Cel. Dias Batista — hoje Colégio Carlos Alberto Ribeiro — manteve-se de pé, adaptando-se, transformando-se, mas nunca abandonando sua missão primordial: ser farol de saber numa terra onde a floresta é generosa, mas a distância dos centros de poder é grande.
Legado em Forma de "U": O Abraço que Nunca Termina
O formato em "U" daquela escola neocolonial é, em si mesmo, uma metáfora perfeita da educação pública brasileira no interior: um abraço aberto, nunca fechado em si mesmo, sempre voltado para o mundo, para o pátio onde a vida acontece, para o futuro que se constrói coletivamente. Não é um círculo que aprisiona, nem uma linha reta que isola — é um gesto de acolhimento, de comunidade, de pertencimento.
Hoje, quando uma criança entra por suas portas para aprender a ler, ela não sabe que pisa no mesmo chão onde, em 1950, meninos e meninas escreveram pela primeira vez seus nomes com letra cursiva; onde, em 1964, adolescentes ouviram pelo rádio o golpe militar que mudaria o país; onde, em 1985, jovens comemoraram o fim da ditadura com bandeiras pintadas à mão. Mas algo dessa memória coletiva permanece — não nos documentos oficiais guardados na Coordenadoria do Patrimônio do Estado
, mas no silêncio respeitoso das salas de aula, no jeito como os professores ainda hoje olham para seus alunos com a mesma ternura obstinada de décadas atrás.
Que as crianças de Bocaiúva do Sul, ao correrem pelo pátio em forma de "U", sintam, mesmo sem entender, o peso sagrado daquele espaço. Que saibam, algum dia, que pisam onde outros pés descalços também caminharam em direção à luz — e que o verdadeiro neocolonialismo não está nas telhas de quatro águas ou nos beirais largos, mas na certeza ancestral de que educar é o ato mais revolucionário que existe. Porque enquanto houver uma criança lendo seu primeiro livro sob aquele teto, o Coronel Dias Batista não terá morrido — terá apenas mudado de nome, de rosto, de século. E continuará, eternamente, ensinando.

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