domingo, 18 de dezembro de 2022

Histórias de Curitiba - O Coveiro Bépi Erico

 

Histórias de Curitiba - O Coveiro Bépi Erico

O Coveiro Bépi Erico
A. Osny Preuss

Segunda metade da década de trinta.
Prenúncios da Segunda Grande Guerra no ar.
Tardinha. Lá no alto, ladeando a igrejinha da Água Verde, com sua torre separada e a escolin-ha do outro lado da rua, apontava em direção à Bento Viana o "carro de defunto" que levara o último "caixão"do dia para o cemitério da Âgua Verde.
Os dois cavalos, de cabeça baixa, ajaezados de preto e dourado, formavam um trio com o cocheiro, de cartola e casaca preta, surradas, puidas.
Atrás, coberto pelo baldaqui-no também em preto e com frisos dourados, entre restos de flores das coroas do defunto, vinha o coveiro mais conhecido daquelas paragens: Bépi Érico.
Sentado, às vezes deitado, com as pernas balançando aos solavancos dos torrões e dos buracos da rua de barro, contarolava velhas canções italianas, enquanto por ele passavam os meninos e as mulheres com enormes fardos de cavacos de madeira, comprados nas barricadas das redondezas.
Solavanco de cá, solavanco de lá, Bépi acenava para o Galo (Galileu Toniolo) ao passar peta alfaiataria, e, pouco mais adiante, surpreendia o "seu" Jacinto (Jacinto Antunes da Silva, hoje nome de rua), contando ao seu amigo Prof° Milton Carneiro (da então Faculdade de Medicina) as últimas da política que ouvira no Palácio do Governo do Interventor Manéco Facão. E, brincando de búrico ou de tic, à sua volta, o menino que seria o conhecidíssimo Tatu, Presidente do Operário.
O "carro do defunto"chegava então na parte de maior declive da Bento Viana, na esquina com a Ivaííhoje Getúlio Vargas), atravessada uns poucos metros adiante pelo rio Água Verde.
Em dias de chuva torrencial a parada do carro, aí, era obrigatória , pois o rio transbordava por cima do ponti-Ihão, alagando todos os terrenos à sua margem.
Á direita, o cocheiro se deparava com a "meia-água"da Dona Itália Casagrande como uma palafita, no meio da água, e pouco mais adiante as 3 ou 4 casas de madeira construídas pelo "seo" Eduardo Thá, quiça o embrião da firma construtora.
Atrás delas, o último resquício do que fora a chácara Dantas (loteamento para os imigrantes italianos), a chácara dos Guzi, com seu enorme parrei-ral e dezenas de pereiras, que a gurizada invadia nos dias de chuva para roubar, livres, presumia-se, dos temidos "tiros de sal".
Ali, no encontro da Bento yiana com Getúlio Vargas e o rio Água verde, o Bépi no seu vai-e-vem cotidiano, em dias de sol ardente, ou atolado no lamaçal, ou ainda pisando na "geada negra"da manhã seguinte ao temporal de inverno, viu brincar na sua infância e crescer numa alegre despreocupação, filhos de gente simples como ele, que hoje são nomes de destaque na comunidade curitiba-na ( Thá, Marchioro, Lorusso, Pin-ton, Perini, Carneiro, Preuss, Scar-amuzza...).
Passada a enxurrada, o "carro de defunto"seguia exaurindo os cavalos no atoleiro de lama.
Antes de virar a Iguaçu, Bépi ainda soltava o seu costumeiro brado de "Viva o Savoya", saudando o casarão-sede do Clube que reunia a italianada da Água Verde nos fins de tarde de domingo, para festejar as vitórias do timão que sessenta anos mais tarde seria o Paraná Clube.
Bépi Érico morreu em abril de 1960. Era marido de Dona Maria Polenta.

A. Osny Preuss é médico e professor universitário.

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