sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Entre Manguezais e Quadros-Negros: A Escola que Ensino a Ler às Marés em Guaraqueçaba

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Guaraqueçaba

Denominação atual: Colégio Estadual Marcílio Dias

Endereço: Rua Ferreira Lopes, 27 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Viação o Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 12 de janeiro de 1952

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar de Guaraqueçaba - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 402

Entre Manguezais e Quadros-Negros: A Escola que Ensino a Ler às Marés em Guaraqueçaba

Nas madrugadas de janeiro de 1952, enquanto a névoa salgada do Atlântico se enrolava nos manguezais de Guaraqueçaba como um véu prateado, algo extraordinário acontecia naquela vila isolada do litoral paranaense. No coração do Centro, na Rua Ferreira Lopes, número 27, crianças descalças de pés marcados pela lama dos mangues cruzavam pela primeira vez o portão de um edifício de tijolos avermelhados, telhado de quatro águas e forma de "U" — o Grupo Escolar de Guaraqueçaba, inaugurado em 12 de janeiro daquele ano. Para meninos que conheciam cada curva do rio dos Patos e meninas que sabiam distinguir o canto do bem-te-vi do assobio do sabiá-laranjeira, aquele dia marcava o início de uma jornada inimaginável: aprender a transformar o mundo em palavras.

O Isolamento que Moldou Sonhos: Guaraqueçaba nos Anos 1940

Na década de 1940, Guaraqueçaba não aparecia nos mapas com facilidade. Atingi-la exigia dias de viagem: primeiro trem até Paranaguá, depois lancha atravessando a Baía de Guaratuba, e finalmente barco a remo ou pequena embarcação subindo os canais serpenteantes que cortavam o Complexo Estuarino de Iguape-Cananéia-Paranaguá. A vila vivia ao ritmo das marés — pescadores saíam com a vazante, voltavam com a enchente; as ruas de terra encharcavam-se nas chuvas de verão; o correio chegava quando o mar permitia.
A população, em sua maioria descendentes de açorianos que haviam chegado no século XVIII, falava um português musical entremeado de expressões caiçaras: "vamo pra riba do rio", "a maré tá cheia de peixe", "o vento virô pra sudoeste". Os adultos liam o céu, as nuvens, o comportamento dos pássaros — mas poucos liam palavras impressas. A alfabetização era privilégio raro; muitos assinavam documentos com uma cruz trêmula.
Foi nesse contexto de beleza selvagem e isolamento profundo que a Secretaria de Viação e Obras Públicas do Paraná projetou, em 1948, um grupo escolar padronizado em estilo neocolonial. Não era apenas um prédio — era um ato de fé. Fé de que, mesmo naquela ponta de terra cercada por água e floresta, as crianças mereciam o mesmo direito à educação que as de Curitiba ou Londrina. Fé de que o saber podia viajar além das marés.

A Arquitetura como Abraço: O "U" que Protegia Sonhos

Erguido entre 1948 e 1951, o edifício seguia o padrão dos grupos escolares da era Vargas: tipologia em "U" que criava um pátio central protegido, onde as crianças brincariam sob olhar atento dos professores nas varandas. A linguagem neocolonial — telhados inclinados para enfrentar as chuvas torrenciais do litoral, beirais largos que projetavam sombra generosa, janelas altas para capturar a brisa marinha — não era mero estilo. Era adaptação sábia: cada detalhe respondia ao clima úmido, ao calor intenso, à necessidade de ventilação constante.
As paredes de tijolos maciços, pintadas em tons ocre que lembravam a terra avermelhada da região, aqueciam-se ao sol da manhã. O piso de taco de madeira — talvez cedro ou peroba trazida das matas vizinhas — rangia suavemente sob os pés descalços das crianças. No centro do "U", o pátio de terra batida (que anos depois se tornaria cimento) testemunharia rodas de capoeira ensinadas por um professor vindo do litoral norte, partidas de peteca com penas de garça verdadeira, e o cheiro inconfundível de lancheiras de lata contendo peixe frito ou farofa de banana-da-terra.
Mas o verdadeiro milagre acontecia dentro das salas. Ali, sob a luz filtrada pelas venezianas de madeira, meninos que sabiam navegar de olhos fechados pelos canais aprendriam a soletrar "A, de Abelha"; meninas que colhiam frutos do manguezal aprenderiam a escrever "m-a-r". O quadro-negro, superfície escura e lisa, tornava-se portal para outros mundos — mundos além dos manguezais, além do horizonte azul onde o mar encontrava o céu.

O Primeiro Dia de Aula: Quando o Mundo Caiçara Encontrou as Letras

Imaginemos aquela manhã de 12 de janeiro de 1952. O sino de ferro, pendurado sob a cumeeira do bloco central, tilintava pela primeira vez. Crianças chegavam de todas as direções: algumas a pé pelas trilhas enlameadas, outras em pequenos batéis que atracavam no cais mais próximo. Vestiam roupas remendadas com carinho pelas mães — calções curtos para os meninos, vestidos de algodão estampado para as meninas. Muitos traziam nos pés apenas a lama seca dos manguezais; sapatos eram luxo reservado aos domingos.
A professora, recém-chegada de Curitiba ou Paranaguá, observava aqueles rostos bronzeados pelo sol e salitre. Em seus olhos via-se não apenas curiosidade, mas também desconfiança: o que aquela mulher de vestido engomado e sapatos fechados poderia ensinar a quem já sabia ler as marés? Mas aos poucos, a magia acontecia. Quando ela desenhava no quadro uma casa com telhado e janela, as crianças reconheciam sua própria realidade transformada em símbolo. Quando escrevia "água", elas viam não apenas a palavra, mas o rio onde pescavam, a chuva que caía sobre os telhados de palha, o mar que as cercava por todos os lados.
A aula de Geografia tornava-se momento de revelação: ao apontar o mapa do Brasil, a professora mostrava que Guaraqueçaba — aquela vila minúscula que muitos julgavam o fim do mundo — fazia parte de algo maior. A aula de História contava histórias de heróis distantes, mas também valorizava os pescadores locais, os construtores de embarcações, os guardiões do manguezal. A escola não apagava a cultura caiçara; dava-lhe dignidade através das letras.

