quinta-feira, 7 de setembro de 2023

O PR NA GUERRA

 

O PR NA GUERRA

VIDAS VIGIADAS

Texto parcialmente publicado também no livro Paraná: Uma História, publicado pelo autor Diego Antonelli.

prEnquanto a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, deixava 55 milhões de mortos, os imigrantes estrangeiros habitavam seus próprios bunkers em solo paranaense. Prisões, perseguições, apreensões e censura viraram rotina para familiares que tinham origens alemães, italianas ou japoneses. Especialmente após o Brasil declarar ingresso no conflito em agosto de 1942.

Tudo era motivo para virar alvo de investigação das forças governamentais, especialmente por parte do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Para se ter uma ideia, alguns imigrantes ou descendentes passaram meses sem falar uma palavra sequer em público para não serem reconhecidos pelo sotaque. Permaneciam a maior do tempo em suas casas, mantendo contato mínimo com o ambiente externo. Outros não tiveram tanta sorte e foram parar atrás das grades ou mantidos em pequenos ‘campos de concentração’ improvisados.No entanto, antes mesmo do governo de Getúlio Vargas ceder às pressões dos Estados Unidos e declarar guerra à Alemanha nazista – e, consequentemente, às nações que formaram o chamado Eixo, como Japão e Itália – o clima até então tranquilo já tinha mudado no Paraná.

Curitiba, assim como parte do estado, estava tomada por imigrantes europeus. Era uma sociedade cosmopolita. Quando houve o torpedeamento de navios brasileiros por tropas alemães, população da capital se rebelou contra os países do Eixo. O problema é que essa revolta se estendeu às pessoas originárias daquelas nações.

Resultado: em março de 1942, 10 mil pessoas se reuniram na Praça General Osório reverberando palavras contra o nazismo. O problema é que após a aglomeração, a população partiu pelas ruas depredando todo tipo de estabelecimento que pertencesse aos alemães, italianos ou japoneses. Foi o que bastou para que as relações entre vizinhos, que até então se cumprimentavam pelas ruas, deixassem de ser cordiais.

Soma-se a isso o fato de o governo determinar que todo o comércio pertencente a imigrantes dessas etnias fosse fiscalizado. A neura era tamanha que até aparelhos de rádio chegaram a ser lacrados para não sintonizar emissoras estrangeiras. A liberdade tinha perdido espaço para uma guerra até então invisível aos brasileiros. “Apreensão de armas, de rádios e de bens em geral; mais do que isso, era a legitimação de uma culpa não existente”, afirma o historiador Marcio Pereira.

Já com a declaração oficial de guerra, a situação só caminhou para o pior. A historiadora Solange de Lima, que pesquisou o tema, afirma que além das sanções oficiais do Estado, parte da população aderiu à causa da “defesa nacional” movida por ressentimentos e intolerância étnica. “Essas ações foram legitimadas pelo Estado, que cumpria o seu papel na defesa da soberania nacional, confiscando os bens de imigrantes, acusando e intimando-os a comparecer a uma das Delegacias de Ordem Política e Social (Dops)”.

O Dops, por sinal, estava na cola daqueles antigos membros e simpatizantes do extinto Partido Nazista. Muitos foram presos acusados de serem simpáticos a Hitler – como membros da Ação Integralista no estado, que era influenciada por ideais fascistas.

Deste modo, eram detidos todos os elementos estrangeiros que falassem seu idioma natal e possuíssem rádios, armas, revistas ou livros em outro idioma que não o português. Assim como aqueles que não conseguiam esconder os traços de sua origem ou, ainda, as pessoas que, de uma maneira ou outra, tinham ideias nazifascistas. Todos eram tratados da mesma forma.ALMOFADAS APREENDIDAS E PIQUENIQUE CENSURADO

Na capital do estado, a polícia chegou ao cúmulo de apreender até almofadas por terem sido bordadas com as cores da bandeira germânica. Os idiomas estrangeiros foram banidos das ruas paranaenses, bem como das brasileiras. Aqueles que os utilizassem eram denunciados e presos. “Imigrantes e descendentes passaram a ser vistos como inimigos nacionais, chamados pejorativamente de ‘eixistas’ e ‘quinta-colunas’. O controle de suas vidas tornou-se uma questão de segurança nacional”, destaca Solange.

