sábado, 10 de janeiro de 2026

Escola Tiradentes: Um Marco da Instrução Primária em Curitiba, Hoje Só na Memória

 

Denominação inicial: Escola Tiradentes

Denominação atual:

Endereço: Rua Carlos Cavalcanti esquina com Rua Barão do Serro Azul

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: singular

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 8 de fevereiro de 1895

Situação atual: Edificação demolida

Uso atual: 

Escola Tiradentes - s/d

Acervo: Paulo Affonso Groëtzner

Escola Tiradentes: Um Marco da Instrução Primária em Curitiba, Hoje Só na Memória

Curitiba, segunda metade do século XIX – demolida no século XX

Na confluência simbólica entre a Rua Carlos Cavalcanti e a Rua Barão do Serro Azul — duas das artérias históricas do centro de Curitiba — ergueu-se, por décadas, um edifício que representava mais do que tijolos e telhados: era o sonho republicano de educação popular encarnado em arquitetura. Tratava-se da Escola Tiradentes, instituição dedicada à instrução primária, cuja inauguração em 8 de fevereiro de 1895 marcou um passo decisivo na construção de uma sociedade letrada e cidadã na capital paranaense.

Embora hoje sua estrutura física tenha desaparecido, engolida pelo avanço urbano e pelas transformações do século XX, a Escola Tiradentes permanece viva nos arquivos, nas fotografias antigas e na memória coletiva como um dos pilares fundadores do ensino público em Curitiba.


Origens e Contexto Histórico

Denominada desde sua fundação como Escola Tiradentes, a instituição carregava em seu nome uma clara alusão ao ideal de liberdade e justiça associado a Joaquim José da Silva Xavier, o mártir da Inconfidência Mineira. Em pleno período pós-abolição (1888) e pós-proclamação da República (1889), o Brasil vivia uma efervescência de reformas sociais, e a educação pública tornou-se um dos pilares do novo regime.

A escolha do nome “Tiradentes” não era casual: era um ato político, uma declaração de princípios. A nova escola não apenas ensinaria leitura, escrita e aritmética, mas também formaria cidadãos conscientes, críticos e comprometidos com os ideais republicanos.

Localizada estrategicamente no coração da cidade em expansão, a Escola Tiradentes atendia às famílias da classe média emergente e dos operários urbanos, num momento em que Curitiba começava a se consolidar como centro administrativo e comercial do sul do país.


Arquitetura: Elegância Eclética ao Serviço da Educação

Embora o autor do projeto arquitetônico permaneça não identificado nos registros disponíveis, a edificação destacava-se por sua linguagem eclética, típica da segunda metade do século XIX e início do XX — período em que o Brasil buscava referências europeias para construir sua identidade moderna.

O prédio seguia a tipologia de bloco único, com planta simples e funcional, voltada para o uso pedagógico. Sua estrutura era singular, sugerindo um tratamento arquitetônico cuidadoso, ainda que modesto. Janelas amplas garantiam iluminação natural às salas de aula — um critério higiênico e pedagógico valorizado na época. Fachadas provavelmente ornamentadas com molduras, cornijas e talvez algum elemento neoclássico ou neogótico refletiam o desejo de conferir dignidade ao espaço escolar, elevando-o à condição de templo do saber.

A inauguração em 8 de fevereiro de 1895 foi, sem dúvida, um evento celebrado pela comunidade local. Naquele ano, Curitiba contava com menos de 50 mil habitantes, e cada nova escola era vista como um farol de progresso.


Classificação e Função Social

Oficialmente classificada como Casa Escolar de Instrução Primária, a Escola Tiradentes integrava a rede de ensino fundamental mantida pelo poder público municipal ou estadual. Oferecia os primeiros anos de formação — então chamados de "ensino elementar" — com ênfase em disciplina, moral cívica, religião (ainda presente mesmo após a separação Igreja-Estado) e noções básicas de ciências e geografia.

Era um espaço onde meninos e meninas, muitas vezes filhos de imigrantes poloneses, italianos, alemães e portugueses, aprendiam não só a escrever seus nomes, mas também a se reconhecer como brasileiros.


Desaparecimento e Legado

Infelizmente, a edificação foi demolida em data não registrada com precisão — provavelmente durante as décadas de 1940 a 1970, período de intensa verticalização e requalificação urbana no centro de Curitiba. O terreno, estratégico e valorizado, cedeu lugar a novos usos, e o prédio histórico desapareceu sem grande resistência, como tantos outros testemunhos materiais do passado curitibano.

Seu uso atual é desconhecido ou não documentado, mas o vazio deixado por sua ausência é sentido por historiadores, educadores e preservacionistas. A demolição da Escola Tiradentes é um exemplo emblemático da perda silenciosa do patrimônio educacional brasileiro — edifícios que, embora modestos, foram berços de gerações inteiras.


Memória Preservada

Felizmente, fragmentos da Escola Tiradentes sobrevivem graças ao trabalho de pesquisadores e colecionadores. O acervo de Paulo Affonso Groëtzner, renomado historiador e fotógrafo curitibano, guarda imagens e documentos que ajudam a reconstruir visual e afetivamente esse importante capítulo da história da cidade.

Fotografias sem data — rotuladas apenas como “Escola Tiradentes – s/d” — revelam fachadas sóbrias, crianças em uniformes antigos diante da entrada, professores com olhar sério e determinado. São imagens que falam mais do que mil relatórios administrativos: mostram vida, esperança e disciplina.


Conclusão: Mais Que Uma Escola, Um Símbolo

A Escola Tiradentes jamais foi um monumento grandioso. Não tinha cúpulas douradas nem escadarias imponentes. Mas foi, por décadas, um refúgio do conhecimento, um espaço de igualdade momentânea onde, independentemente da origem, toda criança tinha direito à primeira letra, ao primeiro número, à primeira lição de cidadania.

Sua demolição apagou suas paredes, mas não seu significado. Hoje, ao caminhar pela esquina da Carlos Cavalcanti com o Barão do Serro Azul, talvez poucos saibam que ali, um dia, ressoaram vozes infantis recitando tabuadas, cantando hinos patrióticos e sonhando com um futuro melhor — guiadas pelo espírito de Tiradentes, não como herói distante, mas como ideal vivo na sala de aula.

Que sua memória inspire a valorização das escolas públicas — não apenas como edifícios, mas como santos laicos da democracia.

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