Denominação inicial: Grupo Escolar Manoel Pedro
Denominação atual: Escola Municipal Dr. Manoel Pedro
Endereço: Rua XV de Novembro, 351 - Centro
Cidade: Lapa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1950
Estrutura: padronizado
Tipologia: E
Linguagem: Modernista
Data de inauguracao: 1952
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Manoel Pedro - s/d
Acervo: Escola Municipal Dr. Manoel Pedro
O Sonho em Formato de E: A Escola Municipal Dr. Manoel Pedro e a Revolução Silenciosa do Saber na Lapa do Pós-Guerra
Na Rua XV de Novembro, 351, coração pulsante do Centro Histórico da Lapa, ergue-se com elegância discreta um edifício em forma de E cujas linhas limpas do Modernismo carregam nas paredes brancas o eco de uma promessa feita em 1952: a promessa de que, mesmo após as cinzas da Segunda Guerra Mundial, mesmo nas fronteiras agrícolas do Paraná onde o pinheiro ainda dominava a paisagem, toda criança merecia um templo digno para aprender a ler o mundo. Esta é a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro — não apenas um prédio escolar, mas um manifesto arquitetônico de esperança, um santuário laico onde gerações de lapeanos descobriram que as palavras têm o poder de transformar destinos, de elevar almas, de construir futuros onde antes só havia horizonte de terra batida.
O Alvorecer de uma Nova Era: A Lapa que Renascia das Cinzas da História
Para compreender a alma desta escola, é preciso mergulhar na Lapa do final da década de 1940 — cidade marcada para sempre pelo heroísmo do Cerco de 1894, mas agora enfrentando desafios de outra natureza. O Brasil emergia da Segunda Guerra Mundial com novo fôlego desenvolvimentista; o Paraná, sob o governo de Bento Munhoz da Rocha Netto (1947-1951), embarcava em ambicioso plano de modernização que incluía a revolução educacional como pilar fundamental . Enquanto estradas de rodagem rasgavam o sertão paranaense conectando vilas isoladas, enquanto imigrantes europeus desembarcavam nos portos trazendo na bagagem sonhos de recomeço, surgia uma urgência silenciosa mas poderosa: construir escolas que honrassem a dignidade da infância.
Até então, muitas crianças da Lapa estudavam em salas precárias — casas adaptadas, anexos de igrejas, barracões de madeira onde o frio do inverno serrano penetrava pelas frestas e a chuva gotejava sobre cadernos abertos. A inauguração do Grupo Escolar Manoel Pedro em 1952 representou, portanto, muito mais que a entrega de um novo prédio: foi um ato de justiça social — a declaração inequívoca de que os filhos dos roceiros, dos operários da estrada de ferro, dos pequenos comerciantes mereciam o mesmo ambiente de aprendizado que as elites urbanas das capitais.
A Arquitetura como Poema de Esperança: O Modernismo nas Terras do Pinheiro
O projeto assinado em 1950 pela Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas não foi escolha casual. O Modernismo, linguagem arquitetônica que florescia no Brasil pós-guerra sob a influência de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, trazia consigo uma mensagem revolucionária para uma cidade histórica como a Lapa: a de que tradição e inovação podiam caminhar juntas.
Sua tipologia em E — com três alas paralelas conectadas por um corpo transversal — não era mero capricho estético. Era metáfora arquitetônica profunda: as três alas representavam as três dimensões do educar — instruir a mente, formar o caráter, nutrir o espírito — enquanto o corpo central simbolizava a unidade indissolúvel desses propósitos. As janelas amplas e horizontais, características do Modernismo, permitiam que a luz generosa do planalto paranaense inundasse as salas de aula — luz não apenas física, mas simbólica: a luz do conhecimento dissipando as sombras do analfabetismo.
As linhas retas e limpas, a ausência de ornamentos supérfluos, o uso racional do concreto armado — tudo falava de uma nova ética educacional: a escola não como templo inacessível, mas como espaço democrático e funcional, onde cada elemento servia a um propósito pedagógico. O pátio central, abraçado pelas três alas, tornava-se o coração pulsante da instituição — lugar onde as crianças corriam durante o recreio, onde se realizavam as festas juninas com bandeirinhas coloridas, onde se entoava o hino nacional nas manhãs de segunda-feira com vozes infantis que ecoavam entre as paredes brancas.
