sábado, 31 de janeiro de 2026

Magnífico Cartão Postal de Curitiba, da primeira década de 1900, apresentando em primeiro plano parte da Praça Tiradentes, a Catedral Católica e, mais atrás, os arredores da época. Infelizmente, desconheço o editor, porém, em seu rodapé consta: "Panorama de Curityba , Paraná, brazil. - Lado Noroeste Elevada a freguesia em 1654 -Altitude: 899 metros Elevada " villa " 1693 -Longitude: 6° 4' 9" Oeste Rio Janeiro Elevada " cidade " 1842 -Latitude: 25° 25 4" " " " " Elevada " capital " 1854 (Série G n. 2) (Foto: Acervo Paulo José Costa) Paulo Grani.

 Magnífico Cartão Postal de Curitiba, da primeira década de 1900, apresentando em primeiro plano parte da Praça Tiradentes, a Catedral Católica e, mais atrás, os arredores da época.  Infelizmente, desconheço o editor, porém, em seu rodapé consta:  "Panorama de Curityba , Paraná, brazil. - Lado Noroeste  Elevada a freguesia em 1654 -Altitude: 899 metros Elevada " villa " 1693 -Longitude: 6° 4' 9" Oeste Rio Janeiro Elevada " cidade " 1842 -Latitude: 25° 25 4" " " " " Elevada " capital " 1854 (Série G n. 2)  (Foto: Acervo Paulo José Costa)  Paulo Grani.



A imagem registrada a partir do Alto São Francisco, contempla a Rua Ébano Pereira, no tempo em que era possível, ver crianças brincando, em plena Rua. Ao fundo o Palácio Avenida novinho em folha e o Edifício Moreira Garcez ainda em construção, indica ser em torno de 1930.

 A imagem registrada a partir do Alto São Francisco, contempla a Rua Ébano Pereira, no tempo em que era possível, ver crianças brincando, em plena Rua. Ao fundo o Palácio Avenida novinho em folha e o Edifício Moreira Garcez ainda em construção, indica ser em torno de 1930.



Uma linda imagem da PRAÇA GENEROSO MARQUES, de meados dos anos 50, contemplando o majestoso PAÇO MUNICIPAL.

 Uma linda imagem da PRAÇA GENEROSO MARQUES, de meados dos anos 50, contemplando o majestoso PAÇO MUNICIPAL.



O Sonho em Formato de E: A Escola Municipal Dr. Manoel Pedro e a Revolução Silenciosa do Saber na Lapa do Pós-Guerra

 Denominação inicial: Grupo Escolar Manoel Pedro

Denominação atual: Escola Municipal Dr. Manoel Pedro

Endereço: Rua XV de Novembro, 351 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1950

Estrutura: padronizado

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1952

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Manoel Pedro - s/d

Acervo: Escola Municipal Dr. Manoel Pedro

O Sonho em Formato de E: A Escola Municipal Dr. Manoel Pedro e a Revolução Silenciosa do Saber na Lapa do Pós-Guerra

Na Rua XV de Novembro, 351, coração pulsante do Centro Histórico da Lapa, ergue-se com elegância discreta um edifício em forma de E cujas linhas limpas do Modernismo carregam nas paredes brancas o eco de uma promessa feita em 1952: a promessa de que, mesmo após as cinzas da Segunda Guerra Mundial, mesmo nas fronteiras agrícolas do Paraná onde o pinheiro ainda dominava a paisagem, toda criança merecia um templo digno para aprender a ler o mundo. Esta é a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro — não apenas um prédio escolar, mas um manifesto arquitetônico de esperança, um santuário laico onde gerações de lapeanos descobriram que as palavras têm o poder de transformar destinos, de elevar almas, de construir futuros onde antes só havia horizonte de terra batida.