O excesso era tanto que membros do Dops, após receberem uma denúncia popular, chegaram ao cúmulo de prender colegiais e freiras do Colégio Sion, de Curitiba, quando retornavam do Morro de Anhangava. A alegação era de que o grupo tinha subido no moro para se comunicar com a Alemanha por meio de um rádio. Na verdade, tudo não passou de um “audacioso” piquenique.

No mesmo ano, 1942, foi criada a Seção de Segurança Nacional, que possuía a função de fiscalizar os brasileiros com origem estrangeira e combater ideologias contrárias ao Estado Novo de Vargas. “Esta seção ainda se responsabilizou por criar um espírito nacional na população brasileira e convocar o cidadão a cumprir o seu dever na proteção da soberania nacional. Este apelo do Estado acabou saindo do controle e resultou em manifestações extremas de ódio contra o estrangeiro”, afirma Solange.


BRASILEIROS ENFRENTARAM NAZIS USANDO HOLOFOTES EM COMBATE NOTURNO

 

BRASILEIROS ENFRENTARAM NAZIS USANDO HOLOFOTES EM COMBATE NOTURNO


Brasileiro faz pose com seus prisioneiros alemães. Ele está com o fuzil de um deles

O ataque a Castelnuovo (di Vergato) era um desdobramento do Plano Encore, em que os brasileiros já tinham cumprido uma parte em Monte Castello e La Serra. Mais uma vez, o objetivo era proteger os flancos da 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos e a movimentação foi de 04 a 07 de março de 1945 .

A 1ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, comandada pelo Capitão Alberto Tavares saiu em patrulha no dia 04 de março de 1945 para provocar o inimigo, para que eles denunciassem as posições que ocupavam e o I e II Batalhão pudessem ajustar seus tiros de morteiros. Deu certo e com explosivos vindos de várias direções, os alemães abandonaram o ponto identificado como Cota 702, logo tomado pelos brasileiros.Luta continua

O próximo passo foi partir da Cota 702 para a Cota 720 e para o morro do Soprassasso, um paredão de pedra que dava uma excelente vista aos alemães.

Partiram para a missão no dia 05 de março, às 5h30, homens do 1º Batalhão do 6º regimento de Infantaria e do 2º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria. Todos os rádios ficaram desligados até às 6h, para não denunciar a movimentação.

O pessoal do 11º Regimento caiu em campo minado. Os homens do 6º pararam por conta da resistência alemã ferrenha, ao que saiu em auxílio o próprio Major Carlos Gross que comandava o Batalhão para andar junto aos soldados e animá-los. O relógio já marcava 14h30. Depois disso os homens avançaram com vigor rumo à Cota 720.

Nessas horas, o 1º Batalhão do 11º Regimento tinha contornado pelo Sul e se apossado de Precaria. O 2º Batalhão do 11º Regimento se aproximou da vila pelo sudeste. Henrique Cordeiro Oest e seus homens do 2º batalhão do 6º Regimento estavam em posse de Soprassasso a sudoeste. Os alemães tinham sido cercados e só lhes restava fugir pelo norte.

Batalha nas sombras

Mapa do ataque a Castelnuovo

Escurecia e o General Willis D. Crittenberger, Comandante Aliado do Teatro de Operações do Mediterrâneo pressionava o Comando do Brasil, pois, queria a cidade antes do anoitecer. O comandante do 6º Regimento, Nelson Mello, deu a ordem de entrar na vila. A Artilharia brasileira mandou bombas, a Engenharia limpou vias de minas e os soldados foram avançando.

Quando ficou escuro, dos pontos mais altos em volta e que já estavam nas mãos dos brasileiros, os americanos ligaram quatro refletores para guiar a Companhia do Capitão Aldenor Maia, do 1º Batalhão do 6º Regimento. O pedido foi feito pelo Comando do 6º Regimento. Às 22h os brasileiros atingiram seus objetivos.

