terça-feira, 18 de agosto de 2026

Amador Bueno da Veiga: O Cabo-Maior dos Paulistas e Pioneiro do Sertão

 

Amador Bueno da Veiga
Nascimento
Morte
1719 (69 anos)

OcupaçãoBandeirante

Amador Bueno da Veiga (São Paulo, c. 1650Casa Branca, 1719) foi um bandeirante paulista. Era bisneto de Amador Bueno, o "Aclamado". Silva Leme o estuda no volume III, página 203 de seu livro Genealogia Paulistana.

Bandeirante

No final do século XVII havia uma grande comoção em São Paulo devido ao grande afluxo de europeus e de pessoas oriundas de outros lugares, principalmente da região nordeste, para a região de lavra de ouro das Minas Gerais. Os paulistas acreditavam que por terem descoberto as minas deveriam ter o direito exclusivo de explora-las e para tanto enviaram a famosa representação de 16 de abril de 1700 ao governador da Repartição do Sul, Artur de Sá e Meneses.[1] Nesta ocasião Amador Bueno da Veiga não assinou a petição pois estaria no sertão com João Cavaleiro.[2] Amador já tinha em São Paulo sítio na margem direita do Anhembi (no atual bairro do Mandaqui) que se estendia até as encostas da Cantareira (São Miguel e Guarulhos). Nela existia uma extensa área onde se cultivava trigo, destinado ao abastecimento da vila e de outras províncias.[3]

Em 23 de setembro de 1704 Amador propusera abrir um novo caminho de São Paulo para as Minas, conforme informou nesta data ao Governador do Rio de Janeiro.[4] Pedia prazo de um ano e oferecia ser caminho capaz de por ele andarem cavalgaduras carregadas, gente e condução de gados. O aberto pelo Capitão Garcia Rodrigues Pais, dizia, é incapaz de cavalgaduras carregadas nem gados por ser muito prolongado de três meses de viagens por matos e estéril de mantimentos, ainda dos que o mato cria. Pedia em troca «os campos beira mato da Serra da Boa Vista té a Graça pelo cumprimento e rumo direito do Caminho das Minas e a mata da borda do campo té o cume das serras e cordoaria do mar por uma e outra parte; as quais terras sendo Vossa Majestade servido, assim confrontadas da Serra da Boa Vista até a Graça cortando pelos travessões para a parte do mar até o cume das serras e tudo o que dos ditos rumos ficar para centro, dar-lhas de sesmaria e mercê para ele e seus descendentes com a do hábito de Cristo e foro de fidalgo da Casa.» Era a segunda proposta de refazer o Caminho Novo.[5] A terceira viria em 1705 de Félix de Gusmão - por ela descobrimos que Garcia Rodrigues Pais estava acabando o seu caminho até a Paraiba, já estava com a estrada larga e duas roças feitas.»

Participou da Guerra dos Emboabas entre 1707 e 1709 e neste último ano foi nomeado comandante chefe (Cabo-Maior) do exército paulista que marchou para o rio das Mortes, em Minas, para vingar a morte dada a seus concidadãos, pelos portugueses no Capão da Traição, ao findar da Guerra dos Emboabas. Como recompensa obteve sesmarias no que é hoje Taubaté no estado de São Paulo.[6][7] E vem daí sua alcunha, o Cabo Maior dos Paulistas.[8][9] Este episódio refletiu na emancipação da Capitania de São Paulo que até 1720 englobava Minas Gerais.[7]

Em carta ao Rei escrita em 20 de Janeiro de 1708 Antônio Luís Peleja, Ouvidor Geral de São Paulo, fala dele: «natural e morador de São Paulo, insolente, régulo, o mais fascinoroso homicida de muitas vidas», que se tinha feito atribuir, no momento das repartições, o mais precioso do ribeiro de Bento Rodrigues, em Ouro Preto. Habitou a região de Minas «muitos anos com muito gentio e roças em tempos que davam os maiores lucros, trazendo grande número de arrobas de ouro e tinha tido, durante meses, ourives trabalhando para ele para fundir o ouro em lingotes, cunhá-lo ou fazer jóias e objetos preciosos. Segundo conta Antonil, Amador extraiu oito arrobas de ouro “do rio do Ouro Preto, do Ribeirão e de outras partes”.[10]