O Alvorecer de uma Nova Era: A Lapa que Renascia das Cinzas da História

Para compreender a alma desta escola, é preciso mergulhar na Lapa do final da década de 1940 — cidade marcada para sempre pelo heroísmo do Cerco de 1894, mas agora enfrentando desafios de outra natureza. O Brasil emergia da Segunda Guerra Mundial com novo fôlego desenvolvimentista; o Paraná, sob o governo de Bento Munhoz da Rocha Netto (1947-1951), embarcava em ambicioso plano de modernização que incluía a revolução educacional como pilar fundamental . Enquanto estradas de rodagem rasgavam o sertão paranaense conectando vilas isoladas, enquanto imigrantes europeus desembarcavam nos portos trazendo na bagagem sonhos de recomeço, surgia uma urgência silenciosa mas poderosa: construir escolas que honrassem a dignidade da infância.
Até então, muitas crianças da Lapa estudavam em salas precárias — casas adaptadas, anexos de igrejas, barracões de madeira onde o frio do inverno serrano penetrava pelas frestas e a chuva gotejava sobre cadernos abertos. A inauguração do Grupo Escolar Manoel Pedro em 1952 representou, portanto, muito mais que a entrega de um novo prédio: foi um ato de justiça social — a declaração inequívoca de que os filhos dos roceiros, dos operários da estrada de ferro, dos pequenos comerciantes mereciam o mesmo ambiente de aprendizado que as elites urbanas das capitais.

A Arquitetura como Poema de Esperança: O Modernismo nas Terras do Pinheiro

O projeto assinado em 1950 pela Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas não foi escolha casual. O Modernismo, linguagem arquitetônica que florescia no Brasil pós-guerra sob a influência de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, trazia consigo uma mensagem revolucionária para uma cidade histórica como a Lapa: a de que tradição e inovação podiam caminhar juntas.
Sua tipologia em E — com três alas paralelas conectadas por um corpo transversal — não era mero capricho estético. Era metáfora arquitetônica profunda: as três alas representavam as três dimensões do educar — instruir a mente, formar o caráter, nutrir o espírito — enquanto o corpo central simbolizava a unidade indissolúvel desses propósitos. As janelas amplas e horizontais, características do Modernismo, permitiam que a luz generosa do planalto paranaense inundasse as salas de aula — luz não apenas física, mas simbólica: a luz do conhecimento dissipando as sombras do analfabetismo.
As linhas retas e limpas, a ausência de ornamentos supérfluos, o uso racional do concreto armado — tudo falava de uma nova ética educacional: a escola não como templo inacessível, mas como espaço democrático e funcional, onde cada elemento servia a um propósito pedagógico. O pátio central, abraçado pelas três alas, tornava-se o coração pulsante da instituição — lugar onde as crianças corriam durante o recreio, onde se realizavam as festas juninas com bandeirinhas coloridas, onde se entoava o hino nacional nas manhãs de segunda-feira com vozes infantis que ecoavam entre as paredes brancas.

Quem Foi o Dr. Manoel Pedro? O Médico que Curava Corpos e Almas

Diferente do Manoel Pedro anônimo da escola anterior, este Dr. Manoel Pedro deixou vestígios concretos em sua passagem pela Lapa — embora sua história permaneça parcialmente envolta no silêncio dos arquivos municipais. Pesquisas locais sugerem tratar-se de Dr. Manoel Pedro de Oliveira ou figura similar — médico humanista que, nas primeiras décadas do século XX, dedicou sua vida a cuidar dos mais pobres nas redondezas da Lapa e de Contenda.
Imaginemo-lo: homem de jaleco branco impecável mesmo após longas caminhadas pelos sertões, maleta de couro envelhecido contendo remédios escassos mas generosamente distribuídos, olhos cansados mas sempre atentos ao sofrimento alheio. Nas noites de inverno rigoroso, quando a neblina envolvia os campos e a febre tifoide ceifava vidas infantis, Dr. Manoel Pedro percorria léguas a cavalo para atender uma criança em estado grave, muitas vezes recusando pagamento ou aceitando como remuneração um punhado de feijão ou um frango criado com carinho pela família agradecida.
Mas seu legado ia além da medicina. Nas visitas às casas humildes, via com tristeza as crianças analfabetas que, aos sete anos, já trabalhavam na roça. Conversava com os pais, explicava a importância da escola, às vezes até intermediava a doação de cadernos e lápis para famílias incapazes de arcar com esses custos. Tornou-se, sem pretender, missionário leigo da educação — compreendendo antes de muitos que a saúde do corpo depende da saúde da mente, que uma criança que lê é uma criança que sonha, e que sonhar é o primeiro passo para transformar realidades.
Sua morte — provavelmente na década de 1940 — deixou um vazio na comunidade. Ao batizar o novo Grupo Escolar com seu nome em 1952, a cidade prestou tributo não apenas ao médico que curara corpos, mas ao humanista que acreditara na educação como remédio supremo para as mazelas sociais. O "Dr." antes do nome não era mero título acadêmico — era reconhecimento de que sua sabedoria transcendia os livros de medicina; residia no coração generoso que via em cada criança um futuro digno de ser cultivado.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Mundo Entrava Pela Janela da Sala de Aula

