quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A Casa que Nunca Foi Encontrada: O Projeto Arquitetônico de Gregório Affonso Garcez em Curitiba (1914)

 Denominação inicial: Projecto de casa para o Snr. Gregório Affonso Garcez

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: 

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 400,00 m²
Área Total: 400,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 29/08/1914

Alvará de Construção: Talão Nº 914; N° 6308/1914

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio.

Situação em 2012: Não localizada


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de casa para o Snr. Gregório Affonso Garcez. Planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

A Casa que Nunca Foi Encontrada: O Projeto Arquitetônico de Gregório Affonso Garcez em Curitiba (1914)

Em 29 de agosto de 1914, em meio às transformações urbanas de uma Curitiba ainda em formação, foi depositada no arquivo municipal uma prancha arquitetônica de rara elegância: o “Projecto de casa para o Snr. Gregório Affonso Garcez”. Assinado pelo arquiteto Eduardo Fernando Chaves, o documento, hoje preservado em microfilme digitalizado, revela não apenas as aspirações de um cidadão da elite urbana do início do século XX, mas também a ambição de uma cidade que começava a sonhar em concreto, tijolo e simetria.

Embora a edificação nunca tenha sido localizada em levantamentos urbanos posteriores — especialmente em 2012, quando pesquisadores tentaram rastrear seu paradeiro —, o projeto permanece como um testemunho vívido de uma época em que residência e comércio se entrelaçavam sob o mesmo teto, e os sonhos burgueses se materializavam em fachadas clássicas e plantas funcionais.


Gregório Affonso Garcez: O Morador que Quis Deixar Sua Marca

Pouco se sabe sobre Gregório Affonso Garcez além de seu nome vinculado a esse projeto. No entanto, o fato de ter encomendado uma residência de 400 m², distribuída em dois pavimentos, com uso misto — residencial e comercial — indica que era um homem de posição econômica sólida, provavelmente um comerciante, proprietário de negócio próprio ou profissional liberal.

Em Curitiba dos anos 1910, não era incomum que as classes médias e altas construíssem casas onde o térreo abrigasse um escritório, loja ou oficina, enquanto o andar superior servisse como moradia familiar. Essa configuração refletia tanto a lógica econômica quanto o estilo de vida urbano da Primeira República, marcado por uma estreita relação entre trabalho e lar.

Gregório, ao investir em um projeto arquitetônico formal — com alvará expedido (Talão nº 914, nº 6308/1914) e prancha detalhada —, demonstrava não apenas poder aquisitivo, mas também desejo de distinção social. Sua casa seria mais do que um abrigo: seria uma declaração de identidade.


O Projeto de Eduardo Fernando Chaves: Entre a Tradição e a Modernidade

O arquiteto Eduardo Fernando Chaves — profissional atuante em Curitiba no início do século XX — concebeu para o Sr. Garcez uma edificação em alvenaria de tijolos, técnica dominante na época e símbolo de solidez. A planta incluía:

  • Pavimento térreo: destinado ao comércio ou escritório, com acesso independente, provavelmente voltado para a via pública.
  • Pavimento superior: área privada de residência, com quartos, salas e áreas de convívio, organizadas com privacidade e conforto.
  • Fachada frontal: desenhada com simetria, molduras, talvez balcões ou varandas — elementos comuns na arquitetura eclética da época, que misturava influências neoclássicas, neocoloniais e até traços art nouveau.

A área total de 400 m² (embora descrita como tal, pode referir-se à área construída por pavimento, totalizando 800 m² se ambos os andares forem considerados — mas os registros oficiais indicam 400 m² como área total, sugerindo talvez um único pavimento construído ou uma planta compacta em dois níveis) era considerada de médio porte para a época, mas de alto padrão construtivo.


O Mistério da Casa Desaparecida

Apesar do alvará ter sido concedido em 1914 — ano conturbado pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, que poderia ter impactado a importação de materiais ou a disponibilidade de mão de obra —, não há registros claros de que a construção tenha sido efetivamente erguida. E mesmo que o tenha sido, em 2012, durante estudos de patrimônio histórico em Curitiba, o imóvel não foi localizado.

Isso levanta várias possibilidades:

  1. A construção nunca foi realizada, talvez por dificuldades financeiras, mudança de planos ou falecimento de Gregório.
  2. A casa foi construída, mas demolida nas décadas seguintes, durante os processos de verticalização e modernização urbana que marcaram Curitiba a partir dos anos 1940.
  3. O endereço foi alterado ou a edificação foi tão modificada que perdeu quaisquer traços identificáveis do projeto original.

O fato de o endereço exato não constar nos registros disponíveis agrava o enigma. Talvez estivesse localizada no centro histórico — nas proximidades das ruas XV de Novembro, Marechal Deodoro ou São Francisco —, onde muitas residências mistas desse período foram substituídas por edifícios comerciais.


Um Legado em Papel: O Valor do Projeto Não Construído

Mesmo sem ter se tornado pedra e cal, o projeto de Gregório Affonso Garcez possui um valor histórico inestimável. Ele é uma janela para o imaginário urbano de Curitiba em 1914, revelando:

  • As expectativas de conforto e status da classe média ascendente.
  • A integração entre vida doméstica e atividade econômica.
  • O papel do arquiteto como mediador entre o desejo privado e a estética pública.
  • A burocracia municipal emergente, com alvarás, talões e registros formais.

A prancha arquitetônica — contendo planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal — é, portanto, a própria casa. Não feita de tijolos, mas de linhas, escalas e intenções. E nesse sentido, Gregório Affonso Garcez conseguiu, sim, deixar sua marca na cidade — não nas ruas, mas na memória documental.


Em Busca do que Nunca se Viu

Hoje, o projeto repousa nos arquivos históricos, digitalizado e acessível a pesquisadores. Talvez um dia, em meio a reformas de um antigo sobrado no centro de Curitiba, alguém reconheça na estrutura oculta por gesso e tinta os traços do desenho de Chaves. Até lá, a casa de Gregório permanece como um fantasma arquitetônico: invisível, mas profundamente real.

E nisso reside sua beleza — na capacidade de nos lembrar que nem toda construção precisa tocar o chão para tocar a história.


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