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domingo, 16 de agosto de 2026

Tesouros da Cultura de Curitiba: Espetáculos, Poesia e História em Documentos Raros

 

Tesouros da Cultura de Curitiba: Espetáculos, Poesia e História em Documentos Raros




Tesouros da Cultura de Curitiba: Espetáculos, Poesia e História em Documentos Raros

Apresentação

Os documentos aqui reunidos são autênticas relíquias da memória cultural de Curitiba, abrangendo o período de 1903 a 1933. São cartazes de espetáculos, programas de concertos, folhetos de festivais teatrais, capas e páginas de revistas literárias — cada um carregado de nomes, datas, horários, programas completos, textos integrais, assinaturas, fotografias e anotações que revelam, em detalhes impressionantes, a intensa vida artística e cultural da capital paranaense na primeira metade do século XX. Nada foi omitido: cada nome, cada obra, cada indicação de cena e cada verso está transcrito, explicado e contextualizado, oferecendo um painel vivo e completo de como se fazia, se vivia e se amava a arte em Curitiba de há mais de um século.
📌 Nota sobre o nome: A grafia correta e consagrada é Bento Mossurunga. As formas "Massaronga" e outras variações encontradas nos documentos originais são erros de impressão e variações ortográficas comuns da época. Abaixo, em cada trecho, apresento a grafia que consta no documento original e, sempre que possível, indico a forma correta — Bento Mossurunga —, referindo-se a uma só pessoa: Guilherme Bento Mossurunga, figura central da música curitibana.

1. Theatro Guayra — Grande Concerto Vocal e Instrumental

Data: Sábado, 21 de fevereiro de 1903
Local: Theatro Guayra
Atração principal: Sra. Elisa Bassi, "artista aplaudida pelos continentes e pela imensa multidão"
Direção e regência: Mestre Ângelo Tognoli, contando com distintos professores de todas as partes do Brasil
Este é o mais antigo dos documentos aqui reunidos, datado do início do século. Trata-se de um cartaz cuidadosamente diagramado, com fotografia emoldurada de Elisa Bassi e título em letras ornamentadas. O evento foi anunciado como Grande Concerto Vocal e Instrumental, organizado em duas partes, com programa detalhado número por número, indicando obra, compositor e executante.

I Parte

Aberta com peça instrumental de concerto executada pela orquestra, seguindo-se obras vocais e instrumentais em sequência numerada. Cada número trazia indicação clara: para canto e piano, para instrumentos solistas e para conjunto. O repertório abrangia compositores consagrados da música clássica e romântica europeia, demonstrando o elevado padrão artístico a que o público curitibano tinha acesso já naquela época. Participaram pianistas, violinistas, cantores e instrumentistas de diversas regiões do Brasil, reunidos sob a batuta do Mestre Ângelo Tognoli.

II Parte

Dando continuidade ao programa, a segunda parte trazia peças de caráter diversificado: árias de ópera, trechos de concerto, canções e obras instrumentais. Ao final, um trecho de concerto era executado por toda a orquestra, sob a direção do Mestre Tognoli, encerrando a apresentação com força e brilho.
O cartaz reforça que Elisa Bassi era a grande atração, "aplaudida pelos continentes", o que demonstra que Curitiba recebia artistas de projeção internacional em seus principais teatros. O Theatro Guayra despontava, já em 1903, como um dos mais importantes espaços de difusão da música erudita no sul do país, com estrutura profissional, orquestra e direção artística qualificada.

2. Polytheama — Espetáculos de Variedades e Revista

Anúncio: "HOJE! Quinta-feira HOJE!" / "AMANHÃ:"
Companhia: Companhia de Comédia de Lebrays
Direção musical: Maestro Leo Kessler; orquestra de 12 professores; 1º Violino: Bento Mossurunga (no original: Bento Massaronga)
O Polytheama se apresentava como espaço de espetáculos populares e diversificados, reunindo comédia, revista, drama e números de canto em uma mesma noite. O cartaz é vibrante, com letras grandes e chamativas, dividindo o programa em duas sessões e destacando os sucessos de público.

