sábado, 24 de janeiro de 2026

Lar-Escola Hermínia Lupion: Um Refúgio de Cuidado, Educação e Esperança em Curitiba

 Denominação inicial: Lar-Escola Hermínia Lupion

Denominação atual: Pastoral da Criança

Endereço: Rua Jacarezinho, 1.691 - Mercês

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Ernesto G. Máximo

Data: 1948

Estrutura: singular

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1° de julho de 1954

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Meninas internas e Filhas de Caridade no Lar Escola Hermínia Lupion em 1957

Acervo: Congregação das Filhas de Caridade

Lar-Escola Hermínia Lupion: Um Refúgio de Cuidado, Educação e Esperança em Curitiba

Rua Jacarezinho, 1.691 – Mercês, Curitiba, Paraná

Entre as ruas arborizadas do bairro das Mercês, em Curitiba, ergueu-se em meados do século XX uma instituição que, embora modesta em sua fachada, abrigava um propósito grandioso: acolher, educar e proteger meninas em situação de vulnerabilidade. Era o Lar-Escola Hermínia Lupion, um espaço singular que unia assistência social, formação profissional e espiritualidade católica, sob a orientação compassiva da Congregação das Filhas de Caridade.


Origens e Propósito Social

Fundado oficialmente em 1945, o Lar-Escola Hermínia Lupion surgiu em um contexto pós-guerra marcado por transformações sociais profundas no Brasil. Em Curitiba, cidade em rápido crescimento urbano e demográfico, muitas famílias enfrentavam dificuldades econômicas, e crianças — especialmente meninas — frequentemente ficavam sem acesso à educação, cuidados básicos ou até mesmo um lar estável.

O nome escolhido para a instituição homenageava Hermínia Lupion, figura respeitada na comunidade curitibana, possivelmente ligada a causas sociais ou à própria Congregação. Mais do que uma simples escola, o Lar-Escola funcionava como residência e centro de formação, oferecendo não apenas instrução acadêmica, mas também ensino de ofícios domésticos e artesanais, preparando as meninas para a vida adulta com dignidade e autonomia.


Arquitetura ao Serviço da Missão

Em 1948, o projeto arquitetônico do edifício foi confiado ao engenheiro e arquiteto Ernesto G. Máximo, profissional atuante na cena curitibana da época. Sua proposta seguiu uma tipologia "E" — característica de edifícios escolares urbanos com estrutura funcional voltada para o uso coletivo — e adotou uma linguagem arquitetônica distinta, classificada nos registros como “Outra”, sugerindo uma abordagem pragmática, talvez com traços ecléticos ou inspirados na tradição das instituições religiosas.

A construção foi concluída nos anos seguintes, e o edifício foi inaugurado em 1º de julho de 1954, já sob a gestão plena das Filhas de Caridade, congregação fundada por São Vicente de Paulo, reconhecida por seu compromisso com os pobres e marginalizados.

O prédio, de estrutura singular, combinava dormitórios, salas de aula, refeitório, capela e áreas de trabalho — tudo pensado para criar um ambiente familiar, disciplinado e acolhedor. As janelas amplas davam para pátios internos, onde as meninas podiam brincar, costurar ou simplesmente respirar ar fresco, longe das incertezas do mundo exterior.


Vida no Lar: Entre Oração, Estudo e Trabalho

Fotografias do acervo da Congregação das Filhas de Caridade, datadas de 1957, mostram cenas tocantes: meninas de uniforme simples, cabelos presos, olhares sérios mas serenos, posando ao lado de freiras de hábito preto e véu branco. Nessas imagens, percebe-se mais do que uma instituição — vê-se uma comunidade.

As Irmãs não apenas ensinavam; viviam com as meninas, compartilhando refeições, orações matinais e tarefas diárias. A rotina era regida por valores cristãos: humildade, obediência, caridade. Mas, ao mesmo tempo, havia espaço para o riso, o aprendizado da leitura, o bordado, a culinária, a higiene pessoal — elementos fundamentais para quem, muitas vezes, chegava ali sem sequer ter tido um banho regular.

Muitas dessas meninas eram órfãs, filhas de mães solteiras ou de famílias extremamente pobres. Para elas, o Lar-Escola era porto seguro, escola de vida e, em muitos casos, única chance de futuro.


Transformação e Legado

Embora tenha operado sob a denominação Lar-Escola Hermínia Lupion entre 1945 e 1951, a instituição passou por mudanças administrativas e de foco nas décadas seguintes. Hoje, o mesmo endereço abriga atividades ligadas à Pastoral da Criança, movimento da Igreja Católica dedicado à promoção da saúde, nutrição e cidadania infantil — uma continuidade simbólica, ainda que não institucional direta, do espírito de cuidado que sempre animou aquele lugar.

O edifício ainda existe, embora com alterações significativas em sua estrutura original. Suas paredes, porém, guardam memórias silenciosas: dos passos apressados das Irmãs nos corredores, das vozes infantis entoando canções religiosas, do cheiro de pão fresco vindo da cozinha comunitária.


Conclusão: Uma História de Dignidade Humana

O Lar-Escola Hermínia Lupion não foi apenas uma escola profissional urbana. Foi um ato de amor concreto. Num tempo em que políticas públicas de proteção à infância eram incipientes, mulheres consagradas à fé e ao serviço ergueram, tijolo por tijolo, um espaço onde meninas invisíveis ao mundo encontraram nome, rosto e esperança.

Sua história é um testemunho de que, mesmo nas sombras da pobreza e do abandono, é possível plantar sementes de dignidade — e colher, geração após geração, frutos de compaixão, resiliência e humanidade.

“Tudo o que fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fizestes.”
— Mateus 25:40

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