A Rainha Colecionadora: A Obsessão de Mary de Teck pela Coleção Real
A Rainha Colecionadora: A Obsessão de Mary de Teck pela Coleção Real
Uma Guardiã Coroadas de Tesouros
Quando Mary de Teck ascendeu ao lado do marido, o Rei George V, no trono do Reino Unido, ela trouxe consigo muito mais do que a dignidade esperada de uma consorte real. Por trás da postura rígida e da etiqueta impecável, escondia-se uma paixão avassaladora e quase obsessiva: a preservação e expansão da Coleção Real. Desde seus anos como Princesa de Gales, Mary demonstrava uma preocupação genuína, quase maternal, com o estado deplorável em que se encontravam os tesouros da monarquia britânica.
Itens valiosos estavam mal catalogados, extraviados ou esquecidos em armários empoeirados. Para Mary, isso não era apenas negligência administrativa; era uma ofensa à história da nação. Assim, ao longo das próximas décadas, ela se dedicou ao que chamava de seu "único grande hobby" com uma seriedade que beirava o militarismo. Sua missão era clara: restaurar a glória material da Coroa.
A Curadora Incansável de Windsor
A base de operações de Mary era a Torre Redonda do Castelo de Windsor. Lá, ela tinha acesso livre aos arquivos reais, um labirinto de documentos que guardavam a memória das aquisições monárquicas ao longo dos séculos. Com a ajuda de arquivistas do Palácio e apoiada por seus próprios conhecimentos precioso sobre a história do Reino Unido, a rainha embarked em uma tarefa meticulosa de detetive histórica.
Ela rastreava objetos que, em tempos passados, haviam sido emprestados para outras famílias nobres e nunca devolvidos. Uma vez identificados, Mary não hesitava. Escrevia cartas pessoais, firmes e educadas, mas inequívocas, solicitando a devolução dos itens para a Coleção Real. Para muitos nobres, receber uma missiva da rainha sobre um candelabro ou uma pintura emprestada por um tataravô era um comando disfarçado de pedido. Graças a esse trabalho incansável, centenas de peças retornaram ao seu "lar" oficial, sendo catalogadas e preservadas para as gerações futuras.
O Terror da Aristocracia: "Meus Deus, a Rainha Mary Está Vindo"
No entanto, os métodos que a rainha Mary lançava mão para acrescentar novos itens à coleção real eram nada ortodoxos e geravam um misto de admiração e pavor na alta sociedade. Sua reputação de colecionadora implacável precedia sua chegada. Foi relatado que muitas famílias nobres, ao saberem que receberiam o casal de monarcas para alguma visita em suas mansões campestres, entravam em estado de alerta máximo.
O protocolo não escrito era claro: escondam suas obras de arte mais valiosas. O objetivo era evitar que a consorte real deitasse seus olhos em cima de qualquer peça interessante. Qualquer livro, pintura, porcelana ou objeto que tivesse conexões, mesmo que remotas, com a realeza chamava a atenção imediata da monarca.
Caso ela demonstrasse interesse na peça, o proprietário se via em uma situação delicada. A etiqueta da época exigia que se agradasse à soberana. Assim, o nobre se via obrigado a oferecer o objeto como "presente", apenas para agradá-la. Recusar seria uma afronta; aceitar a retirada da peça era uma perda patrimonial. O mesmo acontecia com donos de antiquários. Embora a rainha fosse cliente de muitos deles, logo começou a surgir o boato de que ela tinha o costume de "afanar" determinadas peças de seu interesse.
A Cleptomania Sofisticada
A biógrafa Anne Edwards capturou perfeitamente a atmosfera da época: "Os antiquários londrinos alegavam ter escondido todos os bibelôs e itens preciosos que sabiam que poderiam interessar à rainha quando esperavam que ela visitasse suas instalações, pois a rainha costumava levar o que desejava e ela saía sem pagar".
A dinâmica nas casas aristocráticas era ainda mais tensa. Edwards continua: "Se, durante uma visita a alguma casa aristocrática, ela avistasse um objeto que outrora pertencera à Família Real, frequentemente solicitava sua devolução, e o atual proprietário não podia fazer outra coisa senão atender."
O desespero dos anfitriões era tal que a frase "Meus Deus, a rainha Mary está vindo para ficar" tornava-se um lamento comum em suas mansões campestres. Em seguida, eles levavam os itens de arte mais valiosos para o sótão e traziam para baixo objetos com pouco valor, hoping to distract the royal eye.