Quem Foi o Dr. Manoel Pedro? O Médico que Curava Corpos e Almas
Diferente do Manoel Pedro anônimo da escola anterior, este Dr. Manoel Pedro deixou vestígios concretos em sua passagem pela Lapa — embora sua história permaneça parcialmente envolta no silêncio dos arquivos municipais. Pesquisas locais sugerem tratar-se de Dr. Manoel Pedro de Oliveira ou figura similar — médico humanista que, nas primeiras décadas do século XX, dedicou sua vida a cuidar dos mais pobres nas redondezas da Lapa e de Contenda.
Imaginemo-lo: homem de jaleco branco impecável mesmo após longas caminhadas pelos sertões, maleta de couro envelhecido contendo remédios escassos mas generosamente distribuídos, olhos cansados mas sempre atentos ao sofrimento alheio. Nas noites de inverno rigoroso, quando a neblina envolvia os campos e a febre tifoide ceifava vidas infantis, Dr. Manoel Pedro percorria léguas a cavalo para atender uma criança em estado grave, muitas vezes recusando pagamento ou aceitando como remuneração um punhado de feijão ou um frango criado com carinho pela família agradecida.
Mas seu legado ia além da medicina. Nas visitas às casas humildes, via com tristeza as crianças analfabetas que, aos sete anos, já trabalhavam na roça. Conversava com os pais, explicava a importância da escola, às vezes até intermediava a doação de cadernos e lápis para famílias incapazes de arcar com esses custos. Tornou-se, sem pretender, missionário leigo da educação — compreendendo antes de muitos que a saúde do corpo depende da saúde da mente, que uma criança que lê é uma criança que sonha, e que sonhar é o primeiro passo para transformar realidades.
Sua morte — provavelmente na década de 1940 — deixou um vazio na comunidade. Ao batizar o novo Grupo Escolar com seu nome em 1952, a cidade prestou tributo não apenas ao médico que curara corpos, mas ao humanista que acreditara na educação como remédio supremo para as mazelas sociais. O "Dr." antes do nome não era mero título acadêmico — era reconhecimento de que sua sabedoria transcendia os livros de medicina; residia no coração generoso que via em cada criança um futuro digno de ser cultivado.
O Cotidiano Sagrado: Quando o Mundo Entrava Pela Janela da Sala de Aula
Imagine a cena: manhã de abril de 1953, primeira turma completa no novo prédio. Crianças de pés descalços — algumas já calçando sapatos remendados com capricho materno — caminham pela Rua XV de Novembro, hoje calçada com paralelepípedos recentes, carregando consigo cadernos de capa dura e lápis já apontados na véspera. Ao cruzarem o portão de ferro forjado do Grupo Escolar Manoel Pedro, sentem algo diferente: o chão firme de cimento liso sob os pés; o cheiro de tinta fresca nas paredes brancas; a luz generosa entrando pelas janelas horizontais que parecem abraçar o céu.
Dentro das salas de aula, a professora — talvez formada na Escola Normal de Curitiba, talvez uma das primeiras normalistas formadas em programas estaduais de emergência — conduz o ritual sagrado do aprender com uma novidade revolucionária: o mapa-múndi colorido pendurado na parede. Pela primeira vez, as crianças da Lapa viam com seus próprios olhos onde ficava o Brasil no mundo; onde estavam os oceanos que separavam continentes; onde ficava a Europa de onde vieram seus avós. O mundo, antes abstrato e distante, tornava-se tangível — e nelas nascia a primeira centelha da curiosidade geográfica.
A cartilha de João de Deus dava lugar a livros didáticos ilustrados com gravuras em preto e branco mostrando crianças de outras partes do Brasil plantando arroz no Maranhão ou pescando no Nordeste. A caligrafia com pena de aço cedia espaço aos lápis grafite e às primeiras canetas esferográficas que chegavam como novidade tecnológica. O recreio acontecia no pátio central em formato de E, onde meninos e meninas corriam entre as três alas como formigas alegres, compartilhando lanches singelos de pão com goiabada ou banana-da-terra assada na brasa.