De certa forma, foi uma vingança pessoal dos soldados e do Capitão Aldenor, pois, em outubro do ano anterior, a mesma tropa da 232ª Divisão Alemã que defendia Castelnuovo, tinha botado aquela mesma companhia para correr em Barga, após um contra-ataque que só não terminou em um cerco alemão porque os brasileiros recuaram ordenada e rapidamente. Agora os alemães é quem tinham que recuar. O General Willis D. Crittenberger não poupou elogios aos brasileiros depois do feito.

Mapa das ações ao lado Castelnuovo

Para os alemães foi uma surpresa

Ernani Ayrosa da Silva conta que com o ataque os alemães foram pegos literalmente com as calças nas mãos, pois não imaginavam que os brasileiros fossem atacar de noite. Alguns foram feitos prisioneiros jantando e outro sentado no vaso sanitário lendo um documento.

Com a surpresa do ataque, o avanço do 11º Regimento e a movimentação da Engenharia, outra batalha poderia ser levada em frente, em Vergato, mas essa é outra história.

Relato de jornalista

Joel Silveira, dos Diários Associados subiu Castelnuovo poucas horas depois da consolidação da posição. Ele diz que encontrou o comandante do 6º Regimento, Nelson de Mello e que havia crateras de bombas fumegando. Até o dia 07 de março ainda ocorriam tiroteios esporádicos por conta de alemães que tinham ficado para trás para agir como snipers e atrasar os brasileiros. Foram pegos 91 prisioneiros em Castelnuovo. Havia homens da 232ª Divisão (General Von Gablenz), da 29ª Divisão Panzer (general Fritz Polack) e da 114ª Divisão Ligeira (General Strahamer).

Do lado brasileiro foram 68 baixas, entre mortos, feridos e acidentados. Eram 35 do 6º Regimento e 33 do 11º Regimento.

No dia 07 acharam um corpo alemão já fedendo bastante. Outro estava ferido, foi socorrido pelos brasileiros, mas não resistiu e morreu. Os Pracinhas fizeram o enterro e Joel ficou bem chateado porque os homens do Pelotão de Sepultamento trataram aquele homem com extremo cuidado, como se fosse um brasileiro. Ele chegou a lembrar aos soldados que os alemães deixaram corpos brasileiros por meses sem enterrar em Monte Castelo e Abetaia.

Os homens cavaram a sepultura, colocaram o corpo lá dentro e responderam de maneira seca para o jornalista:

-Morreu e acabou-se!

Joel, envergonhado entendeu. Não era preciso desumanizar o próximo e mesmo que fosse um inimigo deveria ser respeitado.

Quanto aos snipers, foram sendo mortos ou presos. Um dele foi pego ferido 10h depois do fim dos combates. Joel revirou as casamatas e achou cartas de alemães que trouxe com ele para o Brasil.Alemães enterraram patrulheiros

Três corpos brasileiros foram achados nas redondezas de Castelnuovo. Os mortos estavam enterrados lado a lado e eram patrulheiros tombados em 24 de janeiro de 1945. Foram identificados como o Cabo Carneiro da Silva e os soldados Paes de Castro e José da Silva. Na cruz os alemães escreveram: 3 Tapfere – Brasil – 24.01.1945 (Três bravos), que provavelmente morreram lutando até a última bala. Eram os alemães reconhecendo o mérito dos inimigos também.

Ali terminava o Plano Encore. Os brasileiros seriam chamados novamente em breve, dessa vez na Ofensiva de Primavera…

 Il Brasile in guerra, Andrea Giannasi, 2004

O Paraná na FEB, José Rodrigues, 1954

A FEB por um soldado Joaquim Xavier da Silveira, 1989

Memórias de Um Soldado Ernani Ayrosa da Silva, 1985

Heróis do Brasil, Giovanni Sulla e Ezio Trota, 2005

Fratelli sulla montagna, Giovani Sulla e Daniele Amicarella, 2016

35 anos depois da guerra, Agostinho José Rodrigues, 1981

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77 ANOS DEPOIS: QUEM CHEGOU PRIMEIRO NO TOPO DE MONTE CASTELLO?