A princesa Olga Romanoff, ancestral real que conhecia bem os meandros das cortes europeias, foi cirúrgica em sua análise: "Ela tinha uma espécie de cleptomania sofisticada, porque ia se hospedar na casa de alguém e, sentada em uma das doze cadeiras Sheraton, dizia: 'Ah, eu gosto desta cadeira'. E você era obrigado a dar a ela todas as 12".
O Saque dos Romanov: Aproveitando a Tragédia Alheia
Nem mesmo artefatos em museus ou coleções de refugiados estavam fora do alcance de suas mãos. "A rainha Mary era predatória, é claro… em sua coleção de artefatos", disse o historiador John Curtins Perry, autor de A Fuga dos Romanov.
O colapso da monarquia russa em 1917 trouxe uma onda de exilados para a Inglaterra. Muitos membros da realeza e da nobreza russa, fugindo da Revolução Bolshevik, encontraram asilo na terra da prima de Alexandra Feodorovna. Como não tinham dinheiro para se sustentar, além das joias que conseguiram carregar consigo em sua fuga precipitada, viram-se forçados a vender seus tesouros familiares.
A rainha Mary, sempre atenta, adquiriu muitas tiaras, braceletes e colares de diamantes dessas famílias desesperadas. Foi assim que a belíssima Tiara da Grã-Duquesa Vladimir acabou parando na Coleção Real, assim como as safiras da imperatriz-viúva, Maria Feodorovna. Embora historicamente preservados, esses itens carregam o peso de terem sido adquiridos enquanto seus donos originais enfrentavam a ruína e o exílio.
Preservação ou Abuso de Poder?
"Seu fascínio insaciável por reorganizar e completar as grandes coleções reais do Palácio de Buckingham e do Castelo de Windsor não oferecia aos diretores de Museus mais proteção contra sua obsessão do que os antiquários", disse Anne Edwards. "Se ela visse algo que achasse que deveria ser colocado em uma residência real, solicitava um empréstimo permanente da peça".
Apesar de alguns pesquisadores considerarem isso um abuso de poder por parte da monarca, com suas supostas táticas de coação, não existem provas concretas de que Mary de Teck fosse uma ladra inescrupulosa no sentido criminal. Anne Edwards e Hugo Vickers apostam na possibilidade de que ela fosse, talvez, cleptomaníaca, impulsionada por um desejo psicológico de possuir e organizar, rather than malice.
Para Mary, não se tratava de acumulação pessoal, mas de consolidação histórica. Ela acreditava, genuinamente, que aqueles objetos pertenciam à Coroa e, portanto, à nação. Sua visão era de longo prazo: garantir que o patrimônio real não se dispersasse novamente.
O Legado da Rainha Mary
Hoje, a Coleção Real é uma das mais importantes e bem catalogadas do mundo, e muito disso se deve ao trabalho incansável, ainda que controverso, de Mary de Teck. Ela transformou um acervo negligenciado em um museu vivo da história britânica.
Sua figura permanece complexa: uma mulher de dever inabalável, mas também de apetites materiais específicos; uma preservadora da história, que por vezes se apropriava da história alheia para compor a sua. A imagem gerada por Inteligência Artificial, baseada no retrato de Arthur Trevethin Nowell em 1927, que a mostra "afanando" uma louça chinesa, é uma representação satírica, mas toca em uma verdade histórica reconhecida por seus contemporâneos.
Mary de Teck morreu em 1953, pouco antes da coroação de sua neta, Elizabeth II. Seu legado material permanece nas vitrines de Windsor e Buckingham, um testemunho silencioso de uma rainha que não aceitava um "não" como resposta quando se tratava de proteger o que ela considerava tesouro nacional.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Cena da rainha Mary afanando uma louça chinesa da casa de um nobre, gerada por I.A, segundo retrato pintado por Arthur Trevethin Nowell em 1927. Colorizado por Rainhas Trágicas.
Imagem: Cena da rainha Mary afanando uma louça chinesa da casa de um nobre, gerada por I.A, segundo retrato pintado por Arthur Trevethin Nowell em 1927. Colorizado por Rainhas Trágicas.
Referências Consultadas:
- EDWARDS, Anne. Matriarch: Queen Mary and the House of Windsor.
- VICKERS, Hugo. Queen Mary.
- PERRY, John Curtins. A Fuga dos Romanov.
- Registros históricos sobre a Coleção Real Britânica e o exílio russo na Inglaterra.
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