Denominação inicial: Grupo Escolar Piraí Mirim
Denominação atual:
Endereço: Rua Julieta Veiga Queirós, 225
Cidade: Piraí do Sul
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Diretoria de Obras Públicas
Data: 1926
Estrutura:
Tipologia: U
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual:
Grupo Escolar Piraí Mirim - s/d Fonte: RATASCHESKI, A. Cem anos de ensino no Estado do Paraná. In: Álbum Comemorativo do 1º Centenário da Emancipação Política do Paraná. Curitiba: Governo do Paraná: Câmara de Expansão Econômica do Paraná, 1953
O Silêncio que Ensina: A História Viva do Grupo Escolar Piraí Mirim
Rua Julieta Veiga Queirós, 225 — Piraí do Sul, Paraná
Nas encostas verdejantes da Serra do Mar paranaense, onde o rio Piraí serpenteia entre vales profundos e o nevoeiro da madrugada envolve os cafezais como um véu sagrado, ergue-se desde 1926 um testemunho silencioso da fé republicana na educação: o Grupo Escolar Piraí Mirim. Suas paredes de alvenaria, sua fachada em forma de "U" que abraça o pátio como mãos protetoras, e seus arcos ecléticos que misturam reminiscências neoclássicas com austeridade moderna não são apenas tijolos e argamassa — são memória viva de uma época em que ensinar era um ato revolucionário, e aprender, um caminho de redenção para filhos de imigrantes que chegavam ao Brasil com as mãos calejadas e os olhos cheios de esperança.
Entre Tropeiros e Colonos: O Berço de uma Comunidade
A história do Grupo Escolar Piraí Mirim não começa em 1926, quando a Diretoria de Obras Públicas do Paraná assinou seu projeto arquitetônico. Começa muito antes — no século XVII, quando tropeiros vindos de Sorocaba cruzavam o território que hoje é Piraí do Sul, estabelecendo um pouso estratégico nas terras do Padre Lucas Rodrigues
. Por séculos, aquele caminho foi apenas uma trilha de mulas carregadas de erva-mate e charque, até que, no final do século XIX, novos passos ecoaram na terra: os de poloneses, ucranianos e italianos que, fugindo da miséria europeia e das opressões czaristas, buscavam no Planalto Paranaense um chão para recomeçar
.
Eram famílias que chegavam com malas de madeira rachadas, crianças agarradas às saias das mães, e uma língua estranha que mal se entendia com o português caipira dos nativos. Nas clareiras abertas na mata virgem, erguiam casas de madeira enxaimel, plantavam batata e centeio, e rezavam em igrejas de madeira onde o cheiro de incenso se misturava ao aroma da terra molhada. Mas havia uma ausência dolorosa: a escola. As crianças aprendiam o catecismo em polonês ou ucraniano, mas o português — língua da pátria que as acolhia — era um mistério distante.
A República que Queria Escolarizar: O Sonho dos Grupos Escolares
Com a Proclamação da República em 1889, o Brasil embarcou em um projeto ambicioso: transformar o país através da educação pública, laica e gratuita. No Paraná, esse sonho ganhou corpo na década de 1920 sob a liderança de reformadores como César Prieto Martinez, que compreendiam que uma nação moderna exigia cidadãos alfabetizados
. Nasceu assim o modelo do "Grupo Escolar" — instituições que substituíam as precárias escolas isoladas por edifícios planejados, com salas organizadas em séries graduadas, pátios para recreio, e até jardins de infância anexos
.
Essas escolas não eram apenas locais de ensino; eram máquinas de nacionalização. Em um estado onde, em 1920, a lei determinava o ensino obrigatório do português até mesmo em escolas particulares estrangeiras, os Grupos Escolares tornaram-se instrumentos de integração cultural
. Nas salas de aula, filhos de poloneses aprendiam a cantar o Hino Nacional; netos de ucranianos escreviam nos cadernos pautados as primeiras letras do alfabeto latino; e todos, indistintamente, eram ensinados a ser brasileiros.
A Arquitetura como Manifesto: O Projeto de 1926
Quando, em 1926, a Diretoria de Obras Públicas do Paraná projetou o Grupo Escolar Piraí Mirim, cada traço do desenho carregava um propósito pedagógico e político
. A tipologia em "U" — característica marcante da arquitetura escolar paranaense da época — não era mero capricho estético: simbolizava a abertura da escola para a comunidade, enquanto protegia o pátio central como espaço sagrado de formação cívica
.
A linguagem eclética escolhida revelava a ambição do projeto republicano: mesclar elementos clássicos (arcos plenos, simetria rigorosa, frontões discretos) com funcionalidade moderna (janelas amplas para iluminação natural, pé-direito alto para ventilação, divisórias internas que permitiam a organização por séries). Nas fachadas, nenhum luxo desnecessário — apenas a dignidade austera de quem construía para o futuro. O reboco liso, as molduras simples em torno das janelas, a escadaria de acesso modesta mas firme: tudo falava de uma educação acessível, porém elevada; popular, porém nobre.