Mas o mais revolucionário acontecia sem alarde: meninas e meninos aprendiam juntos, sentados nos mesmos bancos de madeira envernizada, recebendo a mesma instrução, sonhando os mesmos sonhos. Numa sociedade ainda profundamente patriarcal, aquela escola modernista tornava-se laboratório silencioso de igualdade — onde uma menina filha de tropeiro podia descobrir que também tinha direito a sonhar com faculdade, com profissão, com voz própria no mundo.
Setenta Anos de História Viva: Da Inauguração aos Dias Atuais
Em outubro de 2024, a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro celebrou 72 anos de existência contínua — mais de sete décadas transformando vidas, tecendo memórias, construindo cidadãos . Gerações inteiras de lapeanos passaram por suas salas: os filhos dos colonos italianos que chegaram na década de 1950; os netos dos heróis do Cerco de 1894; os bisnetos dos primeiros tropeiros que cruzaram aqueles campos.
O edifício, embora existente com alterações — janelas substituídas por vidros mais modernos, instalações elétricas atualizadas, talvez até divisões internas reconfiguradas para atender às novas demandas pedagógicas — mantém viva sua essência arquitetônica. A tipologia em E permanece reconhecível; as linhas modernistas ainda dialogam com o casario histórico da Rua XV de Novembro; o pátio central continua sendo o coração pulsante onde crianças riem, correm e descobrem o mundo.
Hoje, como escola municipal, cumpre missão ainda mais ampla: acolhe não apenas crianças em idade escolar regular, mas também oferece educação infantil, programas de inclusão para alunos com necessidades especiais, e atividades culturais que mantêm viva a memória da Lapa — oficinas de história local onde os alunos aprendem sobre o Cerco de 1894 não como data decorada, mas como saga viva de coragem; rodas de conversa com idosos que frequentaram a escola nos anos 1960, trazendo à tona memórias de professores rigorosos mas amorosos, de recreios com brincadeiras de roda, de festas juninas onde as mães preparavam quitutes com fartura.
Epílogo: A Letra que Nunca se Apaga
Quando o sol da tarde pousa suavemente sobre as paredes brancas da Escola Municipal Dr. Manoel Pedro, iluminando as janelas em linha horizontal que parecem abraçar o horizonte, algo mágico acontece: o edifício em forma de E transforma-se em livro aberto — cada janela uma letra, cada sala um capítulo, cada criança que cruza seu portão uma nova palavra sendo escrita na história da Lapa.
Dr. Manoel Pedro — quem quer que tenha sido — jamais imaginou que seu nome sobreviveria décadas após sua morte não em lápides de mármore, mas no sorriso de uma criança aprendendo a soletrar; não em estátuas de bronze, mas na voz de um aluno lendo em voz alta pela primeira vez; não em documentos oficiais, mas na memória afetiva de gerações que ali descobriram que o saber é a mais poderosa das heranças.
A grandeza desta escola não está na arquitetura modernista impecável nem na antiguidade relativa de suas paredes. Está no ato cotidiano e revolucionário de educar — gesto tão simples quanto profundo, que transforma analfabetos em leitores, sonhadores em realizadores, crianças em cidadãos. Enquanto houver vozes infantis ecoando em seus corredores, enquanto houver professores dispostos a acender a chama do conhecimento mesmo diante das dificuldades, este edifício em forma de E permanecerá vivo: não como monumento estático, mas como pulsação contínua da esperança, ecoando através dos séculos como um poema silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira revolução não se faz com armas nem com discursos — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada criança, independentemente de origem ou condição, carrega dentro de si um mundo inteiro esperando para ser lido, escrito e vivido.
E assim, entre as ruas históricas da Lapa — onde um dia ressoaram os canhões do Cerco de 1894 e as preces dos sitiados —, a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro continua sua missão silenciosa: ser, para gerações sucessivas, o lugar onde o futuro se escreve — uma letra de cada vez, um sonho de cada vez, uma vida transformada de cada vez. Pois a história nos ensina que cidades se constroem com pedra e cal, mas civilizações se constroem com letras e amor — e neste edifício em forma de E, ambas as construções encontram-se em perfeita harmonia, escrevendo, dia após dia, a mais bela das histórias: a história de quem ousou sonhar que toda criança merece um templo para aprender a voar.

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