Mostrando postagens com marcador PAI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PAI. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de agosto de 2026

PAI, O QUE É CORETO ?

 PAI, O QUE É CORETO ?



Andava cabisbaixo no trabalho. Remuneração boa, família estruturada sem problemas. Mas algo sempre o deixava entristecido: a saudade da cidade natal. Resolveu tirar um fim de semana para rever os amigos de outrora e a cidade onde viveu a infância e adolescência. Foi em busca dos amigos de outrora.

Planejou tudo. Olhou fotos do passado, imaginou como estaria fulano, beltrano e aquela praça onde todos se encontravam antes de ir para a aula. Flutuou pelas imagens nas fotografias guardadas de longo tempo. Separou algumas e colocou em um envelope. Sua mulher havia concordado com o passeio. Até seria bom para o filho conhecer onde seu pai brincava na infância. Partiram para um alegre fim de semana junto aos amigos de outrora.

Deixaram a paisagem da cidade de agora e rumaram a caminho do verde que cercava sua cidade de origem. No caminho, narrava para o filho como era a cidade da sua infância, com uma praça pequena e um coreto no meio da praça.

– Pai, o que é coreto?

Ficou embaraçado e a melhor resposta encontrada foi dizer ao filho que, quando chegassem, iria sentar com ele à frente do coreto e contar histórias de como se reuniam felizes no entorno dele.

Horas de viagem. As lembranças do passado vivido criavam expectativas. Chegaram pela madrugada à cidade e, logo na entrada, encontrou um hotel. Para não acordar nenhum dos parentes, nem amigos, hospedaram-se ali, para descansar da viagem.

Saltou cedo da cama. Acordou esposa e filhos. Vamos, temos pouco tempo e muitas histórias por contar. O clima era o mesmo, ameno. A paisagem era outra. As ruas asfaltadas. Não conseguia ver o prédio dos Correios. Era ali, dizia ele. Caminhou um pouco mais e os rostos de outrora não estavam mais lá. Sabia os endereços. O Rogério morava na Rua de Cima, era assim que ele chamava, e o Francisco, na Rua de Baixo. Assim eram conhecidas as ruas em sua infância. Via agora que somente pelas suas lembranças não tinha como encontrar tais ruas, pois elas tinham seus aspectos mudados.

– Pai, onde é o Coreto?

– Chegaremos lá em pouco tempo.

A esposa percebendo a aflição tratou de acalmar o filho. Mas sua preocupação residia no esposo. Perguntando aqui e ali chegaram a uma praça, mas ela estava rodeada de pontos de ônibus, táxis, sinaleiros e, da praça, quase nada restava. Seu olhar procurava o coreto mas, cadê ele?

Com olhos marejados a esconder do filho. Sentaram em uma parte cimentada que circundava algumas árvores. Como iria dizer ao filho que ali existiu a bucólica praça das suas lembranças e que o coreto não mais existia?

Angústia.

Ninguém mais sentava nas calçadas à noite para conversar. A praça? Desfigurada em nome da modernidade. O coreto? Quem se importa hoje com coretos?

Então decidiu procurar uma loja de recordações que pudesse ter fotos postais da cidade. Perto dali localizou um estúdio fotográfico que tinha tais "recuerdos". Logo viu uma linda estampa da praça de sua infância e, no meio dela, o coreto que era motivo de todos irem à praça para o encontro costumeiro.

– Filho, olha como era o Coreto.

– Pai, que coisa linda. Devia ser divertido brincar aqui.

Voltando pela estrada, dirigindo, quase não podia conter as lágrimas. Entendeu que teria de matar suas saudades olhando as fotografias trazidas e buscando o que restava na sua memória.

Então, seus ouvidos atentaram-se àquela meiga voz do filho, que lhe fazia perguntas mil sobre o coreto ...

(Adaptado do texto de José Flor de Medeiros Junior / Foto ilustrativa: Coreto que existiu na Praça Marechal Floriano de Ponta Grossa. Foto da década de 1920. Fonte: paranaportaluol.com.br)

Paulo Grani