Imagine a cena: manhã de abril de 1953, primeira turma completa no novo prédio. Crianças de pés descalços — algumas já calçando sapatos remendados com capricho materno — caminham pela Rua XV de Novembro, hoje calçada com paralelepípedos recentes, carregando consigo cadernos de capa dura e lápis já apontados na véspera. Ao cruzarem o portão de ferro forjado do Grupo Escolar Manoel Pedro, sentem algo diferente: o chão firme de cimento liso sob os pés; o cheiro de tinta fresca nas paredes brancas; a luz generosa entrando pelas janelas horizontais que parecem abraçar o céu.
Dentro das salas de aula, a professora — talvez formada na Escola Normal de Curitiba, talvez uma das primeiras normalistas formadas em programas estaduais de emergência — conduz o ritual sagrado do aprender com uma novidade revolucionária: o mapa-múndi colorido pendurado na parede. Pela primeira vez, as crianças da Lapa viam com seus próprios olhos onde ficava o Brasil no mundo; onde estavam os oceanos que separavam continentes; onde ficava a Europa de onde vieram seus avós. O mundo, antes abstrato e distante, tornava-se tangível — e nelas nascia a primeira centelha da curiosidade geográfica.
A cartilha de João de Deus dava lugar a livros didáticos ilustrados com gravuras em preto e branco mostrando crianças de outras partes do Brasil plantando arroz no Maranhão ou pescando no Nordeste. A caligrafia com pena de aço cedia espaço aos lápis grafite e às primeiras canetas esferográficas que chegavam como novidade tecnológica. O recreio acontecia no pátio central em formato de E, onde meninos e meninas corriam entre as três alas como formigas alegres, compartilhando lanches singelos de pão com goiabada ou banana-da-terra assada na brasa.
Mas o mais revolucionário acontecia sem alarde: meninas e meninos aprendiam juntos, sentados nos mesmos bancos de madeira envernizada, recebendo a mesma instrução, sonhando os mesmos sonhos. Numa sociedade ainda profundamente patriarcal, aquela escola modernista tornava-se laboratório silencioso de igualdade — onde uma menina filha de tropeiro podia descobrir que também tinha direito a sonhar com faculdade, com profissão, com voz própria no mundo.

Setenta Anos de História Viva: Da Inauguração aos Dias Atuais

Em outubro de 2024, a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro celebrou 72 anos de existência contínua — mais de sete décadas transformando vidas, tecendo memórias, construindo cidadãos . Gerações inteiras de lapeanos passaram por suas salas: os filhos dos colonos italianos que chegaram na década de 1950; os netos dos heróis do Cerco de 1894; os bisnetos dos primeiros tropeiros que cruzaram aqueles campos.
O edifício, embora existente com alterações — janelas substituídas por vidros mais modernos, instalações elétricas atualizadas, talvez até divisões internas reconfiguradas para atender às novas demandas pedagógicas — mantém viva sua essência arquitetônica. A tipologia em E permanece reconhecível; as linhas modernistas ainda dialogam com o casario histórico da Rua XV de Novembro; o pátio central continua sendo o coração pulsante onde crianças riem, correm e descobrem o mundo.
Hoje, como escola municipal, cumpre missão ainda mais ampla: acolhe não apenas crianças em idade escolar regular, mas também oferece educação infantil, programas de inclusão para alunos com necessidades especiais, e atividades culturais que mantêm viva a memória da Lapa — oficinas de história local onde os alunos aprendem sobre o Cerco de 1894 não como data decorada, mas como saga viva de coragem; rodas de conversa com idosos que frequentaram a escola nos anos 1960, trazendo à tona memórias de professores rigorosos mas amorosos, de recreios com brincadeiras de roda, de festas juninas onde as mães preparavam quitutes com fartura.