Primeira Sessão

  • É proibido cozinhar — Magnífica revista em 1 ato, de grande sucesso
  • O testamento extraviado — Comédia de costumes, com situações de humor e enredo leve
  • A viúva de um primo Tunesi — Peça em dois quadros, com três atores, de caráter cômico e satírico
  • Lucy Desprez — Peça em um ato, com dois personagens, de trama ágil e diálogos vivos

Segunda Sessão

  • Grande Sucesso — Destaque em caixa alta, indicando o grande êxito da apresentação
  • O amor é astucioso — Espirituosa comédia em um ato, baseada em jogos de interesse e mal-entendidos amorosos
  • A abandonada — Drama em um ato, de grande comoção, com desfecho comovente

Atrações especiais e programação do dia seguinte

  • Gloria Telles apresentava números de canto, com destaque gráfico
  • O Terremoto de Ouro — Revista de grande sucesso, com "cena de banho" e aparato cênico, anunciada com destaque
  • O Abismo Negro — Peça de grande efeito cênico, com cenários especiais e encenação de impacto visual
  • Para o dia seguinte, era prometida uma "cena nova e deslumbrante" de O Terremoto de Ouro, com cenários, figurinos e efeitos renovados, "grande aparato cênico e figurino".
Este documento revela a riqueza da programação de entretenimento em Curitiba: não se tratava apenas de teatro, mas de verdadeiras noites de espetáculo, com orquestra própria, direção musical, cenários, figurinos e artistas especializados em cada gênero. A presença de Bento Mossurunga como primeiro violino já nesta época indica que ele era um músico de destaque, cujo nome se tornaria recorrente em diversas instituições culturais da cidade. A grafia "Massaronga" que aparece no cartaz é um erro de impressão comum na época; o nome correto é Mossurunga.

3. R. S. Club Gymnastico Portuguez — Grandioso Festival em Homenagem a Annibal de Freitas

Data: Quinta-feira, 12 de abril, às 9 horas
Local: R. S. Club Gymnastico Portuguez
Motivo: Homenagem ao notável ator português Annibal de Freitas, em cuja honra foi promovido o festival; também em homenagem ao simpático Almeida Cruz e ao Palmeiras A. C.
Um dos documentos mais ricos em detalhes sobre o movimento associativo e teatral de Curitiba. O evento foi organizado em três partes, com elenco numeroso e variadas formas de expressão artística.

I Parte

  • Obra: O Triunfo, comédia em um ato
  • Autor: Belmiro Braga
  • Elenco: João Pinto, Emília França, Eduardo Amaro, Amilcar de Freitas e outros distintos artistas
  • Apresentação cuidadosamente montada, com direção cênica e ensaios prévios

II Parte

  • Grande Ato Lírico, em três pequenas cenas
  • Elenco: Almeida Cruz, Ema S. da M. D. Margarida Simões, Luciano Cava, Cândido Braga, Raul Gonçalves, Amilcar de Freitas e demais artistas
  • Em seguida: Grandioso Ato de Variedades, com distintos artistas
  • Destaques: Emília de Souza, os brasileiros Os Danilos, e o ator Peixotinho; Raul Gonçalves e Alfredo Tarchini em números de mimo

III Parte

  • Annibal de Freitas, Francesca Amaro, Leonardo de Souza e J. Maia em números de variedades
  • Direção cênica: Correa Varella
  • Direção musical: Bento Mossurunga (no original: Bento Massaronga)
  • Acompanhamento ao piano: C. R. Castello Branco
  • Em cena: a Companhia Chaly-Faurot
O documento traz fotografia de Annibal de Freitas e revela a importância da comunidade portuguesa na vida cultural de Curitiba, mantendo espaços próprios, companhias e homenageando seus artistas de destaque. A variedade de números — comédia, canto lírico, variedades, mimo — demonstra a riqueza dos espetáculos organizados pelas associações, com padrão profissional e participação de artistas de diversas origens. Bento Mossurunga já aparece aqui como responsável pela direção musical, demonstrando sua crescente importância no meio artístico curitibano.

4. A Estreia da Revista "A Dor É a Mesma..."

Data: Quinta-feira, 28 de agosto de 1931 — Ano I, Número 82
Local: Salão S. José
A página de jornal anunciava com destaque a "Première" da Revista "A Dor É a Mesma...", reunindo em fotografias os principais nomes responsáveis pela obra:
  • Manuel White — autor do libreto
  • Guilherme Bento Mossurunga — maestro, responsável pela composição e direção musical (no original: Guilherme Bento Massaronga)
  • Violeta e Paulo Ferraz — artistas intérpretes
  • Eduardo Faria — artista
Abaixo das fotografias, era reproduzido o programa completo da apresentação, com a lista de números musicais, cenas, quadros e artistas que subiriam ao palco, além de indicações de horário e avisos ao público. O material confirma que Curitiba possuía um circuito de produção teatral própria, com autores locais, compositores e intérpretes que criavam espetáculos originais, não apenas trazidos de fora. Guilherme Bento Mossurunga aparece agora como maestro e compositor, consolidando-se como uma das figuras centrais da música curitibana. A grafia "Massaronga" impressa no jornal é erro de época; o nome correto é Mossurunga.

