sábado, 10 de janeiro de 2026

Ginásio Paranaense e Escola Normal: Berço da Intelectualidade e da Formação Docente em Curitiba

 Denominação inicial: Ginásio Paranaense e Escola Normal

Denominação atual: Secretaria de Estado da Cultura

Endereço: Rua Ébano Pereira, 240

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Engenheiro civil Affonso Teixeira de Freitas

Data: 1903

Estrutura: singular

Tipologia: Quadra

Linguagem: 


Data de inauguracao: 24 de fevereiro de 1904

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: 

Ginásio Paranaense e Escola Normal - s/d

Acervo: Paulo Affonso Groëtzner

Ginásio Paranaense e Escola Normal: Berço da Intelectualidade e da Formação Docente em Curitiba

Rua Ébano Pereira, 240 – Curitiba, Paraná

No coração do centro histórico de Curitiba, ergue-se um edifício que, mais do que tijolos, cal e madeira, carrega em suas paredes o peso e a glória de uma era em que a educação era vista como o alicerce da nação. Trata-se do antigo Ginásio Paranaense e Escola Normal, inaugurado em 24 de fevereiro de 1904, projeto visionário do engenheiro civil Affonso Teixeira de Freitas, cuja planta foi assinada em 1903. Hoje, abrigando a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, o prédio permanece como um dos mais importantes testemunhos materiais da história educacional do estado — ainda que modificado, mas jamais esquecido.


Um Projeto para uma Nova Era

No alvorecer do século XX, o Brasil vivia sob os ideais da Primeira República, com forte ênfase no progresso, na ciência e na instrução como motores do desenvolvimento. No Paraná, governantes e intelectuais compreendiam que, sem professores qualificados e sem ensino secundário de qualidade, não haveria futuro para a jovem província recém-transformada em estado (1889).

Foi nesse contexto que nasceu a ideia de unir, sob um mesmo teto físico e institucional, duas funções essenciais:

  • O Ginásio Paranaense, destinado ao ensino secundário masculino (equivalente ao atual ensino fundamental II e médio);
  • A Escola Normal, voltada à formação de professores primários — especialmente mulheres, que começavam a ocupar espaço decisivo na educação nacional.

A escolha do nome “Ginásio Paranaense” remetia à tradição clássica europeia, onde “ginásios” eram centros de formação humanística, enquanto “Escola Normal” derivava do francês école normale, modelo que ditava as “normas” do bom ensino.


Arquitetura Eclética ao Serviço do Saber

Projetado pelo engenheiro Affonso Teixeira de Freitas — figura central na urbanização de Curitiba no início do século XX —, o edifício foi concebido com tipologia de quadra, ou seja, organizado em torno de um pátio interno, solução comum em instituições educacionais da época por favorecer ventilação, iluminação e convivência. Sua estrutura singular combinava solidez construtiva com elegância formal.

A linguagem eclética predominante refletia a busca por uma identidade arquitetônica moderna, mas enraizada na tradição europeia. Elementos neoclássicos, como frontões triangulares, colunas toscanas, simetria rigorosa e detalhes em estuque, coexistiam com soluções funcionais típicas do período republicano brasileiro. Janelas altas, corredores amplos e salas bem dimensionadas revelavam um cuidado incomum com o ambiente pedagógico — algo revolucionário para a época.

A pedra fundamental foi lançada em 1903, e menos de um ano depois, em 24 de fevereiro de 1904, o prédio era inaugurado com grande pompa, marcando um antes e um depois na história da educação paranaense.


Função Social e Impacto Cultural

Durante as décadas de 1900 a 1930, o Ginásio Paranaense e a Escola Normal foram verdadeiras fábricas de elites intelectuais e pedagógicas. Ali estudaram e lecionaram nomes que se tornariam referências na literatura, política, direito e educação do Paraná.

Na Escola Normal, jovens mulheres — muitas vindas do interior — recebiam formação rigorosa em didática, pedagogia, línguas, ciências naturais e moral cívica. Tornavam-se as “mestras”, figuras respeitadas e fundamentais na expansão do ensino primário por todo o estado.

Já o Ginásio Paranaense preparava rapazes para os cursos superiores, especialmente em Direito, Medicina e Engenharia. Seu currículo incluía latim, francês, matemática avançada, filosofia e retórica — formando cidadãos com senso crítico e visão de mundo.

O edifício, portanto, não era apenas uma escola: era um microcosmo da sociedade paranaense em ascensão, onde se forjava a mentalidade de uma geração comprometida com o progresso regional.


Do Ensino à Cultura: Uma Nova Vida para o Patrimônio

Com o tempo, as funções educacionais do prédio foram sendo transferidas para outras instituições — fruto da expansão urbana e da reorganização do sistema de ensino. O edifício sofreu alterações significativas, especialmente em seu interior, para adaptar-se às novas demandas administrativas.

Hoje, abriga a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, função que, de certa forma, mantém viva sua vocação original: formar, preservar e difundir o conhecimento. Embora já não ressoem nos corredores as vozes de alunos recitando versos de Camões ou discutindo geometria euclidiana, o espírito do lugar permanece — agora voltado à gestão do patrimônio, das artes e da memória cultural do estado.

Sua situação atual é de edificação existente, com reconhecimento implícito de seu valor histórico, embora careça de intervenções mais profundas de restauro que recuperem sua fisionomia original.


Memória Fotográfica e Documental

O acervo do historiador e fotógrafo Paulo Affonso Groëtzner guarda preciosos registros do edifício em diferentes fases — imagens rotuladas como “Ginásio Paranaense e Escola Normal – s/d” ou “sem data”, mas que capturam a solenidade de suas fachadas, a disciplina de seus pátios e a dignidade de seus ocupantes.

Essas fotografias são janelas para um tempo em que ir à escola era um ato de coragem, de esperança e de pertencimento a um projeto coletivo maior.


Conclusão: Entre o Passado e o Futuro

O prédio da Rua Ébano Pereira, nº 240, é muito mais do que um imóvel público. É um marco simbólico da passagem do Paraná de província agrária a estado moderno; é o berço de gerações de educadores, escritores, juízes e líderes; é um monumento silencioso à crença de que educação transforma.

Que sua nova função como sede da Cultura não apague sua origem, mas a honre — lembrando a todos que, antes de museus, teatros e bibliotecas, veio a escola. E foi ali, entre lousas e cadernos, que tudo começou.

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