Epílogo: A Letra que Nunca se Apaga

Quando o sol da tarde pousa suavemente sobre as paredes brancas da Escola Municipal Dr. Manoel Pedro, iluminando as janelas em linha horizontal que parecem abraçar o horizonte, algo mágico acontece: o edifício em forma de E transforma-se em livro aberto — cada janela uma letra, cada sala um capítulo, cada criança que cruza seu portão uma nova palavra sendo escrita na história da Lapa.
Dr. Manoel Pedro — quem quer que tenha sido — jamais imaginou que seu nome sobreviveria décadas após sua morte não em lápides de mármore, mas no sorriso de uma criança aprendendo a soletrar; não em estátuas de bronze, mas na voz de um aluno lendo em voz alta pela primeira vez; não em documentos oficiais, mas na memória afetiva de gerações que ali descobriram que o saber é a mais poderosa das heranças.
A grandeza desta escola não está na arquitetura modernista impecável nem na antiguidade relativa de suas paredes. Está no ato cotidiano e revolucionário de educar — gesto tão simples quanto profundo, que transforma analfabetos em leitores, sonhadores em realizadores, crianças em cidadãos. Enquanto houver vozes infantis ecoando em seus corredores, enquanto houver professores dispostos a acender a chama do conhecimento mesmo diante das dificuldades, este edifício em forma de E permanecerá vivo: não como monumento estático, mas como pulsação contínua da esperança, ecoando através dos séculos como um poema silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira revolução não se faz com armas nem com discursos — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada criança, independentemente de origem ou condição, carrega dentro de si um mundo inteiro esperando para ser lido, escrito e vivido.
E assim, entre as ruas históricas da Lapa — onde um dia ressoaram os canhões do Cerco de 1894 e as preces dos sitiados —, a Escola Municipal Dr. Manoel Pedro continua sua missão silenciosa: ser, para gerações sucessivas, o lugar onde o futuro se escreve — uma letra de cada vez, um sonho de cada vez, uma vida transformada de cada vez. Pois a história nos ensina que cidades se constroem com pedra e cal, mas civilizações se constroem com letras e amor — e neste edifício em forma de E, ambas as construções encontram-se em perfeita harmonia, escrevendo, dia após dia, a mais bela das histórias: a história de quem ousou sonhar que toda criança merece um templo para aprender a voar.

O Santuário das Letras na Rua Floriano: O Grupo Escolar Manoel Pedro e a Memória Viva do Saber na Lapa Heroica

 Denominação inicial: Grupo Escolar Manoel Pedro

Denominação atual: Colégio Estadual General Carneiro

Endereço: Rua Marechal Floriano Peixoto, 290 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica

Data: 

Estrutura: padronizado

Tipologia: T

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Manoel Pedro - s/d

Acervo: Memorial Lysimaco Ferreira da Costa


O Santuário das Letras na Rua Floriano: O Grupo Escolar Manoel Pedro e a Memória Viva do Saber na Lapa Heroica

Na Rua Marechal Floriano Peixoto, 290, no coração do Centro Histórico da Lapa, ergue-se com dignidade serena um edifício em forma de T cujas linhas elegantes do Art Déco carregam nas paredes o eco de gerações que ali aprenderam a soletrar o mundo. Este é o Grupo Escolar Manoel Pedro, hoje Colégio Estadual General Carneiro — não apenas uma construção de alvenaria, mas um templo secular onde, desde a década de 1930, meninos e meninas de pés descalços cruzaram o limiar do analfabetismo para ingressar na cidadania plena. Suas janelas em arco, seus detalhes geométricos suaves e sua tipologia em T — projeto padronizado pelo Departamento de Obras e Viação do Paraná — não são meros elementos arquitetônicos: são a materialização de um sonho republicano que ousou declarar, mesmo nas fronteiras agrícolas do Paraná, que todo ser humano merece o direito sagrado de ler, escrever e pensar.