Amador Bueno da Veiga então se dedicou ao desbravamento dos sertões dos rios Mogi-Guassu e Pardo, em cujas margens faleceu em novembro de 1719. Foi um dos grandes propulsores da era econômica de São Paulo, conhecida por Tropismo.[11]

Descendente de bandeirantes, foi por sua vez, ascendente de figuras importantes de São Paulo e do Brasil, como a poetisa Bárbara Heliodora.[12]

Homenagens

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No bairro da Penha, em São Paulo, leva seu nome a Avenida Amador Bueno da Veiga.[13]

Referências

  1. Mello, Evaldo Cabral de (2003). A fronda dos mazombos:. nobres contra mascates, Pernambuco, 1666-1715. [S.l.]: Editora 34, p. 163. ISBN 9788573262742
  2. Megale, Heitor; Neto, Sílvio de Almeida Toledo (2006). Por minha letra e sinal: documentos do ouro do século XVII. [S.l.]: Atelie Editorial, pp. 110-111. ISBN 9788574803036
  3. Ponciano, Levino (2017). Bairros paulistanos de A a Z:. pequeno dicionário histórico e amoroso. [S.l.]: Senac, p. 556. ISBN 9788539604203
  4. Reis, Antônio Simões dos (1942). Bibliografía nacional. [S.l.]: Z. Valverde., p. 17
  5. Leite, Aureliano (1942). O cabo-maiór dos paulistas na guerra com os emboabas. [S.l.]: Livraria Martins, p. 42
  6. Francisco de Paula Toledo. «A guerra dos Emboabas». Almanaque de Taubate. Consultado em 15 de julho de 2019
  7.  Keating, Vallandro; Maranhão, Ricardo (2019). Caminhos da conquista:. a formação do espaço brasileiro. [S.l.]: Editora Terceiro Nome, p. 172. ISBN 9788578162306
  8. Francisco Arisa; Rodrigo Luiz Buzatto. «Museu Histórico e Pedagógico Amador Bueno da Veiga». Visite Rio Claro. Consultado em 15 de julho de 2019
  9. Sifuentes, Mônica (2015). Um poema para Bárbara: A história de amor que ajudou a escrever a História do Brasil. [S.l.]: Gutemberg, p. 127. ISBN 9788582353363
  10. Antonil, André João (2007). Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. [S.l.]: EdUSP, p. 242. ISBN 9788531408571
  11. «Avenida Amador Bueno da Veiga». São Paulo Bairros. Consultado em 16 de julho de 2019
  12. Análise & conjuntura. Volumes 1-2. [S.l.]: Fundação João Pinheiro, p. 129. 1986
  13. Arquivo Histórico Municipal, Prefeitura da Cidade de São Paulo -. «Avenida Amador Bueno da Veiga». Dicionário de Ruas. Consultado em 19 de deze

Amador Bueno da Veiga: O Cabo-Maior dos Paulistas e Pioneiro do Sertão

Amador Bueno da Veiga (São Paulo, c. 1650 — Casa Branca, novembro de 1719) foi um célebre bandeirante paulista, figura central nos conflitos e na abertura de caminhos durante o período colonial brasileiro. Bisneto de Amador Bueno, o "Aclamado", a sua trajetória e ascendência são detalhadas pelo historiador Silva Leme no Volume III (página 203) de sua obra clássica Genealogia Paulistana.