 

77 ANOS DEPOIS: QUEM CHEGOU PRIMEIRO NO TOPO DE MONTE CASTELLO?

Em 21 de fevereiro de 1945, após quatro tentativas sem sucesso, um pesado inverno e dezenas de baixas, os brasileiros finalmente tomaram a elevação de Monte Castello, na Itália, durante Segunda Guerra Mundial. O monte, defendido por tropas alemãs, fazia parte de uma cadeia montanhosa que fornecia aos inimigos bons pontos de defesa que ajudavam a controlar a rota 64, que dava acesso à Bolonha.

Monte Castello após os combates, praticamente sem árvores e todo esburacado. (Arquivo Nacional)

Os brasileiros haviam tentado tomar a elevação em 24, 25 e 29 de novembro de 1944, e depois em 12 de dezembro daquele mesmo ano. A vitória só veio no ano seguinte. Nesse meio tempo estiveram nas redondezas e mantendo a linha de frente brasileira na região.

Há um consenso de que a conquista da elevação se deveu ao 1º Regimento de Infantaria, com preparação pesada da Artilharia Divisionária e da Força Aérea Brasileira. Porém, não existe acordo sobre quem do 1º Regimento teve a honra de expulsar os alemães da cota 977 (que demarca a altura máxima da elevação). A resposta depende de quem conta a história.O I Batalhão do 1º Regimento de Infantaria chegou primeiro?

O I Batalhão era comandando pelo major Olívio Gondim Uzeda. Dele faziam parte a 1ª Cia, a 2ª Cia e a 3ª Cia. Há várias referências bibliográficas que mostram que eles foram os pioneiros no Castello, com a 1ª e a 3ª liderando. A 2ª Cia ficou para deter resistências nas partes mais baixas.

Raul da Cruz Lima Júnior, comandante da 2ª Cia do 9º Batalhão de Engenharia da FEB, no livro “Quebra canela”, falando sobre as ações da engenharia, atesta que “os elementos mais avançados do bravo I Batalhão coroaram seu objetivo, capturando o então invicto Monte Castello”. “Logo em seguida, os também heróicos combatentes do III Batalhão, que atacavam de frente, ultrapassaram as resistências inimigas e também galgaram o simbólico morro fatídico”, afirma ele na página 113.

Brasileiros encenam tomada de posição de metralhadora alemã em Monte Castello. O corpo de um alemão abatido ainda estava lá dentro. Consta em vídeo da Cinemateca Brasileira (Frame: V de Vitória)

Joaquim Xavier da Silveira, que na guerra foi soldado operador de rádio do Pelotão de Transmissões da Companhia de Comando (e depois da guerra advogado), em seu livro “a FEB por um soldado” (p.172), declara que um pelotão do I Batalhão do 1º Regimento, sob o comando 2º tenente Celso Patrício de Aquino, chegou à crista do Monte Castello às 18h, sendo o primeiro a pôr os pés lá.Essa era uma versão bem aceita, tanto que o próprio major Uzeda, no livro “Crônicas de guerra”, de 1952, dizia que “precisamente às 18h, o pelotão do tenente Aquino atingiu a crista topográfica de Monte Castello, seguido dos demais elementos da 1ª Cia”. “Em seguida, igualmente, atingiram os objetivos que lhe foram fixados, a 3ª e a 5ª Cia”, escreveu ele (p.112). A versão foi reafirmada por Cássio Abranches Viotti, que foi tenente no 11º Regimento de Infantaria, no livro “Crônicas de guerra”, página 418.

O Chefe do Estado-maior da FEB, Floriano de Lima Brayner, no livro “A verdade sobre a FEB”, página 360 diz o seguinte: “Eram 18 horas. De fato conferimos os relógios. Os bombardeios amenaram [reduziram] completamente. O telefone tocou, eu atendi e chamei General Mascarenhas. Do outro lado, gritando de emoção, Zenóbio [da Costa, comandante da infantaria] anunciava: ocupamos a montanha. O I Batalhão do 1º Regimento de Infantaria (Uzeda) atingiu a cota 977, ao completar o envolvimento”. Em seguida, Zenóbio contou que III Batalhão (Major Franklin), também atingira o alto, arrematando-o em ação frontal.

Leonércio Soares, sargento do 11º Regimento de Infantaria, no livro “Verdades e vergonhas da Força Expedicionária Brasileira”, atesta que “quando III Batalhão conseguiu galgar as escarpas que tinha pela frente, lá no alto já se achavam os homens do I Batalhão” (p.212).