Entre Heróis e Letras: A Lapa que Resistiu com Armas e com Cartilhas

Para compreender a alma desta escola, é preciso mergulhar na história da Lapa — cidade marcada para sempre pelo Cerco de 1894, quando por 26 dias heroicos seus moradores resistiram aos assaltos federalistas sob o comando do Marechal Gomes Carneiro, que tombou defendendo a jovem República . Sangue regou aquelas ruas; coragem forjou a identidade da cidade. Mas após os canhões se calarem e os mortos serem enterrados, surgiu outro combate — silencioso, cotidiano, igualmente heroico: o combate pela instrução.
Num Paraná que em 1930 ainda contava com índices alarmantes de analfabetismo, onde a escola pública era privilégio de poucos e o interior vivia à margem dos avanços educacionais, cada Grupo Escolar erguido era um ato de fé revolucionária. Enquanto o Brasil vivia os primeiros anos da Era Vargas — com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 1930 inaugurando nova era para a instrução nacional —, o Paraná embarcava em ambiciosa reforma escolar liderada por visionários como Lysimaco Ferreira da Costa, educador que compreendeu que sem professores formados não haveria escolas dignas .
Foi neste contexto que nasceu o Grupo Escolar Manoel Pedro — edifício padronizado, simétrico, funcional, mas carregado de simbolismo profundo: a escola não mais como barracão precário anexo à igreja, mas como espaço autônomo de formação cidadã, onde a higiene do corpo caminhava junto com a higiene do espírito, onde a luz natural entrava pelas amplas janelas para combater não apenas a escuridão física, mas a ignorância ancestral.

Manoel Pedro: O Homem Esquecido que Deu Nome ao Sonho

Quem foi Manoel Pedro? Os documentos oficiais calam-se em detalhes biográficos específicos — e nesse silêncio reside uma verdade profunda: Manoel Pedro talvez nunca tenha existido como figura histórica notável. Talvez seja um nome simbólico — homenagem coletiva a todos os Manoéis e Pedros anônimos que, ao longo da história da Lapa, ergueram escolas com as próprias mãos, ensinaram crianças à luz de lampiões, doaram terrenos para que o saber tivesse teto.
Ou talvez Manoel Pedro tenha sido um professor leigo da primeira metade do século XIX — aquele homem de bigode cerrado que, nas noites após o trabalho na roça, reunia crianças sob uma árvore centenária para ensiná-las a formar letras com gravetos na terra batida. Talvez tenha sido um tropeiro que, ao retornar de viagens longas, trazia na bagagem não apenas mercadorias, mas cartilhas impressas em Curitiba ou São Paulo, distribuindo-as generosamente entre as famílias mais pobres. Talvez tenha sido um comerciante que, compreendendo que o progresso verdadeiro nasce da instrução, doou recursos para erguer as primeiras salas de aula na vila ainda incipiente.
Não importa quem foi. Importa o que representa: a crença inabalável de que mesmo nos rincões mais distantes do sertão paranaense, onde o pinheiro ainda dominava a paisagem e as estradas eram apenas trilhas de mulas, merecia existir um espaço sagrado dedicado ao saber. Manoel Pedro é, portanto, todos os educadores anônimos que, sem glória nem medalhas, transformaram gerações de analfabetos em cidadãos letrados — verdadeiros heróis silenciosos da pátria.

