Denominação inicial: Grupo Escolar Dias da Rocha
Denominação atual: Escola Estadual Dias da Rocha
Endereço: Rua Major Sezino Pereira de Souza, 723 - Centro
Cidade: Araucária
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Secção Tecnnica
Data:
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 1938
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Dias da Rocha - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 4849
Entre Paredes de Sonho: A História Viva do Grupo Escolar Dias da Rocha e a Alma Art Déco que Moldou Gerações em Araucária
Na esquina da Rua Major Sezino Pereira de Souza com o tempo, ergue-se desde 1938 um monumento silencioso à esperança: o Grupo Escolar Dias da Rocha. Não é apenas um prédio — é uma promessa feita em concreto, vidro e linhas elegantes; é o testemunho de uma era em que o Brasil acreditava que a modernidade não era privilégio das metrópoles, mas direito de cada criança, mesmo aquela que morava sob a sombra das araucárias no coração do Paraná. Enquanto o mundo se preparava para a guerra, enquanto Getúlio Vargas falava ao país pelo rádio e o café ainda ditava os rumos da economia nacional, Araucária erguia, com mãos calejadas e sonhos generosos, um templo para o futuro: uma escola em forma de "U", abraçando o pátio onde gerações aprenderiam que o conhecimento é a única fronteira que nunca se fecha.
O Amanhecer do Novo: 1938 e o Sonho Varguista da Educação
O ano era 1938. O Brasil vivia sob o Estado Novo — regime autoritário, sim, mas também período de intensa construção nacional. Getúlio Vargas, compreendendo que uma nação se faz com cidadãos alfabetizados, lançara o movimento de expansão escolar em escala sem precedentes. No Paraná, governadores como Manuel Ribas transformaram essa diretriz em realidade concreta: enquanto o Norte Novo se abria para a colonização cafeeira, o estado investia naquele que seria seu bem mais precioso — a educação pública, gratuita e de qualidade.
Foi nesse contexto de fé coletiva no progresso que nasceu o Grupo Escolar Dias da Rocha. Projetado pela Secção Técnica — órgão visionário da administração estadual responsável por padronizar, com elegância e funcionalidade, centenas de escolas pelo interior —, o edifício rompeu com a austeridade eclética das construções anteriores. Sua tipologia em "U" não era mero capricho arquitetônico: era filosofia pedagógica materializada. O formato aberto abraçava um pátio central — espaço de encontro, de brincadeiras, de primeira socialização — enquanto as alas laterais abrigavam salas de aula dispostas para maximizar iluminação natural e ventilação cruzada, essenciais naquele clima úmido da região. Cada detalhe respondia a uma pergunta urgente da época: como construir escolas que não apenas abriguem, mas inspirem?
A Beleza como Direito: O Art Déco nas Terras do Pinheiro
Se a década de 1910 trouxera às escolas paranaenses a solidez do ecletismo, a década de 1930 chegou com a ousadia do Art Déco — movimento que celebrou a máquina, a velocidade e a geometria como expressões da era moderna. E foi essa linguagem revolucionária que vestiu o Grupo Escolar Dias da Rocha.
Imagine a cena em 1938: crianças acostumadas às casas de taipa e madeira rústica cruzando o portão de uma construção onde linhas retas e curvas suaves dialogavam em harmonia; onde os vãos das janelas, dispostos com ritmo quase musical, criavam jogos de luz e sombra ao longo do dia; onde pequenos elementos decorativos — talvez um friso geométrico sobre a entrada principal, talvez o contorno elegante de uma marquise — sussurravam que ali era diferente. Ali, a beleza não era luxo; era direito. Ali, o Estado não apenas ensinava a ler e escrever — ensinava, sem palavras, que o povo merecia ambientes dignos, que a infância merecia ser celebrada em espaços que falassem de futuro.
O Art Déco, nascido nos salões parisienses e nos arranha-céus nova-iorquinos, encontrara em Araucária sua expressão mais humilde e, por isso mesmo, mais nobre: não servia ao espetáculo, mas à educação; não adornava palácios, mas salas onde meninos e meninas de pés descalços aprenderiam a assinar seus nomes pela primeira vez.
O Cotidiano Sagrado: Vozes que Preencheram o "U" da História
Ao amanhecer de uma manhã de abril de 1940, o sino da escola ecoava pela rua:
Primeira aula — 8h.
Meninas de vestidos rodados e tranças bem-feitas, meninos de calças curtas e pés descalhos (os sapatos ficavam guardados para não gastar) ocupavam carteiras duplas de madeira escura. O cheiro de cera de abelha misturava-se ao aroma do pão com manteiga trazido de casa. A professora, de vestido discreto e cabelo preso em coque severo, mas olhos cheios de ternura, escrevia no quadro-negro com giz que rangia suavemente: "O Brasil é a minha pátria".
Meninas de vestidos rodados e tranças bem-feitas, meninos de calças curtas e pés descalhos (os sapatos ficavam guardados para não gastar) ocupavam carteiras duplas de madeira escura. O cheiro de cera de abelha misturava-se ao aroma do pão com manteiga trazido de casa. A professora, de vestido discreto e cabelo preso em coque severo, mas olhos cheios de ternura, escrevia no quadro-negro com giz que rangia suavemente: "O Brasil é a minha pátria".
Recreio — 10h.