O corpo de um alemão abatido em Monte Castello. Consta em vídeo da Cinemateca Brasileira (Frame: V de Vitória)O cabo sapador (que desarmava minas), Antônio dos Santos Silva, estava no grupo que chegou com o I Batalhão em Monte Castello. “No último ataque a Monte Castello, estava novamente no Primeiro Grupo da 1ª Companhia. O ataque frontal, se não me engano, foi realizado pelo III Batalhão do Sampaio”, declarou ele em entrevista para a coletânea “História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, tomo 2, p.287.

Foi o pessoal da 1ª Cia e da 3ª Cia?

Jamil Amiden, que era sargento da 5ª Cia do 6º Regimento de Infantaria e que depois da guerra foi político e memorialista da FEB, assegura na página 77 de seu livro “Eles não voltaram”, que o Tenente Humberto Gerardo Moretzsohn Brandi, comandante do 2º Pelotão da 3ª Companhia do 1º Regimento, “fora, evidentemente, o primeiro oficial brasileiro e aliado a instalar-se e ocupar Monte Castello”.

O tenente Brandi. (Foto: Acervo Marcos Renault/Grupo Inconfidência)

Na narrativa de Amiden, o tenente, após instalar seus homens no topo do Monte, teria ligado para o capitão Yedo Jacob Blauth, Comandante da 3ª Companhia, do 1º Batalhão, e informado que já se encontrava no alto. Minutos antes de ligar, teria colocado seus homens em fileira e dito: “Aqui estamos para vencer ou morrer!”. Depois disso ordenou que todos avançassem rumo ao topo, atirando em tudo que se mexesse e gritando, para espalhar terror.Tal informação é confirmada em um encarte de 1946, resgatado pelo Museu da Vitória Brigadeiro Nero Moura, de Porto Alegre Rio Grande do Sul. Na época, Yedo, que foi ferido dois dias após Monte Castello, se recuperava dos Estados Unidos. Tinha perdido uma perna. Brandi também saiu de combate poucas semanas depois, em 12 de março, ferido com 30 estilhaços.

Os dois sobreviveram e Brandi faleceu em 1989, no Rio de Janeiro. Já Yedo, faleceu em 1992.

O capitão Yedo Blauth (Acervo Museu da Vitória Brigadeiro Nero Moura)

Contestação da 5ª Cia

A 5ª Cia fazia parte do II Batalhão, estava na reserva para eventuais emergências ou reforço durante do ataque e por volta das 14h30 de 21 de fevereiro de 1945, foi chamada para de unir aos homens do major Uzeda (1ª e 3ª Cia), que precisavam reforçar-se para atingir Monte Castello (o que se daria às 18h).

Comandava a 5ª Cia, o capitão Valdir Moreira Sampaio. É aí que começa uma nova versão. O tenente Ruy Leal Campello, subcomandante da unidade, sustenta que Uzeda, a quem descreve como pessoa de difícil trato, recebeu friamente os reforços, obrigando o capitão Valdir a assinar um documento onde assumia a responsabilidade de ultrapassar a 1ª e a 3ª Cia, e subir até o ponto cotado 977, o mais alto de Castello.Assim foi feito e conforme Ruy, no livro “Um capitão de Infantaria da FEB”, a intenção de Uzeda, era achar um culpado caso o ataque fracassasse. Valdir e seus homens subiram e identificaram não muito distante, os capitães Everaldo José da Silva (da 1ª Cia) e Yedo Blauth (da 3ª companhia). Os três capitães se reuniram, Valdir explicou as ordens recebidas e voltaram para as suas companhias.

O capitão Valdir. (Foto: Acervo de Ruy Leal Campello)

Haviam decidido que a 1ª Cia iria pelo flanco esquerdo, desdobrando o monte como quem ia para Monte della Torraccia. A 3ª Cia iria pelo centro e a 5ª Cia (do Valdir), pela direita, só parando quando atingisse o ponto final do Monte.