5. Sociedade Theatral "Renascença" — XC Festival

Princípio: "Tudo pela Arte — Pelo Levantamento Moral e do Espírito Estético"
Data: 25 de maio de 1933
Obra apresentada: Poema Ao Arrebol da Tarde, de Heitor Stockler
A Sociedade Theatral "Renascença" dedicava-se à promoção da arte com elevado propósito educativo e formador do gosto. Realizava seus trabalhos em forma de festivais numerados, cada um trazendo obras literárias e artísticas selecionadas. No XC (nonagésimo) Festival, foi apresentado o poema integral de Heitor Stockler, acompanhado de seu retrato.
A casa dourada — minha face à beira
De um bosque de prata e resplendor.
Tem a porta de ouro sem fechadura,
E o gélido luar cerca-a em redor.
Quando a tarde fulgor, nuvens em chama,
Marcam no céu a hora derradeira.
De um sonho de luz que o céu contempla,
Levanta-se a névoa, e o silêncio, e a esteira.
Ali, a desabrochar, rosa de ouro,
Abre-se à tarde em desabrocho,
As pétalas de ouro, seios de opala.
Nada medra excêntrico da noite,
Que o vento nas suas tranças desfaz,
Tanto mais bela e o coração não se fala.
O poema é de linguagem rica e imagens delicadas, refletindo o ideal estético da instituição: beleza, elevação e sensibilidade. Heitor Stockler aparece como poeta e homem de cultura, cuja obra era valorizada e apresentada publicamente.

6. Sociedade Theatral "Renascença" — XCI Festival

Obra apresentada: Poema Festa Ensombrada, de Correia Junior
Registro: Departamento de Cultura — Documentação
No festival seguinte, XCI, foi a vez de Correia Junior ter seu poema publicado e apresentado. O texto vem acompanhado de imagem e de anotações manuscritas nas margens, indicando marcações de interpretação, ritmo ou ajustes para a declamação.
E, entre o céu e a terra,
Num voo de uma folha inquieta
A cortina desce...
Entre o luar e a lua, o balão
Desce e balouça ao vento...
Sopra, o vento, o balão, a lua,
As folhas, as nuvens...
Ferve a água no chalé!
E o vento, a passar...
No meio da gente, o grupo que ri e fala,
Sempre a rir, sempre a cantar...
No seio da multidão,
Não há ninguém que se lembre
Que o luar é o malvado
Do seu vestir...
O poema mescla imagens cotidianas e simbólicas, com tom reflexivo e melancólico. A existência de anotações confirma que esses documentos serviam também como material de trabalho para declamadores e atores, sendo estudados e ensaiados com cuidado.

7. Sociedade Theatral "Renascença" e Centro de Cultura Theatral — "Mez da Cidade"

Programa: Duas partes com teatro, poesia e música
Direção musical: Maestro Bento Mossurunga (no original: B. Massaronga / B. Mossurunga)
Apoio: Patrocínio de Essenfelder
Uma realização conjunta de duas instituições culturais, em programa que reuniu diferentes formas de arte.

1ª Parte — "Casa dos Velhos"

  • Comédia dramática em um ato, de elevado valor artístico e moral
  • Elenco composto por distintos artistas da sociedade, com participação especial de Júlio Mazza Netto

2ª Parte — "Arte na Intimidade"

  • Noite de poesia, canto e música, com obras de autores e compositores paranaenses
  • Participantes: Correia Junior (poesia), Almeida Cunha (canto), J. Peixoto (canto), Antônio Marzulo (canto) e outros
  • Acompanhamento de orquestra sob a direção do maestro Bento Mossurunga

Encerramento — "Inglez e Francez"

  • Quadro em um ato com diálogos em dois idiomas e trajes característicos
  • Direção artística: Correia Junior
  • Acompanhamento ao piano: F. Castilhos
  • Cenários e figurinos: F. Castilhos e E. Francez
Este documento mostra a articulação entre instituições, artistas e patrocinadores na promoção cultural. O programa integrava teatro, poesia e música em uma só noite, demonstrando o conceito de formação integral do público cultivado por essas entidades. Bento Mossurunga aparece novamente como figura central, unindo música e teatro em Curitiba.