📜 Contexto Histórico e Atuação como Bandeirante

1. Conflitos de Interesses em São Paulo

No final do século XVII, a descoberta de ouro na região de Minas Gerais provocou uma enorme agitação em São Paulo, impulsionada pelo afluxo massivo de europeus e de pessoas de outras capitanias, especialmente do Nordeste. Os paulistas reivindicavam o direito exclusivo à exploração das minas que tinham descoberto, formalizando essa exigência através da célebre representação de 16 de abril de 1700 enviada ao governador da Repartição do Sul, Artur de Sá e Meneses.

  • Ausência Estratégica: Amador Bueno da Veiga não assinou a petição por se encontrar no sertão na companhia de João Cavaleiro.

  • Propriedades Agrícolas: Em São Paulo, possuía um vasto sítio situado na margem direita do rio Anhembi (no atual bairro do Mandaqui), estendendo-se até às encostas da Cantareira (São Miguel e Guarulhos). O local abrigava extensas plantações de trigo destinadas ao abastecimento da vila e de outras províncias.

2. A Proposta para um Novo Caminho para as Minas

Em 23 de setembro de 1704, Amador apresentou ao Governador do Rio de Janeiro uma proposta para abrir uma nova rota terrestre ligando São Paulo às minas de ouro.

  • Crítica à Rota Existente: Argumentava que o caminho aberto pelo Capitão Garcia Rodrigues Pais era inadequado para o trânsito de gado e cavalgaduras carregadas, além de ser excessivamente longo (exigindo cerca de três meses de viagem por matas estéreis de mantimentos).

  • Recompensas Solicitadas: Em troca do empreendimento, pedia sesmarias nos campos e serras entre a Serra da Boa Vista e a Graça, além do título de fidalgo da Casa Real e a comenda do Hábito de Cristo. Esta foi a segunda tentativa de projetar o chamado Caminho Novo.

3. A Guerra dos Emboabas e o "Cabo-Maior"

Amador participou ativamente da Guerra dos Emboabas (1707–1709). Em 1709, foi nomeado comandante-chefe (Cabo-Maior) do exército paulista que marchou para o rio das Mortes, em Minas Gerais, com o objetivo de vingar o massacre de paulistas perpetrado pelos portugueses no episódio do Capão da Traição.

  • Recompensas e Alcunha: Como reconhecimento por sua liderança militar, recebeu sesmarias na atual região de Taubaté, consolidando a alcunha de Cabo Maior dos Paulistas. Este conflito teve desdobramentos políticos profundos, refletindo-se na emancipação administrativa da Capitania de São Paulo, que até 1720 englobava o território mineiro.

💰 Riqueza e Controvérsias

Em correspondência enviada ao Rei em 20 de janeiro de 1708, o Ouvidor Geral de São Paulo, Antônio Luís Peleja, descreveu Amador como um homem "natural e morador de São Paulo, insolente, régulo, o mais fascinoroso homicida de muitas vidas", acusando-o de se apropriar das porções mais valiosas do ribeiro de Bento Rodrigues, em Ouro Preto.

  • Extração de Ouro: Habitou a região mineradora por longos anos, mantendo ourives a seu serviço para fundir ouro em lingotes, cunhar moedas e fabricar joias.

  • Volume Extraído: Segundo o cronista André Antonil, Amador extraiu impressionantes oito arrobas de ouro do rio do Ouro Preto, do ribeirão e de outras jazidas da região.

🌳 Últimos Anos e Legado

Nos seus últimos anos, Amador dedicou-se ao desbravamento dos sertões dos rios Mogi-Guassu e Pardo, vindo a falecer nas margens destes rios em novembro de 1719. É reconhecido como um dos grandes impulsionadores da dinâmica económica paulista conhecida como Tropismo.

Além da sua importância histórica como bandeirante, deixou uma vasta descendência, destacando-se como ascendente de figuras ilustres da história do Brasil, a exemplo da poetisa inconfidente Bárbara Heliodora.

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