O capitão Ruy disse que quando chegou ao topo, estava junto com Valdir e o tenente Cândido Manuel Ribeiro, que atuava como observador avançado (com dois auxiliares). Também reconheceu o 2º sargento Roque de Oliveira Valença (auxiliar do 1º Pelotão da 5ª Cia) e junto dele, o comandante do 1º pelotão, já muito cansado. Também apareceram o comandante do 2º Pelotão, Ayres Tovas Bicudo de Castro e o comandante do 3º Pelotão, identificado como tenente Moacir. Como alguns soldados tinham ficado para trás, eles mandaram um sinalizador verde, para avisar que estavam em cima de Castello e que podiam cessar os tiros de artilharia.

Porém, o capitão Ary não assumiu o protagonismo total e escreveu que as companhias vizinhas (a 1ª Cia do Capitão Everaldo e a 3ª Cia do Capitão Yedo) também  estavam na crista, “pois, simultaneamente, o lance final de ataque foi realizado” (p.93-95).

O capitão Ruy Leal Campello (Foto: Acervo de Ruy Leal Campello)

Ary repetiu a versão para a coletânea “História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, tomo 5, p.93-94, e acrescentou que o major Uzeda esteve na crista no dia seguinte e só parabenizou e distribuiu provisões para os soldados das 1ª e 3ª Cias. Ele teria ignorado os soldados da 5ª Cia.

Alemão morto em Monte Castelo. Teve a cabeça arrancada por estilhaço. (Foto do acervo de César Campiani, publicada no livro dele: Sujor, barbudos e fatigados [Grua,2010])Francisco Pinto Cabral, que era sargento comandante de grupo de combate no II Batalhão do 1º Regimento de Infantaria (e doutor em História no pós-guerra), no livro, “Um batalhão da FEB no Monte Castelo”, acrescenta que às 17h45, chegou a comunicação de que a 5ª Cia, que tomara parte do ataque juntamente com o I Batalhão, atingira a cota 977 às 17h30, com seus dois pelotões, e já se achava iniciando sua organização na frente ao norte e noroeste de Monte Castello (p.93). Ou seja, na visão dele, baseado em documentos dele, a 5ª Cia teria chegado antes das 18h e depois sido acompanhada pela 1ª e pela 3ª do I Batalhão.

O III Batalhão também é lembrado

José Maria da Costa Menezes era comandante de grupo de combate da 7ª Cia, do III Batalhão do 1º Regimento. No tomo 2 da “História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, ele é apresentado pelos militares como “o primeiro brasileiro a atingir o cume da elevação [Monte Castello] (p.219).

O correspondente de guerra, Joel Silveira, que estava no observatório da artilharia, junto como General Cordeiro de Farias, às 17h50 de 21 de fevereiro de 1945, conta que o major Franklin Rodrigues de Moraes (comandante do III Batalhão) chamou pelo rádio dizendo: “estou no cume de Monte Castello”. Em seguida pediu para que a Artilharia regulasse fogo para as posições inimigas além do Castello.

Na versão impressa de “O Cruzeiro do Sul”, órgão oficial de imprensa do comando da FEB, o texto de Joel foi usado e nele, aparece que o pessoal de Franklin chegou simultaneamente aos homens de Uzeda. Foi na edição de 25 de fevereiro de 1945.

Já Agostinho José Rodrigues, no seu livro “O Paraná na FEB”, página 69, atesta que “a um filho do Paraná, o segundo tenente R1 Ernani Vidal, coube a glória de ser o primeiro a impulsionar seu pelotão até a crista desse centro de resistência inimiga – Monte Castello”. Segundo José Agostinho, que era paranaense, tal informação faz parte da condecoração da Cruz de Combate de primeira classe de Ernani Vidal. Ernani Vidal era do 1º Pelotão da 7ª Cia do III Batalhão.

Vidal não tinha certeza

O mesmo José Agostinho Rodrigues, no livro “Terceiro Batalhão: lapa Azul”, conta que poucos dias depois da queda de Monte Castello, esteve com Ernani Vidal para lhe dar os parabéns, ao que ele recusou dizendo que não estava certo de que tinha sido o primeiro a colocar os pés no topo, pois, já baixava uma neblina e ele só ficou sabendo depois que tinha sido o primeiro a galgar o monte. Agostinho transcreveu o elogio individual à Ernani, em que havia a frase que ao amigo “coube a glória de ser o primeiro a impulsionar seu pelotão até a crista” (…).