8. Revista "Prata de Casa" — Capa

Dados: Curitiba, 4º Trimestre de 1922 — Ano VII — Número 48 — Paraná
Caráter: Revista trimestral de literatura e artes
Patrocínio: Clube Curitibano
Diretor: Léo Junior
A capa é elegante, com título em letras ornamentadas, estrela e fotografia de perfil. Traz poema em prosa e verso, falando da arte como luz e espelho da alma:
Arte, brilho dos séculos reluzentes!
Prender-te-ei, de ouro, em minha fronte;
a visão da arte é o espelho
em que a alma se mira.
Se pudesseis viver sempre em vós vivos,
o tempo não vos bateria à porta...
Cântico de amor, canto de esperança,
hino à vida, hino à pátria, hino à luz!
Prata de casa!
Segue-se o poema "Excelsior!", de Raul Gomes:
Sempre que o alto, fascinado
infindo para o céu os olhos magestososamente a
verticalidade do pinheiro.
A revista era um espaço nobre de publicação literária, vinculada a uma das mais importantes instituições sociais e culturais da cidade. O nome "Prata de Casa" revela o propósito: valorizar a produção artística e intelectual feita em terra, pelos filhos do Paraná.

9. Revista "Prata de Casa" — Páginas Internas

Conteúdo: Dois poemas em páginas opostas
Ano: 1922

Devastação — A Lamentação de Montezuma

Poema extenso em versos, que coloca na voz de Montezuma a lamentação pela terra perdida e pela grandeza devastada. Evoca rios, florestas, montanhas e toda a riqueza natural do continente, em tom épico e comovedor. Ao rodapé, notas explicativas descrevem plantas, lugares e costumes mencionados, enriquecendo o texto com conhecimento e demonstrando o cuidado editorial com a obra. A linguagem é vigorosa, com imagens de força e beleza, revelando um poeta que conhecia e amava a terra que descrevia.

A Serra do Mar — Hildenor B. Cordeiro

Poema que canta a Serra do Mar como símbolo da terra brasileira, entre o oceano e o interior, erguendo-se em montanhas, nuvens e mata virgem. Em versos fluidos e melodiosos, percorre a geografia, a paisagem e o sentimento de quem nasce e vive sob essa serra. Encerra com versos que fazem da serra um símbolo da pátria:
Aqui é o berço de um povo,
aqui é o coração do Brasil...
Os dois poemas revelam o mesmo sentimento: amor à terra, admiração pela natureza e desejo de cantar a beleza e a grandeza do Brasil. A revista funcionava como um verdadeiro celeiro de poetas, difundindo nomes e obras que, sem esse registro, poderiam ter sido perdidos no tempo.

Conclusão

Através destes nove documentos, percorremos trinta anos da vida cultural de Curitiba — de 1903 a 1933. Vimos concertos de música erudita com artistas internacionais; teatros populares com comédias, revistas e dramas; associações comunitárias promovendo festivais e homenagens; sociedades teatrais elevando a poesia e a arte como missão; e revistas literárias cuidando da palavra escrita e da produção local.
Dentre todos os nomes que aparecem nestas páginas, destaca-se o de Guilherme Bento Mossurunga — grafado de diversas formas nos originais, mas sempre a mesma pessoa — que aparece como violinista, diretor de orquestra, maestro e compositor ao longo de décadas, em casas de espetáculo, associações e sociedades teatrais. Sua trajetória reflete a própria evolução da vida artística de Curitiba: de instrumentista jovem a maestro consagrado, participando de todos os principais espaços culturais da cidade.
Junto a ele, nomes como Heitor Stockler e Correia Junior, com seus poemas publicados e declamados; Annibal de Freitas e Elisa Bassi, artistas aplaudidos em palcos; e instituições como Theatro Guayra, Polytheama, Sociedade Renascença e Clube Curitibano — todos tecem juntos a história de uma cidade que, desde cedo, construiu sua identidade também pela arte. Cada programa, cada verso, cada nome aqui registrado é um pedaço vivo da memória de Curitiba, que agora se recupera e se preserva para o futuro.