Erguido na Rua Julieta Veiga Queirós — nome que homenageia uma das famílias pioneiras da região —, o edifício tornou-se rapidamente o coração pulsante de Piraí do Sul. Ali, sob o teto de telhas coloniais, crianças descalças de manhã entravam com os pés sujos de lama das estradas de chão; à tarde, saíam com os cadernos cheios de letras e os olhos brilhando com a descoberta de que podiam ler o mundo.
O Cotidiano Escolar: Entre o Bambu e o Livro de Leitura
Imagine a cena: segunda-feira de manhã, 1928. O sino de metal pendurado na varanda res soa às sete horas. Meninos de calça curta remendada e meninas de vestidos estampados com flores desbotadas cruzam o portão de ferro forjado. Na primeira série, Dona Clarice — professora formada na Escola Normal de Curitiba — escreve no quadro-negro com giz branco: "O rato roeu a roupa do rei de Roma". As crianças repetem em coro, as vozes misturando sotaques poloneses e o português aprendido aos tropeços.
No pátio central, durante o recreio, as brincadeiras revelam a miscigenação cultural: pula-corda ao lado de danças folclóricas ucranianas adaptadas; amarelinha desenhada com pedaços de carvão ao lado de jogos trazidos da Europa Oriental. Na cantina improvisada, pão com manteiga caseira e, nos dias de sorte, um gole de leite fresco trazido da fazenda do senhor Kowalski.
A escola não era apenas para crianças. À noite, após o pôr do sol, as salas se transformavam em cursos noturnos para adultos — pais e mães que, após um dia inteiro na lavoura, vinham aprender a assinar o próprio nome, a fazer contas simples, a ler uma carta do velho país. Muitos choravam ao escrever pela primeira vez "Maria" ou "Jan" em um pedaço de papel. Para eles, aquela escola não era um prédio: era a porta de entrada para a cidadania plena.
Entre Perdas e Resistências: O Legado que Persiste
Ao longo das décadas, o Grupo Escolar Piraí Mirim testemunhou transformações profundas. Viu a Segunda Guerra Mundial gerar suspeitas contra os descendentes de europeus; viu a ditadura militar impor o nacionalismo exacerbado; viu a modernização chegar com ônibus escolares substituindo as caminhadas de quilômetros pelas estradas de terra. Algumas paredes foram rebocadas novamente, janelas trocadas, telhados reparados após temporais de verão — a edificação existente hoje carrega alterações que marcam o tempo, mas preserva a alma original
.
Muitos dos alunos que passaram por suas salas tornaram-se professores, médicos, engenheiros — profissionais que levaram o nome de Piraí do Sul para além das serras. Outros permaneceram na terra, mas com a diferença crucial de saberem ler um contrato, entender uma bula de remédio, votar com consciência. Cada um deles carregou consigo um fragmento daquela escola: o cheiro de giz e cera de assoalho, a voz da professora cantando "A canoa virou", o peso reconfortante do livro de leitura nas mãos pequenas.
Epílogo: O Silêncio que Ensina
Hoje, quem passa pela Rua Julieta Veiga Queirós, 225, pode ver apenas um prédio antigo com marcas do tempo. Mas quem sabe ouvir, escuta outra coisa: o eco distante de vozes infantis recitando tabuadas; o ranger das carteiras de madeira sendo arrastadas para formar círculo na aula de civismo; o sussurro das primeiras sílabas soletradas por lábios que antes só conheciam o silêncio da ignorância.
O Grupo Escolar Piraí Mirim nunca foi apenas uma construção. Foi — e continua sendo — um pacto entre gerações. Um compromisso silencioso de que, mesmo nas montanhas mais remotas do Paraná, mesmo para filhos de imigrantes pobres, o conhecimento seria um direito inalienável. Cada tijolo assentado em 1926 carregava a promessa de que aquela criança, ao aprender a ler, estaria também aprendendo a sonhar.
E nisso reside sua verdadeira grandiosidade: não na arquitetura eclética nem na tipologia em "U", mas na teimosia republicana de acreditar que uma nação se constrói não com canhões, mas com cadernos; não com fronteiras, mas com alfabetos; não com exércitos, mas com professores que, todos os dias, abrem as portas de uma escola e dizem ao mundo: "Entrem. Aqui todos são iguais diante da letra."
Na quietude das tardes de Piraí do Sul, quando o sol poente doura as fachadas do velho grupo escolar, é possível sentir: aquelas paredes ainda ensinam. Não com palavras, mas com presença. Com a memória viva de quem soube, um dia, transformar o sonho da educação em pedra, cal e esperança — e deixar que o tempo, generoso, fizesse o resto.