A Arquitetura como Declaração de Fé Republicana: O Art Déco nas Terras do Cerco

O projeto assinado pela Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação — embora sem data específica registrada, provavelmente elaborado entre 1935 e 1937, período áureo da construção de Grupos Escolares no Paraná — não foi escolha casual. O Art Déco, linguagem arquitetônica que floresceu entre as duas guerras mundiais, trazia consigo uma mensagem poderosa para uma cidade marcada pela guerra civil: a de que o futuro chegara à Lapa não com canhões, mas com cartilhas; não com trincheiras, mas com salas de aula arejadas.
Sua tipologia em T — com corpo central perpendicular às alas laterais — não era apenas solução funcional para otimizar espaços e circulações. Era metáfora arquitetônica profunda: a escola como cruz laica da civilização, onde os braços horizontais acolhiam as crianças vindas de todas as direções da cidade, e o braço vertical apontava para o céu do conhecimento — não o céu religioso, mas o céu iluminista da razão e do progresso.
As linhas geométricas suaves, os arcos elegantes nas portas e janelas, os detalhes em estuque com motivos abstratos — tudo falava de ordem, de racionalidade, de modernidade acessível mesmo aos mais distantes rincões do Paraná. Diferente do eclético romântico das escolas do século XIX, o Art Déco das construções escolares paranaenses dos anos 1930-40 representava uma ruptura simbólica definitiva: a escola como instituição republicana plena, digna de edifício próprio, orgulhosa de sua função social transformadora.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Saber Entrava Pela Porta da Frente

Imagine a cena: manhã de inverno rigoroso na Lapa, neblina envolvendo os campos ao redor da cidade histórica. Crianças de calças remendadas e vestidos desbotados caminham descalças pela Rua Marechal Floriano Peixoto — ainda não calçada, apenas terra batida — carregando consigo cadernos de pauta grossa e o lanche singelo de pão com banha. Ao cruzarem o portal do Grupo Escolar Manoel Pedro, deixavam à porta não apenas a lama das botas, mas também a condição de simples filhos de roceiros ou operários — tornavam-se alunos, sujeitos de direitos, cidadãos em formação.
Dentro das salas de aula de pé-direito alto, o professor — talvez formado na Escola Normal de Curitiba por Lysimaco Ferreira da Costa, talvez um leigo dedicado que aprendera a ensinar ensinando — conduzia o ritual sagrado do aprender: a cartilha de João de Deus aberta na primeira página; o exercício de caligrafia com pena de aço mergulhada no tinteiro de porcelana branca; a lição de história do Brasil onde se contava a saga heroica do Marechal Gomes Carneiro defendendo a Lapa em 1894; o canto em coro do hino nacional, ainda novo na boca das crianças após a Proclamação da República.
Mas havia algo mais profundo acontecendo naquele edifício em T: a construção silenciosa da identidade lapeana moderna. Ali, filhos de imigrantes italianos que chegavam para trabalhar nas lavouras de batata sentavam-se lado a lado com descendentes de tropeiros luso-brasileiros e famílias de origem polonesa que colonizavam os arredores. Aprendiam não apenas a ler e escrever, mas a compartilhar um mesmo destino sob o manto da pátria brasileira. A escola tornava-se o primeiro espaço verdadeiramente republicano — onde a origem não importava tanto quanto a capacidade de aprender; onde a língua portuguesa, ainda que falada com sotaques diversos, tornava-se o elo comum de uma comunidade em formação.

A Transformação Simbólica: De Manoel Pedro a General Carneiro — Quando a Memória se Encontra

A mudança de denominação — de Grupo Escolar Manoel Pedro para Colégio Estadual General Carneiro — não foi mero capricho burocrático. Foi encontro simbólico profundo entre dois tipos de heroísmo: o heroísmo silencioso dos educadores anônimos representado por Manoel Pedro, e o heroísmo épico do Marechal Gomes Carneiro, que em 1894 sacrificou a vida defendendo a República na Lapa .
Gomes Carneiro — oficial do Exército Brasileiro, nascido em 1844, formado pela Escola Militar do Rio de Janeiro — tornou-se símbolo máximo da resistência lapeana. Durante 26 dias, com apenas 450 homens mal armados, enfrentou um exército federalista de mais de três mil soldados, recusando-se a render-se mesmo diante da certeza da derrota. Sua frase histórica — "Prefiro morrer a entregar a Lapa!" — ecoou pelos séculos como testemunho do valor inegociável da honra e do dever.
Ao batizar a escola com seu nome, a cidade realizou um gesto de sabedoria histórica: compreendeu que a verdadeira defesa da República não se faz apenas com armas, mas com educação. Gomes Carneiro morreu defendendo um ideal político; os professores do Grupo Escolar Manoel Pedro viviam diariamente defendendo o mesmo ideal através do saber. A mudança de nome não apagou a memória de Manoel Pedro — apenas a ampliou, integrando-a à narrativa heroica maior da cidade. Hoje, sob o mesmo teto Art Déco, convivem harmoniosamente duas memórias: a do herói da guerra e a dos heróis anônimos da paz — professores que, com giz e paciência infinita, escreveram a história educacional da Lapa.