O pátio em forma de "U" transformava-se em universo: pular corda, jogar peteca feita de penas de galinha, dividir um doce de leite embrulhado em papel de pão. Sob as araucárias que davam nome à cidade, crianças filhas de tropeiros, de imigrantes ucranianos que chegavam para trabalhar na agricultura, de famílias tradicionais da região corriam lado a lado — a escola pública como primeiro espaço verdadeiramente democrático.
O pátio em forma de "U" transformava-se em universo: pular corda, jogar peteca feita de penas de galinha, dividir um doce de leite embrulhado em papel de pão. Sob as araucárias que davam nome à cidade, crianças filhas de tropeiros, de imigrantes ucranianos que chegavam para trabalhar na agricultura, de famílias tradicionais da região corriam lado a lado — a escola pública como primeiro espaço verdadeiramente democrático.
Última aula — 15h.
O sol poente entrava pelas janelas Art Déco, projetando sombras alongadas sobre cadernos de pautas. A lição de casa era copiar dez vezes: "Eu amo o meu Brasil". Ao sair, cada criança levava mais que deveres: levava a certeza de que pertencia a algo maior — uma nação em construção, da qual ela própria era pedra fundamental.
O sol poente entrava pelas janelas Art Déco, projetando sombras alongadas sobre cadernos de pautas. A lição de casa era copiar dez vezes: "Eu amo o meu Brasil". Ao sair, cada criança levava mais que deveres: levava a certeza de que pertencia a algo maior — uma nação em construção, da qual ela própria era pedra fundamental.
Quem Foi Dias da Rocha? A Memória por Trás do Nome
Assim como seu antecessor na mesma rua, o nome "Dias da Rocha" carrega o peso da gratidão histórica. Embora documentos precisos sejam escassos, é plausível que se refira a um educador pioneiro, um político local comprometido com a instrução pública ou um benfeitor que doou terrenos para a causa escolar. Em uma época em que nomear uma escola era ato solene — quase sagrado —, escolher "Dias da Rocha" significava imortalizar alguém cuja vida se confundira com o destino educacional de Araucária. Talvez tenha sido professor que caminhava quilômetros para lecionar em salas improvisadas; talvez tenha sido diretor que enfrentou a escassez de recursos com criatividade e amor; talvez tenha sido simplesmente um homem que acreditou, antes de todos, que as crianças daquela terra de pinheirais mereciam o mundo nas mãos — e o mundo começa com uma letra bem escrita.
Sobrevivente Silencioso: A Escola que Resistiu ao Tempo
Enquanto seu "irmão mais velho" — a Casa Escolar Dias da Rocha do número 419 — sucumbiu à demolição, este Grupo Escolar do número 723 resistiu. Hoje, como Escola Estadual Dias da Rocha, ainda recebe crianças em seus corredores, ainda abriga sonhos sob seu telhado. É verdade que sofreu alterações ao longo das décadas — novas pinturas, divisórias acrescentadas, talvez janelas substituídas — mas sua alma permanece intacta. A tipologia em "U" ainda abraça seu pátio; as linhas Art Déco, ainda que discretas sob camadas de tinta, continuam contando a história de uma época que acreditou na educação como motor da nação.
Essa resistência física é rara e preciosa. Enquanto tantas escolas históricas do Paraná desapareceram sob o concreto do "progresso", o Grupo Escolar Dias da Rocha permanece de pé — não como museu intocado, mas como organismo vivo, adaptando-se sem perder a memória. Cada criança que hoje entra por suas portas pisoteia, sem saber, o mesmo chão onde, em 1945, meninos e meninas comemoraram o fim da guerra ouviram pelo rádio; onde, em 1950, aprenderam a escrever o nome de Getúlio Vargas; onde, em 1960, sonharam com Brasília recém-inaugurada.
Legado em Forma de "U": O Abraço que Nunca Termina
O formato em "U" do Grupo Escolar Dias da Rocha é, em si mesmo, uma metáfora perfeita da educação pública brasileira: um abraço aberto, nunca fechado em si mesmo, sempre voltado para o mundo, para o pátio onde a vida acontece, para o futuro que se constrói coletivamente. Não é um círculo que aprisiona, nem uma linha reta que isola — é um gesto de acolhimento, de comunidade, de pertencimento.
Hoje, quando passamos pelo número 723 da Rua Major Sezino Pereira de Souza, vemos um edifício escolar como tantos outros. Mas quem sabe olhar com os olhos da memória enxerga além: vê as mãos calejadas dos operários que ergueram suas paredes em 1937; ouve o sino que chamava para a aula em manhãs de neblina; sente o cheiro de tinta nanquim e cera de assoalho; percebe, nas paredes já desgastadas, os ecos de milhões de palavras ditadas, lidas, sonhadas.
A Escola Estadual Dias da Rocha não é apenas um prédio existente com alterações. É um coração que ainda bate — devagar, talvez cansado, mas vivo. É a prova de que, mesmo em tempos de incerteza, algumas coisas resistem: a fé na infância, a beleza como direito, a certeza de que cada criança merece aprender sob um teto que não apenas a abrigue, mas a eleve.
Que as crianças de hoje, ao correrem pelo pátio em forma de "U", sintam, mesmo sem entender, o peso sagrado daquele espaço. Que saibam, algum dia, que pisam onde outros pés descalços também caminharam em direção à luz — e que o verdadeiro Art Déco não está nas linhas geométricas das paredes, mas na geometria perfeita do encontro entre um professor que ensina e um aluno que aprende. Porque enquanto houver uma criança lendo seu primeiro livro sob aquele teto, Dias da Rocha não terá morrido — terá apenas mudado de nome, de rosto, de século. E continuará, eternamente, ensinando.

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