A Transformação em Colégio Estadual Marcílio Dias: Quando o Herói Naval Encontrou os Filhos do Mar

Em data não precisamente documentada — provavelmente entre o final dos anos 1950 e início da década de 1960 — o Grupo Escolar de Guaraqueçaba transformou-se em Colégio Estadual Marcílio Dias. A mudança de nome não foi casual. Marcílio Dias, marinheiro nascido em Laguna (Santa Catarina) em 1811, tornara-se símbolo da bravura naval brasileira ao morrer heroicamente durante a Revolução Farroupilha, comandando a embarcação Seival em combate desigual contra forças inimigas.
Para uma comunidade cuja vida girava em torno da água, homenagear um herói marítimo era gesto profundamente simbólico. Era dizer às crianças: "Vocês, filhos do manguezal e do mar, descendem de navegadores. Seu sangue carrega a coragem dos que enfrentam as ondas. Agora aprendam também a enfrentar os desafios das letras e dos números."
A transição de "grupo escolar" para "colégio" indicava também expansão pedagógica — agora a instituição atendia séries mais avançadas, permitindo que adolescentes de Guaraqueçaba continuassem estudando sem precisar deixar a vila. Para muitos, isso significava a diferença entre abandonar os estudos aos dez anos ou sonhar com um futuro além da pesca artesanal.

O Legado nas Paredes que Resistiram às Marés

Hoje, décadas depois, o Colégio Estadual Marcílio Dias permanece de pé na Rua Ferreira Lopes. Suas paredes exibem as marcas do tempo: pinturas sobrepostas em cores mais vibrantes, janelas modernizadas, o pátio central agora pavimentado. O telhado neocolonial ainda desenha sua silhueta característica contra o céu úmido do litoral paranaense, mas sob as telhas novas escondem-se as originais que resistiram a furacões e tempestades tropicais.
Dentro dele, adolescentes com celulares nas mãos transitam pelos mesmos corredores onde, setenta anos antes, crianças descalças corriam para a aula de canto. O cheiro de giz deu lugar ao aroma de xerox e marmitas de peixe. Mas algo permanece intacto: a função sagrada daquele espaço. A mesma promessa contida em cada tijolo assentado em 1948 — de que a educação é o único bem que as marés não levam — continua viva nos olhos de jovens que, talvez filhos de pescadores ou de famílias que migraram para a região, encontram naquelas salas a mesma esperança que seus avós encontraram décadas atrás.

Epílogo: A Escola que Aprendeu com o Manguezal

O manguezal ensina uma lição silenciosa: para sobreviver na interface entre água doce e salgada, entre maré alta e baixa, é preciso flexibilidade e raízes profundas. O Grupo Escolar de Guaraqueçaba — hoje Colégio Estadual Marcílio Dias — incorporou essa sabedoria. Adaptou-se aos tempos sem perder sua essência; modernizou-se sem apagar a memória; expandiu seus horizontes sem esquecer suas raízes caiçaras.
Nas noites de lua cheia, quando a maré enche e o canto dos sapos enche o ar úmido, dizem os moradores mais antigos que é possível ouvir, vindo do prédio escolar, o eco distante de vozes infantis recitando a tabuada em coro. Não são fantasmas — são memórias impregnadas na alvenaria, sonhos cristalizados no reboco das paredes. Aquele edifício em forma de "U" nunca foi apenas uma construção. Foi mãe substituta para filhos de pescadores que saíam antes do amanhecer; foi refúgio para crianças que fugiam de casas onde a fome falava mais alto que o carinho; foi portal por onde gerações inteiras de guaraqueçabenses cruzaram da oralidade para a escrita, do isolamento para a cidadania.
Seus tijolos viram meninos que aprenderam a ler ali se tornarem professores que voltaram para ensinar na mesma escola; viram meninas que soletravam "mar" com dificuldade se transformarem biólogas que hoje protegem os manguezais onde brincaram. Cada rachadura na parede conta uma história; cada degrau gasto do corredor central carrega a marca de milhares de passos rumo ao futuro.
E assim, entre o cheiro de maresia e o giz do quadro-negro, entre o sotaque caiçara das origens e o português culto das novas gerações, o edifício em forma de "U" permanece de braços abertos — não mais apenas para abraçar crianças, mas para abraçar o tempo inteiro, guardando em seu silêncio a certeza de que, enquanto houver uma sala de aula com luz acesa mesmo na vila mais isolada, haverá esperança. E enquanto houver esperança, haverá Brasil — não apenas o Brasil das capitais e metrópoles, mas o Brasil profundo, o Brasil das marés, o Brasil que aprendeu a ler olhando para o mar.

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