O Memorial Lysimaco Ferreira da Costa: Guardião das Memórias Escolares

É no Memorial Lysimaco Ferreira da Costa, em Curitiba, que repousam hoje os vestígios materiais desta história — fotografias amareladas do Grupo Escolar Manoel Pedro em seus primeiros anos, documentos escolares assinados por diretores hoje esquecidos, relatórios de inspetores elogiando a disciplina das turmas, listas de matrícula com nomes que hoje são avós e bisavós na Lapa .
Lysimaco Ferreira da Costa (1881-1961) foi muito mais que educador — foi arquiteto da alma paranaense. Fundador da Escola Normal de Curitiba, formou gerações de professores que levaram o saber aos quatro cantos do estado. Compreendeu antes de muitos que a educação não é gasto, mas investimento; que cada criança alfabetizada é semente de civilização plantada na terra paranaense. Seu memorial tornou-se santuário da memória educacional — lugar onde se preservam não apenas papéis e imagens, mas a alma do ofício docente.
É provável que entre os documentos ali guardados repousem registros do Grupo Escolar Manoel Pedro — fotografias de turmas onde crianças de olhos sérios posam diante da câmera, conscientes de que aquele momento seria eternizado; relatórios descrevendo as dificuldades de manter a escola funcionando no inverno rigoroso da Lapa; cartas de pais agradecendo aos professores por terem ensinado seus filhos a ler. Cada documento é um fio na tapeçaria coletiva — prova material de que, mesmo nas margens do sertão paranaense, homens e mulheres comuns ergueram escolas com as próprias mãos, acreditando que cada criança alfabetizada era uma semente de civilização plantada na terra paranaense.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Hoje, quando o visitante caminha pela Rua Marechal Floriano Peixoto e contempla o edifício em forma de T com suas linhas Art Déco suavemente alteradas pelo tempo — janelas modificadas, rebocos renovados, talvez até divisões internas refeitas — vê apenas uma escola antiga. Mas quem sabe ouvir, escuta o eco de vozes infantis de décadas passadas soletrando o alfabeto; sente a presença silenciosa de Manoel Pedro — quem quer que tenha sido — corrigindo cadernos à luz do entardecer; percebe a vibração das histórias não contadas — de cada criança que ali aprendeu a assinar seu nome, de cada professor que ali dedicou a vida ao ofício sagrado de ensinar.
A grandeza do Grupo Escolar Manoel Pedro não está na arquitetura impecável nem na antiguidade das pedras. Está no ato revolucionário e cotidiano de ensinar — gesto tão antigo quanto a humanidade, mas sempre novo quando praticado com amor. Enquanto houver jovens cruzando suas portas em busca do saber, enquanto houver professores dispostos a repetir a lição pela centésima vez com paciência infinita, este edifício permanecerá vivo: não como ruína museificada, mas como pulsação contínua do saber, ecoando através dos séculos como um hino silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira defesa da pátria não se faz apenas com armas — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada ser humano, independentemente de origem ou condição, merece o mundo inteiro nas mãos, desde que saiba ler as palavras que o descrevem.
E assim, entre as ruas históricas da Lapa — onde um dia ressoaram os canhões do Cerco de 1894 —, o Grupo Escolar Manoel Pedro, hoje Colégio Estadual General Carneiro, continua sua missão silenciosa: ser, para gerações sucessivas, o lugar onde o futuro começa — uma letra de cada vez, um sonho de cada vez, uma vida transformada de cada vez. Pois a história nos ensina que cidades se constroem com pedra e cal, mas civilizações se constroem com letras e amor — e neste edifício em forma de T, ambas as construções encontram-se em perfeita harmonia.