Ernani Vidal (Foto: acervo José Agostinho Rodrigues)Os dois eram paranaenses e amigos desde antes da guerra. Vidal contou que o próprio Uzeda dizia ser Aquino quem chegou primeiro. Mesmo assim, o elogio individual que lhe valeu uma medalha de 1ª Classe, por ato de bravura individual, foi assinado. Da parte de Ernani, ele não se importava com o que diziam, admirava o 2º tenente Aquino e o elogiava por ter “feito miséria com os alemães” (p.99-100), no dia 21/02/1945.

Versões conciliadoras

Por outro lado, há versões que asseguram que não há como saber quem chegou primeiro, pois, estava começando a escurecer e o I Batalhão com o III Batalhão, auxiliados pela 5ª Cia, partiram juntos para o golpe final contra os alemães. O oficial de operações do III Batalhão, capitão Walter de Menezes Paes, no livro “Lenda Azul” (p.60), afirma que às 18 horas do dia da queda de Castello, Yedo (3ª Cia) estava guarnecendo o lado oeste do cume, com Valdir (5ª Cia) junto dele e Everaldo (1ª Cia), ao norte. Os três teriam chegado ao mesmo tempo em uma ação coordenada, conforme haviam combinado anteriormente.

Versões oficiais

Conforme o Relatório de Campanha do 1º Regimento de Infantaria, aprovado em 30 de setembro de 1945, por volta das 17h25, a 1ª Companhia estava entre as cotas 931 e Monte Castello (cota 977); a 5ª Cia estava subindo Monte Castello por Sudoeste; a 3ª Cia progredia entre a 1ª Cia e a 5ª Cia; e a 2ª progredia combatendo, de Fornaci para Cá di Zolfo, distante do topo da elevação. Já o III Batalhão iniciou a subida para o topo do monte por volta das 18h.

Depois disso, somente às 18h30 é que chegaram novas informações, e dessa vez, a novidade era que o Monte Castello já estava em poder dos brasileiros, ocupado pelos I e III Batalhões do 1º Regimento. Não fica claro quem chegou primeiro, apenas que naquele horário, os dois já estavam no topo, junto com a 5ª Cia.

Outro documento que poderia esclarecer a questão, seria o relatório secreto do comandante da FEB, João Batista Mascarenhas de Moraes. Porém, nele não consta qual Batalhão chegou primeiro à crista, apenas que foi uma vitória do 1º Regimento de Infantaria.

General Mascarenhas de Moraes observa os combates na região de Monte Castello (Arquivo Nacional)E aí? Quem pisou primeiro em Monte Castello?

Poderiam ser lembrados como os primeiros brasileiros a pisar no topo de Monte Castello, pelo menos cinco soldados que teriam alcançado a cota 977, mas, que foram mortos pelos alemães, no ataque de 12 de dezembro de 1945. Seus corpos ficaram preservados pelo frio e a neve e só foram resgatados em 23 de fevereiro de 1945. Porém, não foram identificados prontamente e não tiveram seus nomes divulgados. Restaram fotos que seriam do dia do resgate dos corpos (veja uma das fotos abaixo). No entanto, como atestar que eles chegaram de fato no alto do Castello?

Mortos retirados de Monte Castello. Teriam eles chegado ao topo em dezembro de 1944? (Foto: Acervo Jamil Amiden)Quanto a quem chegou primeiro no topo, a hipótese que mais tem confirmações em bibliografias, é a dos soldados da 1ª e 3ª Cia, ao lado da 5ª Cia. O III Batalhão aparece menos.

E se levadas em consideração as palavras do comandante do I Batalhão, major Uzeda, a honra foi do 2º tenente Celso Patrício de Aquino. As hipóteses dos dois homens do III Batalhão (José Maria da Costa Menezes e Ernani Vidal) são menos plausíveis se considerado o próprio relatório de Campanha do 1º Regimento. Porém, no caso de Ernani, há documento oficial o elogiando pelo feito.

Brasileiros no Monte Castello (Arquivo Nacional)

Bônus

Durante a estadia na Itália, três músicas foram compostas sobre Monte Castello, por soldados e oficiais do 1º Regimento. Confira